Volume I · Discutindo o especismo · capítulo 8
Se o especismo for natural, então o especismo está justificado?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Do fato de algo ser natural, comum entre os animais ou instintivo, não se segue que seja bom ou justo; não há correlação entre o que é natural e o que é justificável.
Na natureza, alguns animais roubam, abandonam os filhotes ou machucam os mais fracos. Nem por isso achamos que a gente deve fazer igual. "É natural" não quer dizer "é certo".
Doenças são naturais, e mesmo assim tomamos remédio. Terremotos são naturais, e mesmo assim socorremos as vítimas. Se natural fosse sinônimo de bom, a medicina seria errada.
- P1 Se "natural" significasse "justificável", tudo o que acontece na natureza seria aceitável para nós.
- P2 Muitas coisas naturais, como doenças, infanticídio e violência, são claramente inaceitáveis quando nos afetam.
- P3 Logo, ser natural não torna algo justificável.
- C Portanto, o especismo ser natural, se fosse, não o justificaria.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Estamos no topo da cadeia alimentar. É a lei da natureza.”
Resposta A natureza também tem a "lei" do mais forte contra os humanos mais fracos, e a rejeitamos. Ter poder para fazer algo não mostra que é certo fazê-lo.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume I, p. 26 da edição em PDF
8.1. O apelo ao natural
Frequentemente é defendido que o que torna justo dar apenas a humanos (ou dar uma consideração moral maior aos humanos) é que essa é uma atitude natural para nós. Por exemplo, para tentar justificar o consumo de animais, comumente é dito "a natureza é assim mesmo: os animais matam e comem membros de outras espécies"; "humanos estão no topo da cadeia alimentar"; "humanos naturalmente são caçadores" etc.
Por vezes os defensores dos animais respondem negando que consumir animais seja natural para os humanos. Entretanto, essa resposta não discute (em vez disso, assume) o principal problema do argumento: assumir que, se uma atitude for natural, ela é justificada.
Portanto, a seguir veremos alguns problemas com o apelo ao que é natural31.
8.2. Problemas com o apelo ao natural
O primeiro problema é que o argumento não explica por que o fato de um comportamento ser natural tornaria-o justo. Isso é algo simplesmente assumido, sem nenhuma explicação. Mas, é exatamente isso que o argumento teria que explicar.
O segundo problema é que a expressão "comportamento natural" é utilizada nos mais variados sentidos. Entretanto, seja lá em que sentido estiver sendo utilizada, o fato de um comportamento ser natural não parece torná-lo justo. A seguir veremos alguns exemplos do que comumente se quer dizer quando se afirma que comer carne é natural para os humanos. Entretanto, os mesmos problemas aparecem para qualquer outro apelo ao que é natural.
Por vezes o que se quer dizer com "comer carne é natural para os humanos" é que é possível para o organismo humano consumir carne. Entretanto, se o mero fato de um comportamento ser possível tornasse-o justo, qualquer comportamento possível seria justo. Por exemplo, também é possível para o organismo humano consumir carne humana, mas isso não parece
justificar tal ato. Da mesma maneira, o mero fato de ser possível para o organismo humano consumir a carne de outros animais não implica que seja justo fazê-lo.
Em outras vezes, o que se quer dizer quando se afirma que um comportamento é natural é que há uma inclinação instintiva em direção a esse comportamento, como se fosse algo "escrito na nossa genética". Entretanto, novamente, isso não parece ser suficiente para justificar um comportamento. Imagine, por exemplo, que os humanos tivessem uma inclinação instintiva para serem tendenciosos em seus julgamentos e para abusar dos mais vulneráveis. O fato de haver uma tendência instintiva não torna tais comportamentos justos. Pode ser que, se tivéssemos tal tendência, a maioria de nós consideraria tais comportamentos justos. Mas, o fato de que, sob tais condições, consideraríamos tais comportamentos justos não mostra que eles são, de fato, justos.
Outra alegação muito comum é a de que o consumo de animais está justificado porque, na natureza, os animais comem uns aos outros. A ideia por trás desse argumento é a de que, se os animais na natureza fazem determinada coisa, então devemos fazer o mesmo.
Entretanto, há dois problemas aqui. O primeiro, é que há animais que não comem outros animais. Já que o argumento pretende justificar o consumo de animais, é no mínimo tendencioso escolher imitar justamente os animais que comem outros animais, e não os que não comem, sem dar nenhuma razão adicional para essa escolha.
O segundo problema é que há animais na natureza que cometem roubos, estupros, assassinatos, comem membros de sua própria espécie, incluindo filhotes de rivais ou mesmo os próprios filhotes. Ninguém argumenta que é certo que os humanos façam o mesmo só porque os outros animais também o fazem. O apelo ao que os animais fazem surge quase que exclusivamente para tentar justificar o consumo de animais. Além disso, os animais na natureza também não possuem sistemas de hospitais, celulares, computadores, escolas, bibliotecas, roupas, carros etc. É no mínimo arbitrário querer imitar os animais na natureza apenas quando eles consomem outros animais, e não em todo o resto.
Em outras vezes o que é defendido é que matar os animais para comer é certo porque os humanos estão no topo da cadeia alimentar. É frequentemente apontado que, na natureza, os animais maiores matam e comem os menores, e que é isso o que torna certo que os humanos matem os outros animais para comer. Entretanto, não há nada que obrigue os humanos e consumirem outros animais. Então, isso não é diferente de dizer que temos justificativa para fazer algo só porque temos o poder de fazê-lo (e já vimos acima os problemas com essa visão, quando discutimos a definição de comportamento natural como sinônimo de comportamento possível). Por exemplo, imagine que existisse uma espécie mais poderosa do que a humana, e que seus membros criassem humanos para comer. Esses seres estariam no topo da cadeia alimentar, mas isso não parece tornar o seu comportamento justo.
Por fim, por vezes o que se quer dizer quando se diz que um comportamento é natural é simplesmente dizer que ele é correto. Mas, se for assim, quando se diz "esse comportamento é certo porque é natural", a alegação é vazia, pois o que se está a dizer é que "esse comportamento é certo porque é certo", sem dar nenhuma razão para pensarmos que é certo.
Isso tudo nos conduz à seguinte conclusão: não parece haver correlação alguma entre o que é natural e o que é justificável.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual destas conclusões o capítulo defende?
Se os humanos tivessem um instinto para julgar de modo tendencioso, isso tornaria esse julgamento...
Para pensar
Que comportamentos "naturais" você evita todos os dias por achar que seriam errados?
Notas do autor 1
Fontes citadas neste texto 1
A lista completa do volume está em referências do Volume I.
- MILL, J. S. On Nature. In: __________. Nature, The Utility of Religion and Theism. London: Rationalist Press Association, 1904, p. 07-33.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
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