Volume VI · Nível intermediário
A quem devemos consideração moral?
O debate sobre o critério da senciência
Sobre este volume
Neste livro são apresentados os fundamentos da escolha da senciência enquanto critério de consideração moral, bem como as críticas que tem sido feitas a esse critério e as respostas que têm sido oferecidas a essas críticas.
ISBN 978-65-01-44289-1 · 1a edição, Abril de 2025. Texto original de Luciano Carlos Cunha.
Em poucas palavras
O debate sobre o critério da senciência: cerca de vinte críticas (antropocentrismo, discriminação de reinos, danos sem sofrimento, insetos, subjetividade, graus de senciência, biocentrismo, valor da vida, interesses biológicos, plantas) e as respostas que os seus defensores dão.
Para crianças
Uma pedra não sente nada, então não dá para machucar uma pedra. Uma planta está viva, mas, até onde sabemos, não sente. Um peixe sente. O livro explica por que sentir é o que faz alguém poder ser machucado.
Você vai aprender
- As principais críticas ao critério da senciência e as respostas
- Por que o critério não é antropocêntrico nem exclui os invertebrados
- Por que estar vivo, sozinho, não basta para poder ser prejudicado
- O que se segue se as plantas fossem sencientes
Ajuda ter lido: Volume II.
Começando do zero?
Cada capítulo tem uma versão simplificada, em linguagem para quem não conhece o tema. Leia a versão simples e depois o texto completo do autor.
- O que é relevante para saber a quem devemos consideração?
- Seria o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?
- O critério da senciência discrimina contra quem não pertence ao reino animal?
- Segundo o critério da senciência, o único problema é o sofrimento?
- Se a senciência é o que importa, por que há males que não afetam as experiências?
- O critério da senciência exclui os insetos?
- Aceitar o critério da senciência implica assumir que valores são subjetivos?
- Animais com cérebros mais simples são menos sencientes?
- Se há necessidade da ética ambiental, então o critério da senciência está errado?
- Não é absurdo um mundo com menos sofrimento, mas manejado pelos humanos?
- Se os seres sencientes devem ser respeitados, então a natureza possui valor em si?
- O critério da senciência implica em aceitar as metas ambientalistas?
- Espécies possuem interesses?
- Se alguma entidade não senciente tiver valor em si, quais as implicações?
- O biocentrismo é melhor, já que inclui um número maior de seres?
- Senciência e vida: o que tem valor enquanto fim e o que tem valor enquanto meio?
- Seres vivos não sencientes são passíveis de ser prejudicados?
- O comportamento de certas plantas e fungos mostra que valorizam certas coisas?
- A vida sem senciência tem valor?
- Todo ser vivo possui "interesses biológicos"?
- Se plantas forem consideráveis, tanto faz comer animais ou plantas?
Capítulos
- 1O que é relevante para saber a quem devemos consideração?8 min
Um critério só se justifica se for baseado em uma distinção relevante para a questão; para saber a quem dar consideração, o relevante é poder ser prejudicado ou beneficiado, o que leva ao critério da senciência.
- 2Seria o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?1 min
O critério da senciência não é antropocêntrico: não considera os animais por se parecerem com humanos, mas porque podem ser prejudicados e beneficiados, o que a razão ou a linguagem não determinam.
- 3O critério da senciência discrimina contra quem não pertence ao reino animal?1 min
O critério da senciência não é "reinismo": não inclui todos os animais (esponjas provavelmente não sentem) nem exclui outros reinos por princípio; inclui qualquer ser senciente, inclusive não orgânico, se vier a existir.
- 4Segundo o critério da senciência, o único problema é o sofrimento?2 min
O critério da senciência não reconhece só o sofrimento como dano: um ser senciente também é prejudicado pela ausência do que lhe seria positivo, como na morte.
- 5Se a senciência é o que importa, por que há males que não afetam as experiências?3 min
Danos que não alteram as experiências, como violar alguém inconsciente, podem ser objeção ao hedonismo, mas não ao critério da senciência, que também é compatível com danos às preferências reais ou informadas.
- 6O critério da senciência exclui os insetos?4 min
O critério da senciência não exclui os insetos: há evidências de senciência em várias espécies, e as demais mal foram estudadas; se há alguém nesses corpos, eles merecem a mesma consideração que qualquer senciente.
- 7Aceitar o critério da senciência implica assumir que valores são subjetivos?2 min
Aceitar o critério da senciência não implica que valores são subjetivos: há uma confusão entre "subjetivo" no sentido de referir-se à consciência e no sentido de não haver verdade objetiva.
- 8Animais com cérebros mais simples são menos sencientes?8 min
Não há boas razões para dizer que animais com cérebros mais simples são menos sencientes ou merecem menos: são tão "alguém" quanto qualquer senciente, as experiências podem até ser mais intensas em certos estágios, e dar menos peso por cognição é inteligentismo.
- 9Se há necessidade da ética ambiental, então o critério da senciência está errado?3 min
Que exista uma ética ambiental não mostra que entidades não sencientes tenham valor em si: também precisamos de ética sobre distribuição de renda, e a renda não tem valor em si. Uma "ética do manejo ambiental" pode bastar.
- 10Não é absurdo um mundo com menos sofrimento, mas manejado pelos humanos?3 min
A ideia de que um mundo com menos sofrimento, mas manejado por humanos, seria pior revela um preconceito: um ecossistema indistinguível do natural e melhor para os sencientes não seria pior só por ter influência humana.
- 11Se os seres sencientes devem ser respeitados, então a natureza possui valor em si?2 min
Respeitar os seres sencientes não implica que a natureza tem valor em si: o que torna os sencientes consideráveis (poder ser afetado) não está presente na natureza como um todo; confundir "natureza" com "animais" gera esse equívoco.
- 12O critério da senciência implica em aceitar as metas ambientalistas?2 min
O fato de alguns sencientes terem interesse em que a natureza siga o seu curso não implica aceitar as metas ambientalistas: considerar um interesse não é ter de realizá-lo, e realizá-lo aqui causaria sofrimento e morte a um número gigantesco de outros.
- 13Espécies possuem interesses?4 min
Espécies não têm interesses: são entidades abstratas, categorias criadas para agrupar seres vivos semelhantes; quem pode ser beneficiado ou prejudicado são os indivíduos sencientes que as compõem.
- 14Se alguma entidade não senciente tiver valor em si, quais as implicações?3 min
Mesmo que entidades não sencientes tivessem valor em si, haveria fortes razões para priorizar os seres sencientes em conflitos: só eles podem sofrer e só para eles a morte impede experiências positivas.
- 15O biocentrismo é melhor, já que inclui um número maior de seres?3 min
Um critério mais abrangente não é necessariamente melhor: teria de ser mostrado que os seres incluídos podem de fato ser prejudicados; e o biocentrismo exclui possíveis sencientes não vivos, discriminando-os.
- 16Senciência e vida: o que tem valor enquanto fim e o que tem valor enquanto meio?4 min
Que estar vivo seja necessário para ser senciente não dá à vida valor em si; é o contrário: a vida biológica tem valor como meio para experiências significativas, e não a senciência como meio para a vida.
- 17Seres vivos não sencientes são passíveis de ser prejudicados?3 min
Seres vivos não sencientes não parecem passíveis de ser prejudicados: o uso cotidiano de expressões como "a planta está feliz" não mostra que há alguém ali para quem as coisas vão bem ou mal.
- 18O comportamento de certas plantas e fungos mostra que valorizam certas coisas?5 min
Comportamentos de plantas e fungos (crescer em direção à luz, fechar folhas ao toque) podem ser explicados como reações físico-químicas; sem estrutura que dê lugar a experiências, comportamento sozinho não indica senciência.
- 19A vida sem senciência tem valor?4 min
A vida sem senciência não parece ter valor: exemplos como o coma total irreversível, a seguradora estelionatária e a senciência sem vida mostram que o que valorizamos são as experiências, não a vida biológica.
- 20Todo ser vivo possui "interesses biológicos"?3 min
Seres vivos não sencientes não têm "interesses biológicos" no sentido moral: nos sencientes, satisfazer necessidades biológicas é só um meio para o bem-estar; ter necessidades não basta para ter interesses.
- 21Se plantas forem consideráveis, tanto faz comer animais ou plantas?2 min
Se plantas fossem moralmente consideráveis, não se seguiria que tanto faz comer animais ou plantas: os animais sofrem e consomem muitas plantas; a implicação seria o frutarianismo, e até Paul Taylor reconhece a importância do sofrimento.