Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 20
Todo ser vivo possui "interesses biológicos"?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Seres vivos não sencientes não têm "interesses biológicos" no sentido moral: nos sencientes, satisfazer necessidades biológicas é só um meio para o bem-estar; ter necessidades não basta para ter interesses.
O bicho precisa comer para viver bem, e por isso tem interesse em comer. A planta "precisa" de água para não secar, mas não há ninguém nela que fique bem ou mal com isso. Precisar não é o mesmo que querer.
Um carro "precisa" de óleo para funcionar, mas o carro não tem interesse em nada. Quem tem interesse é o motorista.
- P1 O argumento diz que todos os seres vivos têm interesses biológicos, como os sencientes têm.
- P2 Nos sencientes, o interesse em satisfazer necessidades biológicas é instrumental ao seu bem-estar.
- P3 São as experiências, e não as necessidades, que tornam algo do interesse de alguém.
- C Logo, ter necessidades biológicas não basta para ter interesses no sentido moral.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Se o peixe tem interesse em comer, a planta tem interesse em água.”
Resposta O peixe tem interesse em comer porque comer o faz sentir-se bem e viver bem. A planta não sente nada; a "necessidade" dela é uma condição de funcionamento, não um interesse.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 57 da edição em PDF
Um caso específico de especismo antropocêntrico consiste em não considerar certos interesses de animais não humanos porque eles não possuem todos os interesses que os humanos têm. Por exemplo, não levar em conta o interesse de um peixe em não sofrer porque ele não possui o interesse em ler um livro. Humanos possuem certos interesses específicos (em decorrência de sua capacidade racional), mas, compartilham com os animais não humanos certos "interesses da ", isto é, interesses que, para existirem, é suficiente que o ser em questão seja senciente.
Por vezes é sugerido que uma discriminação análoga favoreceria seres sencientes sobre os seres vivos não sencientes70. O argumento mantém que, embora os seres sencientes tenham certos interesses específicos (por exemplo, não sofrer e ter experiências positivas), há interesses dos seres sencientes que dizem respeito à sua biologia: comer, dormir, descansar. Isto é, dizem respeito às necessidades básicas do corpo biológico.
Contudo, prossegue o argumento, os seres vivos não sencientes também têm necessidades básicas. Uma planta precisa metabolizar os nutrientes do solo e ser regada para continuar viva. O argumento conclui que, assim como existem "interesses da senciência" que seriam compartilhados por animais humanos e não humanos, existem "interesses biológicos" que seriam compartilhados por todos os seres vivos, sencientes ou não.
Entretanto, um problema com esse argumento é que o interesse que os seres sencientes possuem na satisfação das necessidades biológicas é meramente instrumental ao seu bem-estar. A satisfação das necessidades biológicas não é importante em si. Não são essas necessidades biológicas que fazem com que os seres sencientes tenham um bem-estar e, portanto, que tenham um interesse em satisfazer tais necessidades. Seres sencientes possuem um bem-estar porque são capazes de ter estados mentais positivos e negativos. Esse ponto fica claro quando perguntamos por que é importante termos nossas necessidades biológicas satisfeitas. Comer, descansar e dormir parecem ter valor justamente porque evitam sofrimento e porque proporcionam experiências positivas (seja diretamente, seja indiretamente por evitar a morte). Como os seres vivos não sencientes não são capazes de experiência alguma, a
satisfação de suas necessidades biológicas não teria para eles valor algum, dado que não há o ponto de vista deles: não há alguém dentro daqueles corpos.
Poderia ser objetado o seguinte: "o interesse em comer, dormir e descansar é instrumental também ao interesse em se manter vivo, que é um interesse puramente biológico". Contudo, é possível perguntar "por que (e quando) é bom estar vivo?". Existem algumas condições onde estar vivo é um prejuízo para quem vive (por exemplo, uma vida com apenas sofrimento extremo). Também existem condições onde estar vivo é indiferente (por exemplo, um coma vegetativo total irreversível, onde há um corpo vivo, mas não há mais um indivíduo). Se é assim, então estar vivo não é bom em si: é bom dependendo do que seria possível experimentar na vida71. Se é assim, então estar vivo possui valor meramente instrumental à realização de interesses que dependem da senciência para existir.
Assim, o fato de os seres sencientes terem determinados interesses cuja satisfação requer que tenham suas necessidades biológicas satisfeitas não indica, nem que os seres vivos não sencientes tenham os mesmos interesses, e nem que possuir necessidades biológicas seja suficiente para se ter interesses.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O interesse dos sencientes em satisfazer necessidades biológicas é...
Que forma de especismo o capítulo menciona no início?
Para pensar
Qual a diferença entre o que algo "precisa" e o que alguém "quer"?
Notas do autor 2
Fontes citadas neste texto 6
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- FELIPE, S. T. Por uma questão de justiça ambiental: perspectivas críticas à teoria de John Rawls. Ethic@, vol.5, n. 3, p. 5-31, 2006.
- HORTA, O. Igualitarismo, igualación a la baja, antropocentrismo y valor de la vida. Revista de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid, v. 35, n. 1, p. 133-152, 2010c.
- HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
- NACONECY, C. M. Ética animal... ou uma “ética para vertebrados”? Um animalista também pratica especismo? Revista Brasileira de Direito Animal, v. 2, n. 3, p. 119-153, 2007.
- VARNER, G. In Nature’s Interests?: Interests, Animal Rights, and Environmental Ethics. New York:Oxford University Press, 1998.
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