Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 2
Seria o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O critério da senciência não é antropocêntrico: não considera os animais por se parecerem com humanos, mas porque podem ser prejudicados e beneficiados, o que a razão ou a linguagem não determinam.
Algumas pessoas dizem que gostar de quem sente é só gostar de quem parece com a gente. Mas não é isso: a razão para cuidar de quem sente é que ele pode ser machucado, não que ele parece humano.
Um bombeiro salva pessoas e gatos de um incêndio não porque os gatos parecem gente, mas porque os dois podem se queimar.
- P1 O antropocentrismo atribui valor aos animais conforme se pareçam com os humanos.
- P2 O critério da senciência não pergunta se um ser se parece com humanos, mas se pode ser prejudicado ou beneficiado.
- P3 A razão, ao contrário da senciência, não determina quem pode ser prejudicado.
- C Logo, o critério da senciência não é antropocêntrico.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Vocês só valorizam a senciência porque os humanos são sencientes.”
Resposta A ordem é a inversa: os humanos importam porque são sencientes, e pelo mesmo motivo todos os sencientes importam.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 14 da edição em PDF
Os proponentes do escolhem uma característica típica humana (por exemplo, o modo de raciocinar) e atribuem estatura moral aos animais não humanos de acordo com o grau de similaridade com os humanos nessa característica. Por vezes os defensores do critério da são acusados de fazerem o mesmo9: percebem que a senciência é uma característica dos humanos, e escolhem considerar apenas os seres que são sencientes (excluindo plantas, fungos e bactérias por exemplo). A objeção conclui que, em ambos os casos, só recebe consideração quem tiver similaridades com humanos (só mudando, em cada caso, a característica escolhida como padrão de similaridade).
A principal resposta a essa crítica aponta para duas coisas.
Em primeiro lugar, há diferença entre utilizar o modo de raciocinar e utilizar a senciência como critério de : como vimos no capítulo 1, o primeiro não determina quem é passível de ser prejudicado e/ou beneficiado, e o segundo sim.
Em segundo lugar, não é que os proponentes do critério da senciência primeiro postulam que humanos importam, e depois procuram, dentre os animais que pretendem também considerar, alguma similaridade com humanos. Não estão a defender: “devemos considerar os seres sencientes porque se parecem com humanos”, mas exatamente o contrário: “devemos considerar humanos porque são sencientes”. O critério da senciência continuaria indicando quais seres são passíveis de ser prejudicados e beneficiados (e, portanto, quais devem receber consideração moral) mesmo que os humanos não fossem sencientes. Assim, é falso que o critério da senciência seja, no fundo, antropocêntrico.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual a diferença entre usar a razão e usar a senciência como critério?
Os defensores do critério da senciência dizem que devemos considerar os sencientes porque...
Para pensar
Se descobríssemos um ser senciente que não se parece em nada conosco, ele deveria contar?
Fontes citadas neste texto 1
A lista completa do volume está em referências do Volume VI.
- REGAN, T. The Nature and Possibility of an Environmental Ethic. Environmental Ethics, vol. 3, n. 1, p. 19-34, 1981.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
O critério da senciência é antropocêntrico, pois busca nos animais uma similaridade com humanos (a senciência). (VI, cap. 2)
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