Aprender
Argumentos em forma lógica
O argumento central de cada capítulo, organizado em premissas e conclusão. Camada de estudo: uma reconstrução do raciocínio do autor, não o texto original.
Como ler: se todas as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Quem discorda da conclusão precisa apontar qual premissa é falsa, e por quê. Esse é o exercício que a coleção inteira faz com as objeções.
Volume I · Discutindo o especismo
Um panorama geral do debate sobre a consideração moral dos animais
- P1 Uma discriminação é um tratamento desfavorável que é injusto.
- P2 Dar menos peso a prejuízos de mesmo tamanho só porque a vítima pertence a outra espécie é um tratamento desfavorável.
- P3 A espécie, sozinha, não explica por que o prejuízo de alguém deveria contar menos.
- C Logo, esse tratamento é uma discriminação: o especismo.
O que importa é a espécie?
- P1 Para justificar tratar alguém pior, é preciso apontar uma diferença relevante para o tratamento em questão.
- P2 Dizer "porque é humano" ou "porque é da nossa espécie" apenas repete o critério que está sendo questionado.
- P3 Repetir o critério em vez de justificá-lo é cometer petição de princípio.
- C Logo, esses apelos não justificam o antropocentrismo.
Características metafísicas poderiam justificar o especismo?
- P1 O que está em jogo na consideração moral é a possibilidade de prejudicar ou beneficiar os afetados.
- P2 Ter alma ou outra característica metafísica não muda se alguém pode ser prejudicado ou beneficiado.
- P3 Além disso, essas características não podem ser comprovadas.
- C Logo, apelar a elas não justifica desconsiderar os animais.
A posse de capacidades ou relações poderia justificar o especismo?
- P1 Se a falta de certas capacidades em bebês e em humanos com certas deficiências não justifica tratá-los pior, a falta delas nos animais também não justifica.
- P2 A falta dessas capacidades nesses humanos não justifica tratá-los pior.
- P3 Além disso, o que importa para a consideração é poder ser prejudicado ou beneficiado, e não ter essas capacidades.
- C Logo, a posse de capacidades ou relações não justifica o especismo.
O suposto potencial que os humanos tem poderia justificar o especismo?
- P1 Há humanos que não têm sequer o potencial para desenvolver aquelas capacidades.
- P2 Não achamos justo fazer a esses humanos o que se faz aos animais.
- P3 As razões para não causar sofrimento a uma criança existem porque o sofrimento é ruim, não por causa do potencial dela.
- C Logo, o potencial não justifica desconsiderar os animais.
O que importa é pertencer à mesma espécie dos que têm certas capacidades?
- P1 O apelo ao grupo diz que os humanos sem certas capacidades contam porque a espécie deles, tipicamente, as tem.
- P2 Isso exige dos animais as capacidades, mas não exige dos humanos.
- P3 Um critério aplicado de modo diferente a cada grupo é tendencioso.
- P4 Além disso, nem a espécie nem as capacidades são relevantes para poder ser prejudicado.
- C Logo, o apelo ao grupo não justifica o especismo.
Se espécies não forem uma construção social, então o especismo está justificado?
- P1 O racismo e o sexismo são injustos porque desfavorecem tendenciosamente indivíduos de certos grupos.
- P2 Eles continuariam injustos mesmo que raça e gênero fossem categorias puramente biológicas.
- P3 O mesmo vale para a espécie: ser uma categoria biológica não a torna relevante para o peso do sofrimento.
- C Logo, a distinção entre biológico e socialmente construído não justifica o especismo.
Se o especismo for natural, então o especismo está justificado?
- P1 Se "natural" significasse "justificável", tudo o que acontece na natureza seria aceitável para nós.
- P2 Muitas coisas naturais, como doenças, infanticídio e violência, são claramente inaceitáveis quando nos afetam.
- P3 Logo, ser natural não torna algo justificável.
- C Portanto, o especismo ser natural, se fosse, não o justificaria.
As práticas especistas serem tradições mostra que devemos respeitá-las?
- P1 Muitas tradições do passado, como a escravidão, eram profundamente injustas.
- P2 Logo, ser tradição não basta para mostrar que uma prática é justa.
- P3 As tradições que exploram animais causam sofrimento e morte às vítimas.
- C Se o que importa é como os indivíduos são afetados, temos razões fortes para abolir essas tradições.
Se a ética é uma atividade humana, é justo desconsiderar os animais?
- P1 Os beneficiários de uma prática não precisam ser capazes de exercê-la.
- P2 A capacidade de refletir sobre o certo e o errado é relevante para saber quem é responsabilizável, não para saber quem pode ser prejudicado.
- P3 Muitos humanos também não são agentes morais e continuam sendo considerados.
- C Logo, a ética ser uma atividade humana não justifica desconsiderar os animais.
Se a ética for uma invenção, é justo desfavorecer os animais?
- P1 Uma atividade ter sido inventada não implica que todas as posições dentro dela sejam arbitrárias.
- P2 Em ética, há posições tendenciosas e posições que não são, como o princípio da igual consideração.
- P3 O especismo é uma posição tendenciosa.
- C Logo, a ética ser uma invenção não justifica desfavorecer os animais.
Se a ética foi inventada para autoproteção, é justo desfavorecer os animais?
- P1 O argumento conclui que só devemos considerar quem pode nos ameaçar, porque a ética teria surgido do autointeresse.
- P2 Descrever a origem de uma atividade não é o mesmo que justificar uma posição dentro dela.
- P3 Além disso, se valesse, o argumento autorizaria desconsiderar humanos indefesos.
- C Logo, o apelo ao autointeresse não justifica o especismo.
Tentativas de justificar o especismo que apelam a autoridades
- P1 Uma autoridade aprova uma prática porque ela é certa, ou a prática se torna certa por ser aprovada.
- P2 Se ela aprova porque é certa, o que importa são as razões, que podem ser avaliadas por qualquer um.
- P3 Se a prática se torna certa só por ser aprovada, a aprovação é arbitrária.
- P4 Em nenhum caso a autoridade, sozinha, justifica a prática.
- C Logo, o apelo à autoridade não justifica o especismo.
O apelo a graus diferenciados de status moral
- P1 A tese da magnitude diz que a força das razões depende do tamanho do prejuízo ou benefício, não da espécie.
- P2 A tese do status diz que alguns têm prioridade mesmo quando seriam menos prejudicados.
- P3 Uma regra justa é a que escolheríamos sem saber em que grupo estaríamos.
- P4 Sem saber, não escolheríamos dar um trunfo a um grupo contra danos maiores sofridos por outro.
- C Logo, o status moral diferenciado é injusto.
Tentativas de justificar o especismo que apelam à metaética
- P1 Afirmar "não existe certo e errado" é uma tese metaética, não uma razão a favor de uma posição normativa.
- P2 Se fosse verdade, valeria igualmente contra o especismo e a favor dele.
- P3 Quem a usa costuma aplicá-la só quando as vítimas são animais, o que revela um padrão duplo.
- C Logo, apelos à metaética não justificam o especismo.
Volume II · Considerando os seres sencientes
O que é relevante para saber a quem devemos consideração?
- P1 A consideração moral existe porque as nossas decisões podem prejudicar ou beneficiar os afetados.
- P2 Logo, devem ser considerados todos os que podem ser prejudicados ou beneficiados.
- P3 As defesas do antropocentrismo apenas assumem que os seus critérios (espécie, razão, linguagem) são relevantes, sem explicar por quê.
- C Portanto, o critério relevante é poder ser prejudicado ou beneficiado, e não esses critérios antropocêntricos.
O que é o argumento da sobreposição das espécies?
- P1 As capacidades e relações usadas para excluir os animais não estão presentes em todos os humanos.
- P2 A falta delas em bebês e em certos humanos não justifica tratá-los pior.
- P3 Se a falta dessas características não justifica tratar humanos pior, ela também não justifica tratar animais pior.
- C Logo, essas capacidades e relações não justificam desconsiderar os animais.
O que é senciência e por que ela é importante?
- P1 Para ser prejudicado ou beneficiado, é preciso que as coisas possam ser experimentadas como boas ou ruins.
- P2 A senciência é a capacidade de ter essas experiências.
- P3 Logo, só seres sencientes podem ser prejudicados ou beneficiados.
- C Portanto, a senciência é o que importa para a consideração moral.
Quais seres são sencientes?
- P1 Não temos acesso direto às experiências de outros seres, nem de outros humanos.
- P2 Inferimos a senciência a partir de indicadores: sistema nervoso centralizado, fisiologia, comportamento em geral e vantagem evolutiva.
- P3 Vertebrados e muitos invertebrados, como polvos, crustáceos e insetos, apresentam esses indicadores.
- C Logo, temos boas razões para considerá-los sencientes.
Por que igual consideração?
- P1 Prejuízos e benefícios de magnitude similar devem receber o mesmo peso.
- P2 Dar peso menor a um prejuízo só por causa da espécie viola esse princípio.
- P3 O especismo pode acontecer por exploração, por omissão de ajuda, por consideração menor ou contra certas espécies de animais.
- C Logo, a igual consideração exige rejeitar todas essas formas de especismo.
Questões relativas a merecimento poderiam justificar o especismo?
- P1 Alguém só merece um dano se for um agente responsabilizável e tiver violado alguma regra.
- P2 Os animais não humanos não são agentes responsabilizáveis.
- P3 Logo, os animais não merecem os danos de que padecem.
- C Portanto, o merecimento não justifica deixar de priorizá-los quando sofrem o dano maior.
A rejeição do especismo é compatível apenas com uma visão da ética?
- P1 Há teorias éticas muito diferentes: utilitarismo, maximin, igualitarismo e outras.
- P2 Elas discordam sobre muitas situações, mas todas exigem não ser tendencioso ao considerar o bem dos afetados.
- P3 O especismo é uma forma de ser tendencioso.
- C Logo, rejeitar o especismo é compatível com várias visões éticas, e não só com o utilitarismo.
Se rejeitarmos o especismo, como decidiremos questões de prioridade?
- P1 Na maioria das situações não conseguimos ajudar todos.
- P2 Há critérios de prioridade que não dependem da espécie: gravidade da situação, número de vítimas, tamanho do benefício e impacto futuro.
- P3 Esses critérios são compatíveis com a igual consideração.
- C Logo, é falso que, sem hierarquias de espécie, ficaríamos sem guia para decidir.
Mas, os humanos não são capazes de sofrer em maior grau?
- P1 A tese diz que humanos sempre sofrem mais por terem cognição mais sofisticada.
- P2 Em muitas situações, quem entende menos sofre mais, por não compreender o que acontece.
- P3 Além disso, menor capacidade cognitiva costuma aumentar a vulnerabilidade.
- P4 E, mesmo que alguém sofresse menos, isso não justificaria desconsiderá-lo.
- C Logo, o maior grau de cognição não justifica o tratamento dado aos animais.
O que decidiríamos sob condições de imparcialidade?
- P1 Uma decisão justa é imparcial: é a que escolheríamos sem saber qual posição ocuparíamos entre os afetados.
- P2 Esse teste pode incluir não saber se nasceríamos humanos ou animais.
- P3 Sem saber, não escolheríamos a exploração animal nem dar menos peso aos animais.
- C Logo, a exploração animal e o especismo são injustos.
Testando se uma atitude é ou não especista
- P1 Uma atitude é especista se trata pior seres sencientes por causa da espécie.
- P2 Se a decisão mudaria apenas ao mudarmos a espécie dos afetados, ou a nossa posição, a espécie está pesando na decisão.
- P3 As práticas que afetam os animais não passam nesse teste.
- C Logo, além de injustificadas, essas práticas pedem que façamos algo para mudá-las.
Que importância devemos dar à situação dos animais?
- P1 A prioridade de uma causa depende da gravidade, do número de vítimas e do grau de negligência.
- P2 As vítimas não humanas são em número gigantescamente maior, em situação muito grave e muito mais negligenciadas.
- P3 A visão de que humanos devem vir sempre primeiro só parece razoável por causa do especismo.
- C Logo, sob imparcialidade, a causa animal deveria receber prioridade muito alta.
Incerteza sobre senciência e benefício da dúvida
- P1 Não temos prova absoluta da senciência de nenhum ser além de nós mesmos.
- P2 Se um ser é senciente e o tratamos como se não fosse, o dano é grande; se não é e o tratamos como se fosse, o custo é pequeno.
- P3 Quando um erro é muito mais grave do que o outro, devemos errar para o lado da precaução.
- C Logo, seres de senciência incerta devem receber o benefício da dúvida.
Volume III · Os animais e o dano da morte
De que consiste o dano da morte?
- P1 Alguém pode ser prejudicado pela presença do que é negativo ou pela ausência do que é positivo.
- P2 A morte impede o indivíduo de desfrutar o que de positivo ele viveria.
- P3 Logo, a morte é um dano, mesmo quando indolor.
- C E, mesmo que a visão epicurista fosse correta, ela negaria o dano da morte a todos, humanos inclusive, e não só aos animais.
Discutindo a alegação de que os animais não são prejudicados com a morte
- P1 A morte prejudica por impedir o que de positivo o indivíduo viveria.
- P2 Isso não depende de o indivíduo entender o que é a morte nem de ter desejos orientados para o futuro.
- P3 Os animais sencientes podem ter pela frente uma vida minimamente significativa.
- C Logo, eles são prejudicados com a morte.
Objeções à explicação do dano da morte enquanto impedimento do que é positivo
- P1 As objeções apontam a incerteza sobre o futuro, a assimetria entre o tempo antes do nascimento e depois da morte, e os seres que poderiam existir.
- P2 Em geral, podemos estimar se uma vida tende a ser positiva.
- P3 O momento da morte pode ser mudado; o do nascimento, tipicamente não, o que explica a assimetria.
- C Logo, essas objeções não derrubam a explicação do dano da morte como privação.
Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte?
- P1 O argumento diz que a morte prejudica pouco quem não é capaz de prazeres intelectuais.
- P2 Para isso, teria de mostrar que prazeres não intelectuais são pouco valiosos.
- P3 Mostrar que prazeres intelectuais seriam mais valiosos não mostra isso.
- P4 Além disso, experiências não intelectuais, como estar com quem se ama, podem ser tão valiosas quanto as intelectuais.
- C Logo, os animais não são pouco prejudicados com a morte por não terem prazeres intelectuais.
Como avaliar o quão prejudicado alguém é com a morte?
- P1 A morte prejudica pelo que impede de positivo.
- P2 Quanto maior o valor de que alguém é privado, maior o dano.
- P3 Esse valor depende do tempo de vida perdido e da sua qualidade, medidos por AVAQs.
- C Logo, a magnitude do dano da morte pode ser estimada pelos AVAQs perdidos, inclusive para animais.
Objeções à avaliação da magnitude do dano da morte com base em AVAQs
- P1 A objeção diz que os AVAQs têm implicações contraintuitivas, logo devem ser rejeitados.
- P2 Intuições podem refletir vieses, como o especismo, e precisam ser testadas.
- P3 A objeção não oferece um critério alternativo fundamentado de modo independente.
- C Logo, até que isso aconteça, temos razões para nos basear nos AVAQs.
Os animais teriam uma conexão psicológica menor?
- P1 A objeção diz que os animais têm conexão psicológica fraca com o futuro, e por isso são pouco prejudicados com a morte.
- P2 Mentes mais simples tendem a variar menos, o que pode significar maior proporção de conteúdos em comum.
- P3 Além disso, alguém que viveu pouco e teria um bom futuro é muito prejudicado ao morrer, seja qual for a sua conexão psicológica.
- C Logo, a conexão psicológica não mostra que os animais são pouco prejudicados com a morte.
Discutindo a alegação de que os animais são substituíveis
- P1 A tese diz que matar um animal é compensado pelo nascimento de outro com vida igualmente boa.
- P2 Se valesse, autorizaria matar crianças desde que outras nascessem para substituí-las.
- P3 Matar quem já existe prejudica alguém; deixar de criar um novo ser não prejudica ninguém que já exista.
- C Logo, os animais não são substituíveis.
Seriam os animais não humanos pouco prejudicados com a morte?
- P1 O apelo à conexão psicológica diz que razões prudenciais (para o próprio futuro) dependem do grau de conexão.
- P2 Exemplos mostram que temos razões fortes para evitar eventos ruins e buscar bons, mesmo com pouca conexão psicológica.
- P3 Logo, a força dessas razões não depende da conexão psicológica.
- C Portanto, a conexão psicológica não mostra que os animais são pouco prejudicados com a morte.
A alegação de que ter pouco tempo restante torna a morte um dano pequeno
- P1 A alegação diz que quem tem pouco tempo pela frente é pouco prejudicado com a morte.
- P2 Isso já é rejeitado no caso humano: idosos e doentes graves continuam sendo muito prejudicados se mortos.
- P3 Além disso, o tempo subjetivo pode passar de forma diferente para animais menores.
- P4 Rejeitar isso para humanos e aceitar para animais exigiria um status especial, que não se justifica.
- C Logo, ter pouco tempo pela frente não justifica matar.
E, se humanos fossem mais prejudicados com a morte?
- P1 O capítulo supõe, só para argumentar, que humanos seriam mais prejudicados com a morte.
- P2 Daí não se segue que matar animais seja permitido: ser menos prejudicado ainda é ser prejudicado.
- P3 Também não se segue que se possa matar uns para salvar outros, nem que o número de vítimas não importe.
- C Logo, mesmo com essa suposição, as conclusões comuns sobre os animais não se seguem.
Status moral diferenciado, dano da morte e erro em matar
- P1 As razões diretas contra matar podem depender do dano da morte (tese da magnitude) ou de um status especial (tese do status).
- P2 A abordagem de duas camadas dá a certos indivíduos um status protegido e trata os demais só pela magnitude.
- P3 Sob imparcialidade, não escolheríamos dar esse status a um grupo.
- C Logo, a força das razões contra matar deve depender só da magnitude do dano da morte.
Reflexões adicionais: morte, aniquilação, decisão racional e probabilidades
- P1 "Morte" pode significar o fim da vida biológica ou a aniquilação da consciência.
- P2 Há incerteza sobre se a morte é aniquilação e, se não for, sobre se a vida pós-morte seria melhor ou pior.
- P3 Sabemos, por outro lado, como a vida atual provavelmente continuaria.
- C Logo, a possibilidade de vida após a morte não justifica matar indivíduos com uma vida boa.
Volume IV · O debate sobre a exploração animal
Como vivem e morrem os animais explorados pelos humanos?
- P1 A exploração animal causa sofrimento intenso e morte a um número gigantesco de animais.
- P2 Tratar humanos assim seria considerado inaceitável porque sofrer e morrer desse modo prejudica gravemente as vítimas.
- P3 Os animais explorados também são gravemente prejudicados por isso.
- C Logo, aceitar com eles o que seria inaceitável com humanos é um padrão duplo injustificado.
Por que a exploração animal é injusta?
- P1 Para não violar a igual consideração, teria de ser aceitável fazer o mesmo com humanos em situação de prejuízo similar.
- P2 Não aceitaríamos explorar humanos que sofressem prejuízos similares.
- P3 Sob imparcialidade, não aceitaríamos a exploração animal sem saber se seríamos humanos ou animais.
- C Logo, a exploração animal é injusta, seja qual for o seu modelo de produção.
O que é veganismo?
- P1 Os animais são explorados porque há demanda por produtos e serviços de origem animal.
- P2 Pagar por esses produtos faz mais animais nascerem para sofrer e morrer.
- P3 Quem respeita os animais por eles mesmos tem razões para não contribuir com isso.
- C Logo, o veganismo é a posição coerente com o respeito aos animais, e também uma forma de expor a injustiça que sofrem.
E as plantas?
- P1 Estar vivo não é o mesmo que ser senciente.
- P2 O principal indicador de senciência é um sistema nervoso centralizado, que as plantas não têm.
- P3 Se as plantas fossem sencientes, a criação de animais mataria ainda mais plantas, pois eles comem muitas plantas.
- C Logo, a objeção das plantas não justifica comer animais; se valesse, levaria ao frutarianismo.
A objeção de que o consumo de animais é natural
- P1 "Comer carne é natural" pode significar ser possível, instintivo, feito por outros animais ou parte da cadeia alimentar.
- P2 Em nenhum desses sentidos, ser natural implica ser justificável.
- P3 Outros animais também matam filhotes e roubam, e não achamos que isso nos autoriza a fazer igual.
- C Logo, a objeção da naturalidade não justifica o consumo de animais.
A alegação de que consumir os animais acaba com o sofrimento deles
- P1 O argumento diz que matar os animais é bom para eles, pois os livra de uma vida de sofrimento.
- P2 Na exploração, é a demanda que faz nascerem animais em condições de sofrimento.
- P3 Se a preocupação fosse real, o certo seria deixar de criar animais para sofrer, e não continuar consumindo.
- C Logo, o argumento é uma desculpa para continuar consumindo, e não um motivo real.
Criar animais para consumo está justificado, uma vez que os faz existir?
- P1 O argumento diz que a criação beneficia os animais porque os faz existir.
- P2 A maioria dos animais explorados tem vidas de sofrimento intenso, nas quais nascer não é um benefício.
- P3 Mesmo quando fosse, causar um benefício não dá direito de causar um malefício.
- P4 E, pelo saldo total, a substituição tende a gerar mais sofrimento ao longo do tempo.
- C Logo, trazer animais à existência não justifica criá-los para consumo.
Importa o que faríamos em uma ilha deserta ou em uma casa em chamas?
- P1 O argumento parte do que faríamos em situações catastróficas.
- P2 O que faríamos não é necessariamente o correto.
- P3 Mesmo que seja correto em emergências, as nossas situações cotidianas são muito diferentes.
- C Logo, cenários de ilha deserta não justificam o consumo de animais no dia a dia.
É necessário consumir produtos de origem animal?
- P1 O argumento diz que o consumo de animais é justificado por ser necessário à saúde.
- P2 Entidades como a Academy of Nutrition and Dietetics e o NHS reconhecem que dietas veganas bem planejadas são saudáveis em todas as fases da vida.
- P3 Logo, consumir produtos de origem animal não é necessário para a saúde.
- C Portanto, a necessidade não justifica o consumo.
O veganismo é coisa para ricos?
- P1 O argumento diz que o veganismo é inacessível por ser caro.
- P2 Os alimentos básicos de uma dieta vegana estão entre os mais baratos.
- P3 Produtos industrializados veganos mais caros não são necessários.
- P4 E, se fossem caros, isso seria razão para aumentar a demanda e baixar os preços.
- C Logo, o veganismo não é coisa para ricos.
Se o mundo se tornasse vegano, haveria um excesso de animais domésticos?
- P1 Os animais domésticos de criação existem em tal número porque são reproduzidos para atender à demanda.
- P2 O mundo não se tornaria vegano de um dia para o outro, mas gradualmente.
- P3 Com menos demanda, menos animais seriam reproduzidos.
- C Logo, um mundo vegano teria muito menos animais domésticos, e não um excesso.
O veganismo causaria uma ruína à economia e perda de empregos?
- P1 O argumento diz que não devemos ser veganos porque isso prejudicaria a economia e os empregos.
- P2 Benefícios econômicos não justificam causar sofrimento e morte a vítimas, como não justificariam com humanos.
- P3 Além disso, a demanda por produtos veganos gera novas ofertas de emprego.
- C Logo, o argumento econômico não justifica a exploração animal.
Mas, o veganismo tem mesmo um impacto prático?
- P1 O impacto do veganismo deve ser medido pela comparação com o que aconteceria sem ele.
- P2 Cada pessoa vegana reduz a demanda por produtos de origem animal ao longo da vida.
- P3 Menos demanda significa menos animais criados e mortos.
- C Logo, o veganismo tem um impacto prático, e não pequeno.
Mas, o veganismo não causa ainda mais mortes do que consumir animais?
- P1 O argumento diz que a agricultura para dietas veganas causa mais mortes do que o consumo de animais.
- P2 Não há evidência disso, e a criação de animais exige muito mais área plantada para ração.
- P3 Mesmo que fosse verdade, as consequências de longo prazo de defender a consideração pelos animais seriam melhores.
- C Logo, o argumento não justifica rejeitar o veganismo.
A preocupação com espécies justifica o consumo de animais?
- P1 O argumento pressupõe que espécies importam por si.
- P2 Pressupõe que importam tanto que justificariam sofrimento extremo e morte de seres sencientes.
- P3 E pressupõe que essas espécies desapareceriam sem o consumo.
- P4 A primeira é controversa, a segunda tem fortes razões contra e a terceira é falsa.
- C Logo, o argumento não é sólido.
A alegação de que é melhor deixar para depois a luta pelos animais
- P1 O argumento diz que devemos deixar a defesa dos animais para as próximas gerações.
- P2 Cada pessoa convencida faz grande diferença para os animais afetados pelas suas decisões.
- P3 Não há prova de que a maioria rejeitaria os argumentos a favor dos animais.
- P4 Além disso, "a melhor forma de ajudar os animais é colocar os humanos primeiro" pode ser especismo disfarçado.
- C Logo, não há razão para adiar a luta pelos animais.
Os animais já não são protegidos pela lei?
- P1 A exploração animal é legalizada e acontece dentro de sistemas que a legitimam.
- P2 Os animais têm, juridicamente, o status de propriedade.
- P3 Enquanto forem propriedade, não podem ter direitos legais que protejam de modo significativo os seus interesses.
- C Logo, a lei não protege os animais da exploração; mudar isso exige mudar o modo como as pessoas os veem.
A alegação de que os defensores dos animais estão impondo o seu estilo de vida
- P1 O argumento defende que não se deve impor regras sobre como as pessoas tratam os animais.
- P2 Ao mesmo tempo, aceita que se imponha aos animais sofrimento extremo e morte.
- P3 Isso é contraditório: defende um direito contra imposições e um direito de impor.
- C Logo, a acusação de "imposição de estilo de vida" não se sustenta.
A exploração sobre insetos e por que devemos nos opor a ela
- P1 Há evidências crescentes de que muitos insetos são sencientes.
- P2 A exploração de insetos mata trilhões por ano, em condições de confinamento, privação e mortes dolorosas.
- P3 Se cada ser senciente importa, uma exploração com tantas vítimas é um problema dos mais importantes.
- P4 Essa conclusão se mantém mesmo se o bem de cada inseto tivesse peso menor.
- C Logo, devemos nos opor à exploração de insetos.
O debate sobre a experimentação animal
- P1 A defesa da experimentação apela à necessidade, à eficácia e a um peso maior para os interesses humanos.
- P2 Não parece haver justificativa para dar peso diferente a prejuízos similares por causa da espécie.
- P3 Não aceitaríamos experimentos equivalentes em humanos não consentidos, mesmo se úteis.
- C Logo, a experimentação animal não se justifica; a pesquisa deve seguir por outros meios.
Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais
Respeito pelos animais e ambientalismo: complementares ou opostos?
- P1 A consideração pelos animais valoriza em si o bem dos seres sencientes.
- P2 O ambientalismo, no sentido usado aqui, valoriza em si entidades não sencientes, como espécies e ecossistemas.
- P3 Quando esses valores conflitam, o ambientalismo pode prescrever prejudicar animais.
- C Logo, as duas posições não são a mesma coisa nem são sempre complementares.
A divergência é quanto aos fins, não somente quanto aos meios
- P1 Ambientalismo e defesa animal são muitas vezes vistos como tendo a mesma meta e divergindo só nos meios.
- P2 Na verdade, a defesa animal valoriza os seres sencientes, e o ambientalismo valoriza espécies e ecossistemas.
- P3 Considerar indivíduos é compatível tanto com salvar a maioria quanto com outras posições; considerar o "todo" não é considerar a maioria.
- C Logo, a divergência é quanto aos fins.
Apesar das diferenças, defesa animal e ambientalismo convergem na prática?
- P1 O argumento diz que, como os animais precisam do ambiente e o ambientalismo o preserva, as posições convergem.
- P2 O ambiente pode ser preservado em configurações muito diferentes.
- P3 O ambientalismo escolhe configurações por critérios como originalidade, raridade e biodiversidade, não pelo bem-estar dos animais.
- C Logo, a convergência ocorre em alguns casos, mas não em outros.
A divergência não está no foco no curto ou longo prazo
- P1 Uma crença comum é que o ambientalismo pensa no longo prazo e a defesa animal, no curto.
- P2 Ambas podem considerar o longo prazo.
- P3 Recusar uma ajuda por medo de causar mais sofrimento depois é uma preocupação com os seres sencientes.
- C Logo, a divergência está nas metas, e não no horizonte de tempo.
Equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o melhor para os animais?
- P1 Equilíbrio ecológico diz respeito à variação do tamanho das populações; biodiversidade, à variedade de espécies.
- P2 Nenhuma das duas noções se baseia no que é melhor para os seres sencientes.
- P3 Uma população pode ser estável justamente porque a maioria dos filhotes morre cedo.
- C Logo, equilíbrio e biodiversidade não indicam que os animais estão bem.
Defesa dos animais e ambientalismo: a divergência é ética, e não, científica
- P1 A ecologia descreve como funcionam os ecossistemas.
- P2 Quais metas buscar, como o bem dos animais ou valores ambientalistas, é uma questão ética.
- P3 O conhecimento ecológico pode ser usado para qualquer uma dessas metas, inclusive pela biologia do bem-estar.
- C Logo, a defesa dos animais pode ser tão cientificamente informada quanto o ambientalismo.
Por que o respeito pelos animais é confundido com o ambientalismo?
- P1 Defesa dos animais e ambientalismo têm metas divergentes e muitas vezes conflitantes.
- P2 Mesmo assim, são confundidos por vários fatores, inclusive a confusão entre ambientalismo e ecologia.
- P3 Essa confusão leva defensores dos animais a aprovar práticas ambientalistas muito prejudiciais aos animais.
- C Logo, entender a diferença é importante para não agir contra o que se defende.
O que é almejado com os programas ambientalistas de extermínio?
- P1 Esses programas costumam ser apoiados por se acreditar que evitam algo pior para os animais.
- P2 Em vários casos, eles aumentaram muito o sofrimento e as mortes.
- P3 A meta real é preservar configurações ecológicas valorizadas, não o bem dos animais.
- P4 As pessoas que os aprovam só o fazem porque sabem que não serão vítimas.
- C Logo, os programas de extermínio não passam no teste da imparcialidade e não são justos.
O ambientalismo é antropocêntrico?
- P1 A maioria dos ambientalistas subordina as metas ambientais ao bem dos humanos, mas não ao dos animais.
- P2 Isso é antropocentrismo.
- P3 Poucos, como Linkola, aplicariam o extermínio também a humanos, uma posição puramente ambientalista.
- P4 Ambas as posições sacrificam seres sencientes por entidades não sencientes, o que não se justifica.
- C Logo, há boas razões para rejeitar as duas.
Questionando os pressupostos ambientalistas
- P1 O ambientalismo pressupõe que espécies e ecossistemas têm valor em si.
- P2 Isso não foi demonstrado, e menos ainda que valham mais que os seres sencientes.
- P3 Mesmo que tivessem valor em si, isso permitiria limitar interesses não básicos, mas não justificaria causar sofrimento e morte.
- P4 Os próprios ambientalistas já aceitam isso no caso humano.
- C Logo, práticas ambientalistas que causam sofrimento e morte são injustificáveis.
Por que defensores dos animais relutam em reconhecer a divergência?
- P1 Muitos defensores dos animais apoiaram por anos programas e organizações ambientalistas.
- P2 Reconhecer a divergência exigiria revisar crenças e práticas, o que é difícil por causa de vieses.
- P3 Os defensores dos animais pedem aos outros que superem esses vieses em relação à exploração.
- C Logo, também devem superá-los em relação ao ambientalismo.
Volume VI · A quem devemos consideração moral?
O que é relevante para saber a quem devemos consideração?
- P1 Um critério só está justificado se se basear em uma distinção relevante para a questão que pretende responder.
- P2 A questão da consideração moral é sobre quem pode ser prejudicado ou beneficiado pelas nossas decisões.
- P3 Ser senciente é o que torna alguém passível de ser prejudicado e beneficiado.
- C Logo, a senciência é o critério relevante para a consideração moral.
Seria o critério da senciência, no fundo, antropocêntrico?
- P1 O antropocentrismo atribui valor aos animais conforme se pareçam com os humanos.
- P2 O critério da senciência não pergunta se um ser se parece com humanos, mas se pode ser prejudicado ou beneficiado.
- P3 A razão, ao contrário da senciência, não determina quem pode ser prejudicado.
- C Logo, o critério da senciência não é antropocêntrico.
O critério da senciência discrimina contra quem não pertence ao reino animal?
- P1 A acusação diz que o critério discrimina quem não pertence ao reino animal.
- P2 O critério inclui apenas seres sencientes, e há animais que provavelmente não são sencientes.
- P3 Ele incluiria seres sencientes de qualquer reino ou substrato.
- C Logo, o critério da senciência não é o mesmo que "pertencer ao reino animal".
Segundo o critério da senciência, o único problema é o sofrimento?
- P1 Um ser senciente é prejudicado pela presença do que é negativo e pela ausência do que é positivo.
- P2 A morte é um exemplo de dano pela ausência do positivo.
- P3 Logo, o critério da senciência reconhece danos que não envolvem sofrimento.
- C Pensar o contrário é um dos equívocos mais comuns sobre o critério.
Se a senciência é o que importa, por que há males que não afetam as experiências?
- P1 Há prejuízos que não alteram a quantidade de experiências positivas e negativas.
- P2 Isso pode ser objeção ao hedonismo, a teoria de que o bem-estar se resume a experiências.
- P3 O critério da senciência diz quem pode ser prejudicado, e é compatível com teorias que incluem preferências.
- P4 Preferências também dependem da senciência para existir.
- C Logo, esses casos não refutam o critério da senciência.
O critério da senciência exclui os insetos?
- P1 A objeção diz que o critério da senciência exclui os insetos e propõe trocar pelo critério da vida.
- P2 Há evidências de senciência em várias espécies de insetos estudadas.
- P3 As demais não foram reprovadas: apenas mal foram estudadas.
- C Logo, o critério da senciência inclui muitos insetos, e não há razão para trocá-lo pelo da vida.
Aceitar o critério da senciência implica assumir que valores são subjetivos?
- P1 A objeção diz que, por valorizar seres com subjetividade, o critério assume que valores são subjetivos.
- P2 "Subjetivo" pode significar "referente à consciência" ou "sem verdade objetiva".
- P3 Uma coisa não implica a outra: o sofrimento pode ter objetivamente desvalor, mesmo sendo uma experiência consciente.
- C Logo, o critério não implica que valores são subjetivos.
Animais com cérebros mais simples são menos sencientes?
- P1 A visão diz que cérebros mais simples implicam menor senciência e, por isso, menor consideração.
- P2 Senciência, valência e grau de cognição são coisas diferentes.
- P3 As experiências podem ser até mais intensas em seres ou fases com menos cognição.
- P4 Dar menos peso por causa da cognição é inteligentismo, uma discriminação.
- C Logo, não se justifica dar menor consideração a seres cognitivamente menos capazes.
Se há necessidade da ética ambiental, então o critério da senciência está errado?
- P1 O argumento diz: se a ética ambiental é necessária e faz sentido, entidades não sencientes têm valor em si.
- P2 Também precisamos de uma ética da distribuição de renda, e a renda não tem valor em si.
- P3 Logo, a necessidade de uma ética sobre algo não mostra que esse algo tem valor em si.
- C Uma ética do manejo ambiental, guiada pelo bem dos seres sencientes, pode responder às questões ambientais.
Não é absurdo um mundo com menos sofrimento, mas manejado pelos humanos?
- P1 A objeção diz ser absurdo preferir um mundo com menos sofrimento, mas manejado por humanos.
- P2 Imagine um ecossistema modificado, indistinguível de um natural, e melhor para os seres sencientes.
- P3 Dizer que ele é pior só por ter influência humana revela um preconceito contra a ação humana.
- C Logo, a objeção não refuta a ética centrada na senciência.
Se os seres sencientes devem ser respeitados, então a natureza possui valor em si?
- P1 O argumento diz: se os sencientes devem ser respeitados e fazem parte da natureza, a natureza tem valor em si.
- P2 Os sencientes são considerados porque podem ser afetados positiva ou negativamente.
- P3 A natureza como um todo não tem essa característica.
- C Logo, considerar os sencientes não implica dar valor em si à natureza.
O critério da senciência implica em aceitar as metas ambientalistas?
- P1 A defesa diz que, como alguns sencientes querem que a natureza siga o seu curso, o critério da senciência leva às metas ambientalistas.
- P2 Levar um interesse em conta não implica que se deva realizá-lo, se conflita com interesses mais fortes.
- P3 Realizar esse interesse implicaria sofrimento e morte para um número gigantesco de seres sencientes.
- C Logo, o critério da senciência não implica aceitar as metas ambientalistas.
Espécies possuem interesses?
- P1 Para ter interesses, é preciso poder ser beneficiado ou prejudicado.
- P2 Espécies são entidades abstratas: categorias criadas para agrupar seres vivos por semelhanças.
- P3 Não há "alguém" que seja a espécie e que possa ser prejudicado por deixar de existir.
- C Logo, espécies não têm interesses; quem os tem são os indivíduos sencientes.
Se alguma entidade não senciente tiver valor em si, quais as implicações?
- P1 Mostrar que algo tem valor em si não é o mesmo que mostrar que deve ter prioridade.
- P2 Só os seres sencientes podem sofrer e só para eles a morte impede experiências positivas.
- P3 Esses são danos particularmente graves, que nenhuma entidade não senciente pode sofrer.
- C Logo, em conflitos, há fortes razões para priorizar os seres sencientes.
O biocentrismo é melhor, já que inclui um número maior de seres?
- P1 O argumento diz que, se incluir mais seres torna a senciência melhor que o antropocentrismo, a vida é melhor que a senciência.
- P2 O que justifica incluir os sencientes é poderem ser prejudicados, não o número.
- P3 Não foi mostrado que seres vivos não sencientes podem ser prejudicados.
- P4 E o biocentrismo excluiria seres sencientes não vivos, se existirem.
- C Logo, o biocentrismo não é melhor por ser mais abrangente.
Senciência e vida: o que tem valor enquanto fim e o que tem valor enquanto meio?
- P1 A objeção diz que, como a vida é necessária para a senciência, a vida tem valor em si, e a senciência é só um meio para mantê-la.
- P2 Algo ser necessário para outra coisa não lhe dá valor em si.
- P3 Valorizamos estar vivos porque a vida permite experiências valiosas.
- C Logo, estar vivo tem valor como meio para experiências significativas, e não o contrário.
Seres vivos não sencientes são passíveis de ser prejudicados?
- P1 O biocentrismo diz que seres vivos não sencientes podem ser prejudicados.
- P2 A linguagem comum fala no "bem" de plantas, mas também de carros e máquinas.
- P3 É difícil conceber valorizar estados sem experimentá-los como positivos ou negativos.
- C Logo, há razões para pensar que só seres sencientes podem ser prejudicados.
O comportamento de certas plantas e fungos mostra que valorizam certas coisas?
- P1 Certos seres vivos não sencientes apresentam comportamentos complexos.
- P2 Esses comportamentos podem ser explicados por reações físico-químicas e reflexos.
- P3 A possibilidade de outra explicação não mostra que ela é a correta.
- C Sem estrutura física que crie as condições para experiências, o comportamento sozinho não basta para concluir que há senciência.
A vida sem senciência tem valor?
- P1 O biocentrismo diz que a vida tem valor em si; o critério da senciência diz que vale pelas experiências que permite.
- P2 Em coma total irreversível, há vida, mas não parece haver nada de valioso para a pessoa.
- P3 Se pudéssemos continuar sencientes sem estar vivos, nossa existência continuaria valendo.
- C Logo, o valor está na senciência, e não na vida biológica.
Todo ser vivo possui "interesses biológicos"?
- P1 O argumento diz que todos os seres vivos têm interesses biológicos, como os sencientes têm.
- P2 Nos sencientes, o interesse em satisfazer necessidades biológicas é instrumental ao seu bem-estar.
- P3 São as experiências, e não as necessidades, que tornam algo do interesse de alguém.
- C Logo, ter necessidades biológicas não basta para ter interesses no sentido moral.
Se plantas forem consideráveis, tanto faz comer animais ou plantas?
- P1 O respeito às plantas é usado para dizer que tanto faz comer animais ou plantas.
- P2 Mesmo biocentristas, como Paul Taylor, reconhecem o sofrimento como algo intrinsecamente negativo para seres sencientes.
- P3 Comer animais causa sofrimento e consome muito mais plantas.
- C Logo, se as plantas fossem consideráveis, a implicação seria o frutarianismo, e não comer animais.
Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens
O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza?
- P1 Temos razões para evitar prejuízos porque eles são negativos para quem os sofre, e para buscar benefícios porque são positivos.
- P2 A força dessas razões depende do tamanho do prejuízo ou benefício, e não de sua origem ser humana ou natural.
- P3 Os animais selvagens sofrem prejuízos enormes por processos naturais.
- C Logo, temos razões fortes para tentar prevenir e reduzir esses danos naturais.
Como não entender a questão
- P1 O argumento diz que danos naturais não são questão de ética porque não se pode responsabilizar a natureza nem os animais.
- P2 A questão é posta para nós: devemos ajudar, ou não?
- P3 Até afirmar que ajudar é opcional é uma posição ética, pois a ética trata também do que é permissível.
- C Logo, os danos naturais são, sim, uma questão de ética.
Como os processos naturais tipicamente afetam os animais selvagens?
- P1 A maioria das espécies se reproduz produzindo um enorme número de filhotes.
- P2 Em populações estáveis, em média só um descendente por adulto sobrevive.
- P3 Os demais morrem cedo, em geral de forma dolorosa.
- P4 Mesmo que muitos ovos não cheguem a formar seres sencientes e que os filhotes sofressem menos, o número de vítimas continuaria gigantesco.
- C Logo, a situação dos animais selvagens é, em geral, muito ruim.
A visão de que não é um problema porque as vítimas são animais não humanos
- P1 A visão comum só dá importância ao sofrimento dos animais selvagens quando afeta humanos ou metas ambientais.
- P2 O que explica por que o bem dos humanos importa por si é poderem ser prejudicados e beneficiados.
- P3 Isso vale para qualquer ser senciente.
- C Logo, o bem dos animais selvagens importa por si e tanto quanto o dos humanos.
Fundamentos da proposta de ajudar vítimas de processos naturais
- P1 As razões para evitar prejuízos existem porque eles são negativos, seja qual for a origem (existência das razões).
- P2 A força dessas razões depende da magnitude, não da origem (força das razões).
- P3 Mesmo dando maior peso a danos humanos, a escala dos danos naturais ainda geraria razões fortes (peso do critério).
- C Logo, temos razões fortes para prevenir e minimizar danos naturais.
A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante?
- P1 A acusação diz que ajudar os animais selvagens é arrogante por intervir na natureza.
- P2 Quase todos aceitam intervenções na natureza para beneficiar humanos ou para metas ambientalistas.
- P3 Logo, intervir na natureza, por si só, não é o problema.
- C A acusação revela oposição à meta de beneficiar os animais, e não à intervenção.
A proposta de ajudar os animais selvagens é antropocêntrica?
- P1 A objeção diz que a proposta impõe valores humanos aos animais.
- P2 A proposta visa o que é bom para os animais: menos sofrimento e menos mortes prematuras.
- P3 Os animais não têm interesse em sofrer para que a natureza siga o seu curso; só alguns humanos valorizam isso.
- C Logo, a proposta não é antropocêntrica; antropogênica, no máximo.
Quanto menos influência humana no mundo, melhor?
- P1 A frase pode significar que menos influência é melhor para os animais, ou que é melhor mesmo quando pior para eles.
- P2 No primeiro sentido, é preciso avaliar caso a caso, e nem sempre omitir-se é melhor.
- P3 No segundo, seria preciso mostrar que a influência humana é errada em si, o que a objeção apenas assume.
- C Logo, a frase não justifica rejeitar a proposta de ajudar.
Seria a proposta de ajudar os animais selvagens bem-estarista?
- P1 A palavra "bem-estarista" é usada em vários sentidos, geralmente ligados a regulamentar a exploração.
- P2 A proposta de ajudar os animais selvagens não regula exploração alguma: visa diminuir danos naturais.
- P3 Preocupar-se com o bem-estar não é o mesmo que ser regulamentarista.
- C Logo, a proposta é compatível com qualquer posição no debate sobre regulamentação.
A proposta de ajudar os animais selvagens viola a liberdade deles?
- P1 A objeção diz que ajudar viola a liberdade dos animais.
- P2 Para exercer a liberdade, é preciso estar vivo e livre de sofrimento extremo.
- P3 Ajudar, em geral, aumenta a capacidade dos animais de fazer o que querem.
- C Logo, ajudar não viola a liberdade dos animais; com frequência, a protege.
A acusação de criar dependência
- P1 A objeção diz que ajudar tiraria dos animais a habilidade de sobreviver.
- P2 Muitas intervenções apenas reduzem nascimentos, sem criar dependência.
- P3 Ajudar animais já nascidos não tira habilidades; não ajudar é que os mata antes de poder usá-las.
- P4 Mesmo que houvesse dependência, seria melhor para eles do que sofrer mais e morrer cedo.
- C Logo, a acusação não justifica não ajudar.
A acusação de paternalismo
- P1 Uma ação é paternalista quando visa beneficiar alguém contra a sua preferência.
- P2 Os animais não preferem continuar em fome, doença ou incêndio.
- P3 Quando fogem da ajuda, é por não entenderem a intenção, e não por preferirem sofrer.
- P4 Mesmo que fosse paternalismo, seria do tipo justificado, como no caso de crianças.
- C Logo, a acusação de paternalismo não justifica não ajudar.
A objeção de que o sofrimento tem valor instrumental
- P1 A objeção diz que o sofrimento é útil para quem sofre, por isso não deve ser minimizado.
- P2 Ele só é útil quando o indivíduo consegue usá-lo para evitar males maiores.
- P3 A maioria dos animais na natureza sofre do nascimento até a morte prematura sem esse benefício.
- P4 Quando há benefício, é melhor obtê-lo sem sofrimento.
- C Logo, a utilidade do sofrimento não justifica deixar de ajudar.
A proposta de ajudar os animais vê os humanos como separados da natureza?
- P1 A objeção diz que a proposta vê os humanos como separados da natureza.
- P2 Se os humanos são parte da natureza, os resultados das suas ações não são menos naturais.
- P3 Quem defende "não intervir" é que separa o humano do natural.
- P4 E ninguém aceita para si não se proteger de doenças ou desastres.
- C Logo, a acusação se volta contra quem a faz.
Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?
- P1 A objeção diz que, por ser natural, o sofrimento é neutro em valor.
- P2 O que torna o sofrimento negativo é ser ruim para quem sofre, e não ter um culpado.
- P3 O sofrimento causado por quem não é responsabilizável continua negativo para a vítima.
- C Logo, temos razões para prevenir o sofrimento natural, tanto mais quanto maior for.
Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?
- P1 A natureza é indiferente ao sofrimento e à morte dos animais.
- P2 Ela também é indiferente ao sofrimento humano, e não concluímos que devemos ser indiferentes a ele.
- P3 Do fato de algo acontecer não se segue que deva acontecer.
- C Logo, a indiferença da natureza não justifica a nossa.
Respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte?
- P1 A posição diz que a natureza de cada animal é definida pelo território, e a dos selvagens exige não ajudá-los.
- P2 Se respeitar a natureza de alguém é beneficiá-lo, largá-lo à própria sorte não a respeita.
- P3 Se não é para beneficiar, não se explica por que isso valeria mais do que evitar o dano.
- P4 Quem defende essa visão está do lado doméstico; sem saber a que território pertence, não a aceitaria.
- C Logo, a posição não se justifica.
Não é absurdo intervir em conflitos entre animais?
- P1 Intervenções em larga escala na predação já são praticadas há décadas, para proteger humanos, animais explorados ou metas ambientais.
- P2 Logo, intervir em conflitos entre animais não é absurdo em si.
- P3 Se uma intervenção tiver boa chance de piorar a situação, a própria proposta a desaconselha.
- C À medida que o conhecimento aumentar, mais intervenções seguras podem se tornar possíveis.
Quais áreas devem responder o que fazer em relação aos animais selvagens?
- P1 Descrever o que acontece nos ecossistemas é tarefa da ecologia.
- P2 Quais metas buscar é uma questão ética, que nenhuma ciência descritiva responde.
- P3 O conhecimento ecológico pode ser usado para metas ambientalistas ou para o bem dos animais.
- C Logo, dizer que a ecologia prescreve não ajudar os animais é disfarçar uma posição moral.
Ambientalistas devem se opor à ajuda aos animais selvagens?
- P1 Muitas formas de ajudar os animais também realizam metas ambientalistas, como a vacinação de abelhas.
- P2 Outras não conflitam com essas metas, pois não alteram as propriedades valorizadas dos ecossistemas.
- P3 Quando há conflito, só os seres sencientes sofrem e perdem experiências com a morte.
- P4 Os ambientalistas já aceitam limitar interesses não básicos de humanos, mas não causar-lhes sofrimento e morte.
- C Logo, os ambientalistas não precisam se opor à ajuda aos animais selvagens.
Somos moralmente responsáveis apenas por práticas humanas?
- P1 Somos responsáveis por uma decisão quando ela é determinante para os resultados.
- P2 Decidir ajudar ou não os animais selvagens determina o que acontece com eles.
- P3 Não ter causado o dano, não ter intenção ou não ser próximo não elimina essa responsabilidade, como mostram casos humanos.
- C Logo, temos responsabilidade em relação aos danos naturais, e não apenas aos causados por humanos.
Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados
- P1 Uma posição diz que temos dívida histórica com os domesticados e que eles dependem mais de nós.
- P2 Mesmo que isso desse prioridade a eles, não justificaria negar o dever de ajudar os selvagens.
- P3 A prioridade depende da gravidade e do número de vítimas, e os selvagens são vastamente mais numerosos.
- P4 Os selvagens também são muito dependentes das condições que os matam.
- C Logo, esses argumentos não excluem a ajuda aos animais selvagens.
Ajudar os animais impediria que os genes mais adaptados prevalecessem?
- P1 A objeção diz que ajudar impediria que os genes mais adaptados prevalecessem.
- P2 Traços eficientes em transmitir genes, como ter muitos filhotes, não beneficiam os seus portadores.
- P3 Várias formas de ajuda, como reduzir nascimentos, não interferem nisso.
- P4 Aplicado aos humanos, o raciocínio seria considerado hediondo.
- C Logo, a preocupação com os genes não justifica não ajudar.
Ajudar os animais selvagens não poderia tornar as coisas ainda piores?
- P1 A objeção diz que ajudar pode piorar as coisas no longo prazo, ou desequilibrar os ecossistemas.
- P2 Se não podemos prever o longo prazo, também não sabemos que não ajudar tem melhores consequências.
- P3 O equilíbrio ecológico depende de pontos de referência arbitrários e pode coexistir com sofrimento enorme.
- C Logo, a solução é pesquisar a fundo os fatores que afetam o bem-estar dos animais, e não deixar a natureza seguir o seu curso.
Objeções que questionam a praticidade da proposta de ajudar
- P1 A objeção diz que, como não é possível ajudar todos, não devemos ajudar nenhum, ou que ajudaríamos uma parcela pequena do problema.
- P2 Para cada animal ajudado, a ajuda faz toda a diferença.
- P3 O que importa é a quantidade real de benefício, não a porcentagem do problema.
- C Logo, focar no sofrimento dos animais selvagens pode ser uma forma muito eficiente de reduzir o sofrimento no mundo.
O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens?
- P1 A objeção diz que a proposta é impraticável.
- P2 Animais selvagens já são vacinados, tratados de doenças e resgatados de situações de necessidade.
- P3 Alguns tratamentos aumentaram muito a sobrevivência, como no caso de morcegos com síndrome do nariz branco.
- C Logo, a proposta não é impraticável, e muito mais poderia ser feito.
O que mais poderia ser feito para ajudar: estabelecendo a biologia do bem-estar
- P1 Os animais selvagens são estudados quase só como exemplares de espécies e componentes de ecossistemas.
- P2 Por isso, há poucos dados sobre o que afeta o seu bem-estar.
- P3 A biologia do bem-estar estudaria esses animais como indivíduos sencientes, reunindo várias áreas.
- C Desafiar os obstáculos ideológicos é crucial para que ela se desenvolva e ajude os animais.
Quais tecnologias poderiam ser usadas para ajudar os animais na natureza?
- P1 Novas tecnologias permitem observar e medir coisas antes impossíveis na vida dos animais selvagens.
- P2 Esses dados podem indicar o que os afeta positiva ou negativamente.
- P3 Com mais conscientização sobre a situação dos animais selvagens, esse uso pode se expandir.
- C Logo, a tecnologia pode ajudar a prevenir e reduzir danos naturais.
Os animais teriam o direito de não serem esterilizados?
- P1 A maximização de nascimentos contribui muito para o sofrimento e as mortes prematuras na natureza.
- P2 Há várias formas de ajuda que não envolvem esterilização.
- P3 Respeitar um suposto direito absoluto à reprodução implicaria muitos seres nascendo só para sofrer e morrer.
- P4 A esterilização de cães e gatos já é aceita pelos defensores dos animais, e no caso de ninhadas de milhares as razões são ainda mais fortes.
- C Logo, a objeção da violação dos direitos não justifica rejeitar a proposta.
A questão do parasitismo
- P1 A objeção diz que tratar o parasitismo mataria muitos para salvar um.
- P2 Quando os parasitas não são sencientes, a morte não é um dano para eles.
- P3 Quando são, é preciso avaliar se teriam vidas minimamente significativas.
- P4 Prevenir novos casos não equivale a matar seres que já existem, e não tratar gera mais parasitas e mais vítimas.
- C Logo, a proposta não proibiria tratar o parasitismo; daria até razões para preveni-lo.
A questão da predação
- P1 A predação causa sofrimento intenso e morte a um número enorme de animais.
- P2 As objeções (não é questão ética, predadores não têm culpa, é neutra, é absurdo, é fascismo, é sentimentalismo) não se sustentam.
- P3 Intervenções na predação já são amplamente aceitas quando protegem humanos e animais explorados.
- P4 Intervenções que pioram as consequências não devem ser feitas; mas algumas, como reduzir a produtividade primária, provavelmente têm saldo positivo.
- C Logo, há boas razões para diminuir a predação no mundo, com cautela.
Discutindo nossa capacidade de avaliar quando viver vale ou não a pena
- P1 A objeção diz que não estamos em posição de avaliar quando uma vida vale a pena.
- P2 Há casos claros, como vidas de sofrimento extremo seguidas de morte quase imediata, que é o caso da maioria dos animais na natureza.
- P3 Quem defende não ajudar também faz avaliações sobre quais vidas valem a pena.
- P4 Melhorar vidas existentes não exclui prevenir nascimentos; menos nascimentos facilitam melhorar cada vida.
- C Logo, a objeção não justifica deixar a natureza seguir o seu curso.
O argumento do prolongamento da agonia
- P1 A objeção diz que ajudar prolongaria vidas de sofrimento.
- P2 O que causa sofrimento aos animais na natureza geralmente também causa a sua morte.
- P3 Tratar essas causas prolonga a vida e aumenta o bem-estar ao mesmo tempo.
- P4 Muitas intervenções não prolongam vidas, apenas previnem nascimentos.
- C Logo, o argumento do prolongamento da agonia não justifica não ajudar.
A objeção de que o saldo da situação dos animais na natureza pode ser positivo
- P1 A alegação diz que o prazer de poucos animais pode superar o sofrimento somado da maioria.
- P2 Mesmo que fosse assim, as razões para reduzir o sofrimento dos que sofrem não diminuem.
- P3 Uma unidade de recurso produz mais bem-estar quanto pior estiver quem a recebe.
- C Logo, mesmo quem só se importa com o saldo total tem razões para priorizar eliminar sofrimento.
Qual o impacto do veganismo na situação dos animais selvagens?
- P1 O veganismo reduz os animais que nascem para sofrer na exploração e as mortes colaterais da agricultura.
- P2 Ele não implica necessariamente aumentar áreas verdes.
- P3 Resultados de primeiro grau não dependem de outros agentes; os de segundo grau dependem de como os outros reagem.
- P4 O maior potencial do veganismo está em divulgar a consideração por todos os sencientes.
- C Logo, prevenir danos naturais não implica rejeitar o veganismo.
O debate sobre a destruição da natureza
- P1 Quase sempre se supõe que mais áreas verdes são positivas, por visões antropocêntricas ou ambientalistas.
- P2 Para quem se preocupa com os sencientes, mais habitats podem significar mais animais nascendo para sofrer.
- P3 Os defensores da matança altruísta e os seus críticos trocam argumentos sobre consequências, aceitação pública e riscos futuros.
- C O capítulo argumenta que o ônus da prova parece recair sobre os opositores, mas reconhece que a preocupação com efeitos contraproducentes pode vir de uma análise séria de riscos.
O debate sobre a expansão e restauração da natureza
- P1 Discutir a expansão da natureza escapa das objeções frequentes, pois não envolve intervir em animais já existentes.
- P2 A maioria dos animais que nasceriam nesses novos habitats teria vidas curtas e de sofrimento.
- P3 As justificativas pela expansão (gerações futuras, valores ambientais, aceitação, risco de extinção humana) não bastam ou podem ser atendidas de outras formas.
- P4 Há maneiras de prevenir mudanças climáticas sem criar novos habitats, como eficiência energética e energias renováveis.
- C Logo, expandir o território natural só estaria justificado quando todas as alternativas fossem piores.
Volume VIII · Um ativismo eficiente
Como escolher quais causas e problemas priorizar e quais as melhores estratégias?
- P1 Os recursos para ajudar são limitados, e há muitos problemas.
- P2 Para fazer o maior bem possível, devemos comparar gravidade, tratabilidade, tamanho do benefício, efeitos de longo prazo e negligência.
- P3 Atacar as causas tende a ter impacto maior ao longo do tempo do que tratar só os sintomas.
- C Logo, esses critérios orientam a escolha de causas, problemas e estratégias, mesmo sem dar respostas prontas.
Como a causa animal se sai quanto aos critérios de prioridade?
- P1 A situação de cada animal explorado é muito grave, e o número de vítimas é gigantesco.
- P2 A causa recebe pouquíssimos recursos: 97% das doações nos EUA vão para causas humanas.
- P3 Há muito benefício possível com os recursos disponíveis.
- P4 Mesmo dando menos peso a cada animal, o número de vítimas mantém a prioridade.
- C Logo, a causa animal é prioritária pelos critérios usuais.
Dentre os problemas que afetam os animais, quais são mais importantes?
- P1 O especismo leva a priorizar problemas humanos e, dentro da causa animal, os animais mais parecidos conosco.
- P2 Os animais aquáticos, os invertebrados, os animais selvagens e os seres futuros são vítimas em número astronomicamente maior.
- P3 Esses problemas são altamente negligenciados.
- C Logo, há razões duplas para focar neles: estão entre os mais graves, e é onde mais podemos fazer diferença.
O uso de argumentos antropocêntricos e ambientalistas na causa animal
- P1 Argumentos indiretos podem levar pessoas a reduzir o consumo sem considerar os animais.
- P2 Motivações diferentes levam a comportamentos diferentes quando as circunstâncias mudam.
- P3 Eles podem reforçar que o dano aos animais não basta e fortalecer visões antropocêntricas e ambientalistas.
- P4 A falta de consideração pelos sencientes é uma das principais fontes de riscos de sofrimento futuro.
- C Logo, não se deve adiar a defesa direta da consideração pelos seres sencientes.
A abordagem total e a abordagem suficiente
- P1 Algumas metas são compatíveis com um leque amplo de visões éticas e políticas.
- P2 A abordagem suficiente mostra isso e amplia a aceitação dessas metas.
- P3 A abordagem total discute o ideal completo, inclusive questões controversas.
- P4 Usar só uma delas tem riscos: ou não se ousa discutir o importante, ou se afasta quem discorda do resto.
- C Logo, é importante combinar as duas abordagens.
O desvio de foco em debates: por que o especismo é raramente discutido?
- P1 Defensores de práticas que prejudicam os animais tendem a manter o foco em aspectos que não têm a ver com o prejuízo aos animais.
- P2 Os defensores dos animais muitas vezes aceitam o desvio sem perceber.
- P3 Enquanto o especismo não for discutido, a visão sobre os animais não muda.
- C Logo, não há boas razões para aceitar o desvio de foco.
Crenças morais, motivação para agir e o papel da reflexão sobre ética
- P1 Há especialistas que escrevem contra o consumo de animais e continuam consumindo.
- P2 Isso pode ocorrer por várias razões: não acharem errado, acharem pouco errado, falta de sinceridade, vontade fraca ou decisão de não agir.
- P3 Nenhuma dessas explicações mostra que crenças morais não motivam.
- P4 E abandonar a persuasão racional não resolve, pois outras formas de persuasão têm os mesmos limites.
- C Logo, a reflexão ética continua tendo um papel central.
Objeções normativas disfarçadas de objeções estratégicas
- P1 Uma objeção normativa rejeita a meta; uma estratégica aceita a meta e duvida do meio.
- P2 Às vezes uma objeção normativa é disfarçada de estratégica, para não expor a falta de bons argumentos contra a meta.
- P3 Quem afirma que uma meta é inalcançável tem o ônus de prová-lo.
- C Logo, há razões para rejeitar essas alegações quando não são fundamentadas.
Foco no veganismo versus foco na redução do consumo
- P1 Devemos avaliar estratégias pelos seus efeitos, e não pelas nossas intuições iniciais.
- P2 Muitos defensores da redução e do veganismo compartilham a mesma meta: o fim da exploração.
- P3 A redução pode alcançar mais pessoas; o veganismo pode deixar mais clara a injustiça e engajar mais.
- C Logo, a divergência é sobretudo estratégica, e deve ser tratada como tal.
Por que o termo bem-estarismo é altamente ambíguo
- P1 O termo bem-estarismo é usado para posições muito diferentes, em debates diferentes.
- P2 Há pelo menos sete sentidos, como aceitar a exploração "humanitária", defender reformas ou se preocupar com o bem-estar de qualquer animal.
- P3 Cada sentido diz respeito a um debate distinto.
- C Logo, aceitar ou rejeitar uma posição chamada de bem-estarista não implica aceitar ou rejeitar as outras.
O debate sobre regulamentar a exploração animal
- P1 Há quem defenda que a exploração regulamentada para reduzir o sofrimento é aceitável.
- P2 Entre os que querem a abolição, discute-se se regulamentar leva a ela e se reduz o sofrimento.
- P3 Leis anticrueldade costumam exigir provas difíceis e excluir práticas da indústria.
- C Reformas precisam ser comparadas com outras estratégias, como carne cultivada, educação antiespecista e incentivo ao veganismo.
O debate sobre a carne cultivada
- P1 A carne cultivada é produzida a partir de células, sem criar e abater animais.
- P2 As objeções (não é natural, riscos, sustentabilidade, impacto nos pobres, produtores interesseiros, não resolve tudo, ainda prejudica animais, reforça o especismo) podem ser respondidas ou não bastam para rejeitá-la.
- P3 Ela pode reduzir enormemente a exploração mesmo que as pessoas não mudem de valores.
- P4 Mas o foco só em tecnologia tem limites, pois os valores decidem como ela será usada.
- C Logo, a carne cultivada é uma estratégia promissora, a ser combinada com mudança social.
Volume IX · A ética e o futuro
Riscos futuros para os seres sencientes: uma introdução
- P1 Novas práticas e tecnologias já multiplicaram enormemente o sofrimento, como a pecuária industrial.
- P2 No futuro, o número de seres sencientes e o poder tecnológico podem ser astronomicamente maiores.
- P3 Riscos de sofrimento nessa escala (riscos-s) têm desvalor esperado enorme, mesmo com probabilidade modesta.
- P4 Eles são fáceis de ignorar e pouco discutidos.
- C Logo, é necessário um amplo debate sobre como preveni-los.
Imparcialidade temporal: o que é, e por que é importante
- P1 Temos um viés que nos faz dar menos peso ao que acontece mais tarde.
- P2 Um sofrimento não é menos ruim por ocorrer no futuro.
- P3 A imparcialidade exige não favorecer ninguém por fatores irrelevantes, e o momento é um deles.
- C Logo, devemos dar o mesmo peso aos seres sencientes futuros, humanos e não humanos.
A objeção de que seres futuros são apenas seres em potencial
- P1 A objeção diz que devemos nos preocupar só com os seres que já existem.
- P2 Mesmo negando o dever de criar novos seres, temos deveres de não fazer nascer seres para sofrer e de não prejudicar os que existirão.
- P3 A causa animal já é, normalmente, sobre evitar que novos animais nasçam para sofrer.
- C Logo, não faz sentido rejeitar a preocupação com o futuro por ela tratar de seres futuros.
Que razões existem para focarmos no longo prazo?
- P1 O futuro pode conter um número muito maior de seres sencientes do que o presente.
- P2 Não é garantido que ele será melhor por causa do progresso moral; depende do que fizermos agora.
- P3 Nossas decisões podem ter efeitos duradouros sobre esse futuro.
- C Logo, há boas razões para adotar um foco prático no longo prazo.
Devemos focar em prevenir riscos-s ou riscos-x?
- P1 Riscos-x tratam da extinção humana; riscos-s, de sofrimento astronômico, inclusive de não humanos.
- P2 Algumas defesas do foco nos riscos-x apelam a ideias especistas, como priorizar humanos para obter mais recursos.
- P3 A sobrevivência da humanidade não garante menos sofrimento e pode até expandi-lo.
- C Logo, há razões para dar mais atenção aos riscos-s, sem que isso exclua os riscos-x.
Quais metas priorizar em longo prazo?
- P1 Pessoas que querem o melhor impacto podem divergir sobre quais valores priorizar.
- P2 Várias visões (prioritárias, negativas, pluralistas) dão peso maior a evitar o sofrimento.
- P3 Não é necessário um pessimismo extremo sobre o futuro para adotar esse foco.
- C Logo, há razões para dar peso extra às metas de prevenir sofrimento e mortes prematuras.
De que consiste o foco nos riscos-s?
- P1 O foco nos riscos-s busca reduzir o sofrimento futuro esperado.
- P2 Mesmo que o sofrimento futuro tenha "cauda pesada", ele pode vir da soma de muitos riscos, não de poucos.
- P3 Logo, o foco nos riscos-s não implica um foco estreito.
- C Individualmente, pode-se especializar; coletivamente, deve-se cobrir um leque amplo.
Identificando fatores de risco para os riscos-s
- P1 É difícil estimar as consequências de longo prazo de cada decisão.
- P2 Mas, como na medicina, podemos identificar fatores que aumentam a chance ou a gravidade de catástrofes.
- P3 Exemplos: tecnologia avançada, desconsideração pelos sencientes, polarização, agentes malévolos com poder.
- P4 Os riscos crescem quando vários fatores coincidem, e a prevenção também se reforça.
- C Logo, reduzir fatores de risco é um caminho viável para prevenir riscos-s.
Estratégias longoprazistas: amplas e direcionadas
- P1 O futuro é incerto, com muitos cenários possíveis.
- P2 Estratégias amplas têm impacto positivo em quase todos os cenários, mas menor em cada um.
- P3 Estratégias direcionadas têm grande impacto no cenário que tratam, mas podem ser inúteis em outros.
- P4 É preciso precaução: humildade, atenção aos vieses e metas aceitáveis por muitas perspectivas.
- C Logo, devemos combinar os dois tipos de estratégia com cautela.
Por que focar na consideração pelos seres sencientes e no futuro?
- P1 A desconsideração pelos seres sencientes é uma das principais causas de riscos de sofrimento futuro.
- P2 Promover a consideração por todos os sencientes ataca essa causa.
- P3 Há riscos, como o uso de argumentos antropocêntricos e ambientalistas, que podem reforçar outras visões.
- P4 Ainda não sabemos a forma mais eficiente de prevenir riscos-s.
- C Logo, devemos promover a consideração pelos sencientes e manter a mente aberta para mudar de estratégia.
Mudando o debate público, as formas de ativismo e as instituições políticas
- P1 A política (instituições e debate público) influencia a chance de riscos-s.
- P2 O tribalismo cria aparência de grande discordância e impede compromissos.
- P3 Debates honestos, abordagens de leque amplo e democracia reduzem riscos como a ascensão de agentes malévolos.
- P4 A situação atual é tão ruim que pequenas melhoras já fariam grande diferença.
- C Logo, melhorar a política é crucial para evitar os riscos-s.
Moldando as tecnologias emergentes para prevenir sofrimento futuro
- P1 Novas tecnologias podem dar poder enorme a quem não se importa com os afetados.
- P2 A IA, a colonização espacial e a criação de novas formas de senciência podem gerar sofrimento astronômico.
- P3 Moldar essas tecnologias cedo, com valores não antropocêntricos, reduz esses riscos.
- C Divulgar amplamente a consideração por todos os sencientes ajuda tanto a evitar essas tecnologias quanto a reduzir os danos se forem criadas.
A tríade de influência e o sofrimento futuro
- P1 Novas tecnologias podem dar grande poder a agentes que não se importam com os afetados.
- P2 O resultado de um agente depende da combinação entre intenção, conhecimento e poder.
- P3 Poder sem conhecimento arrisca causar dano mesmo com boas intenções; conhecimento sem poder é ineficaz.
- C Logo, para prevenir sofrimento futuro, é preciso aumentar o conhecimento e o poder de quem quer beneficiar os sencientes, e limitar o dos outros.
Volume X · Vieses e sua influência
Vieses que nos induzem a negligenciar os problemas que possuem mais vítimas
- P1 Vieses são tendências que conduzem sistematicamente a raciocínios errados, diferentes de falácias.
- P2 Vários vieses fazem a compaixão diminuir quando o número de vítimas aumenta.
- P3 Por isso, os problemas com mais vítimas tendem a ser os mais negligenciados.
- C Para corrigir isso, devemos conhecer esses vieses e focar em quem quer raciocinar honestamente.
Vieses que inclinam a uma negligência da situação dos animais selvagens
- P1 A situação dos animais selvagens tem uma das maiores quantidades de vítimas.
- P2 Vieses como o do status quo, a hipótese do mundo justo e a detecção de agente nos inclinam a vê-la como boa ou justificada.
- P3 Outros vieses nos fazem duvidar da viabilidade de ajudar e subestimar a receptividade do público.
- C Logo, essa negligência é, em parte, efeito de vieses que podemos aprender a corrigir.
Vieses que contribuem para a negligência do longo prazo e dos riscos-s
- P1 Vieses nos inclinam a dar menos importância a questões do futuro.
- P2 Outros nos fazem ignorar o valor esperado de cenários pouco prováveis e muito graves.
- P3 A confiança excessiva em intuições reforça esses erros.
- C Logo, para levar a sério os riscos-s, precisamos de mente aberta e disposição para mudar de posição diante de boas razões.
Vieses cognitivos e sua influência em nossas decisões que afetam os animais
- P1 Revisar crenças sobre fatos, ética e estratégias exige superar várias tendências psicológicas.
- P2 Vieses nos inclinam a defender o que já existe, a confiar demais em nós mesmos e a aceitar argumentos ruins quando nos favorecem.
- P3 Eles afetam tanto quem consome animais quanto quem os defende.
- C Logo, conhecê-los é essencial para discutir e decidir melhor.
Raciocínio motivado e sua influência na avaliação dos argumentos
- P1 As pessoas tendem a exigir mais rigor de argumentos contra o que querem acreditar.
- P2 Muitas objeções comuns, como "plantas também sentem", são aceitas com pouco rigor.
- P3 Às vezes quem as levanta nem acredita nelas, mas as usa como desculpa.
- C Logo, as tentativas de justificar o especismo raramente são analisadas com o mesmo rigor que os argumentos contrários.
Alguns vieses que podem influenciar a escolha de estratégias e a recepção do público
- P1 Os mesmos vieses que afetam o público afetam os ativistas ao escolher prioridades e estratégias.
- P2 Vieses como a negatividade e os efeitos de posição influenciam como uma mensagem é recebida.
- P3 Apresentar primeiro os argumentos pela consideração dos animais muda como as pessoas avaliam o restante.
- C Logo, considerar esses vieses ajuda a planejar estratégias melhores.
Volume XI · Como as diversas teorias da ética abordam a questão animal?
Uma introdução às distinções centrais em teoria do valor
- P1 Perguntas sobre o que é bom ou ruim são diferentes de perguntas sobre o que devemos fazer.
- P2 Algo pode ter valor em si ou só como meio para outra coisa.
- P3 Uma situação pode ser boa sob certo aspecto e ruim sob outro.
- C Logo, avaliar quão boa é uma situação tudo considerado exige distinguir e pesar esses aspectos.
Uma introdução às teorias do bem-estar
- P1 Há teorias do bem-estar monistas (um só aspecto) e pluralistas (vários aspectos).
- P2 Elas divergem em muitos casos, mas convergem em um grau mínimo.
- P3 As situações típicas dos animais explorados e selvagens são ruins por qualquer dessas teorias.
- C Logo, seja qual for a teoria do bem-estar adotada, os animais são altamente prejudicados nessas situações.
Avaliando quão boa/ruim é uma situação que contém vários indivíduos
- P1 Uma situação com vários indivíduos pode ser avaliada por vários aspectos: total, prioridade, igualdade, suficiência, merecimento.
- P2 Teorias monistas consideram um só aspecto; pluralistas, vários.
- P3 Esses aspectos podem ser valorizados em si ou apenas como meio.
- C Quando conflitam, é preciso decidir como pesá-los.
Julgamentos valorativos, descrições de fatos, objetividade e subjetividade
- P1 "Subjetivo" pode significar "referente à consciência" ou "sem verdade objetiva".
- P2 Todos os que sofrem experimentam o sofrimento como negativo em si.
- P3 Há coisas impossíveis de explicar sem recorrer ao seu valor ou desvalor.
- C Logo, julgamentos como "o sofrimento é ruim" podem ter alto grau de certeza, mesmo que haja divergência sobre o que fazer.
Categorias de teorias da ética normativa
- P1 O consequencialismo foca nas consequências; a deontologia, nas regras; as éticas do caráter, nos traços de caráter.
- P2 Elas diferem no nível fundacional (por que algo importa), mas muitas vezes concordam no nível fatorial (o que fazer).
- P3 Os argumentos pela igual consideração dos sencientes podem ser aceitos a partir de qualquer dessas correntes.
- C Logo, as grandes teorias tendem a convergir na igual consideração.
Em que medida as teorias da ética concordam sobre o que devemos aos animais?
- P1 As teorias que buscam metas (utilitarismo, prioritarismo, igualitarismo, suficientismo, maximin) não dão peso diferente a bem-estar igual por causa da espécie.
- P2 As que não se caracterizam por metas (kantismo, discurso, contratualismo, virtudes, cuidado), coerentemente aplicadas, também incluem os sencientes.
- P3 O merecimento e as possibilidades pluralistas não mudam essa conclusão.
- C Logo, as principais teorias implicam a igual consideração, a rejeição da exploração e razões para ajudar os animais selvagens.
Pesando critérios
- P1 Situações podem ser boas sob certos aspectos e ruins sob outros.
- P2 Há muitas formas de pesar esses aspectos, como trunfos, pesos fixos, retornos decrescentes e suficiência.
- P3 Cada forma tem vantagens e problemas, como arbitrariedade ou dificuldade de cálculo.
- C Logo, pesar critérios é uma tarefa difícil, que exige explicitar o método escolhido e suas razões.
Volume XII · O essencial sobre ética animal
Introdução
- P1 A ética animal discute muitas questões, cada uma com argumentos dos dois lados.
- P2 Um panorama esquemático permite entender o que está em jogo antes de se aprofundar.
- P3 Cada quadro indica onde o tema é discutido em detalhe.
- C Logo, este volume serve tanto para quem começa quanto para quem quer revisar.
Tentativas de justificar a desconsideração pelos animais
- P1 A posição padrão diz que o uso de animais está plenamente justificado.
- P2 Cada justificativa apela a um critério: espécie, capacidades, natureza, tradição, autoridade etc.
- P3 Nenhuma explica por que esse critério seria relevante para poder ser prejudicado.
- C Logo, a posição padrão não está justificada.
A defesa da consideração por todos os seres sencientes
- P1 Se a falta de certas capacidades não justifica tratar humanos pior, também não justifica tratar animais pior (sobreposição).
- P2 O relevante para a consideração é poder ser prejudicado e beneficiado, o que depende da senciência (relevância).
- P3 Prejuízos e benefícios iguais devem ter o mesmo peso (igual consideração).
- P4 Sem saber se nasceríamos humanos ou animais, não aceitaríamos o tratamento atual (imparcialidade).
- C Logo, todo ser senciente deve receber consideração moral plena.
O debate sobre o critério da senciência
- P1 O critério da senciência diz quais seres devem ser considerados, não qual teoria ética adotar.
- P2 Ele não é antropocêntrico, não é reinismo e não reduz o dano ao sofrimento.
- P3 Inclui muitos invertebrados e não implica que valores sejam subjetivos.
- P4 O critério da vida não mostra que seres não sencientes possam ser prejudicados.
- C Logo, as críticas ao critério da senciência têm respostas sólidas.
O dano da morte e as razões contra matar
- P1 A morte priva alguém do que de positivo viveria, entenda ele ou não o que é a morte.
- P2 Isso independe de desejos sobre o futuro, de prazeres intelectuais e da conexão psicológica.
- P3 Substituir um animal por outro não compensa o prejuízo de quem morreu.
- C Logo, matar animais, mesmo sem dor, os prejudica.
Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais
- P1 A posição antropocêntrica quer o ambiente melhor para os humanos; a centrada na senciência, melhor para os sencientes; a ambientalista, em certas configurações mesmo que pior para eles.
- P2 Os programas ambientalistas não visam salvar seres sencientes, sejam maioria ou minoria.
- P3 Equilíbrio e biodiversidade não medem o bem-estar dos animais.
- C Logo, ambientalismo e defesa animal divergem nos fins, não só nos meios.
A situação dos animais selvagens e a proposta de ajudá-los
- P1 As razões para evitar prejuízos dependem da magnitude, e não de a origem ser humana ou natural.
- P2 Os animais na natureza sofrem danos enormes, e a maioria nasce para morrer cedo.
- P3 Mesmo descontando ovos destruídos, o número de vítimas é gigantesco.
- C Logo, a situação dos animais selvagens é tão importante quanto seria se os danos fossem causados por humanos.
O debate sobre a proposta de ajudar os animais selvagens (parte 1)
- P1 As objeções alegam que ajudar seria arrogante, antropocêntrico, paternalista ou contrário à liberdade e à ecologia.
- P2 Muitas são contraditórias ou aplicam aos animais o que nunca aplicariam a humanos.
- P3 Ajudar é o que permite aos animais viver e exercer a liberdade.
- C Logo, essas objeções não justificam deixar de ajudar.
O debate sobre a proposta de ajudar os animais selvagens (parte 2)
- P1 As objeções dizem que só somos responsáveis por práticas humanas, que a proposta é exigente demais ou impraticável.
- P2 A responsabilidade vem de nossas decisões determinarem os resultados, como no caso de médicos e desastres.
- P3 Já se vacina, trata e resgata animais selvagens, e há caminhos em larga escala.
- P4 O que importa é a quantidade real de benefício, não a porcentagem do problema.
- C Logo, essas objeções não justificam deixar de ajudar.
Quais critérios utilizar para ajudar de modo eficiente?
- P1 Os recursos são limitados, então importa onde aplicá-los.
- P2 Gravidade, tratabilidade, negligência e tamanho do benefício orientam a escolha.
- P3 Efeitos de longo prazo podem inverter o que parece melhor no curto prazo.
- P4 Atacar causas, como o especismo, tem grande potencial ao longo do tempo.
- C Logo, esses critérios permitem ajudar de modo mais eficiente.
Quais problemas afetam as maiores quantidades de animais?
- P1 A maioria das campanhas cita 80 bilhões de animais mortos por ano.
- P2 Somando peixes, crustáceos, insetos e outros, são entre 34 e 54 trilhões.
- P3 Os animais sencientes na natureza são estimados entre 1 e 10 quintilhões em um dado momento.
- C Logo, os problemas que afetam mais animais são justamente os menos lembrados.
Conceitos centrais no debate sobre a importância do futuro
- P1 O futuro pode conter sofrimento astronômico (riscos-s), inclusive de não humanos e de seres não biológicos.
- P2 A seriedade de um risco-s é a gravidade multiplicada pela probabilidade.
- P3 O substratismo, como o especismo, pode produzir sofrimento em quantidades astronômicas.
- C Logo, devemos considerar os animais por serem sencientes, e não por serem animais ou seres vivos.
Identificando fatores de risco para os riscos-s
- P1 É difícil prever as consequências de longo prazo de cada decisão.
- P2 Mas fatores de risco aumentam a chance ou a gravidade de riscos-s, mesmo sem determiná-los.
- P3 Entre eles: desconsideração pelos sencientes, progresso tecnológico mais rápido que o moral, polarização e agentes malévolos com poder.
- C Logo, reduzir esses fatores é uma forma viável de prevenir sofrimento futuro.
Estratégias longoprazistas: amplas e direcionadas
- P1 Estratégias amplas têm impacto positivo em muitíssimos cenários, mas menor em cada um.
- P2 Estratégias direcionadas podem ter grande impacto, mas só no cenário que tratam.
- P3 Vieses e excesso de confiança podem distorcer a escolha.
- C Logo, é preciso combinar estratégias, cultivar a humildade e defender metas aceitáveis por muitos.
Mudando o debate público e as instituições políticas
- P1 Uma política disfuncional incentiva a polarização e aumenta o risco de agentes malévolos no poder.
- P2 Pensar em nuances, avaliar argumentos e não pessoas e ser intelectualmente honesto reduzem o tribalismo.
- P3 A democracia protege contra a concentração de poder e garante a liberdade de levantar preocupações éticas.
- C Logo, melhorar o debate e as instituições, mesmo um pouco, reduz muito os riscos de sofrimento futuro.
Debates sobre estratégias de ativismo
- P1 Há vários debates sobre a eficiência das estratégias de ativismo.
- P2 Em cada um, há argumentos razoáveis dos dois lados.
- P3 Muitas vezes a questão é quanto focar em cada estratégia, e não qual usar exclusivamente.
- C Logo, é preciso avaliar as estratégias com cuidado, e talvez distribuir pessoas entre várias delas.
Avaliando diferentes estratégias
- P1 Estratégias diferentes podem ser comparadas por vários metacritérios.
- P2 Resta investigar quais critérios incluir, se é possível um resultado geral e que peso dar a cada um.
- P3 Também é preciso obter dados objetivos para pontuar as estratégias.
- C Logo, a avaliação de estratégias é um campo em aberto, com um roteiro de pesquisa.
Conclusão
- P1 Este volume apresentou um panorama das principais questões da ética animal.
- P2 Muitas questões importantes ficaram de fora por questão de espaço.
- P3 Mesmo assim, ele oferece uma base sólida para entender essas e outras questões.
- C Logo, é um bom ponto de partida para se aprofundar nos outros volumes.