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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 22

Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados

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Os argumentos para priorizar animais domesticados (dívida histórica, grau de dependência) não justificam negar ajuda aos selvagens: a prioridade depende da gravidade e do número de vítimas, e o critério da dependência até favorece os selvagens.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 62 da edição em PDF

22.1. O argumento da dívida histórica

Há uma posição que mantem que temos uma dívida histórica para com os animais domesticados que não temos para com os selvagens, pois são vítimas da exploração, que por sua vez iniciou-se com a domesticação66.

Essa alegação é geralmente mencionada como uma tentativa de manter, ou que é errado ajudar os , ou para negar o dever de ajudá-los. Entretanto, aquela alegação não pode fundamentar essas conclusões, pois se o critério da dívida histórica fizesse sentido, no máximo ajudar os animais domesticados seria prioritário. Tal critério não serviria para negar o dever de ajudar os animais selvagens (muito menos para proibir ajudá-los).

Além disso, mesmo quando utilizado somente como critério de prioridade, o critério da dívida histórica é problemático. Por exemplo, se a prioridade depende do quão grave é a situação das vítimas, então aquelas vítimas em relação às quais não temos uma dívida histórica deveriam ter prioridade toda vez que forem prejudicadas em maior grau se não forem priorizadas.

Priorizar os animais domesticados poderia fazer sentido se, por causa da exploração e domesticação, eles se encontrassem necessariamente em uma condição pior do que a dos animais selvagens. Contudo, como vimos no Capítulo 3, isso é falso. Pensar que sim é desconhecer como é a vida típica dos animais na natureza.

O defensor do critério da dívida histórica poderia objetar que não está a defender que tal critério é relevante por indicar quais animais estão em uma condição pior, e sim relevante em si: “nossas obrigações dependem dos atos passados da humanidade, e não do quão bem ou mal estão os animais que poderíamos ajudar”. Contudo, se é assim, então o critério da dívida histórica é motivado por pureza pessoal, e não por uma preocupação real em melhorar a condição dos indivíduos que se encontram em uma situação ruim.

Além disso, a explicação mais razoável de por que teríamos uma dívida histórica para com os animais domesticados implica que também temos uma dívida histórica para com os animais selvagens. A maneira mais razoável de defender que temos uma dívida histórica para com animais domesticados é o fato de usufruirmos de benefícios que só foram possíveis devido à sua domesticação e exploração. Como resultado dessas atividades, os animais domesticados se encontram hoje em uma situação muitíssimo ruim.

Contudo, se é assim, então temos exatamente a mesma dívida para com os animais selvagens, dado que a imensa maioria dos benefícios que desfrutamos ao longo da história surgiu de intervenções na natureza para favorecer humanos, e o fato de não termos intervido para beneficiar os animais selvagens resultou em eles serem prejudicados enormemente por . Escolhemos deixar os animais selvagens no domínio dos “sujeitados às forças da natureza”: retirá-los dessa categoria poderia ser igualmente visto como uma dívida histórica.

22.2. O argumento do grau de dependência

Em outras vezes é dito que os animais selvagens possuem certa independência que os domesticados não possuem, que os tornaria menos vulneráveis: “eles sabem se virar!”67.

Novamente, mesmo que tal afirmação fosse verdadeira, no máximo conseguiria fundamentar que déssemos prioridade aos animais domesticados. Não serviria para negar a obrigação de ajudar os selvagens, muito menos para proibir ajudá-los.

Além disso, alguém possuir determinado grau de independência indica que normalmente não necessita de ajuda em certas circunstâncias, mas não em todas. Por exemplo, suponhamos que um humano adulto normal (o exemplo mais comumente citado de indivíduo independente) se perca na selva, ou esteja a padecer de câncer. O fato de não necessitar de ajuda em outras situações não implica que não necessite de ajuda nessa situação.

O mesmo acontece no caso dos animais selvagens que possuem algum grau de independência. Há situações (muitas, como vimos no Capítulo 3) em que sua independência de nada adianta

para se verem livres do que lhes prejudica. Além disso (como também vimos no Capítulo 3), a imensa maioria dos animais que sofre intensamente e morre prematuramente na natureza são filhotes e, portanto, não possuem a independência que o argumento supõe.

A ideia de que os animais selvagens são independentes parece surgir do fato de que, como vimos no Capítulo 3, quando a maioria das pessoas pensa em animais na natureza, tende a pensar em animais não representativos da vida padrão na natureza: pensam em animais de grande porte e adultos, que são a imensa minoria dos animais na natureza.

Assim, o critério do grau de dependência, ao contrário do que a objeção supõe, nos daria razões extra para tentarmos investigar maneiras de ajudar os animais selvagens.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que o critério do grau de dependência, bem analisado, sugere?

A prioridade, segundo o capítulo, depende de...

Para pensar

A ideia de "dívida" muda o quanto você se importa com alguém que sofre?

Notas do autor 2
  1. 66 Para exemplos, ver Simmons (2009, p. 32) e Donaldson e Kymlicka (2011, p. 156-209) ↩
  2. 67 Ver, por exemplo, et al. (2003, p. 21) e de (2001, p. 55) ↩
Fontes citadas neste texto 3

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • DONALDSON, S.; KYMLICKA, W. Zoopolis: A Political Theory of Animal Rights. New York City: Oxford University Press, 2011.
  • EVERETT, J. Environmental ethics, animal welfarism, and the problem of predation: a Bambi Lover´s respect for nature. Ethics and Environment, v. 6, n. 1, p. 42-67, 2001.
  • SIMMONS, A. Animals, Predators, the Right to Life and the Duty to Save Lives. Ethics and the Environment, v. 14, n. 1, p. 15-27, 2009.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Ajudar os animais domesticados é prioritário, pois temos uma dívida histórica para com eles por conta da domesticação. Por isso, não devemos ajudar os animais selvagens. (VII, cap. 22).
Mesmo se ajudar os animais domesticados fosse prioritário, isso não fundamentaria negar o dever de ajudar os animais selvagens (muito menos proibir ajudá-los). Além disso, se a prioridade depende do quão grave é a situação das vítimas e do número de vítimas, isso não necessariamente coincide com o critério da dívida histórica. Cada animal selvagem experimenta também sofrimento extremo, e estão em quantidade vastamente maior do que os domesticados. Por fim, também poderia ser argumentado que temos uma dívida histórica para com os animais selvagens, pois os benefícios de que desfrutamos surgiram de intervenções na natureza, e deixamos os animais selvagens sujeitados aos processos naturais.

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