Volume VII · Nível avançado
A ética e a situação dos animais selvagens
Uma análise da questão dos danos naturais
Sobre este volume
Este livro descreve como os processos naturais tipicamente afetam os animais que vivem na natureza, apresenta os fundamentos da proposta de ajudar esses animais e também o debate em torno dessa proposta.
ISBN 978-65-01-49140-0 · 1a edição, Maio de 2025. Texto original de Luciano Carlos Cunha.
Em poucas palavras
A grande maioria dos animais vive na natureza, e a maioria deles nasce para morrer cedo de fome, frio, doença ou predação. O volume defende que temos razões para ajudá-los e responde a mais de trinta objeções, da "arrogância" ao parasitismo, à predação e à destruição da natureza.
Para crianças
Na natureza, a maioria dos filhotes morre logo depois de nascer, com fome ou doentes. Se a gente se importa com os animais, não pode ligar só para os que os humanos machucam: também queremos ajudar os que sofrem por causa da natureza, com cuidado e com ciência.
Você vai aprender
- Como os processos naturais afetam os animais selvagens
- O argumento central para ajudá-los
- As respostas às objeções mais comuns (arrogância, liberdade, paternalismo, ecologia)
- O que já é feito e o que a biologia do bem-estar poderia fazer
Ajuda ter lido: Volumes I, II e V.
Começando do zero?
Cada capítulo tem uma versão simplificada, em linguagem para quem não conhece o tema. Leia a versão simples e depois o texto completo do autor.
- O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza?
- Como não entender a questão
- Como os processos naturais tipicamente afetam os animais selvagens?
- A visão de que não é um problema porque as vítimas são animais não humanos
- Fundamentos da proposta de ajudar vítimas de processos naturais
- A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante?
- A proposta de ajudar os animais selvagens é antropocêntrica?
- Quanto menos influência humana no mundo, melhor?
- Seria a proposta de ajudar os animais selvagens bem-estarista?
- A proposta de ajudar os animais selvagens viola a liberdade deles?
- A acusação de criar dependência
- A acusação de paternalismo
- A objeção de que o sofrimento tem valor instrumental
- A proposta de ajudar os animais vê os humanos como separados da natureza?
- Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?
- Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?
- Respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte?
- Não é absurdo intervir em conflitos entre animais?
- Quais áreas devem responder o que fazer em relação aos animais selvagens?
- Ambientalistas devem se opor à ajuda aos animais selvagens?
- Somos moralmente responsáveis apenas por práticas humanas?
- Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados
- Ajudar os animais impediria que os genes mais adaptados prevalecessem?
- Ajudar os animais selvagens não poderia tornar as coisas ainda piores?
- Objeções que questionam a praticidade da proposta de ajudar
- O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens?
- O que mais poderia ser feito para ajudar: estabelecendo a biologia do bem-estar
- Quais tecnologias poderiam ser usadas para ajudar os animais na natureza?
- Os animais teriam o direito de não serem esterilizados?
- A questão do parasitismo
- A questão da predação
- Discutindo nossa capacidade de avaliar quando viver vale ou não a pena
- O argumento do prolongamento da agonia
- A objeção de que o saldo da situação dos animais na natureza pode ser positivo
- Qual o impacto do veganismo na situação dos animais selvagens?
- O debate sobre a destruição da natureza
- O debate sobre a expansão e restauração da natureza
Capítulos
- 1O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza?2 min
Se realmente nos importamos com os animais, não limitaremos a preocupação aos danos causados por humanos: para o animal, não faz diferença se o mal vem de um humano ou da fome, de doenças e de desastres naturais.
- 2Como não entender a questão2 min
Dizer que os danos naturais não são questão de ética porque ninguém pode responsabilizar a natureza é um engano: a pergunta é sobre o que nós devemos fazer; até dizer que ajudar é opcional já é uma resposta ética.
- 3Como os processos naturais tipicamente afetam os animais selvagens?6 min
Na natureza, fome, doenças, parasitas, frio e predação são a regra; a maioria das espécies tem ninhadas enormes das quais quase todos morrem logo após nascer. O número de vítimas faz até a exploração parecer pequena.
- 4A visão de que não é um problema porque as vítimas são animais não humanos4 min
A ideia de que o sofrimento dos animais selvagens só importa se afetar humanos ou metas ambientalistas é especista: o que explica por que o bem dos humanos importa por si implica que o de qualquer ser senciente também importa, e na mesma medida.
- 5Fundamentos da proposta de ajudar vítimas de processos naturais3 min
Três argumentos fundamentam a ajuda: o da existência das razões (o dano é ruim seja qual for a origem), o da força das razões (que depende da magnitude) e o do peso do critério (mesmo dando mais peso a danos humanos, a escala dos naturais ainda daria razões fortes).
- 6A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante?2 min
A acusação de "brincar de deus" não se sustenta: aceitamos muitas intervenções na natureza para beneficiar humanos ou alcançar metas ambientalistas; quem a faz não é contra intervir, mas contra beneficiar os animais.
- 7A proposta de ajudar os animais selvagens é antropocêntrica?1 min
A proposta de ajudar os animais selvagens não é antropocêntrica: ser proposta por humanos não a torna centrada em humanos; os animais não têm interesse em ter o sofrimento maximizado para que a natureza siga o seu curso.
- 8Quanto menos influência humana no mundo, melhor?3 min
"Quanto menos influência humana, melhor" não se sustenta: se o motivo é o bem dos animais, deve-se avaliar caso a caso; se é reduzir a influência mesmo quando pior para eles, falta mostrar por que a influência seria errada em si.
- 9Seria a proposta de ajudar os animais selvagens bem-estarista?4 min
Chamar a proposta de ajudar os animais selvagens de "bem-estarista" é confundir preocupação com o bem-estar com regulamentação da exploração; seja qual for a posição sobre regulamentar, isso não impede aceitar a proposta.
- 10A proposta de ajudar os animais selvagens viola a liberdade deles?4 min
Ajudar os animais selvagens não viola a sua liberdade: é a condição para que possam exercê-la, pois precisam estar vivos e livres de sofrimento extremo; restringir em certo momento (para vacinar) pode garantir a liberdade depois.
- 11A acusação de criar dependência2 min
A acusação de que ajudar criaria dependência não se aplica à maioria das intervenções (que reduzem nascimentos), não tira habilidades que os animais já têm e, mesmo que criasse dependência, ainda seria melhor do que sofrer mais e morrer logo.
- 12A acusação de paternalismo3 min
Ajudar só seria paternalista se os animais preferissem não ser ajudados em fome, doença ou incêndio, o que não é o caso; e, mesmo que fosse paternalismo, seria do tipo justificado, como o que aplicamos a crianças.
- 13A objeção de que o sofrimento tem valor instrumental1 min
O sofrimento só tem valor instrumental quando ajuda o indivíduo a aumentar o seu bem-estar, o que não ocorre com a maioria dos animais selvagens; e, mesmo quando tem, é melhor obter o benefício sem sofrimento, como com anestesia.
- 14A proposta de ajudar os animais vê os humanos como separados da natureza?3 min
É a ideia de que os humanos não devem intervir na natureza que os vê como separados dela; se somos parte da natureza, nossas ações também são naturais, e ninguém aceita para si a tese de não se proteger de processos naturais.
- 15Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?2 min
O sofrimento natural não é neutro só porque a natureza não é má nem responsabilizável: o que gera razões para evitá-lo é o seu teor negativo para quem sofre, como no caso de uma criança que machuca alguém sem culpa.
- 16Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?3 min
A natureza ser indiferente ao sofrimento não justifica que sejamos indiferentes: os ecossistemas também são indiferentes ao sofrimento humano; tomar a natureza como modelo é saltar de como as coisas são para como deveriam ser.
- 17Respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte?3 min
A ideia de que respeitar a "natureza" de cada animal exige largar os selvagens à própria sorte não passa no teste da imparcialidade: se respeitar é beneficiar, largá-los os prejudica; se não é, falta razão para valer mais que evitar o dano.
- 18Não é absurdo intervir em conflitos entre animais?4 min
Intervir em conflitos entre animais não é absurdo: já intervimos na predação em larga escala para proteger humanos, animais explorados e metas ambientais; a questão é se e como fazê-lo pelo bem dos animais, sem piorar a situação.
- 19Quais áreas devem responder o que fazer em relação aos animais selvagens?5 min
Descrever os ecossistemas é tarefa da ecologia; decidir quais metas buscar (o bem dos sencientes ou valores ambientalistas) é tarefa da ética. Quem diz "só aplicar a ecologia" disfarça uma posição moral de descrição neutra.
- 20Ambientalistas devem se opor à ajuda aos animais selvagens?6 min
Na maioria dos casos, ajudar os animais selvagens não conflita com metas ambientalistas, e algumas ajudas realizam ambas; quando há conflito, há razões para priorizar os sencientes, como os próprios ambientalistas já fazem no caso humano.
- 21Somos moralmente responsáveis apenas por práticas humanas?10 min
Não somos responsáveis só por danos causados por humanos: a responsabilidade moral recai sobre decisões que determinam resultados, e as desculpas ("não causamos", "existiriam sem nós", "não temos intenção", "não somos próximos") não se sustentam.
- 22Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados4 min
Os argumentos para priorizar animais domesticados (dívida histórica, grau de dependência) não justificam negar ajuda aos selvagens: a prioridade depende da gravidade e do número de vítimas, e o critério da dependência até favorece os selvagens.
- 23Ajudar os animais impediria que os genes mais adaptados prevalecessem?4 min
Não ajudar para que "os genes mais adaptados prevaleçam" é rejeitável: genes eficientes em se transmitir não beneficiam necessariamente os indivíduos, várias ajudas não interferem nisso, e o mesmo raciocínio aplicado a humanos seria hediondo.
- 24Ajudar os animais selvagens não poderia tornar as coisas ainda piores?6 min
O receio de piorar as coisas e o apelo ao equilíbrio ecológico não justificam não ajudar: se não podemos prever o longo prazo, também não sabemos que não ajudar é melhor; a resposta é pesquisar mais, e o equilíbrio pode coexistir com muito sofrimento.
- 25Objeções que questionam a praticidade da proposta de ajudar4 min
Não poder ajudar todos não é razão para não ajudar nenhum, e o que importa é a quantidade real de benefício, não a porcentagem do problema resolvida; por isso, focar nos animais selvagens pode ser muito eficiente.
- 26O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens?4 min
Ajudar os animais selvagens já acontece: há vacinação (como contra a raiva), tratamento de doenças (probióticos contra a sarna e a síndrome do nariz branco), resgates em desastres e cuidado de órfãos; muito mais poderia ser feito.
- 27O que mais poderia ser feito para ajudar: estabelecendo a biologia do bem-estar7 min
A biologia do bem-estar seria um campo interdisciplinar dedicado a estudar os animais selvagens como indivíduos sencientes, e não só como exemplares de espécies; obstáculos ideológicos, sobretudo o especismo, impedem o seu desenvolvimento.
- 28Quais tecnologias poderiam ser usadas para ajudar os animais na natureza?2 min
Tecnologias como identificação individual de insetos, modelagem de populações, imagem térmica, drones e análise de dados podem ajudar a entender e melhorar o bem-estar dos animais na natureza, e seu uso se expandirá com mais conscientização.
- 29Os animais teriam o direito de não serem esterilizados?10 min
A objeção de que os animais têm direito de não ser esterilizados falha: há outras formas de ajuda, respeitar esse suposto direito causaria muito mais sofrimento a terceiros, e a esterilização de cães e gatos já é amplamente aceita por defensores dos animais.
- 30A questão do parasitismo3 min
É falso que a proposta de prevenir danos naturais proibiria tratar o parasitismo: parasitas não sencientes não são prejudicados pela morte, a vida de muitos sencientes não seria significativa, e prevenir novos casos não equivale a matar.
- 31A questão da predação20 min
O capítulo examina os argumentos sobre a predação e conclui que há boas razões para diminuí-la no mundo, desde que isso não traga consequências piores, e que certas intervenções, como reduzir a produtividade primária, provavelmente teriam saldo positivo.
- 32Discutindo nossa capacidade de avaliar quando viver vale ou não a pena4 min
Dizer que não podemos avaliar quando uma vida vale a pena não justifica não intervir: há casos claros (sofrimento extremo e morte quase imediata), não ajudar também pressupõe avaliações, e melhorar vidas existentes é compatível com prevenir nascimentos.
- 33O argumento do prolongamento da agonia3 min
O argumento do "prolongamento da agonia" falha: ajudar costuma reduzir o sofrimento e prolongar a vida ao mesmo tempo, pois o que causa sofrimento geralmente também causa a morte; e muitas intervenções apenas previnem nascimentos.
- 34A objeção de que o saldo da situação dos animais na natureza pode ser positivo4 min
Mesmo que o saldo da vida na natureza fosse positivo (o prazer de poucos superando o sofrimento de muitos), as razões para reduzir o sofrimento não diminuiriam; e, mesmo para quem só olha o saldo, ajudar quem está pior é o modo mais eficiente de aumentá-lo.
- 35Qual o impacto do veganismo na situação dos animais selvagens?5 min
Prevenir danos naturais não implica rejeitar o veganismo: ele reduz as vítimas da exploração e da agricultura (danos de primeiro grau), e o seu maior potencial está no ideal de consideração por todos os sencientes que ajuda a divulgar.
- 36O debate sobre a destruição da natureza11 min
O capítulo simula o debate, entre os próprios defensores dos animais selvagens, sobre a "matança altruísta" (destruir habitats para reduzir o sofrimento), com argumentos, réplicas e tréplicas, e discute de quem é o ônus da prova.
- 37O debate sobre a expansão e restauração da natureza12 min
Expandir ou restaurar a natureza tende a aumentar o número de animais que nascem para sofrer; as justificativas (gerações futuras, valores ambientais, aceitação, extinção humana) não bastam, e há formas de enfrentar a crise climática sem criar novos habitats.