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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 16

Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?

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Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

A natureza ser indiferente ao sofrimento não justifica que sejamos indiferentes: os ecossistemas também são indiferentes ao sofrimento humano; tomar a natureza como modelo é saltar de como as coisas são para como deveriam ser.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 41 da edição em PDF

A natureza é indiferente ao sofrimento e morte dos animais. Os ecossistemas surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao destino dos animais. Há pessoas que acreditam que esse fato mostra que não devemos ajudar os animais que são vítimas dos . Por exemplo, o filósofo J. Baird mantém que a proposta de ajudar os animais deveria ser rejeitada porque envolve não aceitar que sofrimento e morte fazem parte da vida: "é uma visão que nega o modo como as coisas são e sempre foram"30.

Mas, será mesmo que os proponentes de ajudar os animais vítimas dos danos naturais não aceitam que sofrimento e morte fazem parte da vida? Ora, nenhum desses proponentes nega que na vida haja grandes quantidades de sofrimento e de mortes; que isso é assim desde tempos imemoriais; e que a natureza é indiferente ao sofrimento e às mortes (seja lá de quem for, incluindo de humanos). O que eles mantêm é que esse fato não nos diz nada sobre se devemos ou não minimizar os danos naturais. Se negassem que sofrimento e morte fazem parte da vida, não poderiam prescrever minimizar os danos naturais, uma vez que negariam que tais danos existem.

É possível, contudo, que o que a objeção queira dizer é que os proponentes de ajudar os animais não aceitam que sofrimento e morte devem fazer parte da vida. Nesse caso, a acusação pode ser verdadeira. Mas não é uma verdade óbvia que sofrimento e morte devem fazer parte da vida. Por exemplo, consideramos justificado evitar nosso próprio sofrimento e morte, mesmo sabendo que tais coisas fazem parte da vida, que a natureza é indiferente a isso, e que os ecossistemas surgem, perduram e desaparecem independentemente disso.

A objeção teria de apresentar outro argumento para defender que sofrimento e morte devem fazer parte da vida, pois simplesmente afirmar que tais coisas fazem parte da vida não fornece essa justificativa, uma vez que o fato de uma coisa acontecer não implica que seja boa, justa, desejável ou sequer que seja aceitável. Ou seja, a objeção comete o erro de assumir que, porque algo é, então necessariamente ele deve ser. Além disso, se tudo o que acontecesse estivesse justificado, não se poderia objetar a coisa alguma, incluindo intervir na natureza para ajudar os animais. Portanto, além disso, esse argumento é autorrefutante.

Poderia ser objetado que a tese "se algo faz parte da vida, não deve ser evitado" só deveria valer para o caso dos danos naturais. Mas, novamente, teria de ser explicado por que o fato de danos naturais acontecerem na vida implica que não devemos preveni-los, e o fato de danos antropogênicos acontecerem na vida não implica a mesma coisa. O que essa objeção faz é simplesmente assumir essa tese sem explicar. Mas, é exatamente isso o que a objeção se propõe a explicar. A objeção diz que não devemos prevenir os danos naturais porque eles acontecem na vida, mas diante da constatação de que danos antropogênicos também acontecem na vida, a objeção diz que nesse caso é diferente, pois os danos em questão não são naturais. Mas, então podemos perguntar novamente "por que não devemos prevenir os danos naturais?", e assim infinitamente. Portanto, a objeção comete a falácia da petição de princípio.

Sendo assim, o fato de o sofrimento natural fazer parte da vida não implica que não devamos preveni-lo.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Que salto injustificado a objeção comete?

A natureza ser indiferente ao sofrimento humano nos leva a ser indiferentes a ele?

Para pensar

Por que a indiferença de algo que não pensa deveria servir de modelo para quem pensa?

Notas do autor 1
  1. 30 Ver Callicott (1980, p. 333-6) ↩
Fontes citadas neste texto 1

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • CALLICOTT, J. B. Animal Liberation: A Triangular Affair. Environmental Ethics, v. 2, n. 4, p. 311-338, 1980.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Não devemos minimizar danos naturais porque essa questão está fora do escopo da ética, uma vez que nem os processos naturais nem os animais são responsabilizáveis. (VII, cap. 2, 15, 16).
É contraditório afirmar que a questão dos danos naturais está fora do escopo da ética e depois dizer que não devemos minimizar esses danos. Além disso, o fato de os processos naturais e os animais não serem responsabilizáveis é irrelevante, uma vez que quem tem que decidir somos nós, não eles. Quando humanos são as vítimas em situações similares, não é dito que não devemos socorrer as vítimas só porque os processos naturais e os animais não são responsabilizáveis.
A natureza não é boa nem má. Os processos naturais não são agentes imputáveis. Portanto, não temos razões para ajudar. (VII, cap. 2, 15, 16).
É verdade que os processos naturais não são agentes imputáveis. Mas, isso não faz com que não tenhamos razões para prevenir e minimizar os efeitos negativos que decorrem dos processos naturais (isso já é amplamente aceito quando os humanos são vítimas dos processos naturais). A responsabilidade moral recai sobre nós, em ter que decidir ajudar ou não ajudar.
A natureza é indiferente ao sofrimento dos animais. Ecossistemas surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao sofrimento e morte dos animais. (VII, cap. 2, 15, 16).
Sim, mas isso não justifica que nós também o sejamos. Os ecossistemas também surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao sofrimento humano, mas isso não justifica sermos indiferentes ao sofrimento. A objeção em questão assume que o modo como acontecem os fenômenos naturais deveria ser um modelo do que deveríamos fazer. Ao fazer isso, ela dá um salto injustificado, de descrever como as coisas são, para prescrever como deveriam (moralmente) ser.

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