Questão
de Ética
EN

Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 17

Respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte?

3 min de leituraNível avançado2 notas2 fontes

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

A ideia de que respeitar a "natureza" de cada animal exige largar os selvagens à própria sorte não passa no teste da imparcialidade: se respeitar é beneficiar, largá-los os prejudica; se não é, falta razão para valer mais que evitar o dano.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 43 da edição em PDF

Existe uma posição que defende que cada indivíduo deveria ser tratado de acordo com o que realiza a sua natureza, e que esta é determinada pelo território ao qual cada indivíduo pertence31. Segundo essa posição a natureza dos membros do território doméstico é realizada com uma vida longa e livre de sofrimento, e a dos membros do território selvagem é realizada se forem largados à própria sorte em um ambiente hostil. Essa visão tem sido utilizada como uma objeção à proposta de ajudar os que estão na natureza e são vítimas de .

De acordo com essa visão, o que devemos fazer depende do território ao qual cada indivíduo pertence (e não, de onde se encontra). Por exemplo, se um humano ou um cão se perdem em uma floresta e estão a morrer de fome, essa visão defende ajudá-los e depois devolvê-los ao território doméstico. Por outro lado, se um animal selvagem estiver tendo uma vida positiva no território doméstico, essa posição defenderá devolvê-lo ao território selvagem, mesmo que isso faça ele ter uma vida repleta de sofrimento e uma morte prematura.

Uma possível crítica a essa visão consiste em apontar que ela escolhe tendenciosamente o que conta como a natureza dos seres de cada território32. Por exemplo, poderia ser dito que a nossa natureza vulnerável a doenças é realizada quando não nos medicamos por meio de artifícios criados por nós. Também poderia ser dito que a natureza dos animais selvagens, assim como a dos humanos e a dos animais domesticados, também é , e é realizada quando está livre de sofrimento. Em resumo, a posição em questão é completamente tendenciosa a favor dos membros do território doméstico e contra os membros do território selvagem.

Não parece ser nenhuma coincidência que os proponentes da visão em questão pertencem todos ao território doméstico: essa visão jamais seria aceita se não soubéssemos a que território pertencemos. Se é assim, então ela não passa no teste da imparcialidade, sendo, portanto, injusta.

Há uma razão adicional para rejeitarmos essa visão. Quando ouvimos falar em "realizar a natureza de cada ser", nossa tendência é pensar em algo que beneficia os seres em questão.

Mas, como vimos, o que a visão que estamos a discutir defende é realizar a natureza dos animais selvagens largando-os à própria sorte, mesmo que isso resulte em eles sofrerem enormemente e morrerem. Assim, outra crítica possível a essa visão consiste em apontar que ela é baseada na ideia de que a ação correta deve ser determinada com total independência do que prejudica ou beneficia os afetados por nossas decisões. Então, se o modo como afetamos positiva ou negativamente os atingidos por nossas decisões é o que importa, devemos rejeitar a ideia de que o certo é realizar a natureza de cada ser se isso for prejudicá-los.

Em resumo, temos de perguntar o seguinte: por que devemos respeitar a natureza de alguém? Se a resposta for "porque fazê-lo o beneficiaria", então é falso que respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte, pois isso provavelmente os prejudicaria. Por outro lado, se a resposta for "porque sim, mesmo quando isso os prejudicaria", então não se está a dar nenhuma razão para explicar por que respeitar a natureza de alguém seria mais importante do que evitar prejudicá-lo.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual pergunta o capítulo propõe fazer?

Por que a posição falha no teste da imparcialidade?

Para pensar

O que você entende por "a natureza" de um animal? Essa ideia o protege ou o prejudica?

Notas do autor 2
  1. 31 Ver, por exemplo, (2001, p. 65). ↩
  2. 32 Para uma crítica detalhada ao critério do território, ver (2022, p. 110-124). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
  • EVERETT, J. Environmental ethics, animal welfarism, and the problem of predation: a Bambi Lover´s respect for nature. Ethics and Environment, v. 6, n. 1, p. 42-67, 2001.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Devemos respeitar a natureza dos animais selvagens, e isso requer largá-los à própria sorte. (VII, cap. 17).
Temos de perguntar: por que devemos respeitar a natureza de alguém? Se a resposta for "porque fazê-lo o beneficiaria", então é falso que respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte, pois isso provavelmente os prejudicaria. Por outro lado, se a resposta for "porque sim, mesmo quando isso os prejudicaria", então não se está a dar nenhuma razão para explicar por que respeitar a natureza de alguém seria mais importante do que evitar prejudicá-lo.

Textos recomendados

Continue no tema A ética e a situação dos animais selvagens.

Navegue pelos diferentes temas