Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 19
Quais áreas devem responder o que fazer em relação aos animais selvagens?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Descrever os ecossistemas é tarefa da ecologia; decidir quais metas buscar (o bem dos sencientes ou valores ambientalistas) é tarefa da ética. Quem diz "só aplicar a ecologia" disfarça uma posição moral de descrição neutra.
A ciência explica como as coisas funcionam, mas não diz o que a gente deve querer. Dizer "a ecologia manda deixar assim" é esconder uma opinião sobre o que é certo dentro de uma explicação científica.
A engenharia explica como fazer uma ponte; decidir onde construir, e para quem, é outra pergunta. Ninguém diria que a engenharia "decidiu" quem a ponte vai beneficiar.
- P1 Descrever o que acontece nos ecossistemas é tarefa da ecologia.
- P2 Quais metas buscar é uma questão ética, que nenhuma ciência descritiva responde.
- P3 O conhecimento ecológico pode ser usado para metas ambientalistas ou para o bem dos animais.
- C Logo, dizer que a ecologia prescreve não ajudar os animais é disfarçar uma posição moral.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Isso é assunto de ecologia, não de ética.”
Resposta A ecologia descreve; não diz se devemos valorizar espécies ou o bem dos animais. Essa escolha é ética, e quem nega isso já fez uma escolha ética.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 48 da edição em PDF
Os proponentes de ajudar os animais que vivem na natureza por vezes são acusados de pensarem que uma questão é da área da ética, quando na verdade seria da área da ecologia: "estão fazendo julgamentos de valor onde tais julgamentos não cabem: precisam de noções básicas de ecologia". Fará sentido essa crítica? É o que discutiremos neste capítulo.
Descrever o que acontece nos ecossistemas naturais é uma tarefa para a ecologia. Entretanto, os proponentes de ajudar os reconhecem isso, e se baseiam justamente nesses conhecimentos para terem uma ideia da quantidade de sofrimento e de mortes que existe na natureza e de como se dão as interações nos ecossistemas para, em seguida, com base em princípios éticos, prescreverem o que deve ser feito com relação a isso. Assim, não faz sentido sugerir aos proponentes de ajudar os animais na natureza estudarem ecologia, pois é exatamente isso que também estão a fazer. A proposta da criação do campo da biologia do bem-estar42 (que veremos em mais detalhes no Capítulo 27) é um bom exemplo disso.
Descrever o que acontece nos ecossistemas naturais é uma tarefa para a ecologia. Entretanto, investigar quais coisas possuem e quais possuem valor apenas enquanto recurso é uma questão para a teoria do valor. Fundamentar quais metas deveríamos buscar é uma questão para a área da ética. São essas duas áreas que nos proporcionarão as ferramentas para refletirmos sobre se o que deveríamos buscar garantir é o bem dos seres ou se entidades não sencientes, como espécies e ecossistemas, possuem valor em si e, caso tenham, como pesar isso em relação ao bem dos seres sencientes43. Esse é um debate sobre o que tem valor e sobre o que deveríamos fazer. Nenhuma ciência descritiva tem a resposta para essas questões. Portanto, quem comete o erro de tratar uma questão de uma área como se fosse de outra é quem pensa que áreas descritivas fundamentam o que devemos valorizar e como devemos agir.
Além disso, não são apenas os proponentes de ajudar os animais na natureza que estão a fazer juízos morais em relação ao que acontece nos ecossistemas. Dizer "não devemos ajudar os
animais que vivem na natureza" é também um julgamento moral44. O mesmo acontece quando alguém defende que nossas metas deveriam ser garantir a e o , e não, diminuir o sofrimento dos seres sencientes. Uma razão pela qual tal posição normalmente não é percebida como envolvendo julgamentos morais é o fato de por vezes ela ser defendida por cientistas. O discurso dos cientistas é recebido pelo público como uma descrição objetiva dos fatos e moralmente neutra. Entretanto, como vimos, muitas vezes contém premissas normativas e valorativas ocultas.
Algumas vezes um juízo moral é intencionalmente disfarçado como descrição, para parecer neutro, pois isso aumenta as chances de ser aceito. Desse modo, os ouvintes incorporam sem perceber todo um conjunto de valores e regras, pensando que estão simplesmente a ouvir descrições, e reproduzem esse ciclo quando falam sobre o tema. Isso é algo que acontece, por vezes, por parte dos próprios profissionais e estudantes de áreas científicas. Uma razão pela qual isso acontece é que frequentemente não há disciplinas sobre ética em cursos de áreas científicas, e então os estudantes não distinguem claramente os domínios descritivo, valorativo e normativo. Além disso, em vários desses cursos geralmente os valores ou antropocêntricos são transmitidos aos estudantes de maneira não explícita, e portanto, não é feita nenhuma discussão sobre se são plausíveis ou não.
A presença dos valores ambientalistas entre os profissionais das ciências da vida pode dar a entender que quem defende que o bem de cada ser senciente importa em si carece do conhecimento científico apropriado. Mas isso é uma ilusão, que se deve, em parte, à confusão entre os termos “ecologia” e “ambientalismo”. O ambientalismo é a ideia de que determinadas entidades não sencientes (como espécies ou ecossistemas) devem receber direta (isto é, que importam por si, e não enquanto meio para garantir o bem dos seres sencientes), e que elas importam mais do que o bem dos seres sencientes. Já a ecologia é a ciência que descreve como acontecem as interações nos ecossistemas. Os defensores dos animais defendem uma concepção ética completamente diferente daquela defendida pelo ambientalismo. Entretanto, não rejeitam o conhecimento em ecologia (aliás, dependem de tal conhecimento para conseguir ajudar os animais selvagens de modo seguro).
A ciência descreve o mundo físico. Precisamos dessas descrições para tentar alcançar as metas que buscamos. Entretanto, como a ciência apenas descreve, ela não diz quais metas buscar nem quais coisas valorizar. As áreas que podem nos dizer algo sobre isso são a teoria do valor e a ética. Assim sendo, a ecologia jamais prescreveria que devemos valorizar espécies, ecossistemas, a biodiversidade ou qualquer outra coisa, simplesmente porque ela apenas descreve como se dão as interações nos ecossistemas – ela não é sobre quais coisas valorizar nem sobre quais metas buscar: ela não prescreve nada. As pessoas que afirmam que são contrárias a ajudar os animais selvagens e afirmam que com isso estão "apenas aplicando o que a ecologia manda" estão na verdade escondendo que estão a defender uma posição moral chamada ambientalismo, e disfarçando essa posição moral de descrição neutra.
Dada a predominância do , o conhecimento proveniente de áreas como a ecologia tem sido geralmente empregues com vistas a realizar metas antropocêntricas ou ambientalistas. Entretanto, uma perspectiva centrada na preocupação com os seres sencientes não impede nem diminui, de modo algum, o conhecimento nessas áreas. A única diferença seria que tais conhecimentos seriam utilizados para beneficiar os animais, e não para prejudicá-los. Além disso, a preocupação com os animais poderia até mesmo ampliar bastante tais conhecimentos, pois o interesse em saber como eles são afetados enquanto indivíduos que possuem um bem-estar (e não enquanto componentes de ecossistemas e exemplares de espécies) é algo ainda amplamente negligenciado. Voltaremos a esse tema no Capítulo 27.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual área deve responder quais metas buscar em relação aos animais selvagens?
Por que o conhecimento ecológico tem sido usado sobretudo para metas antropocêntricas ou ambientalistas?
Para pensar
Que decisões "científicas" que você conhece escondiam uma escolha de valores?
Notas do autor 3
Fontes citadas neste texto 2
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge - Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.
- ÉTICA ANIMAL. Biologia do bem-estar. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 8 jul. 2019b.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Essa é uma questão para a ecologia responder, não para a ética. Se aplicarmos o que diz a ecologia, valorizaremos espécies, ecossistemas e o equilíbrio natural, e não essa busca por evitar sofrimento e mortes de seres sencientes. (VII, cap. 19).
Essa proposta não pode ser cientificamente bem informada. (VII, cap. 19, 27).
Textos recomendados
Continue no tema A ética e a situação dos animais selvagens.
Ambientalistas devem se opor à ajuda aos animais selvagens?
Na maioria dos casos, ajudar os animais selvagens não conflita com metas ambientalistas, e algumas ajudas…
Somos moralmente responsáveis apenas por práticas humanas?
Não somos responsáveis só por danos causados por humanos: a responsabilidade moral recai sobre decisões…
Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados
Os argumentos para priorizar animais domesticados (dívida histórica, grau de dependência) não justificam…