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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 20

Ambientalistas devem se opor à ajuda aos animais selvagens?

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Na maioria dos casos, ajudar os animais selvagens não conflita com metas ambientalistas, e algumas ajudas realizam ambas; quando há conflito, há razões para priorizar os sencientes, como os próprios ambientalistas já fazem no caso humano.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 51 da edição em PDF

20.1. Introdução

O respeito pelos animais e o ambientalismo possuem fundamentos e metas muito divergentes entre si45. Os valorizam em si entidades não , como espécies e ecossistemas. Enquanto isso, o respeito pelos animais é fundado na consideração por indivíduos sencientes, capazes de sofrer e desfrutar46. Por conta dessa divergência, poder-se-ia pensar que, uma vez que alguém aceita as metas ambientalistas, precisa discordar da proposta de ajudar os animais que vivem na natureza, uma vez que a mesma é centrada na preocupação com o bem dos indivíduos.

Essa visão é equivocada por três razões:

(1) Há algumas formas de ajudar os que ajudariam a alcançar também metas ambientalistas.

(2) Há muitas formas de ajudar os animais na natureza que, apesar de não ajudarem a alcançar metas ambientalistas, não conflitariam com metas ambientalistas.

(3) Mesmo em relação às formas de ajudar que conflitariam com metas ambientalistas, há razões para se defender uma prioridade de prevenir sofrimento e mortes de seres sencientes frente a essas metas (e isso vale mesmo que devêssemos aceitar as metas ambientalistas).

A seguir veremos em detalhes cada um desses pontos.

20.2. Formas de ajudar os animais que também realizariam metas ambientalistas

Existem programas de ajuda a animais selvagens que poderiam ajudar a realizar, tanto a meta de diminuição do sofrimento e mortes dos animais, quanto as metas ambientalistas. Um exemplo é a vacinação de abelhas47. De um ponto de vista ambientalista, vaciná-las é bom

porque reduz o risco de extinção de espécies de abelhas. Já defensores dos animais têm razões para aprovar esses programas porque a vacinação é positiva para as próprias abelhas, impedindo que fiquem doentes e morram.

Outro exemplo é a proteção de grandes herbívoros. Ambientalistas têm razões para protegê-los porque há várias espécies deles em risco de extinção. Já defensores dos animais têm duas fortes razões para apoiar esse tipo de programa. A primeira é que diminuem o sofrimento e as mortes dos próprios grandes herbívoros, que são então vacinados, medicados, recebem água, comida, abrigo etc.48 A segunda, e mais importante, é que esses animais consomem uma grande quantidade de vegetação que, se estivesse disponível, contribuiria para haver uma maior quantidade de reproduções naquelas espécies de animais cuja vasta maioria nasce apenas para sofrer e morrer prematuramente49. Em resumo, proteger grandes herbívoros pode diminuir muito o total de animais que nasceria apenas para sofrer e morrer prematuramente.

É claro, essa é uma medida que deve ser investigada em profundidade, pois em cada população de grandes herbívoros poderia haver algum outro fator que fizesse com que sua presença incrementasse o sofrimento dos outros animais de alguma outra maneira. Entretanto, o objetivo aqui é apenas mostrar alguns exemplos de ajuda a animais selvagens que tanto defensores dos animais quanto ambientalistas poderiam apoiar, ainda que por razões distintas.

20.3. Formas de ajudar os animais que não conflitam com metas ambientalistas

A proposta de ajudar os animais selvagens e as metas ambientalistas não conflitariam talvez na vasta maioria dos casos. Por exemplo, as diferentes posições ambientalistas quanto a quais entidades são moralmente consideráveis (, e naturocentrismo) não têm nenhuma razão para se opor à grande maioria dos programas para ajudar os animais selvagens50. A seguir veremos isso em mais detalhes.

O ecocentrismo51 valoriza determinados ecossistemas (por serem muito complexos, muito raros, terem se formado há muito tempo etc.). A maioria dos programas para ajudar os

animais que se encontram na natureza não extinguiria esses ecossistemas nem alteraria as suas propriedades que são valorizadas pelos ecocentristas: apenas faria com que houvesse menos sofrimento e mortes prematuras para seus habitantes.

Já o biocentrismo52 valoriza o que chama de "bem próprio" de cada organismo vivo, senciente ou não. Isto é, o que o biocentrismo almeja não é maximizar a quantidade de seres vivos, mas que cada ser vivo existente consiga realizar o seu bem próprio. O biocentrismo tem de aceitar ainda mais intervenções do que têm de aceitar os proponentes de uma ética centrada na senciência, pois precisa buscar garantir o bem dos seres sencientes e, adicionalmente, proteger também os organismos não sencientes.

Por fim, o naturocentrismo53 valoriza apenas os ecossistemas que ainda não foram (ou foram muito pouco) alterados por atividades humanas. Dadas as mudanças climáticas decorrentes de práticas humanas, com exceção de talvez alguns ecossistemas nas profundezas do oceano, todos os ecossistemas foram já bastante alterados por práticas humanas. Portanto, o naturocentrismo teria que aceitar ajudar os animais em todos esses ecossistemas.

É claro, o que foi dito acima não significa que toda e qualquer posição ambientalista jamais conflitaria com a proposta de ajudar os animais selvagens. Por exemplo, poderia haver uma variação do naturocentrismo conforme à qual os ecossistemas que já foram transformados por ação humana continuariam tendo valor, mas teriam menos valor quanto mais interferência humana já tivesse acontecido. Segundo tal posição, deveríamos buscar preservar o valor que resta, proibindo novas intervenções, ou até mesmo restaurar o ecossistema ao estado anterior à primeira intervenção humana. Essa variação se oporia, portanto, aos programas para ajudar os animais selvagens.

Entretanto, o fato de a proposta de ajudar os animais selvagens conflitar com metas ambientalistas em certos casos não significa que devamos rejeitar ajudar os animais nesses casos, pois pode haver razões para priorizar o bem dos seres sencientes frente às metas ambientalistas. Isso será explicado em mais detalhes no próximo item.

20.4. Razões para priorizar os seres sencientes frente às metas ambientalistas

Por vezes tenta-se argumentar contra a proposta de ajudar os animais selvagens alegando-se que entidades não sencientes como espécies e ecossistemas possuem valor em si (e não enquanto meio para garantir o bem dos seres sencientes). A ideia de que há valor para além da senciência é, no mínimo, controversa. Entretanto, suponhamos para efeito de argumentação que devêssemos acatar as metas ambientalistas. Isso não implicaria que, então, devemos rejeitar a proposta de ajudar os animais selvagens. Isso porque, mesmo que fosse demonstrado que as entidades valorizadas no ambientalismo têm , isso não mostraria que elas são mais importantes do que o bem dos seres sencientes, e muito menos que são a única coisa que importa. A seguir veremos esses pontos em mais detalhes.

Se o que é relevante para alguém ser moralmente considerável é ser capaz de ser prejudicado ou beneficiado, então devemos dar a todos os seres sencientes, pois a senciência é o que faz com que alguém seja passível de ser prejudicado ou beneficiado, como vimos no Capítulo 4. Por essa razão, a visão ambientalista de que entidades não sencientes são moralmente consideráveis já é difícil de ser fundamentada, e mais ainda a ideia de que os seres sencientes não são moralmente consideráveis, ou de que essas entidades são mais importantes do que o bem dos seres sencientes.

Por exemplo, mesmo que acatássemos as metas ambientalistas ainda haveria razões para, em casos de conflito, priorizar os seres sencientes. Uma dessas razões é que, diferentemente das entidades valorizadas no ambientalismo, os seres sencientes são literalmente passíveis de ser prejudicados e beneficiados, seja com experiências negativas (todas as formas de sofrimento), seja com o impedimento de experiências positivas (como acontece quando morrem). Essas formas de prejuízo são particularmente graves (basta ver o quanto nos empenhamos em evitá-las em nós mesmos), e nenhuma entidade não senciente é capaz de padecer de tais prejuízos.

Quando o que está em jogo é o bem dos humanos, isso já é amplamente aceito, inclusive pelos próprios ambientalistas. Geralmente defendem que as metas ambientalistas são mais importantes do que certos interesses humanos (como interesses econômicos e recreativos), mas, não afirmam que devemos largar os humanos para sofrer e morrer por conta de . Mas, se o especismo é injustificável, então também não há justificativa para defender que não devemos ajudar os animais que são vítimas de processos naturais.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Que exemplo de ajuda que também realiza metas ambientalistas o capítulo dá?

O que os ambientalistas já aceitam no caso humano?

Para pensar

Que causa ambiental você apoia que também ajuda diretamente os animais?

Notas do autor 9
  1. 45 Para uma revisão bibliográfica detalhada dessa divergência, ver (2015). ↩
  2. 46 Para os fundamentos da consideração pelos seres sencientes, ver (2021). ↩
  3. 47 Sobre vacinação de abelhas, ver Raukko (2018). ↩
  4. 48 Sobre programas de proteção a elefantes, ver (2015) ↩
  5. 49 Sobre a relação entre a presença de elefantes e uma redução significativa da biomassa disponível, ver Cumming et al. (1997) e Guldemond; VanAarde (2008). ↩
  6. 50 Uma análise detalhada sobre esse ponto pode ser encontrada em (2018). ↩
  7. 51 Para exemplos, ver (1949) e (1989). ↩
  8. 52 Para exemplos, ver (1978) e Taylor (1986). ↩
  9. 53 Para exemplos, ver Elliot (1982) e Katz (1992). ↩
Fontes citadas neste texto 12

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • CALLICOTT, J. B. In defense of the land ethic: Essays in environmental philosophy. Albany: The State University of New York Press, 1989.
  • CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
  • DORADO, D. El conflicto entre la ética animal y la ética ambiental: bibliografía analítica. Tese (Doutorado em Biblioteconomia). Madrid: Universidad Carlos III, 2015.
  • ELLIOT, R. Faking Nature. Inquiry, v. 25, p. 81-93, 1982.
  • GOODPASTER, K. E. On Being Morally Considerable. Journal of Philosophy, n. 75, p. 308- 25, 1978.
  • GULDEMOND, R. A. R.; VAN AARDE, R. J. A Meta-analysis of the Impact of African Elephants on Savanna Vegetation. Journal of Wildlife Management, v. 72, n. 4, 2008, p. 892- 899.
  • HORTA, O. Concern for wild animal suffering and environmental ethics: what are the limits of the disagreement? Les ateliers de l'éthique / The Ethics Forum, v. 13, n. 1, p. 85–100, 2018.
  • KATZ, E. The Big Lie: Human Restoration of Nature. Research in Philosophy and Technology, v. 12, n. 1, 1992, p. 231-241.
  • LEOPOLD, A. A Sand County Almanac. New York: Oxford University Press, 1949.
  • PEARCE, D. A Welfare State for Elephants? A Case Study of Compassionate Stewardship. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3, n. 2, p. 153-164, 2015.
  • RAUKKO, E. The first-ever insect vaccine PrimeBEE helps bees stay healthy. University of Helsinki, 31 out. 2018.
  • TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

O que importa são os ecossistemas e as espécies, e não os animais. Então, se todo esse sofrimento e mortes não extingue espécies nem ameaça ecossistemas, não precisamos nos preocupar. (VII, cap. 20).
Se a questão da consideração moral existe porque, com nossas decisões, é possível beneficiar ou prejudicar os afetados por elas, então para alguém ser moralmente considerável, é suficiente que seja passível de ser prejudicado/beneficiado. Todo ser senciente, por ser capaz de experimentar certos estados como positivos e outros como negativos, é passível de ser prejudicado/beneficiado. Se é assim, então cada ser senciente importa por si. A tese de que cada ser senciente importa por si é muito menos controversa do que a tese de que espécies e ecossistemas importam em si.
Mesmo que os animais importem, ajudar conflitaria com metas ambientalistas (como manter o ecossistema em certas configurações), e isso torna errado ajudar. (VII, cap. 20).
Na vasta maioria dos casos não haveria conflito de metas, pois os programas de ajuda aos animais selvagens não alterariam as propriedades dos ecossistemas que são valorizadas pelo ambientalismo: apenas fariam com que houvesse menos sofrimento para os habitantes desses ecossistemas. Há vários programas, inclusive, que realizariam ambas as metas. Por 30 exemplo, a vacinação de abelhas previne que uma quantidade enorme de animais sofra por conta de doenças e também ajuda na conservação de espécies.
Mas, claramente há casos em que ajudar conflitaria com metas ambientalistas. Por exemplo, os ambientalistas podem querer manter apenas a vegetação nativa do local, mas pode ser que inserir vegetação não nativa diminuísse o sofrimento total dos animais que ali vivem. Nesses casos, não seria errado ajudar? (VII, cap. 20).
Haver conflito por si só é insuficiente para fundamentar a conclusão de que não devemos ajudar. Teria de ser mostrado: (1) que devemos acatar as metas ambientalistas e que, (2) essas metas são mais importantes do que os interesses básicos dos animais (como não sofrer e não morrer). Mesmo que o ponto 1 fosse demonstrado, poderiam ser endereçadas razões para se rejeitar o ponto 2. Por exemplo, poderia ser dito que somente os seres sencientes são prejudicados pelo sofrimento e pela morte, e que esses prejuízos são particularmente graves. Assim, quando houvesse conflito, haveria razões para se priorizar os interesses básicos dos seres sencientes. Isso já é aceito pelos ambientalistas no caso humano: defendem limitar interesses não básicos de humanos (estéticos, econômicos, recreativos etc.) para alcançar suas metas, mas não defendem que isso justifica causar sofrimento e mortes a humanos, ou deixar de ajudá-los quando são vítimas de processos naturais.

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