Nível avançado
Nível avançado
A fronteira do debate: animais selvagens, o futuro e as teorias éticas.
Como estudar este nível
- Leia primeiro a camada “Em uma frase” e depois o texto original.
- Responda às perguntas em “Pratique” sem voltar ao texto; depois confira.
- Ao fim de cada volume, faça o teste do volume.
Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens
- 1O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza?2 min
Se realmente nos importamos com os animais, não limitaremos a preocupação aos danos causados por humanos: para o animal, não faz diferença se o mal vem de um humano ou da fome, de doenças e de desastres naturais.
- 2Como não entender a questão2 min
Dizer que os danos naturais não são questão de ética porque ninguém pode responsabilizar a natureza é um engano: a pergunta é sobre o que nós devemos fazer; até dizer que ajudar é opcional já é uma resposta ética.
- 3Como os processos naturais tipicamente afetam os animais selvagens?6 min
Na natureza, fome, doenças, parasitas, frio e predação são a regra; a maioria das espécies tem ninhadas enormes das quais quase todos morrem logo após nascer. O número de vítimas faz até a exploração parecer pequena.
- 4A visão de que não é um problema porque as vítimas são animais não humanos4 min
A ideia de que o sofrimento dos animais selvagens só importa se afetar humanos ou metas ambientalistas é especista: o que explica por que o bem dos humanos importa por si implica que o de qualquer ser senciente também importa, e na mesma medida.
- 5Fundamentos da proposta de ajudar vítimas de processos naturais3 min
Três argumentos fundamentam a ajuda: o da existência das razões (o dano é ruim seja qual for a origem), o da força das razões (que depende da magnitude) e o do peso do critério (mesmo dando mais peso a danos humanos, a escala dos naturais ainda daria razões fortes).
- 6A proposta de ajudar os animais selvagens é arrogante?2 min
A acusação de "brincar de deus" não se sustenta: aceitamos muitas intervenções na natureza para beneficiar humanos ou alcançar metas ambientalistas; quem a faz não é contra intervir, mas contra beneficiar os animais.
- 7A proposta de ajudar os animais selvagens é antropocêntrica?1 min
A proposta de ajudar os animais selvagens não é antropocêntrica: ser proposta por humanos não a torna centrada em humanos; os animais não têm interesse em ter o sofrimento maximizado para que a natureza siga o seu curso.
- 8Quanto menos influência humana no mundo, melhor?3 min
"Quanto menos influência humana, melhor" não se sustenta: se o motivo é o bem dos animais, deve-se avaliar caso a caso; se é reduzir a influência mesmo quando pior para eles, falta mostrar por que a influência seria errada em si.
- 9Seria a proposta de ajudar os animais selvagens bem-estarista?4 min
Chamar a proposta de ajudar os animais selvagens de "bem-estarista" é confundir preocupação com o bem-estar com regulamentação da exploração; seja qual for a posição sobre regulamentar, isso não impede aceitar a proposta.
- 10A proposta de ajudar os animais selvagens viola a liberdade deles?4 min
Ajudar os animais selvagens não viola a sua liberdade: é a condição para que possam exercê-la, pois precisam estar vivos e livres de sofrimento extremo; restringir em certo momento (para vacinar) pode garantir a liberdade depois.
- 11A acusação de criar dependência2 min
A acusação de que ajudar criaria dependência não se aplica à maioria das intervenções (que reduzem nascimentos), não tira habilidades que os animais já têm e, mesmo que criasse dependência, ainda seria melhor do que sofrer mais e morrer logo.
- 12A acusação de paternalismo3 min
Ajudar só seria paternalista se os animais preferissem não ser ajudados em fome, doença ou incêndio, o que não é o caso; e, mesmo que fosse paternalismo, seria do tipo justificado, como o que aplicamos a crianças.
- 13A objeção de que o sofrimento tem valor instrumental1 min
O sofrimento só tem valor instrumental quando ajuda o indivíduo a aumentar o seu bem-estar, o que não ocorre com a maioria dos animais selvagens; e, mesmo quando tem, é melhor obter o benefício sem sofrimento, como com anestesia.
- 14A proposta de ajudar os animais vê os humanos como separados da natureza?3 min
É a ideia de que os humanos não devem intervir na natureza que os vê como separados dela; se somos parte da natureza, nossas ações também são naturais, e ninguém aceita para si a tese de não se proteger de processos naturais.
- 15Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?2 min
O sofrimento natural não é neutro só porque a natureza não é má nem responsabilizável: o que gera razões para evitá-lo é o seu teor negativo para quem sofre, como no caso de uma criança que machuca alguém sem culpa.
- 16Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?3 min
A natureza ser indiferente ao sofrimento não justifica que sejamos indiferentes: os ecossistemas também são indiferentes ao sofrimento humano; tomar a natureza como modelo é saltar de como as coisas são para como deveriam ser.
- 17Respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte?3 min
A ideia de que respeitar a "natureza" de cada animal exige largar os selvagens à própria sorte não passa no teste da imparcialidade: se respeitar é beneficiar, largá-los os prejudica; se não é, falta razão para valer mais que evitar o dano.
- 18Não é absurdo intervir em conflitos entre animais?4 min
Intervir em conflitos entre animais não é absurdo: já intervimos na predação em larga escala para proteger humanos, animais explorados e metas ambientais; a questão é se e como fazê-lo pelo bem dos animais, sem piorar a situação.
- 19Quais áreas devem responder o que fazer em relação aos animais selvagens?5 min
Descrever os ecossistemas é tarefa da ecologia; decidir quais metas buscar (o bem dos sencientes ou valores ambientalistas) é tarefa da ética. Quem diz "só aplicar a ecologia" disfarça uma posição moral de descrição neutra.
- 20Ambientalistas devem se opor à ajuda aos animais selvagens?6 min
Na maioria dos casos, ajudar os animais selvagens não conflita com metas ambientalistas, e algumas ajudas realizam ambas; quando há conflito, há razões para priorizar os sencientes, como os próprios ambientalistas já fazem no caso humano.
- 21Somos moralmente responsáveis apenas por práticas humanas?10 min
Não somos responsáveis só por danos causados por humanos: a responsabilidade moral recai sobre decisões que determinam resultados, e as desculpas ("não causamos", "existiriam sem nós", "não temos intenção", "não somos próximos") não se sustentam.
- 22Tentativas de defender que a prioridade é dos animais domesticados4 min
Os argumentos para priorizar animais domesticados (dívida histórica, grau de dependência) não justificam negar ajuda aos selvagens: a prioridade depende da gravidade e do número de vítimas, e o critério da dependência até favorece os selvagens.
- 23Ajudar os animais impediria que os genes mais adaptados prevalecessem?4 min
Não ajudar para que "os genes mais adaptados prevaleçam" é rejeitável: genes eficientes em se transmitir não beneficiam necessariamente os indivíduos, várias ajudas não interferem nisso, e o mesmo raciocínio aplicado a humanos seria hediondo.
- 24Ajudar os animais selvagens não poderia tornar as coisas ainda piores?6 min
O receio de piorar as coisas e o apelo ao equilíbrio ecológico não justificam não ajudar: se não podemos prever o longo prazo, também não sabemos que não ajudar é melhor; a resposta é pesquisar mais, e o equilíbrio pode coexistir com muito sofrimento.
- 25Objeções que questionam a praticidade da proposta de ajudar4 min
Não poder ajudar todos não é razão para não ajudar nenhum, e o que importa é a quantidade real de benefício, não a porcentagem do problema resolvida; por isso, focar nos animais selvagens pode ser muito eficiente.
- 26O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens?4 min
Ajudar os animais selvagens já acontece: há vacinação (como contra a raiva), tratamento de doenças (probióticos contra a sarna e a síndrome do nariz branco), resgates em desastres e cuidado de órfãos; muito mais poderia ser feito.
- 27O que mais poderia ser feito para ajudar: estabelecendo a biologia do bem-estar7 min
A biologia do bem-estar seria um campo interdisciplinar dedicado a estudar os animais selvagens como indivíduos sencientes, e não só como exemplares de espécies; obstáculos ideológicos, sobretudo o especismo, impedem o seu desenvolvimento.
- 28Quais tecnologias poderiam ser usadas para ajudar os animais na natureza?2 min
Tecnologias como identificação individual de insetos, modelagem de populações, imagem térmica, drones e análise de dados podem ajudar a entender e melhorar o bem-estar dos animais na natureza, e seu uso se expandirá com mais conscientização.
- 29Os animais teriam o direito de não serem esterilizados?10 min
A objeção de que os animais têm direito de não ser esterilizados falha: há outras formas de ajuda, respeitar esse suposto direito causaria muito mais sofrimento a terceiros, e a esterilização de cães e gatos já é amplamente aceita por defensores dos animais.
- 30A questão do parasitismo3 min
É falso que a proposta de prevenir danos naturais proibiria tratar o parasitismo: parasitas não sencientes não são prejudicados pela morte, a vida de muitos sencientes não seria significativa, e prevenir novos casos não equivale a matar.
- 31A questão da predação20 min
O capítulo examina os argumentos sobre a predação e conclui que há boas razões para diminuí-la no mundo, desde que isso não traga consequências piores, e que certas intervenções, como reduzir a produtividade primária, provavelmente teriam saldo positivo.
- 32Discutindo nossa capacidade de avaliar quando viver vale ou não a pena4 min
Dizer que não podemos avaliar quando uma vida vale a pena não justifica não intervir: há casos claros (sofrimento extremo e morte quase imediata), não ajudar também pressupõe avaliações, e melhorar vidas existentes é compatível com prevenir nascimentos.
- 33O argumento do prolongamento da agonia3 min
O argumento do "prolongamento da agonia" falha: ajudar costuma reduzir o sofrimento e prolongar a vida ao mesmo tempo, pois o que causa sofrimento geralmente também causa a morte; e muitas intervenções apenas previnem nascimentos.
- 34A objeção de que o saldo da situação dos animais na natureza pode ser positivo4 min
Mesmo que o saldo da vida na natureza fosse positivo (o prazer de poucos superando o sofrimento de muitos), as razões para reduzir o sofrimento não diminuiriam; e, mesmo para quem só olha o saldo, ajudar quem está pior é o modo mais eficiente de aumentá-lo.
- 35Qual o impacto do veganismo na situação dos animais selvagens?5 min
Prevenir danos naturais não implica rejeitar o veganismo: ele reduz as vítimas da exploração e da agricultura (danos de primeiro grau), e o seu maior potencial está no ideal de consideração por todos os sencientes que ajuda a divulgar.
- 36O debate sobre a destruição da natureza11 min
O capítulo simula o debate, entre os próprios defensores dos animais selvagens, sobre a "matança altruísta" (destruir habitats para reduzir o sofrimento), com argumentos, réplicas e tréplicas, e discute de quem é o ônus da prova.
- 37O debate sobre a expansão e restauração da natureza12 min
Expandir ou restaurar a natureza tende a aumentar o número de animais que nascem para sofrer; as justificativas (gerações futuras, valores ambientais, aceitação, extinção humana) não bastam, e há formas de enfrentar a crise climática sem criar novos habitats.
Volume IX · A ética e o futuro
- 1Riscos futuros para os seres sencientes: uma introdução15 min
Riscos-s são riscos de sofrimento futuro em escala maior que todo o sofrimento já existente; diferem dos riscos-x (extinção humana), sua seriedade é gravidade vezes probabilidade, e surgem de modo incidental, agencial ou natural.
- 2Imparcialidade temporal: o que é, e por que é importante8 min
Imparcialidade temporal é dar o mesmo peso a um sofrimento seja quando ele ocorrer; o viés temporal e a ideia de que seres futuros são só potenciais não justificam desconsiderá-los. A preocupação com o futuro deve rejeitar o especismo, e vice-versa.
- 3A objeção de que seres futuros são apenas seres em potencial7 min
Mesmo quem nega o dever de criar novos seres tem deveres para com seres futuros, como não lhes causar sofrimento; e a luta pelos animais já é, em geral, sobre seres futuros, os que nasceriam para sofrer na exploração.
- 4Que razões existem para focarmos no longo prazo?12 min
Longoprazismo pode ser uma meta (ter o melhor impacto na história inteira) ou um foco prático (agir pensando no longo prazo); há boas razões para o foco prático, e até quem prioriza o presente tem razões para aceitar a meta.
- 5Devemos focar em prevenir riscos-s ou riscos-x?5 min
Há razões para focar mais nos riscos-s do que nos riscos-x: as tentativas de justificar o foco nos riscos-x por ser a humanidade "essencial" ou por atrair mais recursos costumam ser especistas; mas uma meta não exclui a outra.
- 6Quais metas priorizar em longo prazo?15 min
Entre as metas de longo prazo possíveis, há razões para dar peso extra a prevenir sofrimento (e mortes prematuras): várias teorias aceitam esse foco, e não é preciso ser muito pessimista sobre o futuro para adotá-lo.
- 7De que consiste o foco nos riscos-s?3 min
Focar nos riscos-s não significa focar em poucos cenários específicos: o sofrimento futuro pode vir da soma de muitos riscos; coletivamente, devemos cobrir um leque amplo, ainda que cada pessoa se especialize.
- 8Identificando fatores de risco para os riscos-s8 min
Mesmo sem prever o futuro em detalhe, podemos identificar fatores de risco para os riscos-s: tecnologia avançada, aversão à tecnologia, desconsideração por não humanos, falta ou ineficácia de esforços, polarização e falta de segurança contra agentes malévolos.
- 9Estratégias longoprazistas: amplas e direcionadas5 min
Estratégias amplas buscam bom impacto em quase todos os cenários; as direcionadas, impacto grande em cenários específicos. Exemplos amplos: aumentar a consideração pelos sencientes; direcionados: evitar novas formas de exploração, criar a biologia do bem-estar, alinhar a IA de modo não antropocêntrico.
- 10Por que focar na consideração pelos seres sencientes e no futuro?5 min
A maneira como afetaremos os seres futuros é pouco discutida; promover a consideração por todos os sencientes é central para preveni-la, mas há riscos em como fazê-lo, e ainda não sabemos a forma mais eficiente; é preciso manter a mente aberta.
- 11Mudando o debate público, as formas de ativismo e as instituições políticas13 min
Política disfuncional aumenta os riscos-s; para melhorá-la, devemos reduzir o tribalismo, elevar o padrão do debate (discutir argumentos, não pessoas; honestidade intelectual), adotar abordagens de leque amplo, proteger a democracia e buscar representação para todos os sencientes.
- 12Moldando as tecnologias emergentes para prevenir sofrimento futuro9 min
Tecnologias emergentes podem multiplicar o sofrimento: o capítulo discute moldar a inteligência artificial com foco nos riscos-s, evitar riscos indiretos da IA, administrar a exploração espacial e o risco de criar novas formas de senciência.
- 13A tríade de influência e o sofrimento futuro27 min
A tríade de influência (intenção, conhecimento e poder de um agente) ajuda a avaliar o sofrimento que pode resultar das decisões: agentes que querem prejudicar ou são indiferentes, com muito poder, são os mais perigosos; querer o bem sem conhecimento ou sem poder tende a ser ineficaz.
Volume XI · Como as diversas teorias da ética abordam a questão animal?
- 1Uma introdução às distinções centrais em teoria do valor19 min
A teoria do valor investiga o que é bom ou ruim, melhor ou pior; ela distingue valor em si de valor instrumental, "melhor do que" de "melhor de todas" e o que é bom sob certo aspecto do que é bom tudo considerado.
- 2Uma introdução às teorias do bem-estar25 min
Teorias do bem-estar investigam o que torna a vida de alguém boa (experiências, preferências, bens objetivos, ou combinações); apesar das divergências, há uma convergência mínima: os animais são muito prejudicados nas situações que vivem.
- 3Avaliando quão boa/ruim é uma situação que contém vários indivíduos8 min
Avaliar uma situação com vários indivíduos envolve vários aspectos (total de bem-estar, prioridade a quem está pior, igualdade, suficiência, merecimento), que podem ser vistos como tendo valor em si ou instrumental, e que às vezes conflitam.
- 4Julgamentos valorativos, descrições de fatos, objetividade e subjetividade12 min
Julgamentos valorativos não são necessariamente subjetivos no sentido de "sem verdade": todo ser que sofre o experimenta como ruim em si; há coisas impossíveis de explicar sem o seu valor, e é preciso não confundir valor com ética, nem "todos" com "alguns".
- 5Categorias de teorias da ética normativa23 min
As teorias normativas se agrupam em consequencialismo, deontologia e éticas centradas no caráter, que diferem no ponto focal (consequências, regras ou traços de caráter); apesar disso, convergem em muito, inclusive na igual consideração dos seres sencientes.
- 6Em que medida as teorias da ética concordam sobre o que devemos aos animais?64 min
Utilitarismo, maximin, prioritarismo, igualitarismo, suficientismo, suas versões negativas, abordagens pluralistas, kantismo, ética do discurso, contratualismo e éticas do caráter implicam, por diferentes razões, a igual consideração dos sencientes, a rejeição da exploração e razões para ajudar os animais selvagens.
- 7Pesando critérios36 min
Quando uma situação é boa sob um aspecto e ruim sob outro, há várias formas de pesar critérios: incomensurabilidade, monismo, pluralismo com pesos iguais, trunfos, pesos fixos ou variáveis, maximin, suficiência, abordagens híbridas, indeterminação e agregação probabilística, cada uma com vantagens e problemas.