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Volume IX · A ética e o futuro · capítulo 2

Imparcialidade temporal: o que é, e por que é importante

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Imparcialidade temporal é dar o mesmo peso a um sofrimento seja quando ele ocorrer; o viés temporal e a ideia de que seres futuros são só potenciais não justificam desconsiderá-los. A preocupação com o futuro deve rejeitar o especismo, e vice-versa.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IX, p. 21 da edição em PDF

2.1. Introdução

A maneira como nossas decisões podem afetar os seres que viverão no futuro distante ainda é uma questão muito , mas que tem começado a receber atenção22.

A seguir, veremos uma das razões centrais pelas quais essa questão tem sido negligenciada (a presença do temporal) e as razões para adotarmos uma abordagem centrada na 23. Veremos também que, mesmo que alguém rejeite a temporal, isso não é suficiente para justificar descartar uma preocupação forte com o modo como nossas decisões afetarão os seres sencientes futuros.

2.2. O viés temporal

Vieses cognitivos são padrões sistemáticos de raciocínio falho, ou atalhos mentais que confundem nosso julgamento. Um dos fatores que contribui para que as pessoas negligenciem o impacto de suas decisões sobre os seres futuros é o viés temporal, que consiste na tendência de dar menor importância a um evento dependendo do quão longe do presente ele estiver.

Para entender por que essa tendência é um viés, basta lembrar que o momento que agora é presente já foi futuro e que os próximos momentos futuros também chegarão a acontecer, assim como esse momento aconteceu. Um exemplo de viés temporal seria pensar que 10 anos atrás não deveríamos nos preocupar com garantir que o momento que estamos vivendo agora não fosse negativo para nós, apenas porque naquela época ele estava longe no tempo.

O quanto devemos nos empenhar em buscar ou evitar certo acontecimento deveria depender do quão positivo ou negativo ele é, e não do quão próximo ou distante está do presente. Assim, rejeitar o viés temporal implica aceitar que cada momento no tempo, por si só, não tem um status superior ou inferior (o que importa é o quão bom ou ruim seria o evento). Isso pode ser melhor entendido a partir da ideia de imparcialidade temporal, que é uma implicação

da ideia mais geral de imparcialidade. Veremos algo sobre esses conceitos a seguir.

2.3. Imparcialidade

  • Imparcialidade: é a consideração não tendenciosa dos afetados por nossas decisões.

A imparcialidade24 implica que prejuízos e benefícios de igual magnitude devem receber o mesmo peso, independentemente de fatores arbitrários como raça, gênero, espécie dos afetados pela decisão ou de qualquer outro fator que seja resultado da loteria natural.

Isso implica também que alguém é desfavorecido tendenciosamente não apenas quando é totalmente desconsiderado, mas também quando, com base em fatores arbitrários, o seu bem recebe um peso menor.

Como veremos a seguir, a imparcialidade temporal é um caso específico de aplicação dessa ideia geral de imparcialidade.

2.4. Imparcialidade temporal

Para entendermos a ideia de imparcialidade temporal25, é útil compará-la com a ideia de imparcialidade espacial.

Vimos acima que a imparcialidade implica rejeitar distinções arbitrárias, como, por exemplo, dar graus diferenciados de com base na espécie, raça ou gênero dos afetados pela decisão. Outro exemplo de distinção arbitrária seria dar graus diferenciados de consideração moral dependendo do local onde alguém se encontra. Assim, a imparcialidade implica a imparcialidade espacial:

  • Imparcialidade espacial: é a consideração não tendenciosa dos afetados por nossas decisões, independentemente do local em que se encontram.

Uma implicação da imparcialidade espacial é que não há justificativa para se dar um peso menor ao bem de um ser senciente só porque ele se encontra longe de nós.

Perceba que a imparcialidade espacial não é uma ideia diferente da imparcialidade geral: é apenas uma implicação da mesma. Entretanto, a imparcialidade também implica o mesmo em relação ao tempo:

  • Imparcialidade temporal: é a consideração não tendenciosa dos afetados por nossas decisões, independentemente da época em que eles existem.

Assim, uma implicação da imparcialidade temporal é que não há justificativa para se dar um peso menor ao bem de um ser senciente só porque ele existirá no futuro (seja próximo ou distante). A conclusão prática importante é essa: de acordo com a imparcialidade temporal, o fato de um dano ocorrer no futuro distante não enfraquece as razões para preveni-lo.

A maioria das pessoas que almeja reduzir o sofrimento no mundo pensa nos indivíduos vivos atualmente (uma das razões para isso, além do viés temporal, é que é difícil ter empatia com indivíduos que existirão em um futuro distante). Entretanto, se o que vimos faz sentido, dar uma consideração menor a alguém dependendo da época em que existirá é análogo a discriminá-lo com base no lugar em que vive, sua espécie, cor da pele, gênero etc.

Esta é, em resumo, a ideia central da imparcialidade temporal.

2.5. A objeção de que seres futuros são apenas seres em potencial

Uma objeção à imparcialidade temporal defende que os indivíduos futuros são agora meras possibilidades que podem não chegar a existir, diferentemente dos indivíduos que já existem. Segundo essa objeção, por essa razão os indivíduos futuros, ou não deveriam contar moralmente, ou deveriam receber um peso menor.

Uma resposta a essa objeção é apontar que nossas decisões podem fazer com que tais possibilidades cheguem a se tornar indivíduos reais no futuro, e também podem fazer com que suas vidas sejam mais positivas ou mais negativas. Por exemplo, mesmo quem defende que não há dever de produzir novos seres sencientes para terem vidas positivas pode reconhecer que há um dever de não produzir novos seres sencientes para terem vidas negativas. E também pode reconhecer que, se um ser necessariamente existirá no futuro independentemente do que decidirmos, devemos decidir agora de modo a evitar prejudicá-lo e a buscar beneficiá-lo. Esses pontos serão discutidos em mais detalhes no próximo capítulo.

Assim, há pelo menos duas maneiras pelas quais nossas decisões podem afetar os seres futuros:

  • É possível que nossa decisão determine se um ser senciente futuro chegará a existir ou não, e se nascerá em um contexto onde provavelmente terá uma vida predominantemente negativa ou positiva.
  • É possível que nossa decisão não determine se um ser senciente futuro chegará a existir ou não, mas determine a quantidade de eventos negativos ou positivos que terá na vida.

Boa parte do ativismo da causa animal já é sobre seres futuros. Por exemplo, o é majoritariamente sobre tentar evitar que mais animais cheguem a nascer para ter uma vida repleta de sofrimento, e não sobre animais que já existem. Esta também é a meta dos programas de esterilização, seja de ou domesticados. Por sua vez, as regulamentações que tentam fazer com que os animais explorados sofram menos são sobre fazer com que os seres que necessariamente chegarão a existir tenham menos sofrimento em vida. Por fim, a difusão de uma visão de consideração por todos os seres sencientes almeja principalmente que, dali para frente, aumente a probabilidade de que os seres sencientes futuros tenham vidas com mais eventos positivos e menos eventos negativos. É claro, uma parte do ativismo da causa animal é sobre ajudar animais que já existem. Exemplos são os programas de vacinação e tratamento de doenças, a ajuda a animais em incêndios e em outros desastres naturais, a assistência a animais órfãos, o resgate de animais presos e programas para atender às necessidades básicas dos animais. Entretanto, como vimos, boa parte do ativismo da causa animal já advém do reconhecimento da consideração por seres futuros.

Uma maneira de entender que é arbitrário dar um peso menor ao bem de alguém dependendo do quão longe no futuro existirá é imaginar o que pensaríamos se gerações anteriores à nossa pensassem que não haveria problema algum com atitudes que nos prejudicassem enormemente, devido ao fato de, na época, nós não existirmos ainda.

O experimento de pensamento do véu da ignorância pode também ajudar a fundamentar a ideia de imparcialidade temporal26. Imaginemos que tivéssemos que decidir quais princípios de justiça as pessoas deveriam seguir, mas sem saber em que época nasceríamos (apenas sabendo que teríamos que nascer em alguma época). Sob tais condições, parece que defenderíamos dar a todos os indivíduos que pudessem ser afetados pelas decisões dos agentes, não importando em que época existiriam.

2.6. Rejeitar a imparcialidade temporal justifica desconsiderar os seres futuros?

O que vimos acima sugere que há fortes razões para aceitarmos a imparcialidade temporal e darmos igual consideração aos seres que existirão no futuro.

Contudo, imaginemos que houvesse justificativa para darmos um peso maior ao bem dos seres sencientes que existem agora. Ora, isso não mostraria que há justificativa para desconsiderar os seres futuros: haveria apenas justificativa para dar-lhes um peso menor.

E mesmo se fosse esse o caso, ainda deveríamos dar uma importância enorme ao futuro em longo prazo, a ponto de priorizá-lo sobre o presente e o futuro em curto prazo. Isso pode soar estranho à primeira vista. A seguir está uma explicação de por que há essa implicação.

O futuro poderá durar muitas eras e, portanto, a quantidade de seres sencientes que poderão existir ao longo do futuro seria também vastíssima. O ponto é: essa quantidade seria tão vasta que, mesmo que déssemos um peso cada vez menor a cada ser senciente dependendo do quão longe existirá no futuro, ainda teríamos que concluir por priorizar a preocupação com o futuro em longo prazo, dada a quantidade total de indivíduos afetados. Esse é um dos argumentos centrais a favor de um foco no longo prazo, que veremos no Capítulo 4.

2.7. Conclusão

Se o que vimos acima faz sentido, então devemos tirar duas conclusões importantes, se nosso objetivo é fazer com que o mundo contenha menos sofrimento:

(1) Precisamos considerar todos os seres sencientes (incluindo aqueles do futuro distante). (2) Precisamos dar um grande peso ao futuro em longo prazo.

Dois fatores têm contribuído bastante para a negligência dessa importante questão. Um deles, como vimos, é o viés temporal. O outro é o . A combinação desses dois fatores contribui para o seguinte resultado, que é uma negligência dupla:

(1) Devido ao especismo, quando a preocupação com o futuro em longo prazo aparece, geralmente são levados em conta apenas os humanos futuros.

(2) Devido ao viés temporal, aquelas pessoas que já aceitam considerar todos os seres sencientes (por exemplo, ativistas da causa animal) têm normalmente desconsiderado os seres sencientes futuros.

Se nosso objetivo é fazer com que haja menos sofrimento no mundo, precisamos rejeitar essa negligência dupla. A preocupação com o longo prazo precisa rejeitar o especismo e considerar todos os seres sencientes, e a preocupação com os seres sencientes precisa rejeitar o viés temporal e levar em conta o futuro em longo prazo27.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume IX
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que é imparcialidade temporal?

Qual "negligência dupla" o capítulo critica?

Para pensar

Você daria o mesmo peso a uma dor que vai sentir daqui a 30 anos e a uma dor de hoje?

Notas do autor 6
  1. 22 Para uma introdução ao tema da importância do futuro, ver (2018). ↩
  2. 23 Para uma discussão detalhada sobre esses temas, ver (1984, p. 351-443); ↩
  3. 24 Para uma introdução às implicações da imparcialidade para decisões que afetam seres sencientes não humanos, ver Ética Animal (2015, 2016). Para uma análise mais detalhada, ver (2009 [1998], p. 118-175). ↩
  4. 25 A imparcialidade temporal é defendida em ; Parfit (1992). As implicações da mesma em relação aos riscos-s são abordadas em (2022, p. 22-3). ↩
  5. 26 Sobre o véu da ignorância, ver o capítulo 10 do Volume II desta coleção. Ver também Ética Animal (2016). ↩
  6. 27 Para uma argumentação defendendo em detalhes essas duas teses, ver O'brien (2023). ↩
Fontes citadas neste texto 7

A lista completa do volume está em referências do Volume IX.

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