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Volume IX · A ética e o futuro · capítulo 5

Devemos focar em prevenir riscos-s ou riscos-x?

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Há razões para focar mais nos riscos-s do que nos riscos-x: as tentativas de justificar o foco nos riscos-x por ser a humanidade "essencial" ou por atrair mais recursos costumam ser especistas; mas uma meta não exclui a outra.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IX, p. 41 da edição em PDF

5.1. Riscos-s e riscos-x

Como vimos no Capítulo 1, riscos de sofrimento futuro, ou , são os riscos de que no futuro ocorram eventos que resultem em sofrimento de magnitude gigantesca, que excede o sofrimento existente na Terra até agora49. Exemplos são o fato de a tecnologia no futuro ter o potencial de aumentar vastamente a , os danos que os animais padecem em decorrência de 50 e de criar novos tipos de seres , por exemplo, em meios digitais51.

Por sua vez, riscos existenciais, também conhecidos como , são os riscos de aniquilação da humanidade (ou, pelo menos, de um colapso da civilização). Exemplos são aquecimento global, armas nucleares, pandemias etc.

Para termos o melhor impacto na história daqui para frente devemos focar em tentar prevenir riscos-s ou riscos-x? É o que discutiremos neste capítulo.

5.2. Discutindo uma tentativa especista de defender o foco nos riscos-x

Uma maneira de defender o foco nos riscos-x é defender que os humanos importam muito mais. Entretanto, há dois problemas com esse argumento.

O primeiro é que não parece haver como justificar dar um peso maior aos humanos. De um ponto de vista não tendencioso, iguais quantidades de prejuízo e benefício importam igualmente, independentemente de fatores que dependem da sorte, como a espécie a qual alguém pertence.

O segundo problema é que, mesmo que fosse dado um peso muito menor aos seres sencientes

não humanos, a quantidade de seres potencialmente afetados pelos riscos-s é tão astronomicamente maior que ainda teríamos que concluir por investir mais recursos em prevenir riscos-s do que riscos-x.

5.3. A alegação de que a humanidade é essencial para prevenir sofrimento

Por vezes é defendido que devemos priorizar evitar riscos-x não porque humanos importam mais, mas porque fazê-lo seria necessário para prevenir riscos-s. Na ausência de agentes com tecnologia à disposição, não haverá ninguém para diminuir o sofrimento no mundo. Com base nisso, poderia ser dito que, enquanto houver riscos-x não devemos nos preocupar com riscos-s. Em resumo, o que esse argumento defende é que o mais importante é prevenir riscos-s, mas que, para isso, é necessário focar em prevenir riscos-x e esquecer por enquanto os riscos-s.

A força desse argumento depende de quão positivo ou negativo será o impacto da humanidade na história daqui para frente. No melhor cenário, a humanidade continuaria existindo e tentando prevenir o sofrimento. Mas, outra possibilidade é continuar a existir e não se importar em reduzir o sofrimento que já existiria naturalmente ou, pior ainda, produzir muito mais sofrimento do que já existiria naturalmente. Comparemos três possíveis cenários:

(1) A humanidade continuar e haver menos sofrimento do que se fosse extinta. (2) A humanidade ser extinta. (3) A humanidade continuar e haver mais sofrimento do que se fosse extinta.

Parece que 1 é o melhor dos três cenários, e que 3 é pior do que 2. A ideia na base do foco em prevenir riscos-s é que é mais importante evitar o pior cenário de todos (no caso, o cenário 3). Além disso, uma estratégia essencial para evitar o pior cenário (o cenário 3) também é essencial para se tentar alcançar o melhor cenário (o cenário 1): divulgar da maneira mais eficiente possível a consideração por todos os seres sencientes. Isso é crucial para garantir que, se a humanidade continuar a existir, tentará prevenir sofrimento em vez de aumentá-lo.

5.4. A alegação de que conseguiremos mais recursos se priorizarmos humanos

Por vezes é defendido que, como as pessoas são especistas, as organizações que têm como meta beneficiar todos os seres sencientes conseguiriam mais adeptos e recursos se focassem em causas humanas, em vez de focarem na preocupação com todos os seres sencientes. Em resumo, o que esse argumento quer dizer é que nossa meta deve ser prevenir danos para todos os seres sencientes mas que, curiosamente, a maneira mais eficiente para alcançar essa meta é focar nos humanos.

Um problema central com esse argumento é que ele parece não levar em conta que uma das principais razões pelas quais existe uma quantidade astronômica de sofrimento acontecendo e que faz haver um grande risco de que seja vastamente multiplicado no futuro é justamente a predominância de uma visão .

Essa é uma razão fortíssima para priorizar defender a consideração moral por todos os seres sencientes, e o quanto antes, já que a não aceitação dessa ideia é um dos principais obstáculos à meta de evitar o sofrimento massivo no mundo, tanto o sofrimento atual quanto o futuro. Por exemplo, imagine que a consideração por todos os seres sencientes tivesse começado a ser difundida em larga escala há dois mil anos atrás. Provavelmente haveria muito menos sofrimento do que há hoje.

Se defendemos priorizar os humanos, além de não estarmos divulgando a consideração por todos os seres sencientes, isso provavelmente terá o efeito de reforçar o especismo (ou, pelo menos, por não questioná-lo, atrasar as mudanças em relação às atitudes ) e ser um impedimento a prevenir o sofrimento que ocorreria daqui para frente.

Em resumo, parece que o quanto antes (e o quanto mais) for divulgada a consideração pelos seres sencientes, provavelmente melhor a história do mundo daqui para frente. Uma das vantagens dessa estratégia é que, se feita de modo cuidadoso para não gerar rejeição, ela tende a influenciar de modo positivo o futuro, independentemente do que poderia vir a ocorrer.

5.5. Razões para focarmos mais nos riscos-s

Algumas razões para focarmos mais em prevenir riscos-s do que riscos-x são:

(1) Severidade. Os riscos de sofrimento futuro têm o potencial de ter um impacto astronomicamente maior do que os riscos existenciais, seja em termos de severidade (pois representam a possibilidade de sofrimento extremo durante vidas inteiras de futuros seres sencientes), seja em escopo (pois afetariam todos os seres sencientes no universo daqui até o final dos tempos).

(2) Impacto esperado. A probabilidade dos riscos-s não é menor do que a dos riscos-x.

(3) Tratabilidade. Há também muito que poderia ser feito para tentar minimizar os riscos-s.

(4) Grau de negligência: Há já muito mais pessoas tentando prevenir riscos-x do que riscos-s.

Portanto, todos os critérios de prioridade apontam para darmos uma grande importância aos riscos de sofrimento futuro.

Entretanto, também é importante lembrar que o foco em riscos-s ou riscos-x pode ser uma questão de grau. Isto é, uma meta não necessariamente exclui a outra. Assim, acreditar que prevenir riscos-x é mais importante não justifica pensar que prevenir riscos-s não é muito importante. Da mesma maneira, se alguém prioriza riscos-s isso não significa que pense que prevenir riscos-x não seja muito importante, e assim por diante.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume IX
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que o capítulo diz sobre a alegação de que a humanidade é essencial para prevenir sofrimento?

O foco em riscos-s exclui o foco em riscos-x?

Para pensar

O que seria pior: a humanidade acabar, ou continuar e multiplicar o sofrimento no universo?

Notas do autor 3
  1. 49 Para uma análise detalhada das questões relacionadas aos riscos-s, ver (2022). Ver também (2020). ↩
  2. 50 Sobre como os animais são tipicamente afetados por processos naturais e as implicações éticas disso, ver (2018, 2022) e (2023 [2020]). Sobre como isso está relacionado a riscos-s, ver Baumann (2022, p. 50-2, 56, 84 ) e (2017, 2022). ↩
  3. 51 Sobre isso, ver Tomasik (2015). ↩
Fontes citadas neste texto 8

A lista completa do volume está em referências do Volume IX.

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