Volume IX · A ética e o futuro · capítulo 7
De que consiste o foco nos riscos-s?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Focar nos riscos-s não significa focar em poucos cenários específicos: o sofrimento futuro pode vir da soma de muitos riscos; coletivamente, devemos cobrir um leque amplo, ainda que cada pessoa se especialize.
Prevenir o sofrimento futuro não é apostar em um único perigo. São muitos perigos diferentes, e um time grande precisa cuidar de vários ao mesmo tempo, cada pessoa ajudando em uma parte.
A saúde pública não combate só uma doença: cada equipe cuida de uma, mas o sistema todo cobre muitas.
- P1 O foco nos riscos-s busca reduzir o sofrimento futuro esperado.
- P2 Mesmo que o sofrimento futuro tenha "cauda pesada", ele pode vir da soma de muitos riscos, não de poucos.
- P3 Logo, o foco nos riscos-s não implica um foco estreito.
- C Individualmente, pode-se especializar; coletivamente, deve-se cobrir um leque amplo.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Quem fala em riscos-s só pensa em IA e ficção científica.”
Resposta O foco é amplo: inclui pecuária, animais selvagens, novas formas de senciência, política e muitos outros. Cada pessoa pode cuidar de uma parte.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IX, p. 56 da edição em PDF
7.1. Introdução
Neste capítulo abordaremos o que (2022, p. 36-40) denomina de foco nos . Discutiremos a relação desse foco com a maneira como o sofrimento pode estar distribuído ao longo do futuro, e qual a diferença entre foco nos riscos-s e foco estreito.
Como vimos, riscos-s são os riscos de que no futuro ocorram eventos que resultem em sofrimento de magnitude gigantesca, que excede o sofrimento existente na Terra até agora. Por vezes é defendido que a maneira mais eficiente de evitar sofrimento na história do mundo daqui para frente é focar em evitar riscos-s66, pois a magnitude do sofrimento nesses casos pode ser tão astronômica, que representaria a maior parte do sofrimento futuro. Esse é o chamado foco nos riscos-s.
Entretanto, alguém poderia ter a meta de reduzir o sofrimento futuro da maneira mais eficiente possível, mas rejeitar o foco nos riscos-s por acreditar que a maior parte do sofrimento futuro ocorrerá somando-se cenários que são ruins, mas não a ponto de serem riscos-s. Por essa razão, a seguir investigaremos a probabilidade de o sofrimento futuro estar distribuído dessa ou daquela maneira.
7.2. Como será provavelmente a distribuição do sofrimento ao longo do futuro?
Baumann (2022, p. 37-8) observa que muitos fenômenos possuem o que é chamado de distribuição de cauda pesada (em referência à curva formada no gráfico). Por exemplo, se somarmos todas as mortes por guerras ou terremotos ao longo da história, a maioria ocorreu em um pequeno número dos piores casos. O mesmo pode ocorrer quanto ao sofrimento futuro: uma boa porcentagem dele poderá estar concentrada nos riscos-s mais extremos.
Uma distribuição pode ser de cauda pesada em maior ou menor grau. Uma razão para se pensar que o sofrimento futuro será de cauda pesada em alto grau é que a escala do sofrimento futuro pode variar em muitas ordens de magnitude (por exemplo, devido ao potencial de
colonização espacial67 ou de digital68). Então, poderia ter picos acentuadíssimos.
7.3. O foco nos riscos-s não implica um foco estreito
O foco nos piores casos não implica focar em apenas alguns poucos riscos-s que alguém considera os piores de todos. Isso se dá pelos seguintes motivos:
- Mesmo se o sofrimento futuro tiver uma distribuição de cauda pesada, isso não significa que a maior parte do sofrimento futuro esperável surja a partir de poucos casos específicos de riscos-s. Pode ser que surja a partir da soma de todos ou vários dos riscos-s.
- Nos fenômenos com distribuição de cauda pesada raramente 0,1% dos casos mais extremos contém 99% da distribuição total. Assim, faz sentido focar, por exemplo, nos 10% piores resultados, em vez de focar nos piores 0,1%.
- Mesmo 1% dos riscos-s mais severos podem ainda ocorrer em cenários muito diversos, com fontes de sofrimento muito diversas.
- Mesmo se a maior parte do sofrimento futuro ocorrer em um número limitado de piores cenários bem específicos, podemos estar enganados sobre quais serão esses cenários.
- As intervenções contra os piores riscos podem não estar disponíveis, ou não serem mais eficientes do que intervenções que poderiam ajudar em um amplo leque de riscos.
- Também poderá haver uma cauda positiva no futuro, que viria da oportunidade de reduzir, por exemplo, os riscos-s naturais69. Assim, devemos tentar reduzir a cauda negativa e aumentar a positiva e, por isso, preferir intervenções que cubram muitos tipos de cenários.
Baumann (2022, p. 39) conclui que todas essas observações dizem respeito ao que deveríamos fazer enquanto grupo. Individualmente, pode fazer sentido se especializar em um leque estreito de riscos, desde que nossos esforços coletivos cubram um leque amplo de riscos.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O foco nos riscos-s implica um foco estreito?
Segundo Baumann, as observações do capítulo dizem respeito ao que devemos fazer...
Para pensar
Em que parte de um problema grande você poderia se especializar?
Notas do autor 4
- 66 Um exemplo é a posição defendida por Baumann (2022, p. 36-40). ↩
- 67 Sobre por que isso é um risco-s, ver O'brien (2022). ↩
- 68 Sobre por que isso é um risco-s, ver (2015) e Baumann (2022, p. 11-16, 19, 50, 52, 58-61, 83-4). ↩
- 69 Sobre a maneira como os processos naturais tipicamente prejudicam em larga escala os animais não humanos, ver (2022) e (2023[2020]). ↩
Fontes citadas neste texto 4
A lista completa do volume está em referências do Volume IX.
- BAUMANN, T. Avoiding the worst final: how to prevent a moral cathastrophe. Center for Reducing Suffering, 2022.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
- TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015.
- ÉTICA ANIMAL. Introdução ao sofrimento dos animais selvagens. Oakland: Ética Animal, 2023 [2020].
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