Volume IX · A ética e o futuro · capítulo 3
A objeção de que seres futuros são apenas seres em potencial
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Mesmo quem nega o dever de criar novos seres tem deveres para com seres futuros, como não lhes causar sofrimento; e a luta pelos animais já é, em geral, sobre seres futuros, os que nasceriam para sofrer na exploração.
Quando alguém para de comprar carne, quem é ajudado são os bichos que iam nascer depois, e não os que já morreram. Então lutar pelos animais já é pensar no futuro.
Plantar uma árvore para dar sombra aos netos é se preocupar com pessoas que ainda não existem. Ninguém acha isso estranho.
- P1 A objeção diz que devemos nos preocupar só com os seres que já existem.
- P2 Mesmo negando o dever de criar novos seres, temos deveres de não fazer nascer seres para sofrer e de não prejudicar os que existirão.
- P3 A causa animal já é, normalmente, sobre evitar que novos animais nasçam para sofrer.
- C Logo, não faz sentido rejeitar a preocupação com o futuro por ela tratar de seres futuros.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Seres futuros são só possibilidades, não pessoas reais.”
Resposta Os animais que deixarão de nascer em fazendas também são "possibilidades", e é justamente por eles que o veganismo faz sentido.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IX, p. 27 da edição em PDF
3.1. A objeção de que devemos nos preocupar apenas com os seres que já existem
Vimos no capítulo anterior que uma das objeções mais comuns à preocupação com o futuro em longo prazo é baseada na ideia de que os seres futuros são apenas seres em potencial, isto é, seres que ainda não existem e que, talvez, nem cheguem a existir. Segundo essa objeção, por essa razão devemos nos preocupar apenas com os seres que já existem.
Considere agora as seguintes causas:
- Difundir o .
- Tentar regulamentações para fazer com que os animais explorados sofram menos.
- Proteger animais abandonados.
- Lutar para diminuir o sofrimento dos .
Segundo a objeção, lutar por essas causas faz sentido porque "são sobre ajudar quem já existe". Por outro lado, mantém a objeção, a preocupação com o futuro em longo prazo não faz sentido, pois diz respeito a seres que talvez nem cheguem a existir.
Essa objeção é por vezes levantada especialmente em relação à preocupação com a possibilidade do surgimento de seres sencientes não orgânicos no futuro. Segundo a objeção, não devemos nos preocupar com isso porque é algo que talvez nem chegue a ocorrer. Por outro lado, conclui a objeção, seres sencientes orgânicos já existem e, por isso, devemos nos preocupar com eles.
Será essa uma objeção plausível? É o que discutiremos neste capítulo.
3.2. Devemos nos preocupar somente com os seres sencientes já existentes?
Uma primeira maneira de questionar essa objeção é desafiar a pressuposição de que devemos nos preocupar somente com os seres sencientes já existentes até o momento. Por exemplo, poderia ser apontado que, se a razão para nos preocuparmos com os seres sencientes já existentes é a possibilidade de nossas decisões os afetarem de forma positiva ou negativa, isso implica que temos a mesma razão para nos preocuparmos com os seres sencientes que ainda não existem, mas que podem vir a existir (pois nossas decisões também podem afetá-los positiva ou negativamente).
Poderia ser objetado que, se ninguém tem o dever de produzir novos seres sencientes, mas temos o dever de não matar os que já existem, é porque só temos deveres em relação a indivíduos (e não, à possibilidades futuras de indivíduos). Assim, conclui a objeção, por isso não temos obrigações em relação ao modo como nossas decisões afetam seres futuros.
Entretanto, alguém poderia concordar que não temos obrigações em relação à possibilidades futuras de indivíduos e, ainda assim, discordar de que não temos obrigações em relação ao modo como nossas decisões afetam seres futuros.
Em primeiro lugar, alguém poderia defender que temos um dever de fazer com que a história de mundo daqui para frente contenha o máximo possível de seres sencientes com vidas positivas. Esse dever não seria um dever para com essa ou aquela possibilidade futura de ser senciente, e sim, um dever impessoal de trazer à tona as melhores consequências28.
Em segundo lugar, mais importante, mesmo que alguém negue o dever de produzir novos seres sencientes, ainda poderíamos ter pelo menos dois tipos de deveres para com seres futuros:
- Não fazer existir novos seres sencientes para viverem vidas repletas de sofrimento.
- Se um ser senciente futuro existirá necessariamente, tentar fazer com que sua vida contenha menos sofrimento do que outra maneira teria.
Ambos os deveres poderiam ser reconhecidos mesmo por quem rejeita um dever de fazer com que possibilidades futuras de seres sencientes cheguem a se realizar29. E, ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, como será explicado no próximo item, esses dois deveres são
os focos centrais do veganismo, das tentativas de fazer com que os animais explorados sofram menos, da proteção a animais abandonados e também da causa que visa diminuir o sofrimento dos animais selvagens.
3.3. Normalmente a luta pelos animais já é a luta por possíveis seres futuros
Vimos que a objeção que estamos a discutir assume que causas como o veganismo, as tentativas de fazer com que os animais explorados sofram menos, a proteção a animais abandonados e a causa que visa diminuir o sofrimento dos animais selvagens fazem sentido porque "são sobre seres sencientes que já existem". Enquanto isso, mantém a objeção, a preocupação com o futuro em longo prazo não faz sentido porque "é sobre seres que ainda não existem (e que talvez não cheguem a existir)".
Entretanto, isso é equivocado. Cada uma daquelas causas também diz respeito majoritariamente à consideração por seres futuros. Veremos esse ponto a seguir em cada uma delas:
O objetivo central do veganismo não é ajudar animais que já existem, e sim, diminuir a quantidade de animais que nasceria para ter uma vida repleta de sofrimento e para ser assassinado. Portanto, o veganismo é um reconhecimento do dever de não fazer existir novos seres sencientes para viverem vidas repletas de sofrimento.
Considere agora as tentativas de regulamentar a para que os animais sofram menos. Para efeito de argumentação, deixemos de lado a discussão sobre se essas regulamentações realmente diminuem o sofrimento de tais animais. Suponhamos que diminuam. Mesmo se esse for o caso, quando uma regulamentação chega a vigorar, geralmente os animais que serão beneficiados pela mesma não são aqueles que já haviam nascido quando a proposta de regulamentação foi feita. É claro, pode haver algumas exceções, como no caso de vacas e porcas que são exploradas por vários anos. Entretanto, a vasta maioria dos animais são mortos em questão de dias ou meses no máximo. Assim, os ativistas que tentam tais regulamentações estão reconhecendo um dever de, se um ser senciente irá existir no futuro, tentar fazer com que sua vida contenha menos sofrimento do que outra maneira teria.
Passemos agora a considerar o caso da proteção a animais abandonados, como cães e gatos. Novamente, é possível que algumas ações sejam direcionadas a beneficiar animais que já existem, como no caso de oferecer comida, abrigo, tratamento médico, vacinação ou adoção responsável. Entretanto, um dos principais focos do ativismo nessa área é justamente a esterilização, visando evitar que nasçam mais animais em tais situações. Esse foco é, novamente, o reconhecimento do dever de evitar o nascimento de novos seres sencientes que teriam vidas repletas de sofrimento.
O mesmo ocorre em relação à causa que visa diminuir o sofrimento dos animais selvagens30. Novamente, nesse caso também várias ações visam ajudar animais que já existem, como a vacinação e o tratamento de doenças, a ajuda a animais em incêndios e em outros desastres naturais, a assistência a animais órfãos, o resgate de animais presos e programas para atender as necessidades básicas dos animais. Entretanto, a vasta maioria do sofrimento dos animais selvagens e de suas mortes prematuras ocorre por conta das enormes taxas de reprodução31. A maioria das espécies de animais na natureza se reproduz em ninhadas que contém desde milhares até muitos milhões de filhotes. Por exemplo, uma única ninhada de uma rã comum possui em torno de 25 mil filhotes32; a de polvos, centenas de milhares33; as de salmão, bacalhau e atum, milhões34, e a do peixe-lua chega a 300 milhões35. Invertebrados terrestres também podem colocar centenas, milhares ou mesmo milhões de ovos de uma única vez36. Em períodos de aproximada constância populacional, a média de sobreviventes de cada ninhada é de apenas dois filhotes (isto é, um descendente por progenitor). Todo o restante normalmente nasce para experimentar o sofrimento de morrer, sem nenhuma experiência positiva. Por essa razão, o foco principal da proposta de diminuir o sofrimento e as mortes prematuras de animais selvagens é também fazer com que menos indivíduos cheguem a nascer em tais condições. É, também, portanto, o reconhecimento do dever de prevenir que novos seres sencientes cheguem a existir para terem vidas repletas de sofrimento.
Assim, em todas essas lutas, o foco principal é, ou tentar fazer com que seres que existirão no futuro tenham menos sofrimento, ou tentar impedir que novos seres sencientes cheguem a
existir para terem vidas repletas de sofrimento. Em resumo, a causa animal já é normalmente sobre seres futuros. Se é assim, então não faz sentido alegar que não devemos nos preocupar com o futuro em longo prazo, só porque tal preocupação diria respeito a seres que ainda não existem e que podem não chegar a existir. Na preocupação com o futuro em longo prazo, a meta também é tentar fazer com que seres que existirão no futuro tenham menos sofrimento e tentar evitar que novos seres cheguem a existir para ter vidas repletas de sofrimento (e, adicionalmente, dependendo da vertente, fazer com que novos seres cheguem a existir para ter vidas positivas). Isso será assim seja lá se estivermos a falar de possíveis seres sencientes futuros orgânicos ou não orgânicos.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
A causa animal, normalmente, já é sobre...
Negar o dever de produzir novos seres elimina todos os deveres para com seres futuros?
Para pensar
Que decisões suas afetam pessoas ou animais que ainda vão nascer?
Notas do autor 9
- 28 Essa posição é conhecida como ponto de vista total. Sobre isso, ver (2002[1993], p. 111-115) e Višak (2013, p. 71-8). ↩
- 29 Essa posição é conhecida como ponto de vista da existência prévia. Sobre isso, ver Singer (2002[1993], p. 111-115) e Višak (2013, p. 71-8). ↩
- 30 Para os fundamentos filosóficos dessa causa, ver (2022). ↩
- 31 Para uma explicação detalhada sobre isso, ver (2010). ↩
- 32 Rastogi et al. (1983). ↩
- 33 Boyle e Rodhouse (2005). ↩
- 34 Baum e Meister (1971); Hinckley (1987). ↩
- 35 Froese; Luna (2004). ↩
- 36 Brueland (1995). ↩
Fontes citadas neste texto 8
A lista completa do volume está em referências do Volume IX.
- BAUM, E. T.; MEISTER, A. L. Fecundity of Atlantic Salmon (Salmo salar) from two Maine rivers. Journal of the Fisheries Research Board of Canada, v. 28, p. 764-767, 1971.
- BOYLE, P.; RODHOUSE, P. Cephalopods: Ecology and fisheries. Oxford: Blackwell, 2005.
- BRUELAND, H. Highest lifetime fecundity. In: WALKER, T. J. (org.). University of Florida book of insect records. Gainesville: University of Florida, 1995, p. 41-43.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
- FROESE, R.; LUNA, S. No relationship between fecundity and annual reproductive rate in bony fish. Acta Ichthyologica et Piscatoria, v. 34, p. 11-20, 2004.
- HINCKLEY, S. The reproductive biology of walleye pollock, Theragra chalcogramma, in the Bering Sea, with reference to spawing stock structure. Fishery Bulletin, v. 85, p. 481-498, 1987.
- HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010b.
- SINGER, P. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1993].
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