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Volume XI · Como as diversas teorias da ética abordam a questão animal? · capítulo 2

Uma introdução às teorias do bem-estar

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Teorias do bem-estar investigam o que torna a vida de alguém boa (experiências, preferências, bens objetivos, ou combinações); apesar das divergências, há uma convergência mínima: os animais são muito prejudicados nas situações que vivem.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XI, p. 23 da edição em PDF

2.1. O que as teorias do bem-estar visam investigar?

As investigam o que é bom/ruim, melhor/pior para os indivíduos7. Isto é, dizem respeito a avaliar se um indivíduo está bem ou mal, melhor/pior e em que medida.

Observe que o termo bem-estar, da maneira como é usado nesse debate, é bem mais amplo do que a maneira como o termo é usado na linguagem comum. Nesse debate, o termo diz respeito a toda e qualquer circunstância na qual um indivíduo poderia ser prejudicado ou beneficiado. Na linguagem comum, o termo bem-estar é usado em um sentido mais específico, que diz respeito ao quão bem ou mal alguém se sente. No contexto filosófico o termo inclui este sentido, mas não se limita a ele. Por exemplo, o dano da morte é também discutido pelas teorias do bem-estar, mas é normalmente entendido como um dano que depende do quanto priva o indivíduo de coisas positivas, e não do quão bem ou mal ele está se sentindo8. O faz parte da discussão sobre bem-estar porque diz respeito ao que prejudicaria ou beneficiaria um indivíduo. Da mesma maneira, pode soar estranho enquadrar a seguinte questão dentro da discussão sobre bem-estar “alguém é prejudicado se não tem suas preferências atendidas depois de morrer?” (uma vez que o indivíduo já vai estar morto). Mas, é importante lembrar: as teorias do bem-estar dizem respeito a tudo o que poderia prejudicar/beneficiar alguém. É nesse sentido amplo que usaremos o termo nesta obra.

O que as teorias do bem-estar visam descobrir, antes de tudo, é: quais coisas são boas/ruins em si para os indivíduos, e não apenas boas/ruins instrumentalmente (isto é, enquanto meio)? Isso é assim por motivos óbvios: para sabermos se algo é bom ou ruim enquanto meio, precisamos antes saber se as outras coisas que ele produz/evita são boas ou ruins em si. Isto é, a investigação sobre quais coisas são boas/ruins instrumentalmente só faz sentido se sabemos antes quais coisas são boas/ruins em si.

Existem três aspectos principais em discussão no debate sobre quais coisas são boas/ruins em si em relação ao bem-estar dos indivíduos: experiências, preferências e bens objetivos. A

seguir veremos cada um desses aspectos separadamente para, em seguida, vermos o debate entre as teorias que são baseadas neles. O debate se dá em torno de saber qual ou quais desses aspectos são importantes em si para avaliar o bem-estar e, caso haja mais de um, se é possível comensurá-los, e de que maneira.

Seja lá qual ou quais desses aspectos uma teoria afirme que são importantes em si para o bem-estar, há duas possibilidades gerais de um indivíduo ser beneficiado e duas possibilidades gerais de um indivíduo ser prejudicado, como esquematizado na tabela a seguir.

Um indivíduo é beneficiado pela... Um indivíduo é prejudicado pela...
Presença daquilo que for positivoPresença daquilo que for negativo
Ausência daquilo que for negativoAusência daquilo que for positivo

É claro, as diferentes teorias discordam sobre quais aspectos são positivos/negativos para os indivíduos. Veremos esse debate a partir do próximo item.

2.2. Aspectos na avaliação do bem-estar dos indivíduos

2.2.1. Experiências

O aspecto mais óbvio pelo qual um indivíduo pode ser afetado para melhor ou pior é por meio de suas experiências (isto é, de seus estados mentais). Nesse sentido, é amplamente reconhecido que experiências positivas (que também são referidas pelos termos felicidade, prazer, desfrute etc.) são algo bom em si e/ou que as experiências negativas (que também são referidas pelos termos dor e sofrimento) são algo ruim em si.

Quanto a esse aspecto, há então duas maneiras básicas de alguém ser prejudicado: quando tem uma experiência negativa (isto é, quando sofre) e quando é impedido de ter uma experiência positiva (como quando morre, por exemplo). Analogamente, haveria duas maneiras básicas de alguém ser beneficiado: quando tem uma experiência positiva (isto é, quando sente prazer) ou quando é impedido de ter uma experiência negativa (quando tem uma dor aliviada ou prevenida, por exemplo).

É importante observar que afirmar que experiências negativas são ruins em si e que as experiências positivas são boas em si não é negar que experiências negativas por vezes são boas instrumentalmente (quando evitam algo negativo ou conduzem a algo positivo) e que experiências positivas por vezes são negativas instrumentalmente (quando conduzem a algo negativo ou evitam algo positivo). Vimos já exemplos disso no item 1.3 do capítulo anterior.

Algumas perspectivas defendem também que experiências neutras (isto é, que não são experimentadas, nem como positivas, nem como negativas) também são boas em si. Por exemplo, algumas perspectivas defendem que, se ter experiências neutras é melhor do que não ter experiência alguma, então é porque experiências neutras são boas em si (por exemplo, poderia ser defendido que estar consciente é algo bom em si)9. Outro exemplo são as perspectivas que defendem que o estado de tranquilidade que acompanha as experiências neutras é algo bom em si10.

2.2.2. Preferências (desejos)

Algumas visões defendem que outra maneira pela qual os indivíduos podem ser afetados para melhor ou pior é por meio da satisfação ou frustração de suas preferências (entendidas como estados mentais na forma de desejos). Essas visões defendem que a satisfação de preferências é algo bom em si (isto é, independentemente de se satisfazê-las conduz ou não a experiências positivas, e de se evita ou não experiências negativas) e/ou que a frustração de preferências é algo ruim em si (isto é, que frustrá-las é algo ruim, independentemente de isso resultar ou não em experiências negativas, e de se resulta ou não em de experiências positivas).

As visões desse tipo distinguem-se entre si de acordo com os tipos de desejos cuja satisfação consideram boa em si e/ou sua frustração ruim em si. Algumas defendem que são os desejos reais que os indivíduos possuem. Já outras defendem que são os desejos ideais (isto é, os desejos que os indivíduos teriam se fossem racionais e tivessem acesso às informações relevantes para o seu bem-estar).

2.2.3. Bens objetivos

Algumas visões defendem que certas coisas são bens objetivos, no sentido de serem algo bom em si, independentemente de gerarem ou não experiências positivas ou de estarem ou não de acordo com as preferências de quem os teria. Essas visões consideram a presença dessas coisas como algo bom em si, e sua ausência como algo ruim em si.

Por exemplo, há autores que defendem que a amizade verdadeira, apesar de ser preferida pela maioria das pessoas, e apesar de normalmente proporcionar experiências positivas, é boa em si (isto é, seria boa mesmo que não fosse preferida por ninguém e mesmo que não proporcionasse experiências positivas)11.

Outros itens frequentemente listados como bens objetivos são o conhecimento e o desenvolvimento dos talentos. Cada visão desse tipo elabora listas com itens diferentes.

2.3. Teorias do bem-estar monistas e pluralistas

Quanto a assumirem que um ou mais dos três aspectos acima são relevantes em si para determinar o bem-estar, as teorias podem ser classificadas como monistas ou .

As três categorias mais conhecidas de teorias do bem-estar são: teorias experiencialistas12, teorias preferencialistas13 (também conhecidas como teorias baseadas em desejos) e teorias de lista objetiva14. Veremos algo sobre cada uma dessas categorias a seguir.

2.3.1. Teorias experiencialistas

O rótulo experiencialista é dado a qualquer teoria do bem-estar que afirme que experiências são o único aspecto a partir do qual um indivíduo é prejudicado ou beneficiado. São, portanto, teorias monistas.

Uma teoria experiencialista bastante conhecida é o , que afirma que aquilo que é bom em si são as experiências positivas, e aquilo que é ruim em si são as experiências negativas. Para o hedonismo, o valor de todo o restante é somente instrumental a essas coisas.

É importante observar que, na linguagem comum, a palavra hedonista significa algo bem diferente do que essa teoria propõe. Na linguagem comum, um hedonista é alguém que busca os prazeres momentâneos sem se preocupar com o seu bem-estar em longo prazo. Já a teoria hedonista diria que tal indivíduo não está agindo racionalmente para maximizar o seu bem-estar, pois tal comportamento fará com que sua vida tenha provavelmente mais experiências negativas e/ou menos experiências positivas.

O hedonismo não é o único exemplo de teoria experiencialista. Outro exemplo são as teorias que defendem que as experiências neutras são algo bom em si, como é o caso do tranquilismo15. Algumas dessas teorias afirmam que experiências neutras são a única coisa boa em si. Já outras afirmam que tanto as experiências positivas, quanto as neutras, são algo bom em si. De qualquer forma, todas são teorias monistas porque defendem que apenas o aspecto das experiências é relevante em si para o bem-estar.

2.3.2. Teorias preferencialistas

Para as teorias preferencialistas (também conhecidas como teorias baseadas em desejos), o que é bom em si é a satisfação de desejos, e o que é ruim em si é a frustração de desejos. O valor de todo o restante é somente instrumental a essas coisas. Como vimos antes, essas teorias diferem-se entre si de acordo com os tipos de desejos cuja satisfação consideram boa em si: os desejos que os indivíduos de fato possuem, ou os desejos que possuiriam se fossem racionais e tivessem acesso às informações relevantes para o seu bem-estar. Entretanto, todas elas defendem que o único aspecto relevante em si para o bem-estar são os desejos. Portanto, são também teorias monistas.

2.3.3. Comparando experiencialismo e preferencialismo

Comparemos essas duas categorias de teorias. As teorias experiencialistas manterão que normalmente satisfazer desejos é algo bom, mas porque normalmente isso conduz a experiências positivas ou evita experiências negativas. Analogamente, as teorias preferencialistas manterão que normalmente é algo bom promover experiências positivas e

evitar experiências negativas, mas apenas porque fazê-lo coincide com o que os indivíduos desejam.

Entretanto, nem sempre essas coisas coincidem. Por exemplo, é possível que alguém tenha um desejo por algo que lhes causará sofrimento, ou que não tenha um desejo por algo que lhe causaria felicidade. No item 2.4 veremos exemplos de situações desse tipo.

2.3.4. Versões negativas de teorias experiencialistas e preferencialistas

As teorias experiencialistas e preferencialistas também possuem . Segundo a versão negativa do experiencialismo, as experiências negativas são ruins em si, mas as experiências positivas não são boas em si. Segundo essa versão, o que é bom para os indivíduos é apenas a ausência do sofrimento. Essa visão é ligeiramente diferente das visões experiencialistas que defendem que estados neutros possuem valor em si. As versões negativas do experiencialismo defendem apenas que a ausência do sofrimento é algo bom em si (e não que estados neutros são bons em si). Assim, entre não ter experiência alguma, ou ter estados neutros, as visões experiencialistas que valorizam em si estados neutros diriam que é melhor ter estados neutros; já as versões negativas do experiencialismo diriam que tanto faz, uma vez que, em ambos os casos, há ausência de sofrimento.

Analogamente, segundo a versão negativa do preferencialismo, ter desejos frustrados é ruim em si, mas ter desejos satisfeitos não é bom em si. Segundo essa versão, a satisfação de desejos só é boa porque não implica a sua frustração, mas o melhor para o indivíduo seria não ter desejos, para não correr o risco de não os realizar. É importante observar que, por ser uma forma de preferencialismo, essa versão defende que ter desejos frustrados é algo ruim em si, e não, porque pode ocasionar sofrimento.

Tudo o que vimos até agora são exemplos de teorias monistas do bem-estar, pois defendem que há apenas um aspecto com valor/desvalor em si.

2.3.5. Teorias de lista objetiva

As teorias de lista objetiva defendem que existem bens objetivos (que vimos no item 2.2.3), e podem ser monistas ou pluralistas. Serão monistas quando constroem listas com um único item. Entretanto, normalmente são pluralistas, e afirmam que há vários itens que possuem valor em si de maneira independente (esses itens formam as diversas listas das várias teorias de lista objetiva).

2.3.6. Outras possibilidades de teorias pluralistas

É importante lembrar que também são possíveis outros tipos de visões pluralistas que combinem alguns ou mesmo todos os aspectos que vimos antes. Um exemplo seria afirmar que tanto experiências (positivas e/ou neutras) quanto preferências satisfeitas são algo bom em si. Outro exemplo seria afirmar que experiências (positivas e/ou neutras) e também certos itens de lista objetiva são bons em si. Ou, que preferências satisfeitas e também certos itens de lista objetiva são bons em si. Ou ainda, que, tanto experiências (positivas e/ou neutras), quanto preferências satisfeitas e itens de lista objetiva são bons em si. As possibilidades são muitas, explicitadas na tabela a seguir:

PossibilidadesExperiênciasPreferênciasBens objetivos
MonistasX
X
X
Pluralistas com dois aspectosXX
XX
XX
Pluralistas com três aspectosXXX

No debate sobre as teorias do bem-estar, a maioria das teorias discutidas são monistas, e muitas das críticas que uma corrente monista faz à outra diz respeito exatamente a um grupo de teorias não levar em conta aquilo que o outro grupo julga importante. Uma maneira de evitar esse problema é adotar uma teoria pluralista. É claro, as teorias pluralistas enfrentam também problemas que não aparecem para as teorias monistas. Um exemplo é a maior dificuldade de encontrar um método adequado para comensurar os diferentes aspectos. Isto é, um defensor do monismo poderia alegar que sua grande vantagem é a maior simplicidade de aplicação. Porém, um defensor do pluralismo poderia alegar que é melhor ter uma maior dificuldade de aplicação do que deixar de levar em conta todos os fatores que podem ser relevantes em si.

2.4. Exemplos para ilustrar as diferenças entre as abordagens

A seguir veremos exemplos que ilustram como as diversas teorias do bem-estar se aplicariam a situações particulares. Esses exemplos são úteis não apenas para vermos em quais pontos essas teorias convergem e em quais pontos divergem. Também nos ajudam a refletir sobre: (1) se um aspecto é bom/ruim em si, ou bom/ruim somente enquanto meio e, (2) sobre, caso seja bom/ruim em si, qual deveria ser o seu peso relativamente a outros aspectos.

2.4.1. O caso da preferência prejudicial

Suponhamos que uma criança tenha um desejo cuja realização lhe será prejudicial (resultará em seu sofrimento posterior ou mesmo em sua morte). Imaginemos, por exemplo, que ela deseja colocar um saco plástico na cabeça cobrindo todo o seu rosto, por não saber que isso lhe sufocará.

As teorias experiencialistas diriam que, caso a preferência dessa criança seja realizada, ela não é beneficiada sob aspecto algum, pois tal realização resultará em experiências negativas e possivelmente na privação de experiências positivas (por exemplo, caso ela morra).

Já quanto às teorias preferencialistas, à primeira vista poder-se-ia pensar que elas teriam de dizer que a criança em questão é beneficiada se tiver sua preferência realizada, mesmo que sofra depois (e mesmo que morra). Contudo, um preferencialista poderia afirmar que, se a criança tiver essa preferência satisfeita, será beneficiada sob certo aspecto (teve uma preferência satisfeita) mas que, tudo considerado, será muito mais prejudicada do que beneficiada, justamente porque a realização de sua preferência nesse caso, ou resulta na frustração de outras preferências mais importantes que possui (como não sofrer), ou mesmo impede a realização de qualquer outra preferência que tiver (caso venha a morrer).

Existe uma teoria preferencialista que manteria que essa criança não seria beneficiada sob aspecto algum se tiver realizada essa preferência. Essa variante afirma que as preferências que importam para o bem-estar não são aquelas que de fato temos, mas aquelas que teríamos se tivéssemos disponíveis as informações relevantes para o nosso bem-estar. Entretanto, mesmo tendo as informações disponíveis, ainda podemos ter preferências que são irracionais (devido a termos feito deduções equivocadas, por exemplo). Por isso, essa posição defende que as preferências que importam para o bem-estar não são as que de fato temos, mas as que teríamos se fossemos racionais e tivéssemos disponíveis as informações relevantes para o nosso bem-estar16.

Outra abordagem possível é manter uma perspectiva pluralista, segundo a qual tanto as experiências positivas são consideradas boas em si (e as experiências negativas ruins em si) quanto a satisfação das preferências é considerada boa em si (e a frustração de preferências ruim em si). Nesse caso, essa visão pluralista poderia até afirmar que a criança em questão foi beneficiada sob um aspecto (teve uma preferência satisfeita) mas que, tudo considerado, foi muito mais prejudicada (pois em seguida teve experiências negativas ou o impedimento de experiências positivas, e também teve frustradas outras preferências que possuía, ou as preferências que possuiria se fosse racional e tivesse as informações relevantes disponíveis). Essa posição pluralista, caso incluísse também itens de uma lista objetiva, poderia dizer que tal criança seria prejudicada ainda sob esse outro aspecto, caso a realização desse desejo impedisse ela de desfrutar de algum desses itens.

2.4.2. O caso da preferência do moribundo

Suponhamos que alguém esteja à beira da morte e tenha um último desejo. Desejos comuns nesse sentido são, por exemplo, querer que seu corpo seja cremado em vez de ser enterrado, ou vice-versa. Imaginemos o seguinte exemplo: alguém deseja que, após sua morte, seu corpo seja enterrado ao lado do corpo dos pais.

Segundo as visões que dizem que apenas experiências são diretamente relevantes para o bem-estar, tal indivíduo não será beneficiado se esse desejo for satisfeito, nem será prejudicado se não for. Como é um desejo que só poderá ser realizado depois que ele morrer, a realização desse desejo não aumentará as experiências positivas desse indivíduo, nem diminuirá suas

experiências negativas, nem sua frustração fará com que tenha alguma experiência negativa nem impedirá nenhuma experiência positiva (assumindo aqui que não há vida após a morte17).

Já as visões que defendem que a satisfação de preferências é algo bom em si dirão que o indivíduo em questão será beneficiado sob certo aspecto se o desejo em questão for satisfeito, e que será prejudicado se não for, mesmo que o indivíduo não exista mais. Por exemplo, poderiam dizer que algumas preferências são orientadas para o futuro, e que o portador dessas preferências é beneficiado se elas forem satisfeitas, mesmo que já tenha morrido quando isso ocorrer. Isso vale tanto para as visões que defendem que as preferências são tudo o que importa (como no preferencialismo, que é uma abordagem monista) quanto para as que defendem que as preferências também importam (como em visões pluralistas).

2.4.3. O caso da verdade dolorosa e que alguém não deseja saber

Suponhamos que uma pessoa descobre que alguém que estimava muito já faleceu. Imaginemos que essa pessoa tem um sofrimento intenso por descobrir a verdade, e que também desejava não ter descoberto a verdade.

As teorias centradas em experiências e as teorias centradas em preferências (e também as teorias que combinam ambas as coisas) diriam que essa pessoa não foi beneficiada sob aspecto algum por ter descoberto a verdade, uma vez que só teve sofrimento ao descobri-la, e também desejava não tê-la descoberto.

Agora, imaginemos que uma teoria de lista objetiva mantenha que conhecer a verdade é bom em si. Essa teoria diria que, nesse caso, essa pessoa foi beneficiada sob certo aspecto: descobriu a verdade.

À primeira vista, poderíamos pensar que tal teoria de lista objetiva teria de necessariamente afirmar que essa pessoa tudo considerado foi mais beneficiada do que prejudicada por descobrir a verdade. Contudo, isso será assim somente se a teoria em questão afirmar que a única coisa que possui é a verdade (ou, que saber a verdade é sempre mais importante do que evitar experiências negativas ou evitar frustrar preferências).

Entretanto, imaginemos que a teoria em questão reconhecesse que, além de descobrir a verdade, ter experiências positivas e ter preferências satisfeitas também são coisas boas em si. Nesse caso, essa teoria diria que, apesar de tal pessoa ter sido prejudicada sob dois aspectos (teve uma experiência negativa e teve uma preferência frustrada), foi beneficiada em pelo menos um aspecto: descobriu a verdade (que, nessa teoria, é algo visto como bom em si).

É claro, nesse caso, saber se ter descoberto a verdade foi melhor ou pior tudo considerado dependerá de como comparar o peso do valor das preferências, das experiências e dos itens da lista objetiva (e de se isso é possível). Discutimos já brevemente como comensurar diferentes aspectos no item 1.6 e voltaremos a esse tema no Capítulo 7.

2.4.4. O caso da violação inconsciente

Imaginemos que alguém é violentado enquanto está totalmente inconsciente. Por estar totalmente inconsciente, esse alguém não teve nenhuma experiência negativa ao ser violentado. Imagine também que o fato de ser violentado não lhe impedirá de desfrutar de nenhuma experiência positiva, e nem lhe trará experiências negativas posteriores. Quando acordar, sequer saberá que foi violentado. É claro que, na vida real, é possível que, mesmo inconsciente, passar por algo assim deixe traumas a nível subconsciente. Mas, para efeito de argumentação, imagine que no nosso exemplo não ocorre nenhum trauma desse tipo.

De acordo com visões que unicamente valorizam em si ter experiências positivas e evitar experiências negativas, tal indivíduo não foi prejudicado sob aspecto algum. Em defesa de tal visão, seus proponentes poderiam oferecer o seguinte contraexemplo: imaginemos que alienígenas com uma tecnologia super avançada estejam a fazer exatamente isso conosco há vários anos toda vez que vamos dormir. Se nada disso nos prejudicou até agora, diriam os proponentes desse contraexemplo, é porque não há como prejudicar alguém sem lhe proporcionar experiências negativas, nem impedir-lhe experiências positivas18.

Agora, de acordo com visões centradas em preferências, a resposta pode variar. Aquelas centradas nas preferências que o indivíduo de fato possui diriam que, se alguém prefere que isso não aconteça consigo, então será prejudicado se acontecer, mesmo que isso não afete suas experiências. Entretanto, terão de dizer também que alguém que ainda não formou uma preferência por não ser violentado enquanto está inconsciente (por exemplo, uma criança pequena) não seria prejudicado caso isso acontecesse. Por outro lado, aquelas centradas nas preferências que alguém teria se tivesse as informações relevantes e fosse racional poderiam dizer que tal indivíduo foi prejudicado independentemente de já ter formado ou não uma preferência quanto a isso, pois provavelmente formaria uma preferência por não ser violentado se soubesse do que iria lhe acontecer.

Por fim, quanto às visões centradas em itens objetivos, a resposta dependerá de quais itens elas valorizam em si. Se elas valorizarem, por exemplo, as decisões autônomas que alguém teria sobre o que vai acontecer com o próprio corpo, provavelmente diriam que tal indivíduo foi prejudicado por não poder escolher nesse caso. Entretanto, elas teriam que dizer que os indivíduos incapazes de tomar decisões autônomas não seriam prejudicados se isso ocorresse.

2.4.5. O caso da máquina de felicidade

Um dos experimentos de pensamento mais utilizados contra a ideia de que somente as experiências importam em si para o bem-estar é conhecido como o caso da máquina de felicidade19. A seguir reconstituiremos o exemplo, e em seguida o discutiremos.

O exemplo consiste em pensar que, se tudo o que importa é ter experiências positivas e/ou evitar experiências negativas, então seríamos beneficiados se pudéssemos viver em um mundo que nos proporcionasse somente experiências maravilhosas, mas que fosse totalmente virtual, como no filme Matrix. Por exemplo, você come sua sobremesa favorita e o gosto dela é delicioso, mais delicioso do que no mundo real, mas a sobremesa em questão é virtual.

O objetivo desse exemplo é sugerir que, se não gostaríamos de viver em tal máquina (isto é, se preferiríamos viver em um mundo não virtual, mesmo que com menos experiências positivas), então é porque achamos que importa não apenas que as experiências sejam

positivas, mas que o estímulo que as faz surgir seja real. A seguir veremos um resumo do debate sobre esse experimento.

Uma primeira maneira de responder a esse experimento é simplesmente defender que seríamos beneficiados se tivéssemos que viver em tal máquina. Um contraexemplo que poderia ser dado nesse sentido é o seguinte: imaginemos que descobrimos que, desde que nascemos até o momento atual, já estamos em tal máquina. Tudo o que experimentamos até agora foi virtual. Imaginemos também que descobrimos uma maneira de sairmos dessa realidade virtual e ir para a realidade efetiva, mas que a realidade efetiva será muito pior para nós do que nossa vida atual virtual: teremos apenas sofrimento excruciante. Isso sugere que, do nosso ponto de vista, é melhor a realidade virtual.

Uma possível resposta a esse contraexemplo é defender que ele mostra apenas que é mais importante evitar experiências negativas e buscar experiências positivas, mas que isso não mostra que isso é tudo o que importa. Nesse sentido, poderia ser defendido que, se pudéssemos comparar duas realidades, uma virtual e outra efetiva, onde ambas fossem iguais em termos de experiências positivas e negativas, e fosse melhor para nós escolher a realidade efetiva, então parece que as experiências não são tudo o que importa.

Novamente, uma resposta a esse segundo exemplo é dizer que, nesse caso, tanto faz. Outro contraexemplo que poderia ser dado nesse sentido é pensar no seguinte: imagine sua sobremesa favorita. Imaginemos que você descubra que a última vez que você a comeu, ela era virtual. A questão é: do ponto de vista de sua experiência, isso faz diferença? A experiência não foi tão boa por causa disso? A sobremesa foi menos gostosa por causa disso? Parece que não.

Uma resposta possível a esse contraexemplo consiste em primeiro reconhecer que o valor de algumas coisas (muitas coisas, talvez) parece residir unicamente no tipo de experiência que proporcionam, mas em seguida, defender que isso não se aplica a todas as coisas. Pode não fazer diferença saber se a sobremesa que comemos é virtual ou não, desde que proporcione o mesmo prazer. Entretanto, suponhamos que descobríssemos que todos os indivíduos que amamos na verdade não são : são apenas simulações virtuais dos indivíduos reais. Imagine que também descobrimos que os indivíduos reais estão em outra realidade, e que podemos nos mudar para lá se quisermos. Entretanto, se nos mudarmos, o preço a pagar para estar com os seres reais que amamos é ter menos experiências positivas do que teríamos no mundo virtual.

Se decidimos que é melhor ter menos experiências positivas para poder ter interações com os indivíduos reais que amamos, e não com simulações, então não apenas valorizamos em si tais interações, como também as valorizamos em maior grau do que ter o máximo de experiências positivas. É claro, isso não significa que sempre valorizaremos tais interações em maior grau do que as experiências. Por exemplo, se a escolha fosse entre permanecer no mundo virtual e manter experiências positivas, ou encontrar os seres reais que amamos, mas às custas de termos que sofrer tormentos excruciantes por um longo período de tempo, já teríamos dúvidas sobre o que é melhor para nós20.

Este foi um breve resumo do debate sobre o exemplo da máquina de experiências. Esse e os outros exemplos que vimos acima não deveriam dar a entender que as diversas abordagens sobre o bem-estar sempre discordarão. A seguir veremos vários pontos de convergência.

2.5. Em que medida essas abordagens divergem/convergem?

O que foi mostrado antes pode dar a impressão de que as diferentes abordagens sobre o bem-estar divergem fundamentalmente em todos os aspectos. Entretanto, essa impressão é equivocada: o grau de convergência é bem maior do que normalmente se imagina.

Vimos que a maioria das divergências se dá entre visões que veem apenas um dos três aspectos (experiências, preferências e itens objetivos) como relevantes em si para o bem-estar. Entretanto, como vimos, não é necessário adotar uma visão desse tipo. Também é possível considerar que vários desses fatores são relevantes em si. Por exemplo, mesmo quem valoriza

em si a satisfação de desejos ou bens objetivos também normalmente reconhece que o sofrimento é ruim em si, e que a felicidade é boa em si.

Isso não se dá por acaso. O fato de o sofrimento ser, em si, uma experiência negativa, mostra que o sofrimento é ruim em si. Analogamente, a felicidade ser, em si, uma experiência positiva, mostra que ela é boa em si21. Isso é algo muito forte em termos de prova22. Por exemplo, é mais forte do que qualquer prova que possamos dar referente a descrições de fatos sobre o mundo exterior. Não conseguimos provar que não estamos enganados quanto à nossa crença de que o mundo exterior existe de fato (pois, se ele for uma simulação virtual, teremos exatamente as mesmas experiências). Em contrapartida, não é possível estarmos enganados ao dizermos que o sofrimento já é ele próprio algo negativo e que a felicidade já é ela própria algo positivo, pois nesse caso, é o próprio fato de experimentá-las desse modo aquilo que torna tais experiências, respectivamente, negativas ou positivas.

Uma crítica a esse raciocínio é apontar que ele implica que a felicidade que um torturador sente ao torturar suas vítimas é algo bom em si. Entretanto, aqui é importante lembrar que estamos a falar de teorias do bem-estar, e não de teorias da ação correta. Tudo o que as teorias do bem-estar diriam é que o torturador em questão foi beneficiado por sentir tal felicidade (e que, obviamente, suas vítimas foram prejudicadas por serem torturadas). Tais teorias não diriam que é correto que o torturador faça isso, uma vez que não são teorias da ação correta: algo ser bom em si para o bem-estar de alguém não é o mesmo que ser uma ação correta em si.

Assim, apesar de ser um debate em aberto saber se há outras coisas para além das experiências negativas que são relevantes em si para o bem-estar, certamente que tais experiências são relevantes para o bem-estar. Derek , proponente de uma teoria de lista objetiva, coloca a questão da seguinte maneira:

Em todas essas teorias, a felicidade e o prazer são pelo menos uma parte do que torna nossas vidas melhores para nós, e nosso tormento e dor são pelo menos uma parte do que faz nossas vidas piorarem. Essas afirmações seriam feitas por qualquer teoria de lista objetiva plausível. E, elas são

implicadas por todas as versões da teoria da satisfação de desejos. Em todas as teorias, a teoria hedonista é pelo menos uma parte da verdade23.

Assim, pelo menos nisso as diversas abordagens do bem-estar podem convergir. Além disso, na maioria dos casos aquilo que evita sofrimento e proporciona experiências positivas está de acordo com aquilo que alguém prefere, e também ajuda a alcançar as coisas que normalmente são consideradas bens objetivos. É claro, como vimos, por vezes esses fatores conflitam. Entretanto, parece que na maioria dos casos eles convergem.

As discussões sobre teorias do bem-estar (ou qualquer outro tópico filosófico) tendem a ser focadas nas divergências entre as diversas abordagens. Perceber tais divergências é importante para as avaliarmos. Entretanto, focar nas divergências também pode ofuscar o grau de convergência. Podemos achar que não há grau algum de convergência mesmo quando pode haver até mesmo um grau grande de convergência, como parece ser o caso entre as diversas abordagens referentes ao bem-estar.

2.6. O grau mínimo de convergência e implicações para o bem-estar dos animais

Se toda teoria plausível do bem-estar precisa reconhecer o desvalor do sofrimento e o valor das experiências positivas, então todas elas precisam reconhecer que os animais não humanos são altamente prejudicados nas circunstâncias em que se encontram normalmente.

Seja lá se nascem na exploração animal, seja lá se nascem na natureza, a norma é que suas vidas sejam repletas de sofrimento e que morram prematuramente. O sofrimento é, em si, uma experiência negativa. A morte prematura impede que o indivíduo desfrute de experiências positivas (e quanto mais prematura, menos o indivíduo desfrutou até o momento e mais teria pela frente para desfrutar). Cada um desses animais tem, normalmente, vidas nas quais o sofrimento (geralmente, extremo) predomina largamente sobre as experiências positivas.

Portanto, seja lá qual teoria do bem-estar julguemos a mais adequada, precisamos reconhecer que os animais são altamente prejudicados por se encontrarem em tais situações.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que é uma teoria do bem-estar pluralista?

Qual é a convergência mínima entre as teorias, segundo o capítulo?

Para pensar

O que, para você, torna a vida de alguém boa? Isso vale para um animal?

Notas do autor 17
  1. 7 Para uma breve introdução sobre as correntes de teorias do bem-estar, ver (1998, p. 29-41) e Santos (2017). Para uma introdução detalhada, ver (2016). ↩
  2. 8 O dano da morte foi o tema de todo o Volume III desta coleção. ↩
  3. 9 Ver, por exemplo, (1983, p. 145) ↩
  4. 10 Ver, por exemplo, (2017). ↩
  5. 11 Para um exemplo, ver (2009 [c. 330 a.C]). ↩
  6. 12 Ver por exemplo (2006). ↩
  7. 13 Ver por exemplo (2002 [1979]). ↩
  8. 14 Ver, por exemplo, Griffin (1986). ↩
  9. 15 Sobre tranquilismo,ver Gloor (2017). ↩
  10. 16 Ver, por exemplo, (1994). ↩
  11. 17 A questão de como pesar essas questões diante da incerteza sobre se a morte coincide ou não com a aniquilação é discutida no capítulo 13 do Volume III desta coleção. ↩
  12. 18 É claro, como vimos, algumas variantes dessas teorias poderiam incluir também o prejuízo pelo impedimento de experiências neutras. Mas, imaginemos então que no nosso exemplo também não foram impedidas experiências neutras. ↩
  13. 19 Esse exemplo é apresentado por (1974, p. 42-45). ↩
  14. 20 Observe que esse é um debate sobre o que é melhor para os indivíduos, e não necessariamente sobre qual a ação correta. Por exemplo, alguém poderia manter que, para os indivíduos, é melhor permanecer na realidade virtual (caso o preço a pagar por estarem na realidade efetiva perto dos seres reais que amam fosse ter tormentos excruciantes), mas que, ainda assim, a ação correta é ir para a realidade efetiva ficar perto desses seres reais. Isso poderia ser fundamento de diferentes maneiras. Por exemplo, poderia ser defendido que o tormento que os entes queridos na realidade efetiva teriam pela ausência dos indivíduos que agora estão na realidade virtual seria maior do que o tormento que estes teriam ao ir para a realidade efetiva (esse seria um exemplo de como raciocinariam teorias éticas consequencialistas). Outra maneira de tentar fundamentar seria dizer que, independentemente de quem teria o tormento maior, haveria o dever de ir para a realidade efetiva por conta de uma regra de fidelidade ou gratidão aos entes queridos reais (esse seria um exemplo de como raciocinariam teorias éticas deontológicas). As teorias da ação correta serão abordadas a partir do capítulo 5. ↩
  15. 21 Voltaremos nesse ponto no capítulo 4. ↩
  16. 22 Isso vem sendo conhecido como prova mostrativa. Sobre isso, ver Dall'Agnol (2014, p. 222, 234). ↩
  17. 23 Ver Parfit (1984, p. 4). ↩
Fontes citadas neste texto 12

A lista completa do volume está em referências do Volume XI.

  • ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martins Fontes, 2009 [c. 330 a.C].
  • CRISP, R. Reasons and the Good. Oxford: Clarendon Press, 2006.
  • FLETCHER, G. The Philosophy of Well-Being: An Introduction. Londres: Routledge, 2016.
  • GLOOR, L. Tranquilism. Center on Long-Term Risk, 18 jul. 2017.
  • GRIFFIN, J. Well-Being. Its Meaning, Measurement, and Moral Importance. Oxford: Oxford University Press, 1986.
  • JAMIESON, D. Killing persons and other beings. In: MILLER, H. B. & WILLIAMS, W. H. (orgs.). Ethics and animals. Clifton: Humana Press, 1983, pp. 135-146.
  • KAGAN, S. Normative Ethics. Colorado: Westview Press, 1998.
  • NOZICK, R. Anarchy, state and utopia. New York: Basic Books, 1974.
  • PARFIT, D. Reasons and persons. Oxford: Oxford University Press, 1984.
  • SANTOS, B. A. G. Três teorias sobre o bem-estar. Crítica na Rede. 11, jan. 2017.
  • SINGER, P. Ética Prática. 3. ed. Trad. Jefferson L. Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2002 [1979].
  • SOBEL, D. Full Information Accounts of Wellbeing. Ethics, v. 104, n. 4, p, 784-810, 1994.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Há outras coisas para além do sofrimento/prazer que afetam o bem-estar (como a satisfação de preferências e obter bens objetivos como conhecimento, relações especiais etc.). (VI, cap. 5; XI, cap. 2).
O critério da senciência diz apenas quais seres possuem um bem-estar. O critério não se compromete necessariamente (ainda que seja compatível) com a tese de que o bem-estar se resume à sofrimento/prazer. Também é compatível com a tese de que o bem-estar inclui também, por exemplo, a satisfação de preferências e bens objetivos.

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