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de Ética
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Volume XI · Como as diversas teorias da ética abordam a questão animal? · capítulo 1

Uma introdução às distinções centrais em teoria do valor

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A teoria do valor investiga o que é bom ou ruim, melhor ou pior; ela distingue valor em si de valor instrumental, "melhor do que" de "melhor de todas" e o que é bom sob certo aspecto do que é bom tudo considerado.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XI, p. 10 da edição em PDF

1.1. Teorias do valor e teorias da ação correta

Considere dois tipos de questão:

  • Como avaliar quais situações são boas/ruins, melhores/piores?
  • Como avaliar qual a ação correta?

Questões do primeiro tipo são o objeto de estudo da teoria do valor1. Já as do segundo tipo são objeto de estudo da ética (mais especificamente da )2.

As teorias do valor não estudam como as pessoas avaliam quais situações são boas/ruins, melhores/piores, e sim, como avaliar corretamente. Da mesma maneira, as teorias da ética normativa não estudam o que as pessoas avaliam qual é a ação correta, e sim, como avaliar corretamente. São, portanto, áreas normativas em essência, e não, descrições psicológicas do que as pessoas pensam sobre esses assuntos.

Na linguagem comum, quando se fala dos valores de alguém, normalmente o que se quer dizer são os princípios que ela segue ao agir. Entretanto, como vimos, embora estejam relacionados (uma vez que a principal função dos julgamentos sobre valor é guiar a prática), os domínios do valor e da ação correta são dois domínios distintos do pensamento.

Toda vez que fazemos avaliações do tipo bom/ruim, pior/melhor, estamos no domínio do valor. Já quando pensamos no que devemos ou não devemos fazer (e no que tanto faz fazer ou não), estamos no domínio da ação correta (isto é, da ética). Observe que o uso do termo ação aqui é amplo, pois aplica-se tanto a avaliação de atos quanto de omissões. Portanto, o debate em ética diz respeito, na verdade, à decisão correta. Entretanto, como o termo ação já é amplamente utilizado nessa área, o manteremos aqui. Porém, é preciso lembrar que ele inclui também a avaliação sobre omissões.

A ética normativa é uma área diferente da área das teorias normativas da decisão racional3. Embora ambas as áreas sejam sobre qual a decisão correta, e ambas as áreas sejam normativas, as teorias normativas da decisão racional visam investigar como escolher os melhores meios para se alcançar determinado fim (especialmente sob condições de incerteza). Já nas teorias da ética normativa o que está em discussão, em primeiro lugar, é quais fins deveríamos adotar.

Como veremos no Capítulo 5, algumas teorias da ética normativa determinam a ação correta totalmente a partir de avaliações sobre quais situações são boas/ruins, melhores/piores, enquanto que outras inserem outros fatores que funcionam como limitadores da busca pela melhor situação.

No presente capítulo, contudo, falaremos apenas das distinções centrais em teoria do valor.

1.2. Teorias do valor e nomenclaturas utilizadas

O domínio dos julgamentos valorativos (isto é, sobre bom/ruim, melhor/pior) é bastante amplo. Tais julgamentos podem ser aplicados a situações, intenções, instrumentos ("esse é um bom martelo?") etc., sem se estar necessariamente a falar da ação correta. Por razões que ficarão mais claras nos capítulos posteriores, focaremos aqui na avaliação do valor de situações.

É importante observar que há dois tipos de nomenclaturas utilizadas nessa discussão, mas que significam a mesma coisa:

Nomenclatura 1Nomenclatura 2Significado
X possui valorX possui valor positivoX é bom
X possui desvalorX possui valor negativoX é ruim
X é neutro em termos de valorX possui valor neutroX não é bom nem ruim

O fato de haver dois sistemas de nomenclaturas para dizer a mesma coisa pode causar confusão. Por essa razão, aqui tentaremos evitar ambas as nomenclaturas, e falaremos apenas de bom/ruim/neutro e de melhor/pior.

1.3. Valor em si e valor instrumental

Uma distinção central em teoria do valor é entre bom/ruim em si e bom/ruim instrumentalmente4. Quando dizemos que algo é bom em si estamos a dizer que esse algo já é bom sem precisar conduzir a outra coisa boa. Analogamente, se dizemos que algo é ruim em si, estamos a dizer que ele próprio já é ruim sem precisar conduzir a outra coisa ruim. Por outro lado, quando dizemos que algo é bom ou ruim instrumentalmente, estamos a falar que ele conduz a outras coisas boas ou ruins. A seguir veremos alguns exemplos de ambas as categorias.

O sofrimento parece ser o exemplo mais evidente de algo ruim em si. Isto é, o sofrimento já é ele próprio algo negativo: não precisa conduzir a outra coisa negativa para ser negativo. Já a felicidade parece ser o tipo de coisa que já é ela mesma positiva: não precisa conduzir a outra coisa positiva para ser positiva.

Existem outras coisas, contudo, cujo valor ou desvalor dependem unicamente de conduzirem a outras coisas boas ou ruins. Por exemplo, atravessar a rua não parece ser, em si, bom ou ruim. Pode ser bom se nos fará encontrar do outro lado da rua algo que nos beneficie; mas pode ser ruim se formos atropelados ao atravessar, por exemplo.

Contudo, na imensa maioria dos casos, uma coisa será, tanto boa ou ruim em si quanto boa ou ruim instrumentalmente. Vejamos as possíveis combinações e exemplos de cada uma delas:

(1) Algo bom em si e também bom instrumentalmente. Suponhamos que vemos um filme que gostamos muito e isso nos proporciona uma experiência agradável. Essa experiência, por ser positiva, parece ser já boa em si. Imaginemos também que o prazer que sentimos vendo o filme nos deixa animados a ponto de conseguirmos terminar uma tarefa que estávamos

adiando. Nesse caso, o prazer também foi bom instrumentalmente, pois também conduziu a outra coisa boa (supondo, é claro, que a tarefa em questão fosse produzir algo bom).

(2) Algo bom em si e ruim instrumentalmente. Suponhamos que comemos uma comida muito saborosa, e, como resultado, temos um prazer imenso ao saboreá-la. O prazer que sentimos parece já ser bom em si. Contudo, imaginemos que tal prazer é tão intenso que nos faz exagerar, a ponto de ficarmos doentes depois. Nesse caso, o prazer, apesar de ter sido positivo em si, foi instrumentalmente negativo (isto é, foi bom e conduziu a outra coisa ruim).

(3) Algo ruim em si e também ruim instrumentalmente. Suponhamos que torci o pé e isso me causou uma dor intensa. Além disso, devido a estar com muita dor, estou fora da corrida da qual queria participar. Nesse caso, a dor que senti foi tanto ruim em si (pois a dor é sempre uma experiência negativa) quanto ruim instrumentalmente (pois também me impediu de participar da corrida).

(4) Algo ruim em si e bom instrumentalmente. Imaginemos que encosto minha mão no fogo e a dor que sinto faz com que eu afaste automaticamente a mão. Essa dor foi ruim em si: dado o tipo de experiência que é, a dor é sempre experimentada como algo negativo. Contudo, nesse caso, essa dor foi boa instrumentalmente, pois evitou que eu permanecesse com a mão no fogo e me queimasse ainda mais5.

A distinção entre bom/ruim em si e bom/ruim instrumentalmente nos lembra então que:

(1) Algo ser bom em si não implica que seja necessariamente bom instrumentalmente. (2) Algo ser ruim em si não implica que seja necessariamente ruim instrumentalmente. (3) Algo ser bom instrumentalmente não implica que seja necessariamente bom em si. (4) Algo ser ruim instrumentalmente não implica que seja necessariamente ruim em si.

1.4. Modos da avaliação melhor/pior: melhor/pior do que e melhor/pior de todas

No item anterior falamos de avaliações do tipo bom/ruim. Neste item falaremos de avaliações do tipo melhor/pior. Essas avaliações possuem dois modos:

(1) Melhor/pior do que (em inglês, better/worse than). (2) Melhor/pior de todas (em inglês, the best/worst).

Para entender essa distinção considere o exemplo a seguir. Imaginemos as situações A, B e C. Suponhamos que, da melhor para a pior, tenhamos: A > B > C. Nesse caso, B é melhor do que C, mas não é a melhor das três. Da mesma maneira, B é pior do que A, mas não é a pior das três. Agora, levando em conta as três situações, A é a melhor, e C é a pior.

Importante: uma situação ser melhor do que outra (ou mesmo ser a melhor de todas as que estão sendo comparadas) não garante que ela seja positiva. Analogamente, uma situação ser pior do que outra (ou mesmo ser a pior de todas as que estão sendo comparadas) não garante que ela seja negativa. Veremos a seguir um exemplo.

Suponhamos que as três situações acima pudessem ser medidas em seu valor. O sinal positivo indica que a situação é boa, e o sinal negativo, que é ruim. Os números indicam quão boa/ruim é a situação. Imaginemos que tivéssemos: A=+3 > B=+2 > C=+1. A situação B ser pior do que a situação A não implica que B seja uma situação negativa (como podemos ver, é positiva). Nem mesmo a situação C ser a pior das três implica que ela seja negativa.

Imaginemos agora outro caso, no qual A=-1 > B=-2 > C=-3. A situação B ser melhor do que a situação C não implica que seja positiva. Além disso, a situação A ser a melhor das três também não implica que seja positiva.

Em resumo: enquanto os conceitos de bom/ruim nos indicam se uma situação é positiva ou negativa, os conceitos de melhor/pior (seja melhor/pior do que ou melhor/pior de todas) não nos dão tal informação.

1.5. Valor: em certo aspecto ou tudo considerado?

Avaliações do tipo bom/ruim e melhor/pior ("do que" e "de todas") podem se referir a uma situação como um todo (isto é, tudo considerado) ou apenas em certo aspecto. A avaliação do valor da situação tudo considerado diz respeito a saber se, levando em conta todos os aspectos bons e ruins da situação, ela é mais positiva ou mais negativa, e o quão mais positiva ou negativa é. No item 1.5.1 veremos como essa distinção opera em avaliações do tipo bom/ruim. No item 1.5.2 veremos como ela opera em avaliações do tipo melhor/pior (seja "do que" ou "de todas"):

1.5.1. Bom/ruim sob certo aspecto ou tudo considerado?

Suponhamos que estou com uma dor de dentes e vou ao dentista, que precisa fazer um procedimento doloroso em mim para que a dor desapareça. Decido passar pelo procedimento, que é feito com sucesso. Nessa situação há tanto aspectos ruins quanto aspectos bons. O aspecto ruim é que o procedimento é doloroso. O aspecto bom é que a dor de dentes desaparece.

Agora, ao avaliarmos o valor da situação tudo considerado, temos de pesar se os aspectos bons predominam sobre os ruins ou se vice-versa. Se decidi passar pelo procedimento, muito provavelmente é porque conclui que, apesar de o tratamento ser doloroso, o mal que ele impede de acontecer é maior do que o mal que ele causa. Isto é, tal situação, apesar de ter aspectos negativos e positivos, é mais positiva do que negativa tudo considerado. Minha avaliação seria a oposta se eu percebesse que a dor que o procedimento causa é maior do que a dor que ele aliviaria/preveniria.

Vimos acima um exemplo com os aspectos causar dor x aliviar dor. Entretanto, a distinção entre bom/ruim em certo aspecto x tudo considerado poderia se aplicar a quaisquer outros aspectos que estivéssemos levando em conta (voltaremos a esse tema nos capítulos seguintes).

1.5.2. Melhor/pior sob certo aspecto ou tudo considerado?

Vejamos agora como a distinção em certo aspecto x tudo considerado opera em avaliações do tipo melhor/pior. Peguemos primeiramente um exemplo com a avaliação "melhor/pior do que". Considere as duas situações a seguir:

SituaçãoQuantidade de vítimasSofrimento por vítimaSofrimento agregado
S1100-10-10 x 100 = -1000
S250-20-20 x 50 = -1000

Comparando-se essas duas situações, S1 é melhor sob certo aspecto: nela cada vítima sofre menos. Mas, S2 é melhor sob outro aspecto: nela há menos vítimas. Já a partir do aspecto do sofrimento agregado (que envolve multiplicar a quantidade de vítimas pelo sofrimento de cada vítima), ambas são igualmente ruins.

Imaginemos agora que temos de escolher S1 ou S2. Para fazermos tal escolha, é preciso avaliar qual das duas é melhor tudo considerado (não é suficiente avaliar somente qual é melhor sob este ou aquele aspecto). Voltaremos a essa questão no item 1.6, quando falarmos da questão da comensurabilidade.

Acima vimos um exemplo com os aspectos quantidade de vítimas x sofrimento por vítima. Entretanto, a distinção entre melhor/pior em certo aspecto x melhor/pior tudo considerado poderia se aplicar a quaisquer outros aspectos que estivéssemos levando em conta. Voltaremos a discutir esse ponto nos capítulos subsequentes.

1.5.3. Por que a distinção em certo aspecto x tudo considerado é importante?

A distinção entre o valor de uma situação sob certo aspecto e tudo considerado é importante para nos lembrar do seguinte:

(1) Se uma situação é positiva/negativa ou melhor/pior sob certo aspecto, isso não implica necessariamente que seja positiva/negativa ou melhor/pior tudo considerado. Por exemplo, uma situação ser melhor sob certo aspecto não implica necessariamente que seja melhor tudo considerado (pois ela pode ter outros aspectos negativos predominantes).

Essas possibilidades estão esquematizadas na tabela a seguir:

Uma situação ser... Não implica necessariamente que...
Positiva sob certo aspectoSeja positiva tudo considerado
Negativa sob certo aspectoSeja negativa tudo considerado
Melhor sob certo aspectoSeja melhor tudo considerado
Pior sob certo aspectoSeja pior tudo considerado

(2) Se uma situação é positiva/negativa ou melhor/pior tudo considerado, isso não implica necessariamente que ela não tenha certos aspectos negativos/positivos ou piores/melhores. Por exemplo, dada uma situação ser melhor tudo considerado, isso não implica necessariamente que não haja nenhum aspecto no qual ela seja pior.

Essas possibilidades estão esquematizadas na tabela a seguir:

Uma situação ser... Não implica necessariamente que...
Positiva tudo consideradoSeja positiva em todos os aspectos
Negativa tudo consideradoSeja negativa em todos os aspectos
Melhor tudo consideradoSeja melhor em todos os aspectos
Pior tudo consideradoSeja pior em todos os aspectos

1.6. Como avaliar quão boa ou ruim é uma situação tudo considerado?

Como vimos no item anterior, uma situação pode ser boa/melhor sob certo aspecto e ruim/pior sob outro. Como podemos, então, avaliar quão boa ou ruim é uma situação tudo considerado6? Essa questão é tão mais complexa que será o tema de todo o Capítulo 7. Por enquanto, veremos brevemente algumas possibilidades. No Capítulo 7 essas possibilidades serão explicadas em mais detalhes e também serão comparadas em termos de suas vantagens e desvantagens.

Como veremos nos capítulos subsequentes, será necessário fazer esse tipo de avaliação quer estejamos a averiguar a situação de cada indivíduo (que abordaremos no Capítulo 2), quer estejamos a averiguar situações com vários indivíduos (que abordaremos no Capítulo 3).

Assim sendo, algumas possíveis abordagens para avaliar quão boa/ruim é uma situação tudo considerado, são:

1.6.1. Incomensurabilidade total

Envolve reconhecer que há vários aspectos que são bons/ruins em si, mas defender que não faz sentido compará-los (e nem mesmo multiplicá-los ou somá-los). De acordo com essa abordagem, as únicas circunstâncias nas quais é possível dizer, dentre várias opções, qual é melhor tudo considerado, é quando há uma opção que é melhor sob todos os aspectos. Em circunstâncias nas quais cada opção é melhor sob certo aspecto, essa abordagem dirá que não é possível dizer qual delas é melhor tudo considerado.

1.6.2. Monismo (geral)

De acordo com as abordagens monistas, há apenas um aspecto que é bom/ruim em si. Todos os outros são vistos como sendo bons/ruins apenas instrumentalmente, dependendo de se aumentam ou diminuem aquilo que é visto como bom/ruim em si. Assim sendo, em abordagens monistas, quão boa/ruim é uma situação tudo considerado é algo que é determinado unicamente a partir do quão boa/ruim ela é em termos de um único aspecto (a saber, aquele que é visto como possuindo valor/desvalor em si). Apesar de compartilharem essa estrutura em comum, as diversas abordagens monistas diferenciam-se umas das outras de acordo com qual aspecto é visto como bom/ruim em si.

1.6.3. Monismo agregativo (aplicação específica do monismo geral)

Uma forma comum de monismo consiste em determinar quão boa/ruim é uma situação tudo considerado agregando aquilo que é visto como bom/ruim em si. Por exemplo, suponhamos que o ruim em si seja o sofrimento. Imaginemos que na situação S1 temos 20 vítimas, cada uma com um sofrimento de -5. Já na situação S2 temos 10 vítimas, cada uma com um sofrimento de -10. De acordo com essa abordagem, o desvalor total de S1 é -100 (pois é - 5x20). O desvalor total de S2 também é -100 (pois é -10x10). Ou seja, nessa abordagem, nem o número de vítimas, nem a gravidade da situação de cada vítima, são vistos como ruins em si (e sim, apenas ruim instrumentalmente por contribuírem para agregação total ser negativa). Assim, segundo essa abordagem, S1 e S2 são igualmente ruins (o fato de S1 ter mais vítimas, e de em S2 cada vítima estar sofrendo mais, não é visto como relevante em si).

1.6.4. Pluralismo de pesos iguais

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são reconhecidos como bons/ruins em si, e o quão boa/ruim é a situação tudo considerado é determinada: ou multiplicando esses aspectos (abordagem multiplicativa) ou somando esses aspectos (abordagem aditiva). O que é característico dessa abordagem é que cada aspecto é visto como igualmente importante (por isso, eles são multiplicados ou somados, mas ambos possuem o mesmo peso). Observe que, em uma variante multiplicativa dessa abordagem, o resultado será idêntico ao resultado obtido por uma abordagem monista agregativa, que vimos no item anterior. Apenas a fundamentação é que será diferente: o monismo agregativo enxerga apenas uma coisa como sendo boa/ruim em si, e o de pesos iguais multiplicativo enxerga mais de uma coisa como sendo boa/ruim em si. Por outro lado, uma variante aditiva pode gerar resultados diferentes daqueles gerados pelo monismo agregativo.

1.6.5. Pluralismo com trunfo absoluto

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são reconhecidos como sendo bons/ruins em si, mas é construída uma hierarquia onde um fator é um trunfo absoluto sobre os que vêm depois nessa hierarquia. De acordo com essa abordagem, nenhum aumento nos aspectos secundários, por maior que seja, pode fazer a balança pender para tornar a situação melhor tudo considerado, caso represente uma diminuição no aspecto principal, por menor que seja. Ou seja, nessa abordagem o quão boa/ruim é uma situação tudo considerado é algo determinado quase que exclusivamente a partir do aspecto trunfo (os aspectos secundários servem apenas como critério de desempate).

1.6.6. Pluralismo com trunfo até certo ponto

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são reconhecidos como sendo bons/ruins em si; é construída uma hierarquia onde um fator é um trunfo sobre os que vêm depois nessa hierarquia, mas esse trunfo não é absoluto. A partir de certo ponto (chamado ponto de corte ou limite), a hierarquia se inverte. Por isso, o nome “pluralismo com trunfo até certo ponto”. Por exemplo, imaginemos que uma abordagem desse tipo defenda que, tanto a gravidade da situação de cada vítima, quanto o número de vítimas são ruins em si, e defenda também que, comparando-se duas situações, aquela que apresentar as vítimas na pior condição é a situação pior tudo considerado, exceto se a outra situação tiver no mínimo dez vezes mais vítimas. Nesse caso, essa abordagem está a ver a gravidade da condição de cada vítima como um trunfo não absoluto (pois, dependendo da quantidade de vítimas, a prioridade se inverte).

1.6.7. Pluralismo com aspectos de peso fixo (sem trunfos)

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são vistos como bons/ruins em si, e possuem pesos diferenciados no cálculo do quão boa/ruim é a situação tudo considerado – mas, sem usar a ideia de trunfos. O raciocínio aqui é similar ao que vimos no item 1.6.4 (pluralismo de pesos iguais), exceto que aqui o peso de cada fator é diferente. Por exemplo, suponhamos que o fator A tenha o dobro de peso que o fator B. Nesse caso, o valor/desvalor total da situação será determinado por (2x.A) + (1x.B), caso use-se um método aditivo, ou por (2x.A) x (1x.B), caso use-se um método multiplicativo. A diferença em relação ao uso de trunfos é que aqui a influência dos fatores é contínua e linear (com o uso de trunfos, é descontínua e não-linear).

1.6.8. Pluralismo com aspectos de peso variável (sem trunfos)

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são vistos como bons/ruins em si, mas não há peso fixo entre eles: o seu peso é variável, diminuindo proporcionalmente à medida que são "preenchidos" (por isso essa abordagem também é chamada de pluralismo com retornos decrescentes). Essa abordagem é diferente do pluralismo com trunfo até certo ponto. Embora haja a semelhança de que, em ambas as abordagens, um fator pode vir a ser mais importante do que o outro após certo nível (ambos são não-lineares), aqui a relação é contínua, com cada fator tendo sua importância gradualmente diminuída a cada nova unidade preenchida (com o trunfo até certo ponto, há uma relação descontínua, pois o trunfo é invertido abruptamente caso ultrapasse-se uma linha de corte).

1.6.9. Maximin/leximin de prioridades

Neste método a ideia é sempre priorizar o pior caso individual, depois o segundo pior caso, depois o terceiro, e assim por diante. Este é um método que se assemelha à ideia de trunfos, mas enquanto trunfos são utilizados para ordenar os diferentes aspectos, neste método o objetivo é ordenar a prioridade dos indivíduos dentro de um mesmo aspecto.

Entretanto, esse método também é utilizado para comparar situações com vários indivíduos. Por exemplo, comparemos a seguir as seguintes situações, onde as letras representam indivíduos e os números negativos o seu nível de sofrimento (quanto maior, mais sofrimento).

Situação Indivíduos S1 A = -50 B = -30 S2 C = -49 D = -40 S3 E = -49 F = -39

Segundo esse método, a situação S1 receberia prioridade, pois é a que apresenta o indivíduo na pior condição de todas (A = -50). Assim, entra em cena o , que prescreve maximizar o nível mínimo (e é, digamos, o critério trunfo). Agora, imaginemos que tivéssemos que comparar S2 e S3 para dizer em qual delas é mais urgente. Nesse caso, o maximin não ajuda, pois as vítimas que estão na pior condição em cada uma dessas situações estão em uma condição igualmente ruim (C = -49, E = -49). Nesse caso, entra em cena como critério de desempate o leximin, que prescreve priorizar o segundo pior caso. No caso, a situação S2 seria considerada prioritária, pois o segundo pior caso de todos é D = -40.

1.6.10. Suficiência

Neste método um aspecto importa em si até atingir certo limite de preenchimento estabelecido como sendo o suficiente. Depois disso ele deixa de contar. Se em uma abordagem desse tipo há dois ou mais aspectos vistos como sendo bons/ruins em si, ela pode adotar qualquer um dos métodos anteriores para os comensurar. Entretanto, o que há de particular nesse tipo de abordagem é que chega um ponto no qual o aspecto já está suficientemente preenchido e então ele deixa de importar em si.

1.6.11. Abordagens híbridas

Combinam uma ou mais das abordagens anteriores. Por exemplo, podem usar trunfos (absolutos ou até certo ponto) até uma linha de corte e a partir daí utilizarem uma relação contínua (de peso fixo ou peso variável).

1.6.12. Indeterminação parcial

Esse método defende que, para alguns casos, é possível avaliar quais situações são melhores/piores tudo considerado, mas que em outros casos não há uma resposta correta (e, então, nesses casos seria como na abordagem que defende a ).

1.6.13. Agregação probabilística com base na incerteza

Neste método pondera-se várias abordagens diferentes (ou mesmo todas as que vimos anteriormente) com base na incerteza sobre qual delas é a correta. Nesse método, avalia-se quão boa/ruim seria a situação tudo considerado segundo cada método levado em conta, e multiplica-se cada resultado pelo grau com que se acredita que cada método está correto. Em seguida soma-se tudo, em tem-se a agregação probabilística baseada na incerteza. Em resumo, nesse método é feita uma mistura probabilística de várias abordagens, ponderando o quanto se acredita que cada uma está correta e agregando esses resultados.

1.7. Conclusão

Neste capítulo vimos quais são as principais distinções e investigações feitas na área da teoria do valor. A partir do próximo capítulo aplicaremos essa análise a questões mais específicas. No próximo capítulo veremos como isso tudo aparece nas .

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

No exemplo do dentista, o procedimento doloroso é...

Teorias do valor e teorias da ação correta investigam...

Para pensar

Pense em algo que é bom para você sob um aspecto e ruim sob outro. Tudo considerado, vale a pena?

Notas do autor 6
  1. 1 Para uma introdução à teoria do valor, ver Schroeder (2021). ↩
  2. 2 Para uma introdução às várias teorias da ética normativa, ver (1998). Para uma discussão sobre de que se constitui uma teoria da ética, ver Driver (2022). ↩
  3. 3 Para uma introdução às teorias normativas da decisão racional, ver Peterson (2017). ↩
  4. 4 Sobre essa distinção, ver Zimmerman e Bradley (2019). Por vezes, no lugar do termo valor em si, utiliza-se os termos valor intrínseco e valor inerente. Contudo, dependendo da utilização dada por cada autor, esses termos expressam coisas distintas. Para evitar algumas possíveis confusões, falaremos aqui de bom/ruim em si. ↩
  5. 5 Observe que todos os quatro exemplos dizem respeito a situações onde os efeitos positivos/negativos recaem sobre o mesmo indivíduo. Entretanto, frequentemente, uma mesma coisa causa efeitos positivos sobre certos indivíduos e efeitos negativos sobre outros. Nesse caso, como avaliar quão boa/ruim é a situação como um todo? Essas questões serão discutidas em capítulos posteriores. No Capítulo 2 entraremos mais a fundo em como avaliar quão boa/ruim é a situação de cada indivíduo. A avaliação sobre quão boa/ruim é uma situação que contém vários indivíduos será o tema do Capítulo 3. ↩
  6. 6 Sobre essa questão, ver Mason (2023) e Hsieh; Andersson (2021). ↩
Fontes citadas neste texto 7

A lista completa do volume está em referências do Volume XI.

  • DRIVER, J. Moral Theory. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Fall 2022 edition.
  • HSIEH, N.; ANDERSSON, H. Incommensurable Values. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Fall 2021 edition.
  • KAGAN, S. Normative Ethics. Colorado: Westview Press, 1998.
  • MASON, E. Value Pluralism. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Summer 2023 Edition.
  • PETERSON, M. An Introduction to Decision Theory. 2nd edition. Cambridge: Cambridge University Press, 2017.
  • SCHROEDER, M. Value Theory. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Fall 2021 edition.
  • ZIMMERMAN, M. J., BRADLEY, B. Intrinsic vs. Extrinsic Value. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Spring 2019 Edition,

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Quando um problema tem mais vítimas, mas em outro as vítimas estão em pior situação, como proceder? (VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6 e 7).
Uma possibilidade é perguntar: (1) O quão pior precisa ser a situação da minoria para que tenham prioridade? (2) O quão maior precisa ser o número de vítimas que não estão na pior situação para que tenham prioridade? Entretanto, há várias outras possibilidades, que são abordadas em: VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6, 7.
Como saber quando pesa mais o tamanho do benefício e quando pesa mais a gravidade da situação? (VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6 e 7).
Há várias possibilidades. Por exemplo: (1) estabelecer que um dos aspectos é um trunfo (absoluto ou até certo ponto); (2) relação contínua: não há trunfos, e cada aspecto têm, ou peso fixo (igual ou diferente), ou peso variável, no cálculo total; (3) combinar as abordagens 1 e 2: usar trunfos (absolutos ou até certo ponto) até uma linha de corte e a partir daí utilizar uma relação contínua (de peso fixo ou variável). Um exemplo de abordagem contínua (sem trunfos), com cada aspecto tendo peso variável é a abordagem com retornos decrescentes, onde o peso de cada aspecto diminui proporcionalmente à medida que é preenchido. Uma possibilidade nesse sentido seria buscar maximizar os benefícios, mas estabelecer que uma unidade de benefício tem mais valor quanto mais grave for o problema ao qual seria direcionado esse benefício.

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