Volume XI · Como as diversas teorias da ética abordam a questão animal? · capítulo 3
Avaliando quão boa/ruim é uma situação que contém vários indivíduos
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Avaliar uma situação com vários indivíduos envolve vários aspectos (total de bem-estar, prioridade a quem está pior, igualdade, suficiência, merecimento), que podem ser vistos como tendo valor em si ou instrumental, e que às vezes conflitam.
Quando há muita gente envolvida, não basta somar a felicidade de todos. Também importa quem está pior, se a divisão é justa e se todos têm o suficiente. Às vezes essas coisas puxam para lados diferentes.
Dividir uma pizza: dá para pensar no total de pedaços, em quem está com mais fome, em dividir igual ou em garantir que ninguém fique sem. Cada critério sugere uma divisão.
- P1 Uma situação com vários indivíduos pode ser avaliada por vários aspectos: total, prioridade, igualdade, suficiência, merecimento.
- P2 Teorias monistas consideram um só aspecto; pluralistas, vários.
- P3 Esses aspectos podem ser valorizados em si ou apenas como meio.
- C Quando conflitam, é preciso decidir como pesá-los.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Basta somar o bem de todos.”
Resposta Somar é um critério possível, mas não o único: muitas teorias dão peso especial a quem está pior ou à igualdade. E todas incluem os animais quando são sencientes.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XI, p. 39 da edição em PDF
3.1. Introdução
Vimos no Capítulo 2 que cada difere uma da outra de acordo com quais aspectos afirma que são bons/ruins em si para os indivíduos, e em como pesar esses aspectos uns em relação aos outros. No que se segue, não assumiremos nenhuma teoria específica do bem-estar. Para simplificar, falaremos somente do bem-estar dos indivíduos.
A maior parte das situações não apresenta apenas um único indivíduo, mas vários. Assim, não é necessário somente uma teoria do que se constitui o bem-estar dos indivíduos (isto é, uma teoria do bem-estar individual), mas também uma teoria para avaliar quão boa/ruim é uma situação que apresenta vários indivíduos (que, por motivos de abreviação, chamaremos aqui de bem-estar coletivo).
Veremos neste capítulo que o mesmo tipo de divergência que surge entre as teorias do bem-estar ("quais aspectos são bons/ruins si?" e "qual peso cada um desses aspectos deve ter?") aparece na avaliação sobre bem-estar coletivo.
3.2. Aspectos na avaliação de uma situação com vários indivíduos
Há vários aspectos possíveis a partir dos quais poderíamos avaliar quão boa/ruim é uma situação que apresenta vários indivíduos. A seguir, veremos uma tabela com uma breve explicação sobre os principais aspectos. Entretanto, eles não esgotam as possibilidades de aspectos que poderiam ser utilizados para fazer essa avaliação. Contudo, são os aspectos que mais predominam nos debates sobre o tema24:
Importante: o que veremos a seguir são aspectos, e não teorias. As teorias incorporam um ou mais desses aspectos para fazer a avaliação geral. Assim sendo, na tabela a seguir, é importante observar que não necessariamente há que se avaliar a situação tudo considerado a partir de um único aspecto. É possível combinar dois ou mais dos aspectos (ou mesmo todos eles).
| Aspecto | Explicação |
|---|---|
| Soma agregada do bem-estar | Uma situação é melhor quanto maior for a soma agregada do bem-estar. Por exemplo, imaginemos que em uma situação, temos os indivíduos A, B, C e D com os seguintes níveis de bem-estar: A=+16, B=+4, C=-8, D=-10. O total positivo dá +20 e o total negativo dá -18. A soma agregada de bem-estar dessa situação é +2. |
| Sofrimento total agregado | Uma situação é melhor quanto menor for a soma agregada do sofrimento (independentemente do que há de positivo nela). |
| Média | Uma situação é melhor quanto maior for o total da soma agregada de bem-estar dividido pela quantidade de indivíduos. |
| Nível mínimo | Uma situação é melhor quanto maior for o nível de bem-estar mínimo (isto é, quanto melhor for a situação dos que estão na pior situação). |
| Nível máximo | Uma situação é melhor quanto maior for o nível de bem-estar máximo (isto é, quanto melhor for a situação dos que estão na melhor situação). |
| Igualdade distributiva | Uma situação é melhor quanto mais bem distribuído entre os indivíduos estiver a soma agregada de bem-estar. |
| Quantidade de indivíduos com bem-estar positivo | Uma situação é melhor quanto maior a quantidade de indivíduos com bem-estar positivo. |
| Quantidade de indivíduos com bem-estar suficiente | Uma situação é melhor quanto maior a quantidade de indivíduos com níveis de bem-estar suficientemente satisfatórios. |
| Soma agregada combinada com os níveis de bem-estar de cada indivíduo | Uma situação é melhor quanto maior for a soma agregada do bem-estar, mas uma unidade adicional de bem-estar tem mais valor quanto pior for a situação de quem teria o seu bem-estar aumentado (é conhecida como concepção prioritarista do valor). |
| Merecimento | Uma situação é melhor quanto mais os indivíduos presentes nela recebem benefícios e danos de acordo com o que merecem. |
| Tipos de ações | Uma situação é melhor quanto maior a quantidade presente nela de certos tipos de ações*. |
| Tipos de relações | Uma situação é melhor quanto maior for a quantidade presente nela de certos tipos de relações**. |
*As ações que são consideradas valiosas variam de acordo com cada perspectiva, mas exemplos comuns são o respeito por direitos, dizer a verdade e o cumprimento de promessas.
**As relações que são consideradas valiosas variam de acordo com cada perspectiva, mas exemplos comuns são relações de amizade e de solidariedade mútua.
3.3. Teorias monistas e pluralistas
No item anterior vimos vários aspectos que são frequentemente utilizados para se avaliar quão boa ou ruim é uma situação que apresenta vários indivíduos. As diversas teorias podem enxergar um ou mais desses aspectos como valiosos em si. Se enxergam apenas um aspecto como valioso em si, e todos os outros são vistos como possuindo apenas , são monistas. Se enxergam mais de um aspecto como valioso em si, são .
Vejamos um exemplo dessa diferença com o valor da igualdade distributiva (entendida aqui como a distribuição do bem-estar total entre os indivíduos presentes na situação). Determinada visão poderia manter que a igualdade distributiva possui valor em si. Já outras visões poderiam manter que o seu valor é meramente instrumental. Mesmo entre essas últimas visões, pode haver divergência quanto ao seu valor ser instrumental a quê. Por exemplo, certa visão poderia manter que uma distribuição mais equitativa do valor (isto é, dar mais a quem tem menos) tem valor instrumental para melhorar a situação de quem está pior (e que isso, sim, é o que possui valor em si). Já outra visão poderia manter que diminuir a desigualdade é importante apenas porque tem valor instrumental para a maximização da soma agregada do bem-estar. Isso é assim porque uma mesma quantia de certo recurso geralmente produz maiores aumentos no bem-estar se for dada a quem está em uma situação pior e, portanto, é mais eficiente para se maximizar a soma agregada do bem-estar25.
Isso não acontece apenas com a igualdade distributiva. Qualquer um dos aspectos pode ser visto como possuindo valor em si ou somente valor instrumental. Por exemplo, algumas pessoas defendem que tratar os indivíduos como eles merecem é bom apenas instrumentalmente: porque motiva os indivíduos a se refrearem de causarem prejuízos aos
outros. Já outras pessoas defendem que tratar os indivíduos como merecem, além de possuir valor instrumental, também é algo bom em si. Esse debate (saber se algo tem ou valor meramente instrumental) pode acontecer com qualquer outro aspecto.
3.4. Quando os aspectos conflitam
Por vezes, os distintos aspectos conflitam. A seguir estão alguns exemplos com os aspectos soma agregada do bem-estar e igualdade distributiva (contudo, o raciocínio se aplicaria igualmente a qualquer outra combinação de aspectos). Considere as duas situações a seguir, com os indivíduos A e B.
| Situação | Bem-estar de A | Bem-estar de B | Soma total |
| S1 | +20 | +10 | +30 |
| S2 | +15 | +15 | +30 |
Suponha que nenhum dos dois fez algo para merecer estar em uma situação melhor ou pior. Se consideramos S2 melhor do que S1, é porque consideramos que a distribuição possui um valor que não é meramente instrumental à maximização da soma, haja vista que, em ambas as situações, a soma total é igual. Se enxergássemos apenas a soma como possuindo valor em si, diríamos que S1 e S2 são igualmente boas. Agora, considere a situação S3, a seguir.
| Situação | Bem-estar de A | Bem-estar de B | Soma total |
| S3 | +15 | +14 | +29 |
Quem afirma que, tudo considerado, S3 é melhor do que S1, afirma então que a distribuição por vezes deve ter peso maior do que a soma na avaliação do valor da situação, tudo considerado. Entretanto, ao contrário do que pode parecer inicialmente, isso não significa que, ao avaliarmos dessa maneira, necessariamente consideramos a igualdade na distribuição como algo bom em si. Isso é possível, mas, também é possível que defendamos que ela é boa porque melhora a situação de quem está pior (ou ainda, por ambos os motivos). Contudo, há um aspecto no qual S1 é melhor do que S3 (mesmo se não for melhor, tudo considerado): em S1 a soma total do bem-estar é maior.
Dizer que S3 é melhor tudo considerado do que S1 não nos compromete a manter que a igualdade na distribuição deve ter sempre maior peso do que a soma total26. Por exemplo, consideremos agora S4, a seguir.
| Situação | Bem-estar de A | Bem-estar de B | Soma total |
| S4 | +14 | +14 | +28 |
Apesar de S3 conter um pouco de desigualdade, parece melhor, tudo considerado, do que S4. Poderíamos manter que isso é assim porque, ainda que ambos os aspectos (soma total e distribuição) possuam valor em si, por vezes a maximização da soma deve ter peso maior do que a igualdade na distribuição ao se determinar o valor da situação tudo considerado (nesse caso, diríamos que S3 é melhor tudo considerado, e que S4 é melhor apenas sob certo aspecto: nela, o total do valor está melhor distribuído). Ou ainda, poderíamos defender que o valor da igualdade na distribuição é apenas instrumental à melhora da situação de quem está pior. Nesse caso, diríamos que S3 é melhor tudo considerado porque em S4 não há ninguém que se encontre melhor do que em S3 (mas, diríamos também que S4 não é melhor do que S3 em aspecto algum).
Esses exemplos mostram o seguinte: (1) Manter que certo aspecto possui valor em si não nos compromete a manter que seja o único aspecto que possui valor em si (e nem que é necessariamente o aspecto mais importante). (2) Manter que certo aspecto deve ter maior peso do que outros em certas condições não nos compromete a manter que deva ter peso maior em toda e qualquer condição (isto é, como vimos no item 1.6, o peso dos distintos fatores pode ser variável, e, mesmo quando não for, pode haver compensações nos outros aspectos que façam a balança pender para o outro lado).
No Capítulo 6 voltaremos nesse tema, e veremos como os diversos aspectos na avaliação sobre quão boa/ruim é uma situação que apresenta vários indivíduos aparecem em diversas teorias da .
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual destes é um aspecto na avaliação de uma situação com vários indivíduos?
Tratar os indivíduos como merecem pode ser visto como...
Para pensar
Na sua opinião, o que é mais importante: aumentar o total de bem-estar ou ajudar quem está pior?
Notas do autor 3
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume XI.
- HORTA, O. Igualitarismo, igualatión a la baja, antropocentrismo y valor de la vida. Revista de Filosofía da Universidad Complutense de Madrid, v. 35, n. 1, p. 133-152, 2010a.
- KAGAN, S. Normative Ethics. Colorado: Westview Press, 1998.
- TEMKIN, L. S. Equality, Priority, and the Levelling Down Objection. In: CLAYTON, M.; WILLIAMS, A. (orgs.). The Ideal of Equality. New York: Macmillan and St. Martin’s Press, 2000, p. 126-161.
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