Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 35
Qual o impacto do veganismo na situação dos animais selvagens?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Prevenir danos naturais não implica rejeitar o veganismo: ele reduz as vítimas da exploração e da agricultura (danos de primeiro grau), e o seu maior potencial está no ideal de consideração por todos os sencientes que ajuda a divulgar.
Ser vegano ajuda os bichos das fazendas e da pesca. E também espalha a ideia de que todos os bichos importam, inclusive os do mato. Essa ideia é o que pode, no futuro, fazer as pessoas cuidarem também dos animais selvagens.
Plantar uma árvore ajuda pelo que ela faz hoje e pelo exemplo que dá aos vizinhos. O veganismo também ajuda pelos dois caminhos.
- P1 O veganismo reduz os animais que nascem para sofrer na exploração e as mortes colaterais da agricultura.
- P2 Ele não implica necessariamente aumentar áreas verdes.
- P3 Resultados de primeiro grau não dependem de outros agentes; os de segundo grau dependem de como os outros reagem.
- P4 O maior potencial do veganismo está em divulgar a consideração por todos os sencientes.
- C Logo, prevenir danos naturais não implica rejeitar o veganismo.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Se o veganismo liberar terra para florestas, vai aumentar o sofrimento natural; então não faz sentido ser vegano.”
Resposta O veganismo não implica necessariamente aumentar áreas verdes; o uso da terra é outra decisão. E o ideal que ele divulga é o que pode levar a proteger também os animais selvagens.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 114 da edição em PDF
35.1. A ideia de que prevenir danos naturais implica rejeitar o veganismo
O principal argumento a favor do , no que diz respeito à alimentação, é que reduz a quantidade de animais que nascem para sofrer e serem mortos na exploração. Além disso, diminui a quantidade de mortes de animais que é efeito colateral da agricultura, uma vez que necessita de uma área de plantio menor do que necessita a para alimentar o mesmo número de humanos (uma vez que os animais mortos são engordados com vegetais).
Entretanto, poderia ser objetado que a necessidade de uma menor área de plantio na verdade resultaria em maior sofrimento e mortes para os animais. Isso ocorreria porque sobrariam mais áreas verdes, o que aumentaria a , e, por conseguinte, a quantidade de nascimentos de animais que maximizam o número de filhotes. Como resultado, a quantidade de sofrimento e de mortes seria maximizada com uma eficiência muito maior do que aquela presente na exploração animal ou nos efeitos colaterais da agricultura.
Em resumo, segundo essa objeção, a adoção do veganismo em larga escala, apesar de diminuir a quantidade de animais explorados e de animais vítimas de efeitos colaterais da agricultura, aumentaria a quantidade total de sofrimento e de mortes de animais por indiretamente aumentar as quantidades de reproduções no território natural.
35.2. O veganismo implica necessariamente um aumento nas áreas verdes?
Curiosamente, o fato de certas formas de criação de animais para consumo diminuírem as áreas verdes (por exemplo, a criação de bois em pastos abertos) é normalmente mencionado como um aspecto negativo da exploração animal. Entretanto, como deve estar claro agora, esse é talvez o único aspecto em que a exploração animal provavelmente previne mais sofrimento e mortes do que causa. Isso não significa, é claro, que a exploração animal esteja justificada. Como veremos a seguir, há outras maneiras de se alcançar esse mesmo aspecto positivo sem os danos que a exploração animal causa.
Por exemplo, a conexão entre veganismo e aumento de áreas verdes não é necessária. Poderia ser um resultado muito provável em um mundo onde a imensa maioria das pessoas mantém ideais . Mas, suponhamos um futuro no qual a consideração pelos animais fosse amplamente difundida. As pessoas iriam querer buscar a abolição de sua exploração. Contudo, também iriam querer evitar seu sofrimento e mortes em decorrência dos . Isso mostra que o aumento do território natural (e a decorrente maximização do sofrimento e número de mortes) não é uma implicação necessária do veganismo: somente o é do não consumo de animais motivado por preocupações ambientalistas e antropocêntricas161.
35.3. Distinguindo danos de primeiro e segundo grau
Há outro fator importante a ser considerado: a maneira pela qual cada prática influencia outros agentes a agirem desta ou daquela maneira. Para ilustrarmos esse ponto, é útil distinguir entre resultados de primeiro e segundo grau.
Resultados de primeiro grau são todos aqueles efeitos diretos ou indiretos de uma prática que não dependem das decisões de outros agentes. O sofrimento e as mortes dos animais decorrentes de sua exploração, ou como efeito colateral da agricultura, ou em decorrência do aumento das áreas verdes, são todos efeitos diretos e indiretos de primeiro grau. Já os efeitos de segundo grau dependeriam de como cada ação influencia outros agentes a tomarem decisões. Assim, é possível que determinada prática seja menos ruim em relação aos resultados de primeiro grau (somando-se os resultados diretos e indiretos), mas seja pior no total devido a que seus resultados piores de segundo grau são muito maiores.
Tendo essa diferença em mente, suponhamos para efeito de argumentação que a exploração animal tivesse se revelado como menos ruim em termos dos danos resultantes de primeiro grau (somando-se os danos diretos e indiretos). Ainda assim, não consumir animais, desde que seja divulgado por razões de consideração pelos animais (e não por razões ambientalistas ou antropocêntricas), poderia contribuir para a prevenção de danos muito maiores de segundo grau, por divulgar o ideal de consideração pelos seres .
Se o não consumo de animais com esse tipo de motivação fosse propagado em larga escala, não haveria risco de maximização do sofrimento e mortes em decorrência do aumento do território natural. Uma vez que a consideração pelos animais implica em prevenir/minimizar
os danos naturais, os veganos que tivessem consciência disso desejariam tanto que os animais não fossem explorados quanto prevenir que sejam prejudicados pelos processos naturais (o que implicaria não expandir o território natural).
O ideal de consideração pelos seres sencientes poderia ajudar a prevenir danos em longo prazo não somente em decorrência dos processos naturais. Poderia também prevenir o desenvolvimento e uso de possíveis tecnologias futuras que tivessem um potencial para prejudicar uma quantidade gigantesca de seres sencientes162.
A exploração animal, por outro lado, mesmo que fosse menos ruim em termos de danos de primeiro grau, teria um impacto negativo em termos de danos de segundo grau, pois reforça a ideia de que os animais não são moralmente consideráveis. Portanto, não influenciaria as pessoas a evitarem os danos dos quais os animais padecem em decorrência da exploração, de outras práticas humanas, ou dos processos naturais. Também aumentaria a probabilidade de um aumento gigantesco do território natural, maximizando, assim, o sofrimento e as mortes dos animais de maneira muitíssimo eficiente. Além disso, tal visão de mundo também aumentaria a probabilidade de tecnologias futuras serem utilizadas de modo que prejudique os seres sencientes em geral, em uma escala muito maior do que tudo o que foi feito até então.
35.4. Conclusão
Ironicamente, o potencial que a prática do veganismo tem de resultar em melhorias para os animais não humanos está muito mais no tipo de ideal que poderia ajudar a divulgar do que nos resultados da ação de não consumir animais. Contudo, esse potencial positivo para os animais só existe se o não consumo for divulgado com argumentos a favor da dos animais (com ênfase na necessidade de se prevenir/minimizar os danos naturais). Do contrário, como vimos, corre-se o risco de resultar em um aumento do território natural, o que implicaria na maximização do sofrimento e mortes dos animais. Assim, o não consumo de animais divulgado por razões antropocêntricas e, principalmente, por razões ambientalistas, se adotado em larga escala, corre um alto risco de ter resultados ainda piores do que a exploração animal. Desse modo, a proposta de minimizar os danos naturais apoia o veganismo, desde que divulgado por consideração pelos animais.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que são resultados de primeiro grau?
Onde está o maior potencial do veganismo, segundo o capítulo?
Para pensar
Que ideia sobre os animais você gostaria de espalhar? Que ações suas ajudam a espalhá-la?
Notas do autor 2
- 161 Essa é uma das principais razões pelas quais usar argumentos antropocêntricos e ambientalistas para defender o não consumo de produtos de origem animal têm grandes probabilidades de ter um saldo altamente negativo. ↩
- 162 Para uma discussão sobre os riscos de tecnologias futuras virem a prejudicar os seres sencientes em larga escala, ver os trabalhos de Althaus e (2016), (2017), Daniel (2017) e (2015b, 2015d). ↩
Fontes citadas neste texto 5
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- ALTHAUS, D.; GLOOR, L. Reducing risks of astronomical suffering: a neglected priority. Foundational Research Institute, 14 set. 2016.
- BAUMANN, T. S-risks: An introduction. Reducing Risks of Future Suffering: Toward a responsible use of new technologies, [S.l.], 2017.
- DANIEL, M. S-risks: Why they are the worst existential risks, and how to prevent them. Foundational Research Institute, 20 jun. 2017.
- TOMASIK, B. Risks of astronomical future suffering. Foundational Research Institute, 09 abr. 2015d.
- TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators. 03 fev. 2015b.
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