Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 1
O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Se realmente nos importamos com os animais, não limitaremos a preocupação aos danos causados por humanos: para o animal, não faz diferença se o mal vem de um humano ou da fome, de doenças e de desastres naturais.
Se um cachorro está com fome, não importa se foi alguém que tirou a comida dele ou se ele se perdeu na chuva: ele está com fome do mesmo jeito. Quem gosta de bicho quer ajudar nos dois casos.
Seria estranho alguém dizer: "Me importo com o meu amigo, mas só se for um humano que o machucar; se for uma doença, não é problema meu".
- P1 Temos razões para evitar prejuízos porque eles são negativos para quem os sofre, e para buscar benefícios porque são positivos.
- P2 A força dessas razões depende do tamanho do prejuízo ou benefício, e não de sua origem ser humana ou natural.
- P3 Os animais selvagens sofrem prejuízos enormes por processos naturais.
- C Logo, temos razões fortes para tentar prevenir e reduzir esses danos naturais.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Com os animais selvagens, basta deixá-los em paz.”
Resposta Deixá-los em paz não os protege da fome, das doenças e dos desastres. Se o que importa é o bem deles, a origem do dano não muda a nossa razão para ajudar.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 8 da edição em PDF
Uma crença comum é a de que, quanto aos animais que vivem na natureza, devemos simplesmente parar de prejudicá-los e "deixá-los em paz", e ajudá-los somente se forem prejudicados direta ou indiretamente por práticas humanas. Quando os animais são vítimas de processos naturais como desastres naturais, fome, sede e doenças, segundo essa posição devemos "deixar a natureza seguir o seu curso".
Essa posição tem sido questionada de modo crescente nos últimos anos1. Um possível questionamento é acusá-la de especismo , no sentido de manter um padrão arbitrário de moralidade dependendo de se as vítimas são humanas ou não humanas, pois quando os humanos são vítimas de fome, sede, doenças e desastres naturais, seus proponentes não dizem "deixemos a natureza seguir o seu curso".
Outro questionamento defende que limitar a aos animais a danos decorrentes de práticas humanas é incompatível com realmente se importar com o bem dos animais. Por exemplo, seria muito estranho dizer "eu me importo com o bem dessa pessoa, mas eu só a salvaria de um incêndio causado por humanos; em um incêndio causado naturalmente, eu a deixaria queimando até morrer". Em outras palavras, o argumento é o de que, se realmente nos importamos com os animais (e não com um ideal de pretensa "pureza humana" de não fazer o mal mas deixar o mal ocorrer), defenderemos que estes devem ser ajudados independentemente de serem vítimas de práticas humanas ou de .
Em outras vezes é reconhecido que temos razões para evitar que os animais sejam prejudicados por danos naturais, mas é defendido que essas razões são mais fracas do que quando os danos decorrem de práticas humanas. Entretanto, a crítica aqui seria a mesma: se realmente nos importamos com o bem das vítimas, e não com um ideal de "pureza humana", nosso critério para determinar a prioridade será baseado na magnitude do dano, e não na origem do dano. Isto é, priorizaremos evitar os danos mais graves, independentemente de decorrerem de práticas humanas ou de processos naturais.
Estes são, em resumo, os argumentos centrais da proposta de ajudar os animais vítimas dos processos naturais. No restante deste livro abordaremos o debate em torno dessa proposta.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual é a crença comum que o capítulo questiona?
Segundo o argumento central, a força das razões para ajudar depende...
Para pensar
Você ajudaria um animal ferido por um carro? E um ferido por uma tempestade? Por que haveria diferença?
Notas do autor 1
Fontes citadas neste texto 17
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
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- CUNHA, L. C. Vítimas da natureza: implicações éticas dos danos que os ani- mais não humanos padecem em decorrência dos processos naturais. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, 2018.
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