Questão
de Ética
EN

Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 1

O que fazer em relação aos animais que vivem na natureza?

2 min de leituraNível avançado1 notas17 fontes

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

Se realmente nos importamos com os animais, não limitaremos a preocupação aos danos causados por humanos: para o animal, não faz diferença se o mal vem de um humano ou da fome, de doenças e de desastres naturais.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 8 da edição em PDF

Uma crença comum é a de que, quanto aos animais que vivem na natureza, devemos simplesmente parar de prejudicá-los e "deixá-los em paz", e ajudá-los somente se forem prejudicados direta ou indiretamente por práticas humanas. Quando os animais são vítimas de processos naturais como desastres naturais, fome, sede e doenças, segundo essa posição devemos "deixar a natureza seguir o seu curso".

Essa posição tem sido questionada de modo crescente nos últimos anos1. Um possível questionamento é acusá-la de especismo , no sentido de manter um padrão arbitrário de moralidade dependendo de se as vítimas são humanas ou não humanas, pois quando os humanos são vítimas de fome, sede, doenças e desastres naturais, seus proponentes não dizem "deixemos a natureza seguir o seu curso".

Outro questionamento defende que limitar a aos animais a danos decorrentes de práticas humanas é incompatível com realmente se importar com o bem dos animais. Por exemplo, seria muito estranho dizer "eu me importo com o bem dessa pessoa, mas eu só a salvaria de um incêndio causado por humanos; em um incêndio causado naturalmente, eu a deixaria queimando até morrer". Em outras palavras, o argumento é o de que, se realmente nos importamos com os animais (e não com um ideal de pretensa "pureza humana" de não fazer o mal mas deixar o mal ocorrer), defenderemos que estes devem ser ajudados independentemente de serem vítimas de práticas humanas ou de .

Em outras vezes é reconhecido que temos razões para evitar que os animais sejam prejudicados por danos naturais, mas é defendido que essas razões são mais fracas do que quando os danos decorrem de práticas humanas. Entretanto, a crítica aqui seria a mesma: se realmente nos importamos com o bem das vítimas, e não com um ideal de "pureza humana", nosso critério para determinar a prioridade será baseado na magnitude do dano, e não na origem do dano. Isto é, priorizaremos evitar os danos mais graves, independentemente de decorrerem de práticas humanas ou de processos naturais.

Estes são, em resumo, os argumentos centrais da proposta de ajudar os animais vítimas dos processos naturais. No restante deste livro abordaremos o debate em torno dessa proposta.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual é a crença comum que o capítulo questiona?

Segundo o argumento central, a força das razões para ajudar depende...

Para pensar

Você ajudaria um animal ferido por um carro? E um ferido por uma tempestade? Por que haveria diferença?

Notas do autor 1
  1. 1 Ver por exemplo (1996); (2003); (2018; 2022); (2016); Faria; Paez (2015a, 2015b); Fink (2005); (2010. 2017); (2020); (2015); (2015); (2015); (1984); (2015a) e (2015). ↩
Fontes citadas neste texto 17

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • BONNARDEL, Y. Contra o apartheid das espécies. Les cahiers antispécistes, v. 14, 1996.
  • COWEN, T. Policing nature. Environmental Ethics, v. 25, p. 169-182, 2003.
  • CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
  • CUNHA, L. C. Vítimas da natureza: implicações éticas dos danos que os ani- mais não humanos padecem em decorrência dos processos naturais. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, 2018.
  • FARIA, C. Animal Ethics Goes Wild: The Problem of Wild Animal Suffering and Intervention in Nature. Tese (Doutorado em Filosofia). Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, 2016.
  • FARIA, C.; PAEZ, E. (orgs). Animals in Need: the Problem of Wild Animal Suffering and Intervention in Nature. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3. n. 1, 2015a.
  • FARIA, C.; PAEZ, E. (orgs). Animals in Need: the Problem of Wild Animal Suffering and Intervention in Nature. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3. n. 2, 2015b.
  • FINK, C. The Predation Argument. Between the Species, v. 13. n. 5, p. 1-15, 2005.
  • HORTA, O. Animal Suffering in Nature: The Case for Intervention. Environmental Ethics, n.39, 2017. p .261–79.
  • HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010.
  • JOHANNSEN, K. Wild Animal Ethics: The Moral and Political Problem of Wild Animal Suffering. Abingdon: Routledge, 2020.
  • MANNINO, A. Humanitarian Intervention in Nature: Crucial Questions and Probable Answers. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3, n. 1, p. 109-120, 2015.
  • MCMAHAN, J. The Moral Problem of Predation. In: CHIGNELL, A.; CUNEO, T.; HALTEMAN, M. C. (org.). Philosophy Comes to Dinner: Arguments About the Ethics of Eating. London: Routledge, 2015. p. 268-294.
  • PEARCE, D. A Welfare State for Elephants? A Case Study of Compassionate Stewardship. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3, n. 2, p. 153-164, 2015.
  • SAPONTZIS, S. F. Predation. Ethics and Animals, v. 5, p. 27-38, 1984.
  • TOMASIK, B. The Importance of Wild-Animal Suffering. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3, n. 2. p. 133-152, 2015a.
  • TORRES ALDAVE, M. The Case for Intervention in Nature on Behalf of Animals. A Critical Review of the Main Arguments against Intervention. Relations: Beyond Anthropocentrism, v. 3, n. 1, p. 33-49, 2015.

Textos recomendados

Continue no tema A ética e a situação dos animais selvagens.

Navegue pelos diferentes temas