Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 2
Como não entender a questão
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Dizer que os danos naturais não são questão de ética porque ninguém pode responsabilizar a natureza é um engano: a pergunta é sobre o que nós devemos fazer; até dizer que ajudar é opcional já é uma resposta ética.
Um terremoto não tem culpa de nada, mas a gente ainda decide se vai ajudar as vítimas. A pergunta não é "de quem é a culpa?", e sim "o que eu vou fazer?".
Ninguém processa a chuva por uma enchente, e mesmo assim um governo que pode salvar as vítimas e não salva é cobrado. A decisão é de quem pode agir.
- P1 O argumento diz que danos naturais não são questão de ética porque não se pode responsabilizar a natureza nem os animais.
- P2 A questão é posta para nós: devemos ajudar, ou não?
- P3 Até afirmar que ajudar é opcional é uma posição ética, pois a ética trata também do que é permissível.
- C Logo, os danos naturais são, sim, uma questão de ética.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Natureza é natureza, ética é coisa de gente.”
Resposta A ética é sobre as decisões de quem pode decidir. Diante de animais sofrendo, decidir não fazer nada também é uma decisão moral.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 10 da edição em PDF
2.1. A ideia de que não é uma questão de ética
Uma visão comum é a de que danos que decorrem de desastres naturais, fome, sede, doenças e de conflitos entre animais não são uma questão de ética porque não faz sentido responsabilizar moralmente, nem os , nem os animais não humanos. Segundo essa visão, por essa razão, não devemos tentar minimizar esse tipo de dano.
Há pelo menos dois erros básicos que essa visão comete, explicados separadamente a seguir.
2.2. Seja lá o que você pense que devemos fazer, é uma questão de ética
O primeiro erro está na contradição entre as afirmações "a maneira como os processos naturais afetam os está fora do escopo da avaliação ética" e "temos o dever de não ajudar os animais selvagens que são vítimas de processos naturais".
Porém, a coisa vai mais além: mesmo quem afirma que ajudar os animais nesse caso deveria ser opcional também está vendo a questão como uma questão de ética, pois a ética trata não apenas do que é moralmente requerido ou proibido, mas também do que é moralmente permissível, mas não requerido. Em resumo, seja lá o que alguém pense que devemos fazer em relação a essa situação, ela é uma questão de ética simplesmente porque ela diz respeito a saber se uma ação deveria ser requerida, proibida ou permitida.
Há questões que não são questões de ética. Por exemplo: "há vida em outros planetas?"; "qual era a identidade de Jack, o estripador?"; "Será que vai chover amanhã em Florianópolis?"; "Qual a data de aniversário de Luciano ?"; "Quanto é 2+2?"; "Existe vida após a morte?"; "O que é a consciência?". Nenhuma dessas questões é uma questão de ética porque nenhuma diz respeito a saber como devemos agir (ainda que algumas delas possam ter influência indireta sobre as razões para agirmos dessa ou daquela forma). A questão sobre qual deveria ser nossa atitude diante dos danos que os animais padecem em decorrência dos processos naturais é sobre como devemos agir. Portanto, é uma questão de ética.
2.3. A questão é colocada para nós, não para os processos naturais ou para os animais
O segundo erro é que o fato de processos naturais e os animais não humanos não serem moralmente responsabilizáveis é irrelevante, uma vez que a questão não está sendo colocada para eles, e sim, para nós. Somos nós que devemos responder o que devemos fazer em relação a essa questão. O fato de os processos naturais e os animais não serem responsabilizáveis pelo que escolhem não faz com que nós deixemos de sê-lo.
Para ilustrar, imagine que a mesma desculpa fosse oferecida em uma situação envolvendo vítimas humanas. Por exemplo, imagine que um governo pudesse salvar humanos em uma enchente, sem sacrificar nada de importância maior ao fazer isso. Entretanto, imaginemos que os governantes dissessem: "não temos obrigação de fazer nada, porque a água não pode ser moralmente responsabilizada". No mínimo isso seria considerado (corretamente, ao meu ver) como uma desculpa das mais esfarrapadas. Contudo, o fato de as vítimas serem animais não humanos não faz com que essa mesma desculpa seja menos esfarrapada.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
A ética trata apenas do que é obrigatório ou proibido?
A quem a questão dos danos naturais é posta, segundo o capítulo?
Para pensar
Se um governo pudesse salvar pessoas de uma enchente sem grande custo e não o fizesse, você diria que isso não é questão de ética?
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Não devemos minimizar danos naturais porque essa questão está fora do escopo da ética, uma vez que nem os processos naturais nem os animais são responsabilizáveis. (VII, cap. 2, 15, 16).
A natureza não é boa nem má. Os processos naturais não são agentes imputáveis. Portanto, não temos razões para ajudar. (VII, cap. 2, 15, 16).
A natureza é indiferente ao sofrimento dos animais. Ecossistemas surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao sofrimento e morte dos animais. (VII, cap. 2, 15, 16).
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