Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 5
Fundamentos da proposta de ajudar vítimas de processos naturais
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Três argumentos fundamentam a ajuda: o da existência das razões (o dano é ruim seja qual for a origem), o da força das razões (que depende da magnitude) e o do peso do critério (mesmo dando mais peso a danos humanos, a escala dos naturais ainda daria razões fortes).
Se a dor é ruim, ela é ruim venha de onde vier. Quanto maior a dor, mais motivo para ajudar. E mesmo quem acha que dor causada por gente é "mais grave" teria de admitir que a quantidade de dor na natureza é tão grande que também merece atenção.
Um médico trata uma fratura seja ela causada por uma briga ou por um tombo. E, mesmo que priorizasse as brigas, uma epidemia de tombos ainda pediria atenção.
- P1 As razões para evitar prejuízos existem porque eles são negativos, seja qual for a origem (existência das razões).
- P2 A força dessas razões depende da magnitude, não da origem (força das razões).
- P3 Mesmo dando maior peso a danos humanos, a escala dos danos naturais ainda geraria razões fortes (peso do critério).
- C Logo, temos razões fortes para prevenir e minimizar danos naturais.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Temos dever de não prejudicar, mas não de ajudar.”
Resposta Mesmo quem só aceita deveres fortes de não prejudicar costuma admitir razões para ajudar vítimas humanas de desastres. A escala dos danos naturais torna essas razões muito fortes no caso dos animais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 19 da edição em PDF
5.1. Introdução
No Capítulo 1 vimos rapidamente algumas razões sobre as quais está baseada a proposta de ajudar os animais na natureza que são vítimas de . No presente capítulo os fundamentos dessa proposta serão explicados de modo mais detalhado.
5.2. O argumento da existência das razões
O argumento da existência das razões defende que a explicação de por que devemos prevenir danos antropogênicos implica que devemos prevenir danos naturais. Se é o teor negativo dos danos aquilo que gera razões para que os evitemos com nossas práticas, então temos iguais razões para evitarmos danos naturais (uma vez que continuam sendo negativos). Danos são algo negativo devido às suas próprias características, que não dependem de sua origem (portanto, danos naturais são negativos, e não, neutros em termos de valor).
5.3. O argumento da força das razões
O argumento da força das razões defende que, se é o teor negativo dos danos aquilo que gera razões para que os evitemos, então a força dessas razões depende da magnitude dos danos (e não de sua origem). Ou seja, dados dois danos de igual magnitude, um antropogênico e outro não, tudo o mais sendo igual (por exemplo, possibilidade de prevenir ambos em igual medida), temos razões diretas de igual peso para tentar evitar ambos. E, dados dois danos de magnitude distinta, tudo o mais sendo igual, temos razões para priorizar evitar o dano maior. Isso implica que as razões para prevenir danos naturais serão mais fortes sempre que fazê-lo implicar em prevenir uma maior magnitude de danos com uma mesma quantia de recursos.
5.4. Implicações de ambos os argumentos
Se o argumento da existência das razões e o argumento da força das razões são sólidos, devemos rejeitar não apenas a visão que mantém que não temos razões para prevenir/minimizar os danos naturais, mas também a visão que mantém que essas razões existem, mas são mais fracas, em comparação a danos antropogênicos equivalentes.
5.5. O argumento do peso do critério
Suponhamos, para efeito de argumentação, que danos antropogênicos devessem ter um peso maior. Mesmo assim, isso não implicaria que minimizar danos antropogênicos teria sempre prioridade sobre minimizar danos naturais. Isso seria assim apenas se minimizar danos antropogênicos fosse um trunfo. Se tivesse um peso maior (mesmo muito maior), mas não chegasse a ser um trunfo, a prioridade poderia se inverter em certos casos. Teria de haver um ponto a partir do qual, dada a possibilidade de minimizar muito os danos naturais deixando de minimizar pouco os danos antropogênicos, teríamos que priorizar minimizar danos naturais. Atribuir um peso maior aos danos antropogênicos também não implicaria que minimizar danos naturais é louvável, porém não obrigatório. Seriam obrigações um pouco menores (mas nem por isso pequenas; inclusive teriam prioridade dependendo da situação).
Importante: essa suposição foi feita meramente para efeito de argumentação, com o objetivo de mostrar que, mesmo se déssemos maior peso aos danos antropogênicos, ainda teríamos fortes razões para minimizar danos naturais. Contudo, dado o que discutimos na presente seção, não parece haver boas razões para dar maior peso a danos antropogênicos: o que importa é a magnitude de dano que poderia ser evitada com uma dada quantia de recursos, e não a origem do dano.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O "argumento da força das razões" diz que a força das razões depende de...
O "argumento do peso do critério" supõe, para efeito de argumentação, que...
Para pensar
Você daria o mesmo peso a um sofrimento causado por alguém e a um causado por acaso? Por quê?
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