Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 7
A proposta de ajudar os animais selvagens é antropocêntrica?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
A proposta de ajudar os animais selvagens não é antropocêntrica: ser proposta por humanos não a torna centrada em humanos; os animais não têm interesse em ter o sofrimento maximizado para que a natureza siga o seu curso.
Uma ideia vir de uma pessoa não quer dizer que ela seja "só para pessoas". Os bichos não querem passar fome nem ficar doentes. Ajudá-los nisso é pensar neles, não em nós.
Um veterinário é humano, e o tratamento que ele dá é para o animal. Ser feito por humanos não torna algo "para humanos".
- P1 A objeção diz que a proposta impõe valores humanos aos animais.
- P2 A proposta visa o que é bom para os animais: menos sofrimento e menos mortes prematuras.
- P3 Os animais não têm interesse em sofrer para que a natureza siga o seu curso; só alguns humanos valorizam isso.
- C Logo, a proposta não é antropocêntrica; antropogênica, no máximo.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Ajudar animais selvagens é humanizá-los.”
Resposta Não ter fome, frio e doença não é um valor "humano". É o que qualquer animal busca. Quem valoriza o "curso da natureza" acima disso são os humanos.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 23 da edição em PDF
Há uma objeção à proposta de ajudar os que acusa-a de impor valores antropocêntricos aos animais (ou de, pelo menos, humanizá-los, pensando que valorizam coisas que apenas os humanos valorizam)20.
Uma resposta simples a essa objeção é apontar que o objetivo da proposta de ajudar é prevenir acontecimentos que, de fato, prejudicariam os animais, como o sofrimento e as mortes prematuras. Não são apenas os humanos que têm interesse em evitar sofrimento e em desfrutar de vidas positivas: essas coisas são do interesse de qualquer ser senciente.
Os animais não humanos não têm interesse em ter o seu sofrimento e as suas mortes prematuras maximizados para que a natureza siga o seu curso. Apenas alguns humanos é que valorizam isso (normalmente apenas quando eles próprios não são as vítimas, diga-se de passagem). Portanto, defender "o correto é deixar a natureza seguir o seu curso, mesmo quando isso resultar em sofrimento ou morte para os animais" é que seria impor valores antropocêntricos aos animais (ou, pelo menos, humanizá-los).
Poderia ser objetado que o que se quer dizer com a alegação de que a proposta de ajudar os animais é é que ela implica que os humanos decidam o que acontecerá com os animais nos ecossistemas naturais. Entretanto, a palavra adequada aqui seria então antropogênica (no sentido de ser uma prática conduzida por humanos) e não antropocêntrica (já que a proposta em questão visa beneficiar os animais não humanos). Além disso, quando nossa decisão tem poder de alterar uma situação, então decidimos o que irá acontecer nela, quer decidamos mudá-la, quer decidamos deixá-la como está. Então, quem é contra ajudar os animais selvagens também está igualmente a decidir o que acontecerá com os animais nos ecossistemas naturais.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual a diferença entre antropogênico e antropocêntrico?
Quem valoriza que a natureza siga o seu curso mesmo à custa do sofrimento dos animais?
Para pensar
O que um animal com fome "quer"? É um valor humano?
Fontes citadas neste texto 1
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- KIRKWOOD, J. K.; SAINSBURY, A. W. Ethics of Interventions for the Welfare of Free-living Wild Animals. Animal Welfare, v. 5, n. 3, p. 235-243, 1996.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
A proposta é antropocêntrica, pois surge dos humanos. (VII, cap. 7).
A partir de nossa perspectiva humana, não conseguimos saber o que é melhor para os animais. Logo, o que é melhor para os animais é deixar a natureza seguir o seu curso. (VII, cap. 7).
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