Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 8
Quanto menos influência humana no mundo, melhor?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
"Quanto menos influência humana, melhor" não se sustenta: se o motivo é o bem dos animais, deve-se avaliar caso a caso; se é reduzir a influência mesmo quando pior para eles, falta mostrar por que a influência seria errada em si.
Às vezes é melhor não mexer; às vezes é melhor ajudar. Dizer "mexer é sempre pior" não faz sentido se o que importa é o bem dos bichos.
"Quanto menos médico, melhor" pode valer para quem está saudável, mas não para quem está com infecção. Depende do caso.
- P1 A frase pode significar que menos influência é melhor para os animais, ou que é melhor mesmo quando pior para eles.
- P2 No primeiro sentido, é preciso avaliar caso a caso, e nem sempre omitir-se é melhor.
- P3 No segundo, seria preciso mostrar que a influência humana é errada em si, o que a objeção apenas assume.
- C Logo, a frase não justifica rejeitar a proposta de ajudar.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “O melhor que podemos fazer pelos animais é sumir da vida deles.”
Resposta Às vezes, sim; às vezes, não. Para um animal preso em uma enchente, "sumir" significa deixá-lo morrer.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 24 da edição em PDF
Por vezes é defendido que a proposta de ajudar os deveria ser rejeitada porque "quanto menos influência humana no mundo, melhor". Essa alegação pode querer dizer pelo menos duas coisas distintas. A seguir, discutiremos cada uma delas.
Quanto menos influência humana, melhor para os animais?
Primeiro, ela pode querer dizer que, quanto menos influência humana no mundo, melhor o resultado para os animais. Mas, se é isso, então a alegação é falsa, pois no caso essas intervenções seriam para ajudar os animais, não para prejudicá-los. Do fato de que há uma enorme quantidade de práticas humanas que prejudicam os animais não se segue que toda ação humana será prejudicial aos animais, ou que será necessariamente pior do que deixar a natureza seguir o seu curso.
É possível que a ideia de que "quanto menos influência humana, melhor para os animais" surja por conta do desconhecimento de que, como vimos no Capítulo 3, os já tendem a maximizar a quantidade de animais que nasce apenas para ter uma vida repleta de sofrimento e morrer prematuramente21. Também é possível que seja só uma desculpa para não se preocupar com a situação dos animais. Isto é, pode ser que a aparente preocupação em tornar as coisas piores para os animais seja simplesmente um disfarce para o descaso pelo que acontece com os animais.
Quanto menos influência humana, melhor, ponto?
Entretanto, é possível que aquilo que a objeção queira dizer é o seguinte: quanto menos influência no mundo, melhor, mesmo que o resultado dessa menor influência seja pior para os animais do que se houvesse mais influência humana.
Uma primeira crítica possível de ser feita a essa abordagem é que ela só faria sentido se também fizesse sentido a ideia de que é preferível um mundo com ainda mais sofrimento e mortes do que teria com influência humana, se esse for o preço a se pagar para haver menos
influência humana no mundo. Ninguém parece aceitar isso no seu próprio caso. Por exemplo, quando estamos na emergência de um hospital, queremos que os médicos nos ajudem. Assim, essa abordagem não passa no teste da imparcialidade, pois não a defenderíamos se não soubéssemos quem seriam suas vítimas.
Além disso, a objeção em questão simplesmente postula que a influência humana é errada em si, mesmo quando o resultado é positivo para os animais. Mas, teria de ser explicado por que isso é assim, e a objeção em questão não faz isso. Do fato de que os humanos muitas vezes fazem coisas ruins, não se segue que aquilo que as torna ruins é o fato de terem sido feitas por humanos. Elas são ruins porque prejudicam suas vítimas.
Assim, se adotamos um ponto de vista de preocupação genuína com as vítimas, não diremos que "quanto menos influência humana, melhor". Diremos, em vez disso, que os humanos devem evitar ao máximo prejudicá-los e buscar ao máximo beneficiá-los. Em resumo, se acreditamos que o certo ou errado de uma decisão depende de se os afetados por ela são beneficiados ou prejudicados, então rejeitaremos a concepção de que "quanto menos influência humana melhor", pois é possível influenciar de modo positivo, e não apenas de modo negativo.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Se a preocupação é genuína com as vítimas, o que diríamos?
Reduzir a influência humana mesmo quando isso é pior para os animais é...
Para pensar
Em que situações você acha que não intervir é realmente melhor para um animal? Por quê?
Fontes citadas neste texto 1
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Quanto menos influência humana, melhor para os animais. (VII, cap. 8)
Devemos reduzir a influência humana no mundo, mesmo em situações nas quais reduzi-la seria pior para os animais. (VII, cap. 8).
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