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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 11

A acusação de criar dependência

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A acusação de que ajudar criaria dependência não se aplica à maioria das intervenções (que reduzem nascimentos), não tira habilidades que os animais já têm e, mesmo que criasse dependência, ainda seria melhor do que sofrer mais e morrer logo.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 32 da edição em PDF

Há uma objeção à proposta de ajudar os que mantém que ajudá-los criaria neles uma dependência dos cuidados humanos, e retiraria deles a habilidade de sobreviver.

Essa objeção não se aplica a uma grande parte (talvez a maioria) da proposta de prevenir/minimizar os danos naturais. Por exemplo, não se aplica a nenhum programa que vise diminuir a quantidade de nascimentos (como a esterilização e a investigação sobre quais tipos de elementos no ambiente resultam em menores taxas de nascimento), nem à proposta de suspensão das intervenções e antropocêntricas que contribuem indiretamente para que os maximizem o sofrimento e mortes.

Mesmo no caso de fornecer comida, água, medicamentos, vacinas e tratamentos, isso não necessariamente retira a habilidade de sobreviver dos animais. Por exemplo, imaginemos que alguns pássaros adultos que estão acostumados a buscar o seu alimento se encontram agora em condições de escassez. Alguém, percebendo tal condição, fornece-lhes constantemente alpiste. Isso não faz os animais perderem a habilidade que já adquiriram, pois não faz com percam a memória. Não ajudar, nesse caso de escassez, é que resultaria nos animais não poderem mais exercer sua habilidade de buscar alimento, pois morreriam de inanição.

O que a objeção assume é que temos de escolher entre as duas opções a seguir: (1) ou os animais terem o seu bem-estar aumentado agora por receberem ajuda, mas terem o mesmo diminuído em longo prazo por perderem a habilidade de sobreviver; (2) ou os animais terem o seu bem-estar diminuído agora por não receberem ajuda, mas terem o mesmo aumentado em longo prazo por continuarem com a habilidade de sobreviver.

Contudo, ajudá-los não os faz perder a habilidade de sobreviver caso já a tenham adquirido, nem os impede de adquiri-la. Isto é, ajudar aumenta o seu bem-estar em curto prazo e aumenta a possibilidade continuarem a ter um bem-estar em longo prazo, sem diminuí-lo. Não ajudá-los diminui o seu bem-estar em curto prazo e muito provavelmente o diminui em longo prazo (ou mesmo garante que não haja nenhum bem-estar em longo prazo, dado que muito provavelmente implica em suas mortes).

Suponhamos que ajudar os animais criasse neles uma dependência dos cuidados humanos. sentido manter que de um ponto de vista , o melhor a fazer é não ajudar (ajudar criaria um trabalho extra para os humanos que não existiria se os animais fossem deixados para morrer). Mas, do ponto de vista dos animais que poderiam ser ajudados, será que é melhor ficarem independentes, sofrerem mais e morrerem logo? Para defender tal conclusão, teria de ser afirmado que, se os animais tivessem ciência de tudo o que está em jogo e tivessem a capacidade de deliberar sobre o que é melhor para si próprios, prefeririam sofrer intensamente e morrer, apenas para permanecerem independentes. Podemos ver que isso é falso a partir do próprio caso humano: quem tem a capacidade de deliberar sobre essas coisas prefere receber ajuda em vez de ser largado para sofrer intensamente e morrer25.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

A objeção da dependência se aplica às intervenções que reduzem nascimentos?

Mesmo que ajudar criasse dependência, isso seria...

Para pensar

Que tipos de dependência você aceita na sua própria vida porque são melhores do que a alternativa?

Notas do autor 1
  1. 25 É claro, poderia ser objetado que fornecer comida a certos animais pode causar mais sofrimento e mortes do que previne se isso indiretamente aumentar as taxas de reprodução e, por conseguinte, as mortes por inanição. Entretanto, essa já é uma objeção de outro tipo, que será discutida no Capítulo 24. ↩

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Ajudá-los pode criar neles uma dependência dos cuidados humanos. Logo, não devemos ajudá-los. (VII, cap. 11).
Essa objeção não se aplica à maioria das intervenções, pois visam diminuir a quantidade de nascimentos, nem à proposta de suspender práticas que fazem os processos naturais maximizarem o sofrimento e mortes. Mesmo intervenções que ajudam animais já nascidos não fazem com que percam a habilidade que já possuem, nem impedem que a adquiram. Não ajudar é que faria os animais não poderem exercer a habilidade de buscar alimento ou de a adquirirem, pois morreriam. Mesmo se ajudar criasse nos animais uma dependência dos cuidados humanos, isso ainda seria melhor para os animais do que sofrerem mais e morrerem logo.

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