Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 13
A objeção de que o sofrimento tem valor instrumental
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O sofrimento só tem valor instrumental quando ajuda o indivíduo a aumentar o seu bem-estar, o que não ocorre com a maioria dos animais selvagens; e, mesmo quando tem, é melhor obter o benefício sem sofrimento, como com anestesia.
A dor serve para avisar do perigo, como quando você tira a mão do fogo. Mas a maioria dos filhotes na natureza sofre e morre sem que a dor sirva para nada. E, quando dá para evitar a dor e conseguir o mesmo resultado, é melhor.
A dor de dente avisa que algo está errado, mas ninguém recusa anestesia no dentista dizendo que "a dor é útil".
- P1 A objeção diz que o sofrimento é útil para quem sofre, por isso não deve ser minimizado.
- P2 Ele só é útil quando o indivíduo consegue usá-lo para evitar males maiores.
- P3 A maioria dos animais na natureza sofre do nascimento até a morte prematura sem esse benefício.
- P4 Quando há benefício, é melhor obtê-lo sem sofrimento.
- C Logo, a utilidade do sofrimento não justifica deixar de ajudar.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “O sofrimento faz parte e ensina os animais a sobreviver.”
Resposta Para quem morre logo, não ensina nada. E, mesmo para nós, preferimos aprender sem sofrer quando podemos.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 36 da edição em PDF
Uma objeção à proposta de ajudar os defende que não deveríamos minimizar o sofrimento porque ele tem valor instrumental para o próprio ser que sofre28. Por exemplo, a dor nos ajuda a evitar aquilo que nos prejudicaria.
Contudo, o sofrimento tem somente naquelas situações em que o indivíduo é capaz de utilizar a sensação de sofrimento para aumentar o seu bem-estar (por exemplo, evitar prejuízos maiores do que o sofrimento que está a padecer no momento). Esse não é o caso da imensa maioria dos animais que sofre na natureza devido aos . Tais animais têm quase somente sofrimento extremo do momento do nascimento até a morte. Em vez de ajudá-los a fomentar o seu bem-estar, esse sofrimento apenas os prejudica. Assim, mesmo que não devêssemos minimizar o sofrimento instrumentalmente útil, haveria ainda razões para eliminar o sofrimento inútil.
Além disso, também há razões para evitarmos sofrimento mesmo quando ele tiver valor instrumental: toda vez que for possível alcançar de outra maneira aquilo de positivo que seria alcançado por meio do sofrimento. É exatamente por isso que preferimos receber anestesia antes de uma cirurgia. Assim sendo, mesmo em situações onde o sofrimento ajudasse os animais a alcançarem algo de positivo, há razões para pesquisar como fazer com que alcancem tal estado positivo sem que, para isso, precisem sofrer.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Quando o sofrimento tem valor instrumental?
Que exemplo mostra que preferimos evitar a dor mesmo quando ela é útil?
Para pensar
Que dor da sua vida foi útil? E quantas não serviram para nada?
Notas do autor 1
- 28 Ver por exemplo et al. (2003, p. 23) ↩
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Não devemos ajudá-los, pois o sofrimento possui valor instrumental (isto é, ajuda o indivíduo a evitar aquilo que o prejudicaria). (VII, cap. 13).
Textos recomendados
Continue no tema A ética e a situação dos animais selvagens.
A proposta de ajudar os animais vê os humanos como separados da natureza?
É a ideia de que os humanos não devem intervir na natureza que os vê como separados dela; se somos parte…
Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?
O sofrimento natural não é neutro só porque a natureza não é má nem responsabilizável: o que gera razões…
Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?
A natureza ser indiferente ao sofrimento não justifica que sejamos indiferentes: os ecossistemas também…