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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 15

Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?

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O sofrimento natural não é neutro só porque a natureza não é má nem responsabilizável: o que gera razões para evitá-lo é o seu teor negativo para quem sofre, como no caso de uma criança que machuca alguém sem culpa.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 39 da edição em PDF

Uma objeção à proposta de ajudar os afirma que, porque o sofrimento em questão é natural, é neutro em termos de valor (isto é, não seria algo negativo, como é o sofrimento causado pelos humanos), e que então, não há razões para preveni-lo29.

Por vezes o que dá origem a essa ideia é uma confusão entre o que é relevante para alguém ser responsabilizado e o que é relevante para avaliar se uma situação é negativa. Por exemplo, por vezes é dito que "a natureza não é boa nem má, simplesmente é, portanto não temos razões para prevenir o sofrimento natural". É verdade que o termo "natureza" refere-se a um conjunto de processos ocorrendo, e não a uma pessoa e, por isso, não faz sentido responsabilizar esses processos. Entretanto, o fato de a origem do sofrimento não ser responsabilizável não torna o sofrimento neutro em termos de valor. Isso será explicado em mais detalhes a seguir.

Uma criança pequena não é responsabilizável, mas se ela bate na cabeça de alguém com um porrete, o sofrimento é negativo para a vítima, e isso nos dá razões para ajudar essa vítima e prevenir que isso aconteça novamente. O mesmo acontece com o sofrimento decorrente dos . A natureza também não é um agente responsabilizável quando os humanos são as vítimas. Mas isso não torna tais danos neutros, nem faz com que deixemos de ter razões para ajudar essas vítimas ou para prevenir que o sofrimento natural ocorra. Esse tipo de visão aparece quase que exclusivamente quando os animais não humanos são as vítimas, dada a alta predominância de uma visão especista.

O que torna o sofrimento negativo são as suas próprias características. O sofrimento é o tipo de experiência cuja característica central é ser negativo para quem o experimenta (se não for experimentado como negativo, não é sofrimento). Porém, o sofrimento é negativo com total independência de ter tido origem em práticas humanas ou em processos naturais. Portanto, é falso que o sofrimento natural seja neutro em termos de valor. O sofrimento é um evento negativo, independentemente de sua origem.

Aquilo que gera razões para evitar sofrimento é o seu teor negativo. Se é assim, então quanto maior a magnitude do sofrimento, mais fortes essas razões. Temos, portanto, razões para prevenir o sofrimento natural (uma vez que ele continua sendo negativo para suas vítimas), e essas razões são tão fortes quanto as que temos para prevenir o sofrimento antropogênico equivalente.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que gera razões para evitar o sofrimento, segundo o capítulo?

Que exemplo o capítulo usa?

Para pensar

Você já sentiu que um sofrimento "não importava tanto" só porque não havia culpado?

Notas do autor 1
  1. 29 Para uma resposta detalhada a essa objeção, ver (1987, p. 230-1) e (2022, p. 99-110). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
  • SAPONTZIS, S. F. Morals, Reason and Animals. Philadelphia: Temple University Press, 1987.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Não devemos minimizar danos naturais porque essa questão está fora do escopo da ética, uma vez que nem os processos naturais nem os animais são responsabilizáveis. (VII, cap. 2, 15, 16).
É contraditório afirmar que a questão dos danos naturais está fora do escopo da ética e depois dizer que não devemos minimizar esses danos. Além disso, o fato de os processos naturais e os animais não serem responsabilizáveis é irrelevante, uma vez que quem tem que decidir somos nós, não eles. Quando humanos são as vítimas em situações similares, não é dito que não devemos socorrer as vítimas só porque os processos naturais e os animais não são responsabilizáveis.
A natureza não é boa nem má. Os processos naturais não são agentes imputáveis. Portanto, não temos razões para ajudar. (VII, cap. 2, 15, 16).
É verdade que os processos naturais não são agentes imputáveis. Mas, isso não faz com que não tenhamos razões para prevenir e minimizar os efeitos negativos que decorrem dos processos naturais (isso já é amplamente aceito quando os humanos são vítimas dos processos naturais). A responsabilidade moral recai sobre nós, em ter que decidir ajudar ou não ajudar.
A natureza é indiferente ao sofrimento dos animais. Ecossistemas surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao sofrimento e morte dos animais. (VII, cap. 2, 15, 16).
Sim, mas isso não justifica que nós também o sejamos. Os ecossistemas também surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao sofrimento humano, mas isso não justifica sermos indiferentes ao sofrimento. A objeção em questão assume que o modo como acontecem os fenômenos naturais deveria ser um modelo do que deveríamos fazer. Ao fazer isso, ela dá um salto injustificado, de descrever como as coisas são, para prescrever como deveriam (moralmente) ser.

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