Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 15
Se a natureza não é má, o sofrimento natural é neutro?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O sofrimento natural não é neutro só porque a natureza não é má nem responsabilizável: o que gera razões para evitá-lo é o seu teor negativo para quem sofre, como no caso de uma criança que machuca alguém sem culpa.
Se uma criança pequena, sem querer, bate em alguém, ela não tem culpa, mas a pessoa se machuca do mesmo jeito. A dor de um bicho por causa da natureza também dói, mesmo sem culpado.
Um furacão não é malvado, e ainda assim ajudamos as vítimas. Falta de culpado não é falta de vítima.
- P1 A objeção diz que, por ser natural, o sofrimento é neutro em valor.
- P2 O que torna o sofrimento negativo é ser ruim para quem sofre, e não ter um culpado.
- P3 O sofrimento causado por quem não é responsabilizável continua negativo para a vítima.
- C Logo, temos razões para prevenir o sofrimento natural, tanto mais quanto maior for.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Natureza não é boa nem má, então o sofrimento natural não é um problema.”
Resposta O sofrimento não fica menos ruim para quem sofre porque ninguém teve culpa. A culpa importa para julgar agentes, não para medir o dano das vítimas.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 39 da edição em PDF
Uma objeção à proposta de ajudar os afirma que, porque o sofrimento em questão é natural, é neutro em termos de valor (isto é, não seria algo negativo, como é o sofrimento causado pelos humanos), e que então, não há razões para preveni-lo29.
Por vezes o que dá origem a essa ideia é uma confusão entre o que é relevante para alguém ser responsabilizado e o que é relevante para avaliar se uma situação é negativa. Por exemplo, por vezes é dito que "a natureza não é boa nem má, simplesmente é, portanto não temos razões para prevenir o sofrimento natural". É verdade que o termo "natureza" refere-se a um conjunto de processos ocorrendo, e não a uma pessoa e, por isso, não faz sentido responsabilizar esses processos. Entretanto, o fato de a origem do sofrimento não ser responsabilizável não torna o sofrimento neutro em termos de valor. Isso será explicado em mais detalhes a seguir.
Uma criança pequena não é responsabilizável, mas se ela bate na cabeça de alguém com um porrete, o sofrimento é negativo para a vítima, e isso nos dá razões para ajudar essa vítima e prevenir que isso aconteça novamente. O mesmo acontece com o sofrimento decorrente dos . A natureza também não é um agente responsabilizável quando os humanos são as vítimas. Mas isso não torna tais danos neutros, nem faz com que deixemos de ter razões para ajudar essas vítimas ou para prevenir que o sofrimento natural ocorra. Esse tipo de visão aparece quase que exclusivamente quando os animais não humanos são as vítimas, dada a alta predominância de uma visão especista.
O que torna o sofrimento negativo são as suas próprias características. O sofrimento é o tipo de experiência cuja característica central é ser negativo para quem o experimenta (se não for experimentado como negativo, não é sofrimento). Porém, o sofrimento é negativo com total independência de ter tido origem em práticas humanas ou em processos naturais. Portanto, é falso que o sofrimento natural seja neutro em termos de valor. O sofrimento é um evento negativo, independentemente de sua origem.
Aquilo que gera razões para evitar sofrimento é o seu teor negativo. Se é assim, então quanto maior a magnitude do sofrimento, mais fortes essas razões. Temos, portanto, razões para prevenir o sofrimento natural (uma vez que ele continua sendo negativo para suas vítimas), e essas razões são tão fortes quanto as que temos para prevenir o sofrimento antropogênico equivalente.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que gera razões para evitar o sofrimento, segundo o capítulo?
Que exemplo o capítulo usa?
Para pensar
Você já sentiu que um sofrimento "não importava tanto" só porque não havia culpado?
Notas do autor 1
Fontes citadas neste texto 2
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022.
- SAPONTZIS, S. F. Morals, Reason and Animals. Philadelphia: Temple University Press, 1987.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Não devemos minimizar danos naturais porque essa questão está fora do escopo da ética, uma vez que nem os processos naturais nem os animais são responsabilizáveis. (VII, cap. 2, 15, 16).
A natureza não é boa nem má. Os processos naturais não são agentes imputáveis. Portanto, não temos razões para ajudar. (VII, cap. 2, 15, 16).
A natureza é indiferente ao sofrimento dos animais. Ecossistemas surgem, perduram e desaparecem com total indiferença ao sofrimento e morte dos animais. (VII, cap. 2, 15, 16).
Textos recomendados
Continue no tema A ética e a situação dos animais selvagens.
Se a natureza é indiferente ao sofrimento dos animais, por que ajudá-los?
A natureza ser indiferente ao sofrimento não justifica que sejamos indiferentes: os ecossistemas também…
Respeitar a natureza dos animais selvagens requer largá-los à própria sorte?
A ideia de que respeitar a "natureza" de cada animal exige largar os selvagens à própria sorte não passa…
Não é absurdo intervir em conflitos entre animais?
Intervir em conflitos entre animais não é absurdo: já intervimos na predação em larga escala para proteger…