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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 10

A proposta de ajudar os animais selvagens viola a liberdade deles?

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Ajudar os animais selvagens não viola a sua liberdade: é a condição para que possam exercê-la, pois precisam estar vivos e livres de sofrimento extremo; restringir em certo momento (para vacinar) pode garantir a liberdade depois.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 29 da edição em PDF

Por vezes, é defendido que a proposta de ajudar os deveria ser rejeitada porque, alegadamente, violaria a liberdade dos animais que seriam ajudados.

A resposta a essa objeção consiste simplesmente em apontar que ocorre exatamente o oposto. Essa proposta, na verdade, é essencial para que os animais exerçam sua liberdade, pois preveniria as coisas que impedem o seu exercício: sofrimento extremo e morrer prematuramente. Em resumo, não ajudar os animais é que tem como resultado que os animais não possam exercer sua liberdade, uma vez que estarão mortos ou em sofrimento extremo.

Poderia ser objetado que há situações onde temos de escolher entre garantir a liberdade do animal ou garantir que esteja livre de sofrimento ou morte. Esse seria o caso, por exemplo, se tivermos que fazer uma escolha entre, ou deixar um animal livre na natureza, mas sujeito a todos os riscos que isso implica, ou retirá-lo de lá e colocá-lo em, por exemplo, um santuário, onde seria cuidado e protegido, mas teria acesso a uma área bem menor.

Um primeiro ponto importante a observar em relação a essa objeção é que ela avalia o grau de liberdade a partir do tamanho do espaço disponível para locomoção. Mas, há outra forma de se avaliar o grau de liberdade: a partir do quanto é possível alguém realizar os seus interesses. De acordo com essa segunda forma de avaliação, é possível ter menos espaço e mais liberdade, e vice-versa. Por exemplo, se um animal está na natureza, ele terá mais espaço do que em um santuário. Mas, se isso implicar também em estar ferido, com doenças, sem acesso a comida, sem água, sendo atacado etc., isso implica em não realizar nem os seus interesses mais básicos. Analogamente, é possível que em outra situação o animal tenha menos espaço, mas, por ser cuidado e protegido, a possibilidade de realizar os seus interesses seja bem maior. Em resumo, se o grau de liberdade depende do quanto alguém realiza os seus interesses, isso não necessariamente coincide com estar em uma área territorial maior.

Observe que isso não implica que, então, seja melhor que os animais estejam em zoológicos, justamente porque estar em um zoológico não coincide com os animais poderem realizar os seus interesses. Santuários são essencialmente diferentes de zoológicos. Em um santuário o objetivo é beneficiar os animais. Em um zoológico o objetivo é proporcionar entretenimento para os humanos, desconsiderando o que seria melhor para os animais.

Contudo, suponhamos para efeito de argumentação que liberdade deva ser definida apenas em termos do tamanho da área na qual alguém está. Se for assim, não fica nada claro que o melhor para os animais seria ficarem em uma área maior, terem mais sofrimento e morrerem prematuramente.

Poderia ser objetado que muitos animais fogem de tentativas de resgatá-los de situações de desastre como incêndios e enchentes, ou de tentativas de vaciná-los, e que isso mostra que aquilo que os animais valorizam em maior grau é ficar livres de interferência humana, mesmo que isso implique sofrer mais e morrer prematuramente. Entretanto, a forma adequada de avaliar o que alguém valoriza em maior grau não é a partir do que esse alguém escolhe de fato, mas a partir do que esse alguém escolheria se tivesse acesso às informações relevantes23. Nos casos em questão, os animais fogem muito provavelmente porque não sabem que, nesses casos, os humanos estão ali para ajudá-los e, principalmente, porque não sabem o terrível destino que os espera em um incêndio ou em uma inundação. Se tivessem disponíveis essas informações, muito provavelmente escolheriam receber ajuda.

Assim, se a liberdade for definida em termos do tamanho da área territorial, então é falsa a alegação de que os animais valorizam a liberdade acima de qualquer outra coisa. Isso também vale para o caso humano. Por exemplo, dada a definição de liberdade que a objeção assume, se fôssemos jogados no meio do deserto do Sahara teríamos mais liberdade. Mas, ninguém escolhe isso para si próprio justamente por saber que implicaria em sofrimento e na morte. Isso mostra que valorizamos em maior grau estar livre de sofrimento e não morrer, em comparação a estar em uma área mais ampla. Mas, não há razão para pensar que no caso dos animais acontece o contrário, uma vez que também são gravemente prejudicados pelo sofrimento e pela morte.

Algumas pessoas defendem que os animais devem ser largados à própria sorte, "livres" na natureza para sofrer e morrer, não porque os animais valorizam isso, e sim porque elas próprias valorizam deixar os animais em tais condições. Mas, se é assim, então a alegação de que tal posição está preocupada em respeitar os interesses dos animais é apenas um artifício retórico, que visa mascarar uma posição que, de fato, envolve uma total desconsideração

pelos animais. Frequentemente quem defende essa posição tende a acusar a proposta de ajudar os animais selvagens de ser . Como deve estar claro agora, é essa posição que é antropocêntrica.

De fato, isso é muito comum. Há uma série de posições que defendem atitudes altamente prejudiciais para os animais, mas se apresentam como posições preocupadas em respeitá-los. Ao mesmo tempo, quem mantém essas posições tende a retratar as propostas genuínas de defender e ajudar os animais como envolvendo algum desrespeito pelos animais. Essa é uma estratégia comum, por exemplo, por parte de quem explora os animais e no discurso que tenta justificar as práticas ambientalistas de matança de animais24. Portanto, é esperável que a mesma estratégia de retórica desonesta surja por parte de quem é contra ajudar os animais que se encontram na natureza.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Se liberdade depende do quanto alguém pode realizar o que quer, o que garante mais liberdade aos animais?

O capítulo nota que muitas posições prejudiciais aos animais...

Para pensar

O que significa ser livre para um animal que vai morrer de fome amanhã?

Notas do autor 2
  1. 23 Sobre isso, ver (1994). ↩
  2. 24 As divergências entre consideração pelos animais e ambientalismo são o tema do quinto volume desta coleção. Para uma análise crítica detalhada dessa retórica por parte dos ambientalistas, ver Genovez (2023b). Para um exemplo dessas práticas de matança no Brasil, ver Conabio (2009). Para um exemplo na Europa, ver Council of Europe (2016, 2020). Para uma crítica a esse tipo de prática no Brasil, ver (2021b). Para uma crítica geral, ver (2004) e (2011, 2012). ↩
Fontes citadas neste texto 8

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Ajudar violaria a liberdade dos animais. (VII, cap. 10).
Pelo contrário. Ajudar é a única maneira de garantir que eles possam exercer sua liberdade, pois para isso precisam estar vivos e livres de sofrimento extremo. Poderia ser objetado que por vezes a proposta requer intervir na liberdade deles (por exemplo, para vaciná-los). Mas, se o grau de liberdade depende do quanto alguém pode realizar o que quer, restringir a liberdade deles em certo momento pode ser necessário para garantir que possam continuar a exercê-la.

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