Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 3
Como os processos naturais tipicamente afetam os animais selvagens?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Na natureza, fome, doenças, parasitas, frio e predação são a regra; a maioria das espécies tem ninhadas enormes das quais quase todos morrem logo após nascer. O número de vítimas faz até a exploração parecer pequena.
Um peixe pode pôr milhões de ovos, mas só uns poucos filhotes chegam a crescer. Todos os outros morrem pequeninos, de fome, frio ou comidos. Por isso, na natureza, a maioria dos bichos tem uma vida muito curta e difícil.
Imagine uma cidade em que nascessem milhares de bebês por família e quase todos morressem na primeira semana. A população ficaria "estável", mas ninguém diria que ali se vive bem.
- P1 A maioria das espécies se reproduz produzindo um enorme número de filhotes.
- P2 Em populações estáveis, em média só um descendente por adulto sobrevive.
- P3 Os demais morrem cedo, em geral de forma dolorosa.
- P4 Mesmo que muitos ovos não cheguem a formar seres sencientes e que os filhotes sofressem menos, o número de vítimas continuaria gigantesco.
- C Logo, a situação dos animais selvagens é, em geral, muito ruim.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Os animais selvagens vivem livres e felizes.”
Resposta Os poucos que vemos adultos são a exceção. A regra, para a imensa maioria, é nascer e morrer em poucos dias ou semanas.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 12 da edição em PDF
3.1. A situação dos animais selvagens
Existem objeções à proposta de ajudar os que negam que haja necessidade de ajudá-los. Por exemplo, uma crença comum é de que a situação dos animais selvagens não é lá muito ruim. Segundo essa visão a maioria dos animais selvagens vive vidas satisfatórias, e a quantidade de animais vítimas dos é bem menor do que a de animais vítimas da exploração. Por essa razão, as pessoas que mantém essa visão normalmente defendem que deveríamos focar em mudar a situação dos animais explorados.
A realidade, contudo, é bem diferente. A situação típica dos animais que estão na natureza também é altamente negativa. Muitos dos danos dos quais eles padecem são resultados diretos ou indiretos de práticas humanas, mas, ao contrário do que comumente se pensa, independentemente das ações humanas os processos naturais já os prejudicam em alto grau. São rotineiramente vítimas de desnutrição, fome e sede, doenças, lesões físicas, estresse psicológico, eventos meteorológicos hostis, desastres naturais, e conflitos interespecíficos, intraespecíficos e sexuais2. Essas condições são a norma na natureza, não a exceção, e acontecem desde muito antes do aparecimento da espécie humana (e não porque os humanos causaram algum "desequilíbrio" ou algo do tipo).
Um dos fatores que mais contribui para que seja maximizada a quantidade de animais que nasce para ter vidas repletas de sofrimento é a estratégia reprodutiva predominante. Em biologia, estratégia reprodutiva é um termo que designa a forma como os animais se reproduzem (por exemplo, tendo poucos ou muitos filhotes por vez). Portanto, não quer dizer estratégia no sentido de ser planejado (seja pelos animais ou qualquer outro alguém). Quer dizer apenas que os animais se reproduzem de determinada maneira.
A estratégia reprodutiva predominante consiste em maximizar a quantidade de filhotes. A maioria das espécies de animais possui ninhadas gigantescas, com milhares ou mesmo milhões de filhotes dependendo da espécie (algo comum em anfíbios, répteis, peixes e invertebrados em geral). Por exemplo, uma única ninhada de uma rã comum possui em torno
de 25 mil filhotes3; a de polvos, centenas de milhares4; as de salmão, bacalhau e atum, milhões5, e a do peixe-lua chega a 300 milhões6. Invertebrados terrestres também podem colocar centenas, milhares ou mesmo milhões de ovos de uma única vez7.
Essa estratégia reprodutiva sempre resulta em taxas de sobrevivência baixíssimas. Em períodos de aproximada constância populacional é possível medir a taxa de mortalidade prematura a partir do tamanho da ninhada. Isso porque, se a população permaneceu aproximadamente constante durante algumas gerações, então é porque em média sobreviveu apenas um descendente por adulto (isto é, dois por ninhada, e menos do que isso se há adultos que se reproduzem mais de uma vez na vida). Todo o restante nasce geralmente apenas para experimentar sofrimento intenso e morrer de modo bastante prematuro, muitas vezes sem nunca ter tido experiência positiva alguma8.
Essa estratégia reprodutiva está presente normalmente em espécies de animais de pequeno porte, que são a vasta maioria das espécies de animais. Uma das principais razões pelas quais muitas pessoas possuem uma visão positiva irrealista da vida na natureza é que tendem a pensar em animais não representativos da vida padrão na natureza: pensam em animais de grande porte (que não seguem essa estratégia reprodutiva, tendo poucos filhotes por gestação) e em adultos (isto é, pensam naquela pequena minoria que escapa da morte anterior à idade adulta)9. Isso se deve, em parte, ao fato de os animais que não são representativos serem os que geralmente aparecem em documentários e publicações sobre o tema10.
Em resumo, em decorrência dos processos naturais, para cada animal que consegue sobreviver, milhares ou mesmo milhões morrem muito jovens, geralmente tendo uma morte muito dolorosa. A maioria dos animais nasce apenas para experimentar quase que somente (ou mesmo somente) sofrimento extremo, e muitos outros sofrem também de maneira significativa mesmo que não seja de maneira tão extrema. O que pode surpreender à primeira vista é que a quantidade de animais que padece desse destino é tão gigantesca que faz até mesmo os números da , que já são enormes, quase desaparecerem em
comparação11. Trilhões de animais são mortos na exploração por ano. Entretanto, a quantidade de animais na natureza em um dado momento está entre 1 e 10 quintilhões, e a vasta maioria se reproduzirá tendo milhares ou milhões de filhotes a cada posta.
Como vimos, esse resultado decorre dos próprios processos naturais, independentemente de efeitos diretos ou indiretos de práticas humanas: já era assim muito antes do aparecimento da espécie humana, mesmo que hoje todos os efeitos naturais já estejam influenciados pela ação humana.
3.2. A objeção dos ovos destruídos
Poderia ser objetado que o problema não é tão grande quanto parece inicialmente, pois provavelmente muitos dos ovos são destruídos antes de formarem seres sencientes. Entretanto, não há provas de que isso aconteça com a maioria dos ovos. Além disso, a quantidade de ovos é tão gigantesca que, mesmo que a maior parte deles fosse destruída antes de formar seres sencientes, ainda resultaria em uma quantidade enorme de seres sencientes que nasceriam para ter vidas repletas de sofrimento e morrer prematuramente. Por exemplo, um bacalhau comum tem em média 2 milhões de ovos por ninhada12. Se mesmo apenas 10% desses ovos formarem seres sencientes, já seriam quase 200.000 os seres sencientes prejudicados a cada ninhada.
3.3. A objeção de que quase não sofrem
Outra objeção que defende que a situação não é tão grave quanto parece afirma que esses animais, por não terem ainda as capacidades cognitivas desenvolvidas, não seriam capazes de sofrer (ou, pelo menos, não sofreriam de maneiras muito significativas)13. Segundo essa objeção, se isso for verdadeiro, então não há nada de problemático nessa situação.
O primeiro problema com essa objeção é que esses animais ainda poderiam ser prejudicados com a morte, independentemente do sofrimento. Portanto, a situação ainda seria grave, mesmo que fosse verdadeiro o que a objeção alega.
O segundo problema é que há fortes razões para considerar falso o que a objeção alega. Por exemplo, o cérebro de peixes-zebras adultos possui cerca de 10 milhões de neurônios14, e o de seus filhotes, apenas cerca de 100 mil15. Entretanto, esses filhotes respondem de maneira similar aos adultos aos mesmos estímulos que indicam que os adultos são sencientes16.
Além disso, por pressão seletiva é bastante possível que animais com capacidades cognitivas menos desenvolvidas sintam de maneira ainda mais intensa17. Quando são ainda filhotes, ou mesmo antes de saírem dos ovos, como não possuem as capacidades cognitivas desenvolvidas ainda, a única motivação para o seu comportamento e aprendizado é evitar experiências negativas e buscar experiências positivas. Isso é especialmente verdadeiro no caso de animais precociais, pois precisam ser bastante ativos para poderem quebrar a casca e sair do ovo, e também para terem alguma chance de sobreviver após saírem do ovo18, pois é muito comum em espécies ovíparas que os filhotes não recebam cuidado parental.
3.4. Conclusão
Dado o que vimos, não parece haver razões para supor que a quantidade de animais vítimas dos processos naturais é pequena, e nem que sejam menos capazes de sofrer do que outros animais.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Em períodos de população estável, quantos descendentes por adulto sobrevivem, em média?
A objeção de que muitos ovos são destruídos antes de formar seres sencientes...
Para pensar
Quando você pensa em "natureza", pensa nos adultos que sobrevivem ou nos filhotes que não sobrevivem?
Notas do autor 17
- 2 Para detalhes, ver Animal Ethics (2020, p.16-60); (2016a) e (2022, p. 19-34). ↩
- 3 Rastogi et al. (1983). ↩
- 4 Boyle e Rodhouse (2005). ↩
- 5 Baum e Meister (1971); Hinckley (1987). ↩
- 6 Froese; Luna (2004). ↩
- 7 Brueland (1995). ↩
- 8 Ver (2010); Ética Animal (2015b); Animal Ethics (2021, p. 55-9) e Cunha (2022, p. 28-34). ↩
- 9 Sobre os fatores que influenciam as pessoas a terem essa visão distorcida, ver Ética Animal (2017). ↩
- 10 Para estatísticas sobre isso, ver Ética Animal (2017). ↩
- 11 Para uma comparação, ver (2019 [2009]). ↩
- 12 Ver Horta (2010). ↩
- 13 Ver por exemplo Groff; Ng (2019, p. 7) e Browning; Veit (2023, p. 13). ↩
- 14 Hinsch; Zupanc (2007). ↩
- 15 Ferro (2013). ↩
- 16 Sobre isso, ver Ética Animal (2022c); Hurtado-Parrado (2010); Lopez-Luna et al. (2017a, 2017b, 2017c, 2017d) e (2018). ↩
- 17 (2002, p. 64). ↩
- 18 Sobre isso, ver European Food Safety Authority (2005b) e Dooddy; Paull (2013) ↩
Fontes citadas neste texto 22
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- ANIMAL ETHICS. Introduction to wild animal suffering: A guide to the issues. Oakland: Animal Ethics, 2020.
- BAUM, E. T.; MEISTER, A. L. Fecundity of Atlantic Salmon (Salmo salar) from two Maine rivers. Journal of the Fisheries Research Board of Canada, v. 28, p. 764-767, 1971.
- BOYLE, P.; RODHOUSE, P. Cephalopods: Ecology and fisheries. Oxford: Blackwell, 2005.
- BROWNING, H.; VEIT, W. Positive Wild Animal Welfare. Biology & Philosophy, v. 38, n. 14, 2023.
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- ÉTICA ANIMAL. Por que a visão popular dos animais que vivem na natureza está errada? Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 fev. 2017.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Não há necessidade de ajudar os animais na natureza: basta parar de prejudicá-los, pois, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, os animais geralmente terão vidas predominantemente positivas. (VII, cap. 3).
Muitos ovos são destruídos antes de formarem seres sencientes. Assim, poucos animais são prejudicados. (VII, cap. 3).
A maioria dos animais morre muito jovem, e nesse estágio ainda são pouco capazes de sofrer. Portanto, são pouco prejudicados pelo que lhes acontece. (VII, cap. 3).
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