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Volume VI · A quem devemos consideração moral? · capítulo 21

Se plantas forem consideráveis, tanto faz comer animais ou plantas?

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Se plantas fossem moralmente consideráveis, não se seguiria que tanto faz comer animais ou plantas: os animais sofrem e consomem muitas plantas; a implicação seria o frutarianismo, e até Paul Taylor reconhece a importância do sofrimento.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VI, p. 59 da edição em PDF

Um alegado respeito por todos os seres vivos frequentemente é mencionado não com o objetivo de defender os seres vivos não , mas para tentar justificar excluir os animais não humanos da esfera de . Por exemplo, é muito comum o apelo a uma suposta consideração pelas plantas como tentativa de justificar o consumo de animais.

Entretanto, esse argumento não conseguiria justificar o que pretende nem mesmo se todos os seres vivos fossem moralmente consideráveis. Isso é assim porque ainda haveria uma razão para priorizar os seres sencientes em situações onde, seja lá o que escolhermos, necessariamente prejudicaremos, ou seres sencientes, ou seres vivos não sencientes.

A razão é que seres sencientes, devido à possibilidade de experimentarem sofrimento e de serem impedidos de desfrutar de experiências positivas (como acontece quando alguém morre, por exemplo), são passíveis de ser prejudicados de formas particularmente graves que nenhum ser não senciente é capaz de ser.

Paul Taylor, um dos principais proponentes do (a visão que defende que todos os seres vivos, sencientes ou não, são moralmente consideráveis), concorda com esse ponto72. Ele reconhece que qualquer forma de sofrimento é uma ocorrência intrinsecamente negativa na vida de um ser senciente. Por essa razão, ele conclui que, entre matar plantas ou matar animais sencientes, é menos errado matar plantas se os animais sofrerem.

Poder-se-ia pensar que a mesma visão teria de prescrever que, então, tanto faz matar o ser senciente ou o ser meramente vivo, desde que a morte do ser senciente seja indolor. Contudo, lembremos que Taylor condena causar uma morte com sofrimento devido ao sofrimento ser negativo. Mas, o inverso poderia ser dito do prazer ou da felicidade: são experiências positivas. Uma maneira de um ser senciente ser prejudicado é com a presença de experiências negativas; mas, outra é com a ausência de experiências positivas (algo que acontece quando morrem73).

Se é assim, então toda vez que a morte de um ser senciente impedir o desfrute de experiências positivas, ela é pior do que a morte de um ser meramente vivo (mesmo que a morte seja indo-lor, e mesmo que tivéssemos de considerar todos os seres vivos), pois somente o ser senciente é prejudicado pelo impedimento daquilo que experimentaria de positivo se continuasse vivo. Portanto, mesmo que plantas fossem moralmente consideráveis, isso não justificaria o consumo de animais.

Na verdade, no que se refere à alimentação, a implicação lógica que se segue para alguém que acredita que plantas são moralmente consideráveis é adotar o frutarianismo botânico ético, postura que se caracteriza pelo consumo de apenas aquilo que se desprende de uma planta. Normalmente, quando as pessoas percebem essa implicação, param imediatamente de defender que plantas são moralmente consideráveis. Isso mostra que elas não acreditavam de fato no que estavam defendendo. Estavam apenas buscando uma desculpa para continuarem consumindo os animais. Entretanto, o ponto importante a ser observado aqui é que, como vimos acima, mesmo se plantas fossem moralmente consideráveis, ainda haveria razões para priorizar os seres sencientes – e isso independe de se quem defende a consideração moral por plantas o faz de modo sincero ou não.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que Paul Taylor, biocentrista, reconhece?

Qual seria a implicação lógica de considerar as plantas, no que diz respeito à alimentação?

Para pensar

Por que o "respeito às plantas" raramente aparece em outras discussões, fora a do veganismo?

Notas do autor 2
  1. 72 Taylor (1986, p. 295). ↩
  2. 73 Para um desenvolvimento desse argumento, ver (2021, p. 59-61, 93-96. 99-112). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume VI.

  • CUNHA, L. C. Uma breve introdução à ética animal: desde as questões clássicas até o que vem sendo discutido atualmente. Curitiba: Appris, 2021.
  • TAYLOR, P. Respect for nature. Princeton: Princeton University Press, 1986.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Se plantas forem sencientes, tanto faz comer animais ou plantas, certo? (VI, cap. 21).
Se plantas também fossem sencientes, o que se segue é o frugivorismo, e não que é certo comer, tanto animais quanto plantas. Uma analogia: a constatação de que humanos e outros animais são sencientes implica o veganismo, e não que está certo comer, tanto animais quanto humanos.

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