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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 36

O debate sobre a destruição da natureza

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O capítulo simula o debate, entre os próprios defensores dos animais selvagens, sobre a "matança altruísta" (destruir habitats para reduzir o sofrimento), com argumentos, réplicas e tréplicas, e discute de quem é o ônus da prova.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 117 da edição em PDF

36.1. O contexto

O aumento de áreas verdes no planeta (seja por meio da sua preservação, restauração ou expansão) é quase sempre visto como algo certamente positivo, acima de qualquer suspeita. Isso ocorre por duas razões: (1) a maioria das pessoas mantém visões antropocêntricas e , o que as leva a não dar importância ao impacto que cada prática tem sobre os animais não humanos. (2) A maioria das pessoas, incluindo aquelas que se importam com os animais não humanos, não sabe que um aumento das áreas verdes implica em um aumento da e, por conseguinte, das taxas de reprodução (o que, indiretamente, maximiza a quantidade de sofrimento e de mortes prematuras dos animais).

Como vimos no Capítulo 3, a vasta maioria dos animais na natureza se reproduz maximizando a quantidade de filhotes (na casa de milhares ou mesmo milhões por ninhada dependendo da espécie), e a taxa de sobrevivência média em populações estáveis é de apenas dois por ninhada. Todo o restante nasce normalmente para ter vidas repletas de sofrimento e uma morte prematura, geralmente extremamente dolorosa. Em resumo, quanto mais áreas verdes, maior a quantidade total de sofrimento e de mortes prematuras.

Poderia ser objetado que os seres também precisam das áreas verdes enquanto recurso, e que então diminuí-las poderia prejudicar a qualidade de vida de muitos seres sencientes. Isso é verdade, mas dadas as taxas de reproduções gigantescas, a quantidade de sofrimento e de mortes causadas por um aumento das áreas verdes seria sempre enormemente maior do que aquela evitada por tal expansão. Em resumo, um aumento das áreas verdes é bom de um ponto de vista ou ambientalista, mas tem um saldo gigantescamente negativo se levarmos em conta todos os seres sencientes afetados.

36.2. Argumentos a favor da matança altruísta

Neste capítulo discutiremos o que chamaremos de 163. Segundo essa posição a melhor coisa que podemos fazer para prevenir é diminuir a quantidade de ecossistemas naturais. Essa posição reconhece que, ao fazermos isso, mataremos e causaremos sofrimento a uma enorme quantidade de animais. Entretanto, defende que, se não o fizermos, a quantidade de sofrimento e de mortes que decorrerá será imensamente maior.

Os defensores dessa posição reconhecem que o ideal seria prevenir o sofrimento e as mortes prematuras dos animais na natureza sem ter que causar sofrimento ou mortes (por exemplo, por meio de uma redução nas taxas de nascimentos, vacinações, tratamento de doenças e assim por diante). Contudo, defendem que pode ser que demore muito até que tais soluções sejam aplicadas em larga escala, e pode ser até mesmo que isso nunca chegue a ocorrer. Por isso, defendem que a matança altruísta é aquilo que tem o melhor saldo em termos de causar/evitar danos, pois, mesmo que um dia as soluções não letais venham a ser aplicadas em larga escala, o tempo que poderia levar até isso ocorrer implicaria na morte e sofrimento de muito mais animais do que a matança altruísta.

Por exemplo, a urbanização de áreas verdes (como a construção de estradas e moradias) resulta na morte e no sofrimento de muitos dos animais que vivem no local. Entretanto, a maioria desses animais se reproduz maximizando a quantidade de filhotes e, por conseguinte, maximiza a quantidade deles que nasce para experimentar sofrimento e morrer prematuramente. Assim, a urbanização, apesar de causar sofrimento e mortes, diminui drasticamente o saldo total de sofrimento e de mortes, seja em comparação a deixar a natureza seguir o seu curso, seja em comparação a esperar haver programas não letais de diminuição das taxas de nascimentos.

(2016a) dá o seguinte exemplo para ilustrar a questão. Suponhamos que o mundo fosse repleto de fábricas de bebês humanos. Tais bebês são comidos vivos depois de semanas ou meses de vida, mas 1 em cada 20 bebês consegue viver bem até 3 anos de idade. Imaginemos que a maioria das pessoas não quer eliminar essas fábricas e na verdade gosta delas porque, olhando de fora, elas são muito bonitas e quase ninguém percebe o sofrimento e as mortes que ocorrem lá. Contudo, imagine que algumas pessoas acidentalmente destroem

essas fábricas ao construírem casas e estacionamentos. Esse procedimento mata os bebês que lá estão, mas previne que muito mais deles nasçam para ter tal destino. Levando em conta que a vasta maioria da humanidade não está do seu lado, e que você tem recursos limitados, você tem uma escolha: (1) ou promover atividades econômicas que destruirão cem dessas fábricas de bebês; (2) ou fechar cinco fábricas salvando os bebês que estão nelas, mas isso implica que as outras 95 que você poderia ter destruído continuarão a funcionar. O autor defende que, se nossa meta é diminuir o máximo possível de sofrimento e de mortes, devemos optar por 1.

36.3. Argumentos contra a matança altruísta

Para avaliarmos se a matança altruísta possui melhores resultados do que esperar por soluções não letais, é útil fazermos uma distinção entre resultados de primeiro e de segundo grau164. Os de primeiro grau são todos os resultados (diretos ou indiretos) de uma ação que não dependem da maneira como influenciam as decisões de outros agentes. Os de segundo grau dependem de como a ação influencia as decisões de outros agentes (sendo que estas, por sua vez, têm também resultados de primeiro e de segundo grau, e assim por diante).

Com base nisso poderia ser defendido que a matança altruísta, mesmo se tiver melhores resultados de primeiro grau, poderia ter resultados de segundo grau tão negativos (devido ao modo como influenciaria os humanos a enxergarem a causa pela redução do sofrimento dos e a consideração pelos animais em geral) a ponto de ser melhor esperar por soluções não letais. Há dois argumentos principais nesse sentido, explicados a seguir.

O primeiro argumento é o de que a causa pela redução do sofrimento dos animais selvagens já é bastante rejeitada e, se os seus proponentes defenderem matar animais, essa rejeição aumentará ainda mais, sobretudo por parte de defensores dos animais. Em resumo, a defesa da matança altruísta pode fazer com que as pessoas em geral nunca venham a se preocupar com o sofrimento e as mortes dos animais selvagens.

O segundo é o de que, se a matança altruísta é defendida, é possível que o público entenda que o bem dos animais não importa, e isso implique em aumentar ainda mais os danos que os humanos causam aos animais.

36.4. Réplicas de quem defende a matança altruísta

Os proponentes da matança altruísta têm oferecido as seguintes respostas aos argumentos acima:

(1) Se a defesa da matança altruísta for feita explicando-se que só há justificativa para ela se qualquer outra opção resultar em ainda mais sofrimento e mortes, é baixo o risco de isso incentivar o público a apoiar outras práticas que aumentariam a quantidade de sofrimento e de mortes. Na verdade, poderia influenciar positivamente as decisões do público, por incentivar as pessoas a raciocinarem cuidadosamente sobre questões morais controversas, questionarem a relevância moral da distinção entre atos e omissões, se preocuparem com a quantidade total de sofrimento e de mortes ao longo do tempo, não terem medo de questionar intuições arraigadas (como a de que preservar a natureza tem saldo positivo) e assim por diante.

(2) Mesmo que a defesa da matança altruísta influencie os humanos a aumentarem os danos que causam aos animais, a destruição de habitats preveniria muito mais sofrimento e mortes do que a soma de todos os danos que os humanos causam aos animais.

36.5. Tréplicas de quem condena a matança altruísta

Em resposta à primeira réplica, poderia ser apontado que o público normalmente sequer lê o que os proponentes de uma posição defendem, muito menos lê com atenção às nuances. Assim sendo, é alto o risco de que a causa pela redução do sofrimento dos animais selvagens seja ainda mais rejeitada do que já é se a matança altruísta for defendida.

Em resposta à segunda réplica, poderia ser dito que, até o momento, o total dos danos que os humanos causam aos animais é muito menor do que o total dos danos naturais, mas que isso pode mudar no futuro. Esse seria o caso se os humanos vierem a restaurar ou expandir o território natural na Terra, ou se enviarem vida para fora da Terra, colonizarem o espaço e assim por diante165. Nesse caso, os humanos criariam as condições para os processos naturais maximizarem o sofrimento e as mortes para muito além de tudo o que existe até agora.

Em resumo, essa resposta defende que, se a matança altruísta contribuir para que o sofrimento dos animais selvagens seja ainda mais negligenciado, e isso resulte na expansão da natureza, então a matança altruísta teria em longo prazo piores resultados do que esperar por soluções não letais para o sofrimento dos animais selvagens.

36.6. Nova réplica dos defensores da matança altruísta

Diante desses novos argumentos, duas novas respostas estão disponíveis para os proponentes da matança altruísta.

A primeira é a de que todos os argumentos de seus oponentes, caso sejam sólidos, mostrariam apenas que as pessoas que visam prevenir os danos naturais não devem defender a matança altruísta, mas não mostrariam que a matança altruísta não deve ser conduzida. Por exemplo, se ela fosse conduzida por outras pessoas que não os proponentes de prevenir os danos naturais, ou se fosse conduzida em segredo, não haveria riscos em termos de influenciar a percepção do público sobre a proposta de reduzir os danos naturais ou sobre a causa animal em geral.

A segunda, mais importante, é que se o risco maior é os humanos maximizarem os danos que causam se vierem a expandir o território natural na Terra ou para fora dela, então quem corre o maior risco de induzir a tal coisa é a ideia de que é sempre errado destruir o território natural, não a matança altruísta. A matança altruísta deixa bem claro que expandir o território natural não é algo bom.

36.7. Mas, a humanidade já não vai fazer isso?

Quem condena a matança altruísta poderia argumentar que, como a humanidade automaticamente já tende a expandir a urbanização, não há necessidade de se defender a matança altruísta e, como defendê-la também apresenta riscos, melhor não defendê-la.

Entretanto, a isso se poderia responder que poderiam ser feitas pesquisas sobre quais usos do solo têm maiores probabilidades de terem saldo positivo para os seres sencientes afetados166 e,

com base nisso, poderíamos incentivar essas mudanças e também mudanças nas práticas de consumo (assim como o fazemos no caso dos animais explorados). Apenas para citar um exemplo de caso, Tomasik (2016a) defende que provavelmente o cultivo de óleo de palma reduz o saldo total de sofrimento, e que então poderíamos incentivar o seu consumo ou, pelo menos, nos opormos a campanhas contrárias ao cultivo de óleo de palma167.

Outra resposta nesse sentido aponta que, se explicarmos ao público que menos habitat implica menor saldo total de sofrimento e de mortes, isso pode fazer os ativistas, os legisladores e o público em geral terem menos entusiasmo com políticas conservacionistas e de expansão do território natural. Uma vez que suspender tais políticas não envolve gasto de recursos nem requer atividade alguma, pode ser mais fácil de o público aceitar tal proposta do que aceitar intervenções para reduzir o sofrimento dos animais na natureza168.

36.8. De quem é o ônus da prova?

Vimos acima que ambos os lados do debate tem argumentos fundados na preocupação com as consequências em longo prazo. Diante disso, uma questão central é a seguinte: de quem é o ?

De um lado, poderia ser sugerido que o ônus da prova é de quem defende soluções letais para um problema. Entretanto, os proponentes da matança altruísta poderiam responder que cumprem esse ônus da prova ao mostrarem que esperar pelas alternativas não letais implica necessariamente em mais sofrimento e mortes do que usar as alternativas letais.

Vimos que, em resposta a isso, quem se opõe à matança altruísta argumenta que, devido à influência que ela poderia ter nas decisões dos agentes ao longo do tempo, poderia implicar em mais sofrimento e mortes do que esperar pelas soluções não letais. Esse seria o caso se ela influenciar as pessoas a não terem pelos animais não humanos e isso vier a resultar, por exemplo, na expansão do território natural na Terra ou para fora dela.

Entretanto, de outro lado, os proponentes da matança altruísta poderiam sugerir que, nesse caso, o ônus da prova é de quem condena a matança altruísta, de mostrar que ela realmente

teria essas implicações contraproducentes, uma vez que ela poderia ser divulgada enfatizando-se que ela só se justifica quando todas as outras opções causam ainda mais sofrimento e mortes. Como vimos, quem é contra a matança altruísta argumenta que há o risco de o público entender errado a mensagem. Mas, novamente, os proponentes da matança altruísta poderiam responder que o ônus da prova é de seus oponentes, de mostrarem que esse risco é maior do que o risco de os danos naturais serem maximizados se a matança altruísta não for feita. Além disso, como vimos, os proponentes da matança altruísta poderiam apontar que a visão defendida por seus opositores (de que é sempre errado destruir ecossistemas naturais) é que tem maiores chances de ser entendida como implicando que é algo bom expandir a natureza.

Por fim, os proponentes da matança altruísta podem apontar que há outros dois fatores que sugerem que o ônus da prova é de seus opositores. Um é o fato de termos uma inclinação para rejeitarmos intervenções violentas, e isso pode fazer com que avaliemos enviesadamente as probabilidades de consequências. Outro é o fato de que os danos no caso da matança altruísta ocorreriam por ação, e no caso de esperar por soluções não letais ocorreriam por omissão (mas seriam muito maiores). Como danos por ação são mais perceptíveis do que por omissão, essa é uma razão para se desconfiar da preferência por esperar por soluções não letais.

Assim, parece que o ônus da prova é dos opositores da matança altruísta. Contudo, é importante destacar que a preocupação de que a matança altruísta possa ser contraproducente poderia vir também de uma análise minuciosa dos riscos, e não somente da inclinação mencionada acima. De qualquer forma, no próximo capítulo discutiremos em detalhes outra maneira de prevenir os danos naturais em larga escala que poderia ser aceita tanto por proponentes quanto por opositores da matança altruísta: não expandir o território natural.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Entre os proponentes de reduzir o sofrimento selvagem, a matança altruísta é...

Que preocupação os opositores da matança altruísta levantam?

Para pensar

Por que aumentar áreas verdes quase nunca é questionado do ponto de vista dos animais que vão nascer nelas?

Notas do autor 6
  1. 163 Este termo é uma adaptação de altruistic murders, cunhado por Torres (2015) para discutir essa posição. O debate clássico sobre essa posição ocorre entre Torres (2015), contrário à matança altruísta e Tomasik (2016a), favorável à matança altruísta ↩
  2. 164 Sobre essa distinção, ver (2022, p. 273-80). ↩
  3. 165 Sobre o risco associado a essas práticas, ver (2017, 2022) e Tomasik (2015b; 2015d). ↩
  4. 166 Por exemplo, Tomasik (2018 [2016]) faz uma comparação da quantidade de produtividade primária de vários tipos de solo. ↩
  5. 167 Tomasik (2016a) ↩
  6. 168 Id. Discutiremos no Capítulo 37 a questão da expansão do território natural. ↩
Fontes citadas neste texto 8

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Não há o que fazer em larga escala (VII, cap. 18, 24, 31, 36, 37).
Muitas coisas poderiam ser feitas em larga escala. Por exemplo, poderiam ser estudados quais elementos no ambiente tendem a reduzir a produtividade primária (e, por conseguinte, o sofrimento total). Além disso, poderiam ser evitadas as práticas humanas que contribuem para que os processos naturais maximizem a quantidade de nascimentos (e, por conseguinte, o sofrimento). Só isso já reduziria enormemente a quantidade de animais que nasceria apenas para sofrer.
A proposta de reduzir o sofrimento dos animais selvagens implica a matança altruísta? Isto é, implica destruir os habitats naturais (por exemplo, por meio da urbanização)? (VII, cap. 36).
Há divergência entre os proponentes de reduzir o sofrimento dos animais selvagens sobre se há ou não essa implicação. A seguir está a simulação de um debate que resume os principais argumentos de cada lado.

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