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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 34

A objeção de que o saldo da situação dos animais na natureza pode ser positivo

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Mesmo que o saldo da vida na natureza fosse positivo (o prazer de poucos superando o sofrimento de muitos), as razões para reduzir o sofrimento não diminuiriam; e, mesmo para quem só olha o saldo, ajudar quem está pior é o modo mais eficiente de aumentá-lo.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 111 da edição em PDF

34.1. A alegação de que o saldo total pode ser positivo

Por vezes é defendido que o saldo total da situação dos animais na natureza pode ser positivo160. Isso porque, apesar de a quantidade de animais que morrem prematuramente com vidas repletas de sofrimento ser gigantescamente maior do que a de animais que têm vidas com saldo positivo, os poucos sobreviventes vivem muitos anos, e então a soma das suas experiências positivas poderia fazer a balança pender para o positivo.

34.2. Se o saldo total for positivo, e daí?

Suponhamos que o saldo total agregado fosse positivo. Ainda haveria uma quantidade astronômica de animais que têm, individualmente, vidas com saldos negativos. Teríamos fortes razões para ajudar esses animais. Curiosamente, essas razões são igualmente fortes no caso de animais que têm, individualmente, vidas com saldo positivo, mas estão diante de um episódio negativo.

Basta imaginar vítimas humanas em seu lugar que tudo fica muito claro. As razões para ajudar humanos morrendo de fome nos países subdesenvolvidos não enfraquecem só porque há humanos abastados nos países de primeiro mundo. As razões para ajudar alguém que está com um sofrimento terrível não enfraquecem só porque sua vida pode conter, no total, mais experiências positivas do que negativas. As pessoas só pensam diferente no caso dos animais não humanos por conta da vigência do .

34.3. Quais visões poderiam aceitar ajudar independentemente do saldo total?

A tese de que, mesmo se o saldo (individual ou coletivo) for positivo, as razões para ajudarmos os animais não enfraquecem, seria aceita por muitas visões da ética:

(1) Seria aceita por quem concorda que prevenir o que é negativo é mais importante, pelo menos em certa medida, do que promover o que é positivo.

(2) Seria aceita por quem aceita que a felicidade de outros não enfraquece as razões para ajudarmos quem está mal, e que o fato de alguém estar bem em outros momentos não enfraquece as razões para ajudá-lo quando está mal.

(3) Mesmo quem acredita que tudo o que importa é o saldo total, e que considera promover o que é positivo tão importante quanto evitar o que é negativo, teria razões para priorizar eliminar o que há de negativo. Isso é assim por conta do princípio da utilidade marginal decrescente, segundo o qual uma unidade extra de recurso produz maiores aumentos no bem-estar quanto pior for a situação de quem o receberia. Por exemplo, se alguém está morrendo de fome e recebe um quilo de alimento, isso produz um maior aumento em seu bem-estar do que se o déssemos a alguém que já está bem. Assim, priorizar melhorar a situação dos que se encontram em situação negativa é mais eficiente para aumentar o saldo total.

34.4. Decisões em que a única opção é mudar a situação como um todo

Poderia ser objetado que, diferentemente de cenários em que é possível escolher manter uma situação e apenas diminuir o que há de negativo nela, há cenários nos quais só conseguimos afetar a situação como um todo. A seguir estão alguns exemplos.

(1) A decisão sobre manter ou destruir um ecossistema. (2) A decisão sobre criar ou não novos ecossistemas. (3) A decisão sobre recriar ou não ecossistemas que já foram extintos.

O que fazer em decisões assim depende do peso atribuído aos aspectos positivos frente aos aspectos negativos. Duas pessoas poderiam concordar que uma situação tem saldo positivo e ainda discordarem quanto ao que deveria ser feito em relação a ela.

Por exemplo, imaginemos que, se criarmos um novo ecossistema, o saldo total agregado será positivo. Contudo, suponhamos também que nasceria uma quantidade enorme de indivíduos com vidas repletas de sofrimento, mas menor do que a quantidade de indivíduos que teriam vidas positivas. Quem mantém que promover o que é positivo é tão importante quanto evitar o que é negativo diria que é melhor criar tal situação. Contudo, essa não é a única posição possível. Outra pessoa poderia concordar que tal situação tem saldo positivo, mas manter que prevenir o que é negativo é mais importante do que promover o que é positivo.

Poderia ser objetado que priorizar prevenir o que é negativo teria implicações absurdas, como dizer que nenhuma quantidade daquilo que é positivo, por maior que fosse, poderia compensar algo de negativo, por menor que fosse. Contudo, isso seria assim apenas se prevenir o que é negativo fosse considerado um trunfo sobre promover o que é positivo. Mas essa não é a única possibilidade. Prevenir o que é negativo poderia ter peso maior sem ser um trunfo (dependendo do quão maior fosse o seu peso, maior teria de ser a quantia de aspectos positivos para compensar certa quantia de aspectos negativos).

34.5. Conclusão

Mesmo se o saldo agregado da situação dos animais na natureza fosse positivo, isso não enfraqueceria as razões para se minimizar/prevenir os aspectos negativos e também não seria necessariamente determinante para decisões do tipo “manter/eliminar” e “criar/não criar” uma situação.

No item anterior vimos três exemplos de situações desse tipo:

(1) A decisão sobre manter ou destruir um ecossistema. (2) A decisão sobre criar ou não novos ecossistemas. (3) A decisão sobre recriar ou não ecossistemas que já foram extintos.

Do que deve depender a decisão nesses contextos? Os três próximos capítulos abordam essas questões.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Que analogia o capítulo usa?

Para quem só se importa com o saldo total, por que priorizar quem sofre?

Para pensar

Uma média boa pode esconder muito sofrimento? Dê um exemplo do mundo humano.

Notas do autor 1
  1. 160 Ver por exemplo Groff ; Ng (2019) Browning; Veit (2023). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

  • BROWNING, H.; VEIT, W. Positive Wild Animal Welfare. Biology & Philosophy, v. 38, n. 14, 2023.
  • GROFF, Z.; NG, Y. K. Does suffering dominate enjoyment in the animal kingdom? An update to welfare biology. Biology & Philosophy, v. 34, n. 40, p. 1-16, 2019.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

A situação pode ser saldo positivo: o prazer dos poucos animais que vivem muito pode sobrepassar o sofrimento somado da vasta maioria. (VII, cap. 34).
Suponhamos que o saldo total fosse positivo. As razões para diminuir o sofrimento não diminuem por causa disso. Por exemplo, as razões para ajudar humanos morrendo de fome nos países pobres não enfraquecem só porque há humanos abastados nos países ricos. Além disso, mesmo quem acredita que tudo o que importa é o saldo total tem razões para priorizar eliminar sofrimento, pois uma unidade extra de recurso produz maiores aumentos no bem-estar quanto pior for a situação de quem o receberia. Assim, priorizar melhorar a situação dos que se encontram em situação negativa é mais eficiente para aumentar o saldo total.

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