Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 33
O argumento do prolongamento da agonia
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
O argumento do "prolongamento da agonia" falha: ajudar costuma reduzir o sofrimento e prolongar a vida ao mesmo tempo, pois o que causa sofrimento geralmente também causa a morte; e muitas intervenções apenas previnem nascimentos.
Alguns dizem que salvar um bicho da natureza só faz ele sofrer por mais tempo. Mas, quando a gente trata a fome ou a doença, tira o sofrimento e a morte juntos. E muitas ajudas são só evitar que nasçam filhotes que iam sofrer.
Tratar uma pneumonia não "prolonga a agonia": cura a doença que causava a agonia.
- P1 A objeção diz que ajudar prolongaria vidas de sofrimento.
- P2 O que causa sofrimento aos animais na natureza geralmente também causa a sua morte.
- P3 Tratar essas causas prolonga a vida e aumenta o bem-estar ao mesmo tempo.
- P4 Muitas intervenções não prolongam vidas, apenas previnem nascimentos.
- C Logo, o argumento do prolongamento da agonia não justifica não ajudar.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Salvar um animal selvagem é só prolongar o sofrimento dele.”
Resposta Só se não fizermos nada contra as outras causas de sofrimento. Ajudar bem é atacar a causa, como a fome ou a doença, que é também o que o mataria.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 109 da edição em PDF
33.1. A objeção de que aumentar o tempo de vida é o pior para os animais
Considere a seguinte objeção à proposta de ajudar os animais que vivem na natureza. Ao ajudarmos tais animais, estamos salvando-os de determinada ameaça de morte e, portanto, prolongando suas vidas. Contudo, ter a vida prolongada só é um benefício quando a vida é minimamente significativa. Mas, continua a objeção, quase a totalidade dos animais que nascem na natureza o fazem apenas para experimentar sofrimento. Assim, ao salvarmos tais animais, obteríamos o contrário do efeito almejado: prolongaríamos sua agonia. Portanto, conclui a objeção, o que melhor cumpre a meta de conseguir o estado de coisas menos ruim para os animais é não tentar ajudá-los. A seguir discutiremos essa objeção.
33.2. Prolongar as vidas dos animais que vivem na natureza é sempre pior para eles?
Embora se trate da imensa maioria, não são todos os animais na natureza que têm vidas que não chegam a ser minimamente significativas. Vimos no Capítulo 3 que a maximização de vidas com predominância de sofrimento ocorre no caso de espécies que se reproduzem maximizando o número de filhotes. No caso dos animais que se reproduzem tendo poucos filhotes por ninhada (por exemplo, os de porte grande como elefantes, zebras, cervos etc.), é maior a possibilidade de tais filhotes terem vidas com um nível de bem-estar aceitável. É claro, mesmo tais animais enfrentarão um ambiente com possibilidade de escassez de comida e água, estarão vulneráveis a doenças, parasitismo, e outros conflitos com animais. Contudo, se os ajudarmos (por exemplo, fornecendo água, comida, vacinas e tratamento médico), contribuiremos para aumentar a probabilidade de suas vidas serem minimamente significativas.
Poderia ser objetado que esses animais são uma pequeníssima minoria dos que vivem na natureza, e que então deveríamos intervir apenas em um número muito limitado de casos. Contudo, é importante ter em mente que, em relação aos animais que se reproduzem , o fato de suas vidas serem repletas de sofrimento deve-se a estarem em um ambiente onde as condições para que alguém consiga sobreviver por muito tempo são completamente desfavoráveis. Se intervirmos criando condições para que tais animais consigam sobreviver por mais tempo, as chances de terem uma vida minimamente significativa aumentariam159. Prolongar suas vidas só resulta em algo pior (em comparação a morrerem agora) se não fizermos nada para evitar outras formas de sofrimento que estarão sujeitos.
Além disso, um detalhe importante é que, em relação à imensa maioria dos animais na natureza, aquilo que lhes causa sofrimento geralmente também lhes causa a morte (por exemplo, inanição e doenças). Assim, se salvamos um animal da morte, prolongamos sua existência, mas ao mesmo tempo fazemos com que não esteja mais a sofrer por essa causa. E, dado que normalmente as coisas que os fazem sofrer também causam suas mortes, se oferecermos tratamento para tais males, estaremos a prolongar-lhes a vida, mas também a eliminar fontes de sofrimento para eles, aumentando assim, os seus níveis de bem-estar. O único caso em que isso não acontece é quando um animal padece de um mal que o faz sofrer, mas não causa sua morte (mas esses casos são muito raros).
Uma das razões pelas quais o sofrimento predomina nas vidas dos animais na natureza é que a imensa maioria dos animais normalmente morre muito cedo. Isto é, se tiverem vidas mais longas aumentam as chances de que as experiências positivas superem o sofrimento em suas vidas. Assim, na vasta maioria dos casos evitar a causa da morte de um animal não é prolongar seu sofrimento: ao invés, é evitá-lo. Então, no caso da imensa maioria dos animais na natureza (e não apenas no caso dos animais que se reproduzem tendo poucos filhotes), prolongar suas vidas os beneficia.
33.3. Intervir para ajudar os animais na natureza sempre prolonga suas vidas?
Também é falso que todas as intervenções prolongam as vidas dos animais: muitas apenas previnem novos nascimentos. E, dado que a maior parte do sofrimento e das mortes prematuras na natureza surge devido à maximização das reproduções, a prevenção dos nascimentos seria o foco central das intervenções. Dessa maneira, mesmo que aumentar o tempo de vida dos animais prolongasse sua agonia (o que, como vimos, é falso), haveria ainda fortes razões para diminuirmos a quantidade de nascimentos.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Por que prolongar a vida de um animal na natureza não é sempre pior para ele?
Todas as intervenções prolongam as vidas dos animais?
Para pensar
Quando você foi tratado de uma doença, sentiu que isso "prolongou a sua agonia"?
Fontes citadas neste texto 1
A lista completa do volume está em referências do Volume VII.
- FARIA, C. Animal Ethics Goes Wild: The Problem of Wild Animal Suffering and Intervention in Nature. Tese (Doutorado em Filosofia). Barcelona: Universitat Pompeu Fabra, 2016.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Se as vidas dos animais selvagens são cheias de sofrimento, ajudá-los seria apenas prolongar a sua agonia. Melhor não intervir. (VII, cap. 33).
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