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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 26

O que já vem sendo feito para ajudar os animais selvagens?

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Ajudar os animais selvagens já acontece: há vacinação (como contra a raiva), tratamento de doenças (probióticos contra a sarna e a síndrome do nariz branco), resgates em desastres e cuidado de órfãos; muito mais poderia ser feito.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 75 da edição em PDF

26.1. Introdução

Há quem acredite que a proposta de ajudar os , apesar de ter bons fundamentos teóricos, é impraticável. A maneira de responder a isso é simplesmente mostrar o que já vem sendo feito para ajudar os animais na natureza.

Várias coisas já vêm sendo feitas para ajudar os animais que estão na natureza. Normalmente esses programas de ajuda possuem metas antropocêntricas ou . Contudo, os animais se beneficiam também, e isso, por si só, já mostra que é falso que não há nada que se possa fazer para ajudá-los. Além disso, o conhecimento obtido a partir desses programas pode ser útil para orientar futuros projetos que tenham como objetivo ajudar os animais.

Dentre as formas pelas quais os animais já vêm sendo ajudados80, podemos destacar a vacinação e tratamento de doenças, a ajuda a animais em incêndios e em outros desastres naturais, a assistência a animais órfãos, o resgate de animais presos e programas para atender as necessidades básicas dos animais. A seguir, estão alguns exemplos dessas formas de ajuda.

26.2. Vacinação

Existem muitos exemplos de vacinação de animais selvagens em larga escala. A mais conhecida é a vacinação contra a raiva, que aconteceu em vários países e ajudou a erradicar a doença em grandes porções da Europa e da América do Norte81. A vacinação é feita por meio de dispersão aérea de biscoitos que contém a vacina82. O uso de drones permite vacinar 4.000 animais por dia83. Programas similares foram implementados ao redor do mundo, incluindo a vacinação de cães selvagens na África84 e Ásia85, e de lobos na Etiópia86.

Os exemplos a seguir já mostram a eficácia desse tipo de projeto. A peste silvestre em cães-da-pradaria tem taxas de mortalidade próximas a 100%87, mas, após uma vacinação em 2019 na Dakota do Sul, os animais apresentaram uma taxa de sobrevivência de 95%88. A vacinação contra o antraz se mostrou eficaz em populações de rinocerontes, zebras e guepardos89, e já foi proposta também para gorilas90. Javalis foram vacinados contra a tuberculose em condições naturais de transmissão em 201191. Pesquisas na universidade de Helsinki descobriram que é possível vacinar milhares de abelhas simplesmente vacinando a rainha92. No Reino Unido há um Banco de Vacinas e Antígenos93. Por meio da vacinação, a peste bovina se tornou a segunda doença a ser completamente erradicada na história (a primeira foi a varíola) e a primeira entre as que afetam animais não humanos94.

26.3. Tratamento de doenças

Probióticos têm sido utilizados para tratar vombates contra a sarna95; peixes contra vários tipos de infecções96; morcegos contra a síndrome do nariz branco (o que aumentou as taxas de sobrevivência de 8% para 46%97) e sapos boreais contra doenças de pele (o que fez com que tivessem uma taxa de sobrevivência 40% mais alta do que a dos outros sapos98). Há também pesquisas sobre tratamentos probióticos para cobras99 e abelhas100. Desde a década de 1940 a esterilização de insetos tem sido utilizada para deter a propagação de doenças, o que beneficia tanto os animais que seriam picados quanto os insetos, uma vez que, dada a sua dinâmica populacional101, de todos os que nascem, poucos conseguem sobreviver102.

26.4. Tratamento de animais em necessidade

Os animais têm sido ajudados também quando estão feridos. Por exemplo, pássaros e morcegos trazidos a centros de assistência com fraturas nas asas geralmente conseguem uma recuperação completa103. Outra prática de ajuda é o resgate de animais presos, como baleias presas em blocos de gelo104, elefantes em lagos de lama105 e animais encalhados em praias106. O fornecimento de alimento combinado com contraceptivos também tem tido bons resultados107.

Existem orfanatos para animais selvagens na África do Sul, no Quênia e na República do Congo108. Tartarugas filhotes têm sido ajudadas também a chegar na água quando saem dos ovos109. Os animais também têm sido resgatados em desastres como incêndios110, furacões e tsunamis111, erupções vulcânicas112 e em enchentes113.

Por vezes os animais também são ajudados com a construção de abrigos ou ninhos114, o que tem beneficiados morcegos115, pombos116, coelhos117 e mariposas118. A construção de planaltos artificiais no Parque Nacional de Kaziranga, na Índia, fez com que a quantidade de mortes de animais de grande porte em enchentes caísse pela metade em dois anos119.

Esses são apenas alguns exemplos do que já vem sendo feito para ajudar os animais na natureza. Entretanto, muito mais poderia ser feito. Como veremos no próximo capítulo, um exemplo seria o estabelecimento do campo da 120, que estudaria os animais em seus ecossistemas do ponto de vista do que os afeta enquanto indivíduos que possuem um bem-estar (e não enquanto exemplares de espécies e componentes de ecossistemas).

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

No exemplo do capítulo, o tratamento com probióticos aumentou a sobrevivência de morcegos com síndrome do nariz branco de...

Qual é a melhor resposta a quem diz que a proposta é impraticável, segundo o capítulo?

Para pensar

Você conhecia algum desses programas? Por que acha que eles são pouco divulgados?

Notas do autor 41
  1. 80 Mais detalhes sobre essas formas de ajuda podem ser encontrados em (2016b) e Animal Ethics (2020). ↩
  2. 81 Animal Ethics (2020, p. 75); Baer et al. (1971); Fearneyhough et al. (1998); Robbins et al.(1998); Macinnes; Leber (2000); Maccinnes et al. (2001); Slate et al. (2005); Steck et al. (1982). ↩
  3. 82 Animal ethics (2020, p. 76); Department for Environment, Food and Rural Affairs (2010). ↩
  4. 83 Animal ethics (2020, p. 78). ↩
  5. 84 Cleaveland et al. (2003); Kitala et al. (2002). ↩
  6. 85 Childs et al.(1998); Pal (2001). ↩
  7. 86 Carrington (2018). ↩
  8. 87 Abbot; Rocke (2012) ↩
  9. 88 Leggett (2009) ↩
  10. 89 Turnbull et al. (2004). ↩
  11. 90 Animal ethics (2020, p. 79). ↩
  12. 91 Garrido et al. (2011). ↩
  13. 92 Animal ethics (2020, p. 80), Raukko (2018). ↩
  14. 93 Department for Environment, Food and Rural Affairs (2010). ↩
  15. 94 Fao (2010). ↩
  16. 95 Animal ethics (2020, p. 67-8). ↩
  17. 96 Forschungsverbund (2019) ↩
  18. 97 Hopkins; Soileau (2018); Hoyt et al. (2019). ↩
  19. 98 Animal ethics (2020, p. 68); Kueneman et al. (2016). ↩
  20. 99 Hill et al. (2018). ↩
  21. 100 El Khoury et al. (2018); Animal Ethics (2020, p. 69). ↩
  22. 101 Sobre como a dinâmica populacional afeta o sofrimento e as taxas de mortalidade dos animais, ver (2010) e Ética Animal (2015b). ↩
  23. 102 Dyckn; Hendrichs; Robinson (2005); Parker; Metha (2007); Alphey et al. (2010). ↩
  24. 103 Animal Ethics (2020, p. 70). ↩
  25. 104 Animal Ethics (2020, p. 61). ↩
  26. 105 Animal Ethics (2020, p. 61). ↩
  27. 106 Martin (1991). ↩
  28. 107 Lott (1996, p. 232-3); Cooper; Ginnett (2000); Robb et al. (2008); Orros; Fellowes (2012); Jones (2011). ↩
  29. 108 Animal ethics (2020, p. 70). ↩
  30. 109 Animal ethics (2020, p. 70); Gillingwater (2008). ↩
  31. 110 Gerova (2019), Koala Info (2019) e Animal Ethics (2020, p. 63). ↩
  32. 111 Animal ethics (2020, p. 65). ↩
  33. 112 World Animal Protection (2018). ↩
  34. 113 Akande (2016); Guha; Ghosh (2019); Airey (2019). ↩
  35. 114 et al. (2003); Hansell; Hansell (2005, p. 216-7). ↩
  36. 115 Lausen; Barclay (2006) ↩
  37. 116 Goodwin (1960). ↩
  38. 117 Fernández-olalla et al. (2010). ↩
  39. 118 Hansell e Hansell (2005, p. 216-7); Fernández-olalla et al. (2010). ↩
  40. 119 Guha e Ghosh (2019). ↩
  41. 120 Sobre biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019b), e Horta (2020) e et al. (2021). ↩
Fontes citadas neste texto 31

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

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Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Não há o que fazer para ajudar. (VII, cap. 26).
Os animais já vem sendo ajudados com vacinação e tratamento de doenças, em incêndios e em outros desastres naturais, com assistência a animais órfãos, resgate de animais presos e programas para atender as necessidades básicas dos animais31.

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