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Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 27

O que mais poderia ser feito para ajudar: estabelecendo a biologia do bem-estar

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A biologia do bem-estar seria um campo interdisciplinar dedicado a estudar os animais selvagens como indivíduos sencientes, e não só como exemplares de espécies; obstáculos ideológicos, sobretudo o especismo, impedem o seu desenvolvimento.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 78 da edição em PDF

27.1. O que é biologia do bem-estar?

A falta de consideração pelos animais enquanto seres faz com que os sejam estudados geralmente apenas enquanto exemplares de espécies e componentes de ecossistemas. Por isso, há muito menos dados sobre o que afeta os animais selvagens enquanto indivíduos que possuem um bem-estar.

Por essa razão, foi proposta a criação do campo da biologia do bem-estar, que estudaria a maneira como os animais são afetados pelas interações que possuem com seus ambientes e entre si, do ponto de vista do que é melhor ou pior para eles enquanto indivíduos sencientes que possuem um bem-estar – isto é, enquanto seres para os quais as coisas podem ir melhor ou pior121.

À medida que aumentasse o conhecimento proveniente da , programas de ajuda aos animais cada vez mais seguros e eficientes poderão ser implementados122.

27.2. A biologia do bem-estar é um campo crosdisciplinar

A pesquisa em biologia do bem-estar é crosdisciplinar. Isso é diferente de pesquisas interdisciplinares e transdisciplinares. Quanto à sua disciplinaridade, os diferentes tipos de pesquisa podem ser classificados da maneira a seguir123. (1) A intradisciplinar é aquela feita dentro de uma única disciplina. (2) A multidisciplinar envolve várias disciplinas provendo diferentes perspectivas sobre um problema. (3) A interdisciplinar integra os conhecimentos e métodos de diferentes disciplinas, fazendo uma síntese das abordagens. (4) A transdisciplinar cria uma estrutura para além das perspectivas das disciplinas envolvidas. (5) Por fim, a crosdisciplinar enxerga uma ou mais disciplinas a partir da perspectiva de outra.

A biologia do bem-estar envolveria em conjunto o conhecimento proveniente de várias disciplinas, como ecologia, ciência do bem-estar animal, zoologia e ciência veterinária. Trata-

se de um campo crosdisciplinar de pesquisa no sentido de que cada disciplina envolvida seria conduzida a partir da perspectiva da biologia do bem-estar. Isto é, todas focariam em investigar como os animais são afetados positiva ou negativamente enquanto seres sencientes.

27.3. O que diferencia a biologia do bem-estar de outras áreas?

A biologia do bem-estar é diferente da biologia da conservação124, onde os animais são estudados enquanto exemplares de espécies ou componentes de ecossistemas. Também é diferente da conservação compassiva125, que consiste em, ao se buscar metas conservacionistas, usar métodos que não prejudiquem os animais. Por fim, também é diferente do bem-estar da conservação126, que investiga como o bem-estar dos animais também pode ser promovido quando medidas conservacionistas são implementadas.

A biologia do bem-estar estudaria o que afeta positiva ou negativamente os animais, independentemente de se esse conhecimento serve ou não à conservação. Os conhecimentos dessas outras áreas poderiam ser úteis à biologia do bem-estar e vice-versa, mas suas metas são distintas.

27.4. Quais animais seriam estudados pela biologia do bem-estar?

As investigações em biologia do bem-estar poderiam ser feitas sobre a situação de quaisquer animais. Contudo, já há muito mais dados disponíveis no caso dos animais que vivem sob controle humano. A maneira como os afetam o bem-estar dos animais que se encontram na natureza é um tópico ainda amplamente negligenciado. Por isso, a pesquisa em biologia do bem-estar tem razões para focar na situação desses animais. Porém, essa pesquisa poderia incluir também os animais que não vivem sob controle direto humano e se encontram em ambientes semisselvagens, agrícolas, suburbanos e mesmo urbanos (como os pombos que vivem em cidades, por exemplo127).

27.5. Criando as condições para o estabelecimento da biologia do bem-estar

Há quem pense que a proposta de ajudar os animais selvagens não é implementada porque ninguém tem ideia do que fazer na prática. Essa crença é equivocada. Como vimos no Capítulo 26, várias coisas já vem sendo feitas para ajudar os animais que estão na natureza128. Já há também várias pesquisas em biologia do bem-estar129 e também sabe-se algo sobre quais outros tipos de pesquisa seriam necessários. Estão também começando a surgir em universidades programas de pesquisa especializados em biologia do bem-estar130.

Por que, então, a biologia do bem-estar ainda não se tornou um campo bem estabelecido de pesquisa, como outras áreas? Há vários fatores. Um deles é que é um campo relativamente recente, em comparação a outras áreas. Outro fator é que, ao contrário daquela crença comum, os principais obstáculos ao estabelecimento da biologia do bem-estar não são práticos, mas ideológicos. Isto é, há pouca pesquisa sobre a situação dos animais selvagens simplesmente porque tal situação ainda não é vista como um problema, e também porque predomina a visão de que é errado ajudar tais animais. Em resumo, o problema não é que não há o que fazer, e sim que falta vontade de se fazer alguma coisa.

Assim, para que a biologia do bem-estar venha a se tornar um campo bem estabelecido, é importante combater esses obstáculos ideológicos. A seguir veremos mais detalhes sobre esses obstáculos.

27.6. Obstáculos ideológicos que impedem o desenvolvimento da biologia do bem-estar

Devido ao especismo, os animais selvagens são normalmente reduzidos a componentes de ecossistemas e a exemplares de espécies. Não são vistos como indivíduos com quem devemos nos preocupar. Segundo essa visão, quando os animais selvagens são vítimas dos processos naturais, isso não nos dá razões diretas para prevenir o seu sofrimento e suas mortes: o que importa é deixar a natureza seguir o seu curso, garantir o , a , a conservação dos ecossistemas, preservar espécies raras etc. Segundo a visão

predominante, devemos ajudar os animais selvagens somente se fazê-lo for útil para alcançar metas ou antropocêntricas.

Entretanto, quando os humanos são as vítimas, a visão predominante é exatamente a oposta. As objeções que são levantadas contra a proposta de ajudar os animais selvagens quase certamente não seriam levantadas se as vítimas fossem humanas. Assim, a predominância do especismo é uma das principais razões pelas quais a pesquisa em biologia do bem-estar ainda não é um campo consolidado.

Visão idílica da natureza

Outro obstáculo é a visão idílica da natureza131, isto é, a ideia de que, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, o resultado será predominantemente positivo para os animais. Esse faz com que o problema do sofrimento dos animais selvagens seja negligenciado até mesmo no ativismo de defesa animal, simplesmente porque boa parte dos ativistas não sabe o quanto os animais selvagens são prejudicados pelos processos naturais132.

Veneração pelo que é natural

Um terceiro obstáculo é a veneração pelo que é natural. Essa veneração faz muitas pessoas terem uma visão idílica da natureza. Mas, acima de tudo, também faz com que muitas pessoas se oponham a reduzir o sofrimento e as mortes dos animais selvagens, mesmo quando sabem que a visão idílica da natureza é falsa. É claro, normalmente essa veneração pelo que é natural é subordinada ao especismo, pois não é aplicada quando os humanos são as vítimas.

Viés da origem do dano

Um quarto obstáculo é a ideia de que somos moralmente responsáveis apenas por danos que tiveram origem em práticas humanas. Discutimos em detalhes essa visão no Capítulo 21, e vimos que há boas razões para rejeitá-la. Além disso, novamente, tal visão normalmente é subordinada ao especismo, uma vez que não é aceita quando as vítimas são humanas.

Vários vieses operando em conjunto

Por fim, também há vários vieses que inclinam as pessoas a negligenciarem a situação dos animais na natureza e até mesmo a se oporem à proposta de ajudá-los. Alguns exemplos são o viés do status quo (a tendência de preferir que as coisas permaneçam como já são), o viés do conservadorismo (a insuficiência em revisar as próprias crenças diante de novas evidências); o reflexo de Semmelweis (a tendência de rejeitar novas evidências que contradizem um paradigma); o viés de ancoragem (que faz com que confiemos fortemente na primeira informação que recebemos sobre um assunto) e a hipótese do mundo justo (isto é, a crença de que as coisas ruins que acontecem no mundo são justas).

Esses vieses podem levar as pessoas a afirmarem que "qualquer coisa que tentemos fazer só vai piorar as coisas", ou "o público nunca irá aceitar essa proposta" não porque elas examinaram minuciosamente a questão e chegaram nessa conclusão, e sim para não terem que colocar à prova a crença que já possuíam antes, de que não devemos ajudar os animais. Isto é, o que é dito é "eu concordo com a proposta, mas infelizmente não vai dar certo", mas isso é uma maneira de disfarçar que se discorda da proposta (é um caso de objeção normativa disfarçada de objeção estratégica).

Esses são apenas alguns exemplos de obstáculos ideológicos à proposta de ajudar os animais selvagens. Desafiar esses e outros obstáculos ideológicos é crucial para que os meios disponíveis sejam, de fato, utilizados para ajudar os animais e para que mais conhecimento seja buscado nesse sentido.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que diferencia a biologia do bem-estar de outras áreas?

Qual o principal obstáculo ao seu desenvolvimento, segundo o capítulo?

Para pensar

Que pergunta sobre a vida dos animais selvagens você gostaria que a ciência respondesse?

Notas do autor 12
  1. 121 Sobre biologia do bem-estar, ver e (2020) e et al. (2021). Por vezes a biologia do bem-estar é chamada de ciência do bem-estar dos animais selvagens. ↩
  2. 122 Para exemplos de programas de ajuda a animais selvagens, ver (2016b). ↩
  3. 123 Sobre isso, ver Stember (1991, p. 4). ↩
  4. 124 Sobre biologia da conservação, ver (1986). ↩
  5. 125 Sobre conservação compassiva, ver (2013). ↩
  6. 126 Sobre bem-estar da conservação, ver Beausoleil (2020). ↩
  7. 127 Para um exemplo de trabalho em biologia do bem-estar sobre pombos urbanos, ver Gonçalves (2023). ↩
  8. 128 Sobre essas formas de ajuda, ver Ética Animal (2016b) e Animal Ethics (2020). ↩
  9. 129 Para exemplos de pesquisas em biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019a, 2020a, 2020b, 2021a, 2021b, 2022a, 2022b, 2022c, 2022d). Ver também Alonso; Paim (2017) e Gonçalves (2023). Para uma monografia sobre biologia do bem-estar, ver Genovez (2023a). ↩
  10. 130 Um exemplo é o NYU Wild Animal Welfare Program, da Universidade de Nova Iorque. ↩
  11. 131 Para uma explicação do porquê a visão idílica da natureza está errada, ver Ética Animal (2017). ↩
  12. 132 Sobre a situação típica dos animais que se encontram na natureza, ver Ética Animal (2016a) Animal Ethics (2020) e Horta (2010). ↩
Fontes citadas neste texto 22

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Essa proposta não pode ser cientificamente bem informada. (VII, cap. 19, 27).
Os dados da ciência da ecologia têm sido usados predominantemente para alcançar metas antropocêntricas e ambientalistas, mas poderiam ser usados também para orientar programas que visam prevenir o sofrimento dos animais. Além disso, à medida que progredisse o desenvolvimento da área da biologia do bem-estar32 (que estudaria os animais em seus ambientes do ponto de vista do que lhes afeta positiva ou negativamente, e não enquanto componentes de ecossistemas ou exemplares de espécies) haveria cada vez mais dados que poderiam informar cientificamente os programas de ajuda.

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