Questão
de Ética
EN

Volume VII · A ética e a situação dos animais selvagens · capítulo 31

A questão da predação

20 min de leituraNível avançado18 notas20 fontes

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

O capítulo examina os argumentos sobre a predação e conclui que há boas razões para diminuí-la no mundo, desde que isso não traga consequências piores, e que certas intervenções, como reduzir a produtividade primária, provavelmente teriam saldo positivo.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume VII, p. 93 da edição em PDF

31.1. A visão predominante

A visão predominante é a de que é errado intervir em casos de entre . Porém, um número crescente de autores tem questionado essa visão nas últimas décadas141. O presente capítulo examina os principais argumentos presentes nesse debate.

31.2. A ideia de que a predação não é uma questão para a ética

Por vezes é defendido que a questão da predação não é uma questão para a ética porque os predadores não são responsabilizáveis, uma vez que não entendem questões de ética142. Contudo, esse fato não faz com que a predação deixe de ser uma questão para a ética, pois a questão sobre se devemos intervir na predação não é colocada para os predadores, e sim para nós, agentes responsabilizáveis.

É curioso que a afirmação "a predação não é uma questão para a ética” seja mencionada como tentativa de fundamentar que é moralmente errado intervir na predação, uma vez que uma afirmação contradiz a outra. Isto é, não faz sentido dizer "a ação X não é passível de avaliação ética" e em seguida dizer "é moralmente errado fazer a ação X".

Toda vez que for possível perguntar se uma ação (seja ato ou omissão) deveria ser proibida, requerida ou permitida, ela é uma questão de ética. Portanto, a decisão sobre o que fazer em casos de predação é uma questão de ética.

31.3. A ideia de que é errado intervir porque os predadores não têm culpa

Outro argumento similar defende que o fato de os predadores não serem responsabilizáveis torna errado intervir em casos de predação. Na base dessa posição está a ideia de que, se alguém não é moralmente responsável pelo dano que causa, não devemos prevenir esse dano.

Entretanto, uma coisa não implica a outra. Por exemplo, não faz sentido responsabilizar uma criança pequena que, com um bastão, acerta a cabeça de outra; mas o sofrimento da vítima é algo negativo, e essa é uma razão para se evitar que tal resultado tenha lugar. Nossas responsabilidades morais podem ir além de reparar erros de outros agentes responsabilizáveis (podem envolver, por exemplo, tornar o mundo um lugar com menos sofrimento e mortes)143.

Poderia ser alegado que uma diferença entre o caso da predação e o exemplo acima é que os predadores morrem se não predarem. Entretanto, esse já é outro argumento, pois apela à necessidade de predar para sobreviver, e não ao fato de o predador não ser responsabilizável. Discutiremos esse outro argumento nos itens 31.10, 31.11 e 31.12.

31.4. A defesa de que a predação é neutra por ser resultado de agentes amorais

Outro argumento similar mantém que, porque os predadores não são responsabilizáveis, os danos que causam são neutros e que, por isso, não há nenhuma razão para preveni-los. Entretanto, uma coisa não implica a outra. Por exemplo, o sofrimento é negativo devido às suas características intrínsecas, e estas não dependem de se quem o causa é ou não responsabilizável. Portanto, o sofrimento decorrente da predação é negativo, e não, neutro144.

31.5. Absurdo por ser impossível de cumprir

Outro argumento contra intervir na predação aponta que jamais conseguiremos acabar com toda a predação no mundo. Entretanto, o fato de não conseguirmos acabar com todos os casos de um problema não mostra que não devemos agir nos casos em que conseguiríamos fazê-lo145. Também não conseguimos impedir todos os danos que os humanos sofrem, muito menos todos os danos que os humanos causam aos animais, mas isso não implica que não devemos tentar impedir o máximo que conseguiríamos. O mesmo vale para a predação.

31.6. Acusação de fascismo

Outra alegação defende que intervir na predação é errado porque seria um ato de facismo por não aceitar as diferenças (seria como a homofobia e o racismo). Entretanto, essa analogia não funciona. A raça e a orientação sexual de alguém não implicam na morte de outros indivíduos. A predação, pelo contrário, implica na morte (geralmente com sofrimento extremo146) de uma quantidade gigantesca de indivíduos. Querer fazer com que no mundo haja menos sofrimento e mortes é bem diferente de discriminar alguém por conta de sua raça ou orientação sexual.

31.7. Acusação de sentimentalismo

Outra objeção mantém que a intervenção na predação é motivada por sentimentalismo (a compaixão pela presa), e que, por isso, deveria ser rejeitada. É verdade que alguém possuir um sentimento forte em relação a uma questão não mostra que necessariamente a posição que defende está correta. Por exemplo, pode ser que seu sentimento seja fruto de um preconceito; que viole a justiça; ou que sua compaixão seja seletiva. Contudo, tampouco mostra que está errada. É possível que aquilo que alguém conclui motivado por seus sentimentos seja o mesmo que concluiria a partir de uma perspectiva imparcial, pesando todos os argumentos contrários e favoráveis a certa ação. Só descobriremos se esse é ou não o caso se fizermos uma análise imparcial da questão.

31.8. Especismo e intervenções na predação

Outra objeção mantém que intervir na predação é uma atitude . Entretanto, essa acusação só faz sentido em situações nas quais quem decide: (1) está preocupado apenas com a predação sobre ou por parte de membros de certa(s) espécie(s) ou; (2) pesa os danos de maneira arbitrária de acordo com a espécie dos envolvidos.

Por exemplo, a posição padrão é a de que, quando os humanos são vítimas da predação, é sempre correto intervir independentemente das consequências, e que quando os animais não humanos são as vítimas, é sempre errado intervir, mesmo que as consequências de não intervir sejam piores. Isso é especismo, puro e simples. Curiosamente, essa é a posição mais comum entre os que acusam de especismo a proposta de intervenção na predação.

Intervir na predação não é necessariamente especista. Por exemplo, se alguém dá igual peso a cada um dos afetados (sejam predadores ou presas), e afirma que a ação correta (seja intervir, seja não intervir) é a que resulta em menos danos totais, não está a ser especista147. Favorecer um indivíduo pertencente a uma espécie não é necessariamente ser especista (é especista somente se o favorecimento for tendencioso).

31.9. Intervir na predação é ser parcial?

Uma objeção similar defende que intervir na predação é ser parcial a favor da presa (seja lá a qual espécie esta pertencer). Entretanto, essa acusação só faria sentido se intervir for necessariamente favorecer tendenciosamente as presas. Mas, há pelo menos uma maneira de defender a intervenção que não poderia ser acusada de favorecer tendenciosamente o atacado ou o atacante: a meta de buscar o melhor resultado, mantendo que o bem de cada ser afetado tem o mesmo peso. Segundo essa visão, quando não intervir tiver piores consequências, devemos intervir, independentemente de quem é a presa e quem é o predador. Analogamente, essa posição defenderá não intervir quando intervir tiver piores consequências. Essa posição certamente é imparcial.

31.10. O apelo à necessidade de predar

Outro argumento frequentemente utilizado para defender que é errado intervir na predação envolve apontar que os predadores morrem se não predarem. Veremos a seguir quatro problemas com esse argumento.

O primeiro problema é que ele é tendencioso: só leva em conta a morte dos predadores.

O segundo é que o argumento desconsidera totalmente a quantidade de mortes. Por exemplo, um predador mata muitas presas ao longo da vida, geralmente com sofrimento intenso. Poderia ser objetado que a predação minimiza a quantidade total de mortes, pois na ausência de predação as presas se reproduziriam mais ainda. Entretanto, esse não é o caso de toda predação. Por exemplo, grandes herbívoros consomem muita vegetação e isso diminui drasticamente a quantidade de nascimentos de insetos. Assim, uma diminuição na taxa de

predação sobre grandes herbívoros, justamente por aumentar a população desses herbívoros, provavelmente diminuiria a quantidade total de mortes por diminuir a quantidade total de nascimentos. Ou seja, se a preocupação for reduzir a quantidade de mortes, então tem-se que admitir que intervir na predação é correto quando resultar em menor quantidade de mortes.

O terceiro problema é que intervir na predação não necessariamente implica na morte do predador. Existem algumas comidas de origem vegetal que utilizam nutrientes sintetizados que suprem as necessidades dos organismos de determinados predadores, como os gatos. Esterilizar ou modificar geneticamente um predador também não implica necessariamente em sua morte148. Independentemente de se tais práticas são corretas ou não, a sua existência mostra que é falso que intervir na predação implica necessariamente na morte do predador.

O quarto problema é que, mesmo que predar fosse atualmente necessário para todo e qualquer predador, isso não mostra que seria errado tornar tal coisa desnecessária (por exemplo, por meio de mudança genética). O que o argumento diz é que, havendo uma necessidade, não devemos impedir sua realização. Entretanto, isso não implica que é errado fazer com que essa necessidade deixe de existir.

31.11. O apelo a danos menores sobre o predador

Outra objeção possível seria dizer que o predador é prejudicado por ter que comer comida vegetal, ou por ser esterilizado ou reprogramado geneticamente.

A primeira resposta possível a essa objeção é negar que algumas dessas ações acarretem dano aos predadores. Comer uma comida diferente não necessariamente é um dano. O mesmo vale para a mudança genética. Suponhamos que seja feita uma mudança genética em certos predadores para que se tornem herbívoros. Os animais da geração futura que nascessem herbívoros não perderiam nada pelo fato de seus antepassados terem sido carnívoros. Mesmo os animais da geração atual não parecem perder algo por terem modificadas suas necessidades nutricionais. Outro exemplo de intervenção na predação que não causa dano é prevenir a predação por parte de plantas carnívoras, uma vez que não são sencientes.

A segunda resposta é apontar que, mesmo que os predadores sejam prejudicados por tais ações, o dano para eles é muito menor do que o dano que terá lugar se for permitida a predação. Assim, a objeção é culpada de arbitrariedade, pois um dano menor ao predador é considerado um trunfo sobre danos muito maiores sobre as presas (serem comidas vivas). Em tal visão, o dano resultante da intervenção, por menor que seja, é visto como mais grave do que danos muitíssimo maiores que resultariam da não intervenção.

Quando humanos correm risco de serem predados, a posição padrão é simplesmente que é correto matar os predadores, e ponto final. Suponhamos que fosse defendido, por preocupação com os predadores de humanos, que em vez de matá-los, deveríamos reprogramá-los geneticamente, esterilizá-los, ou criar uma comida vegetal que supra suas necessidades. Provavelmente tal proposta não seria aceita, mas não por preocupação com os predadores, e sim porque gastariam recursos com membros de outras espécies. Contudo, o julgamento muda para o contrário quando a predação acontece sobre animais não humanos: propostas como a esterilização, a reprogramação genética e a criação de comida vegetal para predadores são rejeitadas por preocupação com um possível dano para os predadores. Isso é especismo.

31.12. O apelo ao direito de garantir a sobrevivência

Poderia ser defendido que o predador têm o direito de garantir sua sobrevivência, e que devemos proteger esse direito, seja lá quais forem as consequências. Portanto, segundo essa posição, é sempre errado prevenir casos de predação.

Observe que essa posição implica que também é errado defender a si próprio ou a outros humanos da predação. Isso é algo que dificilmente os seus proponentes aceitariam. Mas, se não aceitarem, estão sendo especistas. Contudo, suponhamos para efeito de argumentação que alguém defenda que é sempre errado impedir uma predação de ocorrer, mesmo se for sobre outros humanos ou sobre si próprio. Mesmo nesse caso, há outras razões para rejeitarmos essa posição, que veremos a seguir.

A primeira é que ela assume que devemos cumprir certas regras, seja lá quais forem as consequências. Então, quem acredita que a ação correta coincide com a que resulta nas melhores consequências jamais poderia aceitar o que tal visão propõe.

A segunda é que mesmo a perspectiva que defende que há direitos que devem ser garantidos independentemente das consequências não dá base a essa posição. Isso porque, se os predadores têm direitos, também têm as presas, e a posição em questão é arbitrária por defender apenas os direitos dos predadores. Nesse ponto poderia ser objetado que tanto predadores quanto presas têm direito de tentar sobreviver e que isso implica em deixarmos cada um lutar com suas forças. Um problema com isso é que, se garantir direitos implica na mesma coisa que cada um lutar por si, então não há nenhum sentido em se reivindicar a existência de direitos.

Reconhecer um direito à sobrevivência, ao invés, implicaria em proteger o interesse em viver, tanto do predador quanto da presa. Por exemplo, implicaria na pesquisa de garantir a sobrevivência dos predadores com outro tipo de alimento, e não na não intervenção.

Além disso, a posição em questão defende que direitos devem ser protegidos seja lá quais forem as consequências. Então ela não pode apelar ao risco de cosequências negativas de se prevenir a predação. Isto é, essa posição, ao contrário do que pode parecer inicialmente, teria que defender sempre prevenir a predação, seja lá quais forem as consequências.

Poderia ser objetado que predadores, por não terem senso de certo e errado, não violam direitos149. Há duas respostas possíveis aqui. A primeira é defender que a violação de um direito se caracteriza pelo tipo de ato, e isso não depende de se quem o praticou tem ou não senso de certo e errado. A segunda é defender que, mesmo se for verdade que os predadores não violam direitos, isso é irrelevante, pois a questão é se nós, que temos senso de certo e errado, violamos um direito se não intervimos na predação.

Outra objeção seria defender que só existem direitos negativos, que implicam que os agentes devem se refrear de fazer certas coisas prejudiciais, mas que não há nenhum direito de ser socorrido150. O primeiro problema com esse argumento é que, mesmo que não houvesse direito de ser socorrido, isso não implica que seria errado socorrer vítimas da predação. Socorrer poderia ser permissível e até mesmo louvável. O segundo problema é que, se a razão

para se atribuir direitos a alguém é a proteção desse alguém151, não faz sentido dizer que direitos se limitam a direitos negativos, uma vez que ameaças ao bem de alguém não se limitam aos atos dos (podem resultar de omissões).

Assim, um apelo a direitos não mostra que é errado intervir em casos de predação.

31.13. Intervenções na predação amplamente aceitas

Há uma série de intervenções na predação amplamente aceitas e praticadas. Por exemplo, para defender a si próprio, a outros humanos, ou os animais que convivem conosco. Outro exemplo são as intervenções na predação motivadas por razões , como a ecologia do medo (a reintrodução de predadores onde já estavam extintos152) e as intervenções para matar predadores caso estejam a ameaçar uma espécie rara153.

Assim, as pessoas parecem considerar errado intervir na predação apenas quando esta se dá entre animais selvagens e a meta da intervenção é a preocupação com o próprio bem dos animais não humanos (e não metas antropocêntricas ou ambientalistas) – o que chamaremos aqui de arranjo específico. Essas pessoas precisam explicar então por que intervir na predação seria errado apenas no arranjo específico.

Nenhuma dos argumentos que discutimos até agora poderia explicar essa diferença. Por exemplo, nos casos de intervenção na predação amplamente aceitos os predadores também não são agentes responsabilizáveis, também têm necessidade de predar, e nesses casos a intervenção também acarreta em alguma dessas coisas: matá-los, modificá-los geneticamente, esterilizá-los ou trocar sua forma de se alimentar. Haveria então alguma outra forma de justificar que intervir na predação é errado apenas no arranjo específico? A seguir discutiremos algumas tentativas.

31.14. O apelo ao comportamento dos animais

Uma primeira tentativa de fundamentar a diferença aponta que animais de espécies sociais defendem da predação os animais da sua própria espécie, mas não os de outras espécies e que, portanto, deveríamos fazer o mesmo.

Há dois problemas com esse argumento. O primeiro é que é duvidoso que os animais defendam da predação apenas membros da própria espécie. Entretanto, o principal problema com o argumento é que o fato de um comportamento ser exibido pelos animais não implica que esteja correto154. Por exemplo, há animais que matam filhotes de adversários e até mesmo os próprios filhotes; matam por disputas de poder; roubam; estupram etc. Inclusive o canibalismo foi encontrado em mais de 1300 espécies, em uma grande variedade de contextos sociais e ecológicos155. O fato de os animais fazerem tais coisas não as torna corretas.

31.15. O argumento da capacidade de evitar a ameaça

Outro argumento defende que não há necessidade de se intervir na predação entre animais selvagens porque, se suas espécies ainda existem, então é porque possuem a capacidade de escapar da predação. Já no caso de crianças humanas, por outro lado, devemos intervir porque elas não têm tal capacidade, conclui o argumento156.

O erro principal desse argumento é usar um raciocínio baseado na espécie para o caso dos animais selvagens e outro baseado nos indivíduos para o caso humano. O fato de uma espécie não ser extinta mostra apenas que alguns de seus membros conseguiram se reproduzir antes de escaparem da predação. Não mostra sequer que esses indivíduos escaparam da predação até o fim de suas vidas, e muito menos que todos os membros dessa espécie escaparam da predação. Por exemplo, como o próprio argumento reconhece, o fato de a espécie humana ainda existir não mostra que todos os seus membros têm capacidade de escapar da predação.

31.16. A preocupação com as consequências

Um dos principais argumentos contra intervir na predação defende que fazê-lo ocasionaria mais sofrimento e mortes do que previne porque, na ausência de predadores, as presas terão

uma explosão populacional, resultando em maior número de mortes por inanição (e mesmo por predação, haja vista que em muitos casos são também predadores de animais menores).

Um primeiro problema com esse argumento é que ele também não poderia explicar qual a diferença entre intervir na predação no arranjo específico e nos casos amplamente aceitos. Por exemplo, também não sabemos se prevenir a predação sobre humanos tem melhores consequências em longo prazo, pois como veremos em detalhes nos capítulos 36 e 37, é incerto se o que tem melhores consequências é haver uma população humana maior ou menor.

Além disso, uma implicação da preocupação com as consequências é que ela não poderia fundamentar que é sempre errado intervir na predação, pois se em determinado caso não intervir é que vai resultar em mais sofrimento e mortes, tal posição teria de aceitar intervir.

Poderia ser alegado que não existem casos desse tipo. Mas, não há base atualmente para se fundamentar essa alegação, pois muito poucos estudos foram feitos nesse sentido. Além disso, há razões iniciais para pensarmos que na verdade há muitos casos assim. Um exemplo é se as espécies de predadores que forem alvo da esterilização forem também as que tiverem os maiores potenciais reprodutivos. Outro exemplo é a diminuição de taxas de predação sobre herbívoros de grande porte, pois estes animais consomem muita vegetação, reduzindo assim a que é a base da cadeia alimentar (o que reduz as taxas de nascimentos totais). Assim, uma diminuição na predação sobre herbívoros de grande porte diminuiria o sofrimento e as mortes totais justamente por aumentar a população de grandes herbívoros.

Nesse ponto poderia ser objetado que, enquanto não houver estudos minuciosos sobre desdobramentos de consequências nesse sentido, devemos adotar uma política contra intervenções. Isso é razoável, mas não fundamenta que devemos deixar essa questão de lado e "deixar a natureza seguir o seu curso" (nem fundamenta que é certo intervir somente quando as vítimas são humanas). Pelo contrário, fundamenta que devemos desenvolver esses estudos – pelo menos, é isso que seria feito por alguém com uma preocupação séria com as consequências. Se isso é rejeitado, então é um indicativo de que a preocupação com as consequências foi mencionada não como uma preocupação real, e sim como uma desculpa para se continuar a manter a crença de que intervir na predação é sempre errado.

31.17. Casos já existentes e prevenção de novos casos

Vimos acima que parece não haver como fundamentar que é sempre errado intervir na predação. Entretanto, suponhamos que fosse errada qualquer intervenção na predação por conta de algum possível dano ao predador. Isso não nos diria nada sobre a moralidade de prevenir novos nascimentos de predadores, pois nesse caso tratam-se de meras possibilidades de seres sencientes futuros que não chegariam a se concretizar (e não, seres que já existem e seriam prejudicados). Isso será explicado em mais detalhes a seguir.

A maioria das pessoas não defende que há um dever de produzir novos indivíduos. E mesmo as que defendem a existência desse dever reconhecem que matar quem já existe é pior do que deixar de produzir novos indivíduos. Há boas razões para se pensar assim. Quando alguém que já existe é morto, há um indivíduo que é prejudicado. Por outro lado, em relação a deixar de produzir novos nascimentos, o que há são possibilidades de indivíduos futuros que não chegam a se concretizar. Por exemplo, imaginemos que, se um casal decide conceber uma criança agora, daqui a nove meses nascerá um indivíduo, mas que se decide esperar o próximo mês nascerá outro indivíduo, e assim por diante para os meses seguintes. Realizar uma dessas possibilidades implica em deixar de realizar várias das outras. Mas, isso não é o equivalente de matar alguém que já existe.

Exceto nos casos onde o predador morreria antes de conseguir predar pela primeira vez, o fato de se produzir novos predadores implicaria em mortes de presas. É claro, vários dos indivíduos que seriam mortos pela predação provavelmente não existem ainda. Mas, isso é diferente de possibilidades futuras de indivíduos que não chegam a se concretizar. Seriam indivíduos que chegariam a existir no futuro e que depois seriam mortos. Por outro lado, impedir o nascimento de novos predadores seria apenas deixar de concretizar possibilidades futuras de indivíduos. Se, como vimos antes, matar indivíduos já existentes é pior do que deixar de produzir novos indivíduos, isso implica prevenir o nascimento de novos predadores (desde que, é claro, as consequências não sejam piores do que não fazê-lo).

Vejamos uma analogia. Quando temos recursos escassos e muitas pessoas morrendo de fome, é possível que diferentes pessoas discordem quanto a quem deve ter prioridade no recebimento dos recursos. Dar o recurso para algumas pessoas implicaria na morte de outras e vice-versa Mas não discordariam sobre se seria melhor que todos pudessem ter recursos e erradicássemos a fome. Da mesma maneira, diferentes pessoas preocupadas com os seres sencientes, mesmo que discordem se devemos neste ou naquele caso favorecer a presa ou ao predador, não poderiam discordar, por preocupação com os seres sencientes, que é melhor um mundo sem predação (desde que, com isso, as consequências não sejam piores do que aquelas decorrentes de um mundo com predação).

Poderia ser objetado que isso implicaria em extinguir espécies, e que então não devemos fazê-lo mesmo se as consequências de não fazê-lo forem piores para os seres sencientes em geral. Em primeiro lugar, isso não necessariamente implicaria a extinção de espécies, porque, como vimos, há a possibilidade de modificação genética. Mas, mesmo que implicasse, isso seria insuficiente para mostrar que é errado fazê-lo. Teria de ser mostrado que espécies possuem , e que esse valor é mais importante do que o bem dos seres sencientes. Mas, como vimos no Capítulo 20, há boas razões para pensarmos exatamente o contrário.

31.18. A meta de diminuir a produtividade primária

Dado o que vimos acima, ao contrário da crença predominante, não há nada de inerentemente errado intervir na predação. Na verdade, há boas razões para fazer com que não exista mais predação (desde que com isso não ocorram consequências piores do que se houver predação).

Entretanto, isso não significa que intervir na predação seja necessariamente a melhor maneira de prevenir/minimizar os . Outra opção (provavelmente mais eficiente e segura) seria reduzir a produtividade primária, que é a quantidade de energia produzida pelas plantas por meio da fotossíntese, que serve de base para toda a cadeia alimentar157.

Isso não é o mesmo que cortar as plantas, pois nesse caso outras provavelmente cresceriam em seu lugar. Em vez disso, envolveria cobrir uma área de forma que as plantas não cresçam ali (por meio da pavimentação, cobrir o gramado com cascalho ou outra coisa que bloqueie a luz solar), o que reduziria a conversão de luz em energia alimentar.

Uma das objeções mais frequentes à intervenção na predação aponta para o risco de as presas se reproduzirem ainda mais, e então a intervenção aumentar a quantidade total de sofrimento e

de mortes prematuras. A proposta de reduzir a produtividade primária escapa facilmente a essa objeção, pois menos energia disponível conduz a uma população total menor de animais.

Além disso, também existem intervenções na predação que provavelmente teriam saldo positivo por indiretamente diminuírem a produtividade primária. Por exemplo, se não houver predadores de herbívoros de grande porte, provavelmente haverá um aumento em suas populações. Esses herbívoros consomem uma grande quantidade de pasto, o que, por sua vez, diminui a produtividade primária e, por conseguinte, a população total158.

31.19. Conclusão

Tudo o que discutimos neste capítulo mostra que o tabu que se estabeleceu em torno da questão da predação provavelmente é resultado do especismo, uma vez que a posição predominante quando os humanos são vítimas da predação é exatamente a oposta.

Nossas principais conclusões foram que: (1) há boas razões para que diminuamos a incidência de predação no mundo (desde que isso não implique em piores consequências); e que (2) há certas intervenções na predação que provavelmente teriam um impacto de saldo positivo ao longo do tempo por indiretamente reduzirem a produtividade primária.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume VII
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual é a primeira conclusão principal do capítulo?

Que meta de intervenção o capítulo discute?

Para pensar

Por que tantas pessoas sentem que a predação é "bonita" nos documentários? Como seria vê-la do ponto de vista da presa?

Notas do autor 18
  1. 141 (1996); (2003); (2018, p. 168-88; 2022, p. 156-72); Fink (2005); (2010a, 2010b, 2015); (2009); (1984, 1987) e (2015). ↩
  2. 142 Ver (2004 [1983], p. 285); (2004, p. 255, 256); Taylor (1986, p. 178). ↩
  3. 143 Sapontzis (1987, p. 231); Cowen (2003, p. 176-177); (2006, p. 379). ↩
  4. 144 Sobre isso, ver Sapontzis (1987, p. 230-231). ↩
  5. 145 Sobre isso, ver Sapontzis (1984, p. 32, 35, 36). ↩
  6. 146 Sobre como os animais predados morrem, ver (2016). ↩
  7. 147 Ver, por exemplo, (2010) e Pearce (2009). ↩
  8. 148 Para uma defesa da reprogramação genética, ver Pearce (2009). ↩
  9. 149 Ver, por exemplo Regan (2004 [1983], p. 285). ↩
  10. 150 Ver, por exemplo, (2000). ↩
  11. 151 Isso é admitido tanto por Regan (2004 [1983], p. 243) quanto por Francione (2000, p. 127-129). ↩
  12. 152 Para críticas à ecologia do medo, ver Horta (2017 [2010]). ↩
  13. 153 Engeman et al., 2009 ↩
  14. 154 Sobre isso ver Fink (2005, p. 5), (1909, p. 29, 30). ↩
  15. 155 Sobre isso, ver Polis (1981); Mitchell e Walls (2008). ↩
  16. 156 Esse argumento é oferecido por Regan (2004 [1983], p. XXXVI-XXXVII.) ↩
  17. 157 Para essa proposta, ver (2013b). ↩
  18. 158 Sobre isso, ver Tomasik, (2016b, 2016c). ↩
Fontes citadas neste texto 20

A lista completa do volume está em referências do Volume VII.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Intervir em conflitos entre animais poderia piorar ainda mais a situação (por exemplo, intervir na predação poderia gerar uma explosão populacional das presas). (VII, cap. 18, 31).
Em qualquer caso onde intervir tiver uma boa probabilidade de piorar ainda mais a situação por conta dos desdobramentos de consequências, a proposta de ajudar os animais selvagens prescreveria não intervir. Entretanto, isso não significa que intervir sempre terá piores consequências. Por exemplo, ao se diminuir a produtividade primária, a tendência é haver uma diminuição geral das populações, pois é um tipo de intervenção "de baixo para cima" na cadeia alimentar.
A proposta implicaria em intervir em conflitos entre animais, e isso é errado mesmo quando fazê-lo melhorar a situação. (VII, cap. 18, 31).
Essa objeção assume que a ação correta por vezes tem consequências piores do que outros cursos de ação disponíveis. Entretanto, essa tese teria de ser demonstrada, e a objeção já a assume como correta de antemão. Além disso, quando humanos são vítimas de animais, essa tese não é defendida. Quando humanos são as vítimas é defendido que é sempre certo ajudar, independentemente das consequências. Quando os animais são as vítimas, é defendido que é sempre errado ajudar, mesmo que as consequências de não ajudar sejam piores. Isso é especismo.
Não há o que fazer em larga escala (VII, cap. 18, 24, 31, 36, 37).
Muitas coisas poderiam ser feitas em larga escala. Por exemplo, poderiam ser estudados quais elementos no ambiente tendem a reduzir a produtividade primária (e, por conseguinte, o sofrimento total). Além disso, poderiam ser evitadas as práticas humanas que contribuem para que os processos naturais maximizem a quantidade de nascimentos (e, por conseguinte, o sofrimento). Só isso já reduziria enormemente a quantidade de animais que nasceria apenas para sofrer.

Textos recomendados

Continue no tema A ética e a situação dos animais selvagens.

Navegue pelos diferentes temas