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Volume XI · Como as diversas teorias da ética abordam a questão animal? · capítulo 7

Pesando critérios

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Quando uma situação é boa sob um aspecto e ruim sob outro, há várias formas de pesar critérios: incomensurabilidade, monismo, pluralismo com pesos iguais, trunfos, pesos fixos ou variáveis, maximin, suficiência, abordagens híbridas, indeterminação e agregação probabilística, cada uma com vantagens e problemas.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XI, p. 107 da edição em PDF

7.1. Introdução

Como vimos no Capítulo 1, uma situação pode ser boa/melhor sob certo aspecto e ruim/pior sob outro. Como podemos, então, avaliar quão boa/ruim é uma situação tudo considerado102? No item 1.6 exploramos resumidamente 13 possibilidades. Neste capítulo expandiremos a discussão sobre essas 13 possibilidades com o acréscimo de exemplos, listagem de problemas/dificuldades e contraexemplos.

Na discussão sobre muitas dessas possibilidades, veremos dois tipos de exemplo, que visam ilustrar que a avaliação melhor/pior tudo considerado pode ser utilizada tanto para avaliar o bem-estar de cada indivíduo (bem-estar individual) quanto para avaliar quão boa/ruim é uma situação que contém vários indivíduos (bem-estar coletivo). Os contraexemplos também farão referência a esses dois tipos de cenários.

Os exemplos do primeiro tipo envolvem pesar os aspectos da intensidade e da duração da dor em um mesmo indivíduo. Todos os exemplos envolvem decidir qual de duas situações é pior: (1) uma dor mais intensa por menos tempo, ou (2) uma dor menos intensa por mais tempo. A importância de se saber o quão intensa será a dor e quanto tempo ela durará é algo que será abordado em cada método separadamente.

Os exemplos do segundo tipo envolvem vários indivíduos, e pesam os aspectos da quantidade de vítimas e do sofrimento por vítima. Todos os exemplos envolvem decidir qual de duas situações é pior: (1) menos vítimas sofrendo mais, ou (2) mais vítimas sofrendo menos. A importância de se saber o quão mais cada membro da minoria sofre, e o quão maior é o número de vítimas que sofre menos, é algo que será abordado em cada método separadamente.

Apesar de todos os exemplos compararem esses aspectos (intensidade x duração, e gravidade x quantidade), é importante lembrar que toda a discussão feita aqui não se restringe a

comparar esses aspectos, pois aplica-se igualmente a quaisquer outros aspectos que estejam sendo comparados, sejam lá se forem negativos ou positivos.

Todos os exemplos que veremos dizem respeito à teoria do valor (isto é, avaliações sobre quais situações são melhores/piores). Entretanto, os mesmos métodos são aplicáveis igualmente a ponderações em (por exemplo, para estabelecer qual deveria ser o peso de cada aspecto levado em conta na hora de determinar o que devemos fazer).

Passemos, então, à discussão sobre os métodos.

7.2. Incomensurabilidade total

De que consiste

Manter a total é reconhecer que há vários aspectos que são bons/ruins em si, mas defender que não faz sentido compará-los (e nem mesmo multiplica-los ou somá-los). De acordo com essa abordagem, as únicas circunstâncias nas quais é possível dizer, dentre várias opções, qual é melhor tudo considerado, são quando há uma opção que é melhor sob todos os aspectos. Em circunstâncias nas quais cada opção é melhor sob certo aspecto, essa abordagem dirá que não é possível dizer qual delas é melhor tudo considerado103.

Exemplo 1

Se em uma situação a dor é mais intensa, mas dura menos tempo, e em outra é menos intensa, mas dura mais tempo, segundo essa visão não há como avaliar qual delas é pior tudo considerado, seja lá qual for o tempo e a intensidade de cada uma delas.

Exemplo 2

Se uma situação contém menos vítimas sofrendo mais e outra contém mais vítimas sofrendo menos, segundo essa visão não há como avaliar qual delas é pior tudo considerado, seja lá

qual for a intensidade do sofrimento de cada vítima e a quantidade de vítimas em cada situação.

Problemas/dificuldades

Esse método não nos ajuda a escolher quando as várias opções diante de nós são, cada uma, boa/melhor sob certo aspecto e ruim/pior sob outro. Ajudaria a escolher apenas quando, dentre as várias opções, há uma que é boa/melhor sob todos os aspectos relevantes.

Contraexemplos

Se de fato fazemos escolhas em situações onde as diversas opções são melhores/piores sob aspectos diferentes, então é porque concordamos que é possível comensurar os distintos aspectos. Do contrário, em casos assim sempre atiraríamos uma moeda para decidir. Uma coisa é dizer que pode haver alguns aspectos incomensuráveis entre si. Outra coisa é dizer que não existe nenhum aspecto que seja comensurável com outro. Voltaremos a discutir esse ponto no item 7.13.

7.3. Monismo (geral)

De que consiste

De acordo com as abordagens monistas, há apenas um aspecto que é bom/ruim em si. Todos os outros são vistos como sendo bons/ruins apenas instrumentalmente, dependendo de se aumentam ou diminuem aquilo que é visto como bom/ruim em si. Assim sendo, em abordagens monistas, quão boa/ruim é uma situação tudo considerado é algo que é determinado unicamente a partir do quão boa/ruim ela é em termos de um único aspecto (a saber, aquele que é visto como possuindo valor/desvalor em si). Apesar de compartilharem essa estrutura em comum, as diversas abordagens monistas diferenciam-se umas das outras de acordo com qual aspecto é visto como bom/ruim em si.

Exemplo 1

Suponhamos que uma teoria monista afirme que apenas a intensidade do sofrimento é ruim em si. Segundo essa visão, comparando-se duas situações, será considerada pior tudo considerado aquela em que o sofrimento for mais intenso (não importando o quão mais dure o sofrimento menos intenso) – e vice-versa se afirmasse que apenas a duração é ruim em si.

Exemplo 2

Suponhamos que uma teoria monista afirme que apenas a quantidade de vítimas é ruim em si. Segundo essa visão, comparando-se duas situações, será pior tudo considerado aquela que contiver o maior número de vítimas (não importando o quão mais estejam sofrendo as vítimas da minoria) – e vice-versa se afirmasse que apenas a gravidade da situação de cada vítima é ruim em si.

Problemas/dificuldades

Conseguir explicar por que apenas um dos aspectos é bom/ruim em si. Se for a quantidade de vítimas, por que não a gravidade da situação das vítimas, e vice-versa? Se for a intensidade da dor, por que não a sua duração, e vice-versa? Isso não quer dizer que seja impossível fundamentar essa escolha, mas, claramente, é algo que precisa ser explicado.

Contraexemplos

Há, tanto situações nas quais parece preferível ajudar um número muito maior de vítimas (mesmo que não estejam na pior situação), quanto situações nas quais parece preferível ajudar vítimas que estão em uma situação bem pior (mesmo que não sejam a maioria). Analogamente, há tanto situações nas quais parece preferível passar por uma dor mais intensa por menos tempo, quanto situações nas quais parece preferível passar por uma dor menos intensa por mais tempo.

7.4. Monismo agregativo (aplicação específica do monismo geral)

De que consiste

Uma forma comum de monismo consiste em determinar quão boa/ruim é uma situação tudo considerado agregando aquilo que é visto como bom/ruim em si104. Um exemplo é a abordagem adotada no . No utilitarismo clássico, de (1996 [1789]) e Mill (1969 [1861]), o que é bom em si são as experiências positivas e o que é ruim em si são as experiências negativas. Já no utilitarismo proposto, por exemplo, por (1993 [1979]) e (1981), o que é bom em si é a satisfação de preferências (desejos) e o que é ruim em si é sua frustração. Entretanto, em qualquer uma das versões, quão boa/ruim é uma situação tudo considerado é obtido a partir da agregação total.

Exemplo 1

Suponhamos que uma teoria monista afirme que, nem a intensidade nem a duração da dor são ruins em si, e sim, ruins apenas instrumentalmente por envolverem sofrimento. Segundo essa visão, quão ruim é uma situação tudo considerado seria obtido somando-se a intensidade do sofrimento em cada instante (e, assim, obtendo-se o agregado total do sofrimento).

Imaginemos que na situação S1 temos 20 minutos de uma dor de intensidade -5. Já na situação S2 temos 10 minutos de uma dor de intensidade -10. De acordo com essa abordagem, o desvalor total de S1 é -100 (pois é -5x20). O desvalor total de S2 também é -100 (pois é - 10x10). Segundo essa abordagem, S1 e S2 são igualmente ruins (o fato de em S1 a dor durar mais, e de em S2 a dor ser mais intensa, não é visto como relevante em si).

Exemplo 2

Suponhamos que uma teoria monista afirme que, nem a gravidade da situação de cada vítima nem o número de vítimas são ruins em si, e sim, ruins apenas instrumentalmente por

envolverem sofrimento. Nesse caso, o que é ruim em si seria o agregado total do sofrimento. Assim, segundo essa visão, quão ruim é uma situação tudo considerado seria obtido somando-se o nível de sofrimento de cada vítima (e, assim, obtendo-se o agregado total do sofrimento).

Imaginemos que na situação S1 temos 20 vítimas, cada uma com um sofrimento de -5. Já na situação S2 temos 10 vítimas, cada uma com um sofrimento de -10. De acordo com essa abordagem, o desvalor total de S1 é -100 (pois é -5x20). Por sua vez, o desvalor total de S2 também é -100 (pois é -10x10). Ou seja, nessa abordagem, nem o número de vítimas, nem a gravidade da situação de cada vítima, são vistos como ruins em si (e sim, apenas ruim instrumentalmente por contribuírem para agregação total ser negativa). Assim, segundo essa abordagem, S1 e S2 são igualmente ruins (o fato de S1 ter mais vítimas, e de em S2 cada vítima estar sofrendo mais, não é visto como relevante em si).

Problemas/dificuldades

Esse método poderia dizer que é pior uma situação na qual há um número muito maior de vítimas com leves arranhões do que outra na qual há um número muito menor de vítimas com sofrimento excruciante (desde que o resultado da agregação na primeira situação seja maior). Analogamente, esse método poderia dizer que é pior uma situação na qual há uma grande quantidade de tempo de incômodos levíssimos (novamente, leves arranhões) do que outra na qual há um tormento excruciante, mas que dura muito menos tempo (desde que o resultado da agregação na primeira situação seja maior).

Contraexemplos

Há, tanto situações nas quais parece preferível ajudar um número muito maior de vítimas, mesmo que não estejam na pior situação, quanto situações onde parece preferível ajudar vítimas que estão em uma situação bem pior, mesmo que não sejam a maioria (mesmo quando o sofrimento total agregado seja o mesmo em todas essas situações). Analogamente, há tanto situações nas quais parece preferível passar por uma dor mais intensa por menos tempo, quanto situações nas quais parece preferível passar por uma dor menos intensa que dura mais tempo (mesmo quando o sofrimento total agregado seria o mesmo em todas essas situações). Isso sugere que esses outros aspectos são importantes em si, e não, apenas instrumentalmente importantes.

7.5. Pluralismo de pesos iguais

De que consiste

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são reconhecidos como bons/ruins em si, e quão boa/ruim é a situação tudo considerado é determinada: ou multiplicando esses aspectos (abordagem multiplicativa) ou somando esses aspectos (abordagem aditiva). O que é característico dessa abordagem é que cada aspecto é visto como igualmente importante (por isso, eles são multiplicados ou somados, mas ambos possuem o mesmo peso).

Observe que, em uma variante multiplicativa dessa abordagem, o resultado será idêntico ao resultado obtido por uma abordagem monista agregativa (que vimos no item anterior). Apenas a fundamentação é que será diferente (o monismo agregativo enxerga apenas uma coisa como sendo boa/ruim em si, e o de pesos iguais multiplicativo enxerga mais de uma coisa como sendo boa/ruim em si). Por outro lado, uma variante aditiva pode dar resultados diferentes daqueles gerados pelo monismo agregativo.

Exemplo 1

Quão ruim tudo considerado é uma situação que envolve dor para um único indivíduo seria determinada multiplicando-se a intensidade média da dor pela sua duração (na abordagem multiplicativa) ou somando-se a intensidade média da dor com a sua duração (abordagem aditiva).

Exemplo 2

Quão ruim tudo considerado é uma situação que envolve várias vítimas seria determinada multiplicando-se a gravidade média da situação de cada vítima pelo número de vítimas (abordagem multiplicativa) ou somando-se a gravidade média da situação de cada vítima com o número de vítimas (abordagem aditiva).

Problemas/dificuldades

A variante multiplicativa terá os mesmos problemas/dificuldades que o monismo agregativo (que vimos no item anterior). Por outro lado, a variante aditiva evita alguns problemas enfrentados pela variante multiplicativa e pelo monismo agregativo, mas ao mesmo tempo que tem de enfrentar outros problemas adicionais. O problema que evita é o seguinte: na abordagem aditiva uma dor intensa e curta pode ser considerada pior do que uma leve e longa, mesmo que o agregado total seja menor na dor intensa e curta. Também poderia considerar pior um cenário com menos vítimas, mas que estão sofrendo terrivelmente, em comparação a um cenário com muito mais vítimas com incômodos leves, mesmo que o agregado seja menor no cenário com menos vítimas. Dessa maneira, alguns contraexemplos que poderiam ser endereçados contra o monismo agregativo e contra a variante multiplicativa não se aplicam à variante aditiva. Entretanto, a variante aditiva se depara com novos problemas, pois pode ser acusada de comparar unidades de modo muito estranho (por exemplo, somar “20 de intensidade de dor” a “3 horas de duração”). Exploraremos esse problema a seguir.

Contraexemplos

Em relação à variante multiplicativa, os contraexemplos são os mesmos endereçados contra o monismo agregativo (que vimos no item anterior). Entretanto, há outros contraexemplos que ilustram diferentes problemas, sendo que alguns se aplicam tanto à variante multiplicativa quanto à variante aditiva, enquanto alguns se aplicam a apenas uma das duas. Veremos alguns a seguir.

O problema da soma de grandezas heterogêneas

Contraexemplo 1. Um indivíduo (intensidade x duração)

Variante multiplicativa

S1: dor de intensidade 9 por 3 minutos → 9 x 3 = 27 S2: dor de intensidade 4 por 7 minutos → 4 x 7 = 28

A variante multiplicativa conclui que S2 é pior do que S1, mas pode ser que a dor de intensidade 9 por 3 minutos seja muito mais difícil de suportar do que a dor de intensidade 4 por 7 minutos.

Variante aditiva

S1: dor de intensidade 9 por 3 minutos → 9 + 3 = 12 S2: dor de intensidade 4 por 7 minutos → 4 + 7 = 11

A variante aditiva conclui que S1 é pior (e isso está de acordo com a crítica feita à variante multiplicativa), mas aqui a estranheza vem do fato de que “9 pontos de dor” foram somados diretamente à “3 minutos”, como se fossem grandezas de mesma natureza. Além disso, o resultado do modelo aditivo depende da escala que escolhemos para medir intensidade e duração. Por exemplo, se a intensidade for medida em uma escala de 0 a 10, e a duração em horas, teremos um resultado. Mas, se, para avaliar o mesmo fenômeno, a intensidade for medida em uma escala de 0 a 100, a soma muda radicalmente, e, com isso, muda também a avaliação valorativa/moral da situação. Em resumo, um problema com esse modelo é que o resultado da avaliação depende arbitrariamente da unidade de medida escolhida.

Contraexemplo 2. Várias vítimas (gravidade média x número de vítimas)

Variante multiplicativa

S3: 100 vítimas com sofrimento extremo (100 cada) → 100 x 100 = 10.000 S4: 10.001 vítimas com incômodo leve (1 cada) → 1 × 10.001 = 10.001

A variante multiplicativa conclui S4 é pior, mas isso parece equivocado: haver mais pessoas com incômodo leve não parece ser pior do que haver menos pessoas com sofrimento extremo.

Variante aditiva

S3: 100 vítimas com sofrimento extremo (100 cada) → 100 + 100 = 200 S4: 10.001 vítimas com incômodo leve (1 cada) → 1 + 10.001 = 10.002

A variante aditiva conclui que S4 é muito pior. Mas, isso está longe de parecer ser verdadeiro. Além disso, na variante aditiva há um problema adicional: ela soma “sofrimento por vítima” a “quantidade de vítimas” como se fossem grandezas de mesma natureza, mas obviamente não o são.

O problema central, tanto da abordagem multiplicativa quanto da aditiva, é que o aspecto do número de vítimas “dilui” o aspecto do sofrimento por vítima, de tal maneira que situações atrozes para poucos indivíduos teriam de ser consideradas melhores do que incômodos triviais para muitos indivíduos.

7.6. Pluralismo com trunfo absoluto

De que consiste

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são reconhecidos como sendo bons/ruins em si, mas é construída uma hierarquia onde um fator é um trunfo absoluto sobre os que vêm depois nessa hierarquia105. De acordo com essa abordagem, nenhum aumento nos aspectos secundários, por maior que seja, pode fazer a balança pender para tornar a situação melhor tudo considerado, caso represente uma diminuição no aspecto principal, por menor que seja. Ou seja, nessa abordagem quão boa/ruim é uma situação tudo considerado é algo determinado quase que exclusivamente a partir do aspecto trunfo (os aspectos secundários servem apenas como critério de desempate).

Exemplo 1

Suponhamos que o aspecto intensidade da dor seja um trunfo absoluto sobre o aspecto duração da dor. Nessa visão, comparando-se várias situações, é pior tudo considerado aquela na qual a dor é mais intensa, não importando o quão mais dure a dor em outras situações. Ou, inversamente, se o trunfo absoluto for a duração, comparando-se duas situações, é pior tudo

considerado aquela na qual a dor dura mais, não importando o quão mais intensa for a dor em outras situações.

Exemplo 2

Suponhamos que o aspecto gravidade da situação de cada vítima seja um trunfo absoluto sobre o aspecto quantidade de vítimas. Nessa visão, comparando-se várias situações, é pior tudo considerado aquela na qual as vítimas estão na pior situação, não importando o quão maior seja a quantidade de vítimas em outras situações. Ou, inversamente, se o trunfo absoluto for a quantidade de vítimas, comparando-se duas situações, é pior tudo considerado aquela na qual há maior quantidade de vítimas, não importando o quão pior seja a condição das vítimas de outras situações.

Problemas/dificuldades

Qualquer abordagem desse tipo precisa explicar por que o aspecto escolhido é o trunfo, e não qualquer outro. Além disso, precisa explicar por que o aspecto em questão é um trunfo absoluto (pois poderia ser um trunfo, mas não absoluto, ou poderia ter um peso maior sem ser um trunfo, como veremos nos próximos itens.

Contraexemplos

Há, tanto situações nas quais parece preferível ajudar um número muito maior de vítimas, mesmo que não estejam na pior situação, quanto situações onde parece preferível ajudar vítimas que estão em uma situação bem pior, mesmo que não sejam a maioria. Analogamente, há tanto situações nas quais parece preferível passar por uma dor mais intensa por menos tempo, quanto situações nas quais parece preferível passar por uma dor menos intensa que dura mais tempo. Se esses julgamentos estiverem corretos, então nenhum desses aspectos é um trunfo absoluto sobre o outro.

7.7. Pluralismo com trunfo até certo ponto

De que consiste

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são reconhecidos como sendo bons/ruins em si; é construída uma hierarquia onde um fator é um trunfo sobre os que vêm depois nessa hierarquia, mas esse trunfo não é absoluto. A partir de certo ponto (chamado ponto de corte ou limite), a hierarquia se inverte106. Por isso, o nome “pluralismo com trunfo até certo ponto”.

Nessa abordagem, a relação entre os aspectos não é contínua nem gradual (como é a que veremos no próximo item), mas em blocos (isto é, inverte completamente e instantaneamente se alcançado o ponto de corte, mas até ser alcançado o ponto de corte, o peso de cada aspecto permanece completamente inalterado). Diz-se então que nesse método há uma relação descontínua, isto é, há um salto abrupto quando o ponto de corte é atingido, e não uma mudança gradual107.

Exemplo 1

Suponhamos que o aspecto da intensidade da dor seja um trunfo até certo ponto sobre o aspecto da duração da dor. Isso significa que haverá um ponto a partir do qual o aspecto da duração da dor passa a ser o trunfo (por exemplo, durar 10 vezes mais do que um “tempo base” pré-estabelecido). Inversamente, imaginemos que a duração da dor seja um trunfo até certo ponto sobre sua intensidade. Isso significa que haverá um ponto a partir do qual o aspecto intensidade passa a ser o trunfo (por exemplo, ser 10 vezes mais intensa).

Exemplo 2

Suponhamos que o aspecto da gravidade da situação de cada vítima seja um trunfo até certo ponto sobre o aspecto da quantidade de vítimas. Isso significa que haverá um ponto a partir do qual o aspecto da quantidade passa a ser o trunfo (por exemplo, haver 10 vezes mais

vítimas). Inversamente, imaginemos que o aspecto da quantidade de vítimas seja um trunfo até certo ponto sobre o aspecto da gravidade da situação de cada vítima. Isso significa que haverá um ponto a partir do qual o aspecto gravidade da situação de cada vítima passa a ser o trunfo (por exemplo, ser 10 vezes pior do que a situação de qualquer outra vítima).

Problemas/dificuldades

Qualquer abordagem que utilize esse método precisa explicar:

(1) Por que um dos aspectos é o trunfo principal. (2) Porque a relação é de trunfo até certo ponto (e não, por exemplo, peso maior sem ser um trunfo, ou não ter peso fixo, e assim por diante). (3) por que o ponto de corte é estabelecido no local que foi, e não em outro (do contrário, o ponto de corte parece arbitrário).

Contraexemplos

Seja lá em que ponto estabelecermos o ponto de corte, ele parecerá arbitrário. Isso é ilustrado pelos exemplos a seguir.

Imaginemos que adotemos as seguintes regras:

  • A intensidade da dor é o trunfo, a menos que a duração seja 10 vezes maior do que um tempo base previamente definido (digamos, 1 minuto de dor) – se isso acontecer, a duração passa a ser o trunfo.
  • A gravidade da situação de cada vítima é um trunfo sobre a quantidade de vítimas, exceto se a situação que contiver o maior número de vítimas que não estão na condição mais grave for 10 vezes maior do que a situação na qual as vítimas estão na situação mais grave de todas – se isso acontecer, o número de vítimas passa a ser o trunfo.

Aqui há dois problemas:

O primeiro, é que poderia ser apontado que o valor base de referência (no caso, duração da dor 10 vezes maior do que o tempo base, e número de vítimas dez vezes maior) é arbitrário. Por que 10 vezes? Por que não 9 ou 11 vezes? Por que não 5 ou 20 vezes ou qualquer outro valor? Além disso, em relação à primeira regra, poderia ser questionado: “por que o tempo base é 1 minuto? Por que não 30 segundos? Por que não 2 minutos? Por que não qualquer outro valor?

O segundo, é que poderia ser apontado que, mesmo que chegássemos em um valor base de referência não arbitrário, a medição com base em tal valor ainda seria necessariamente arbitrária. Por exemplo, imaginemos que os valores que são a base de referência nos exemplos acima fossem comprovadamente não arbitrários. Ainda poderíamos questionar: “se uma dor 10,1 vezes mais longa passa a ser o trunfo, mas, por que não uma dor 9,9 vezes mais longa? O que há de “mágico” no ponto 10 vezes maior?”. Entretanto, a mesma crítica poderia ser endereçada para qualquer outro valor de referência. Por exemplo, se, em relação ao segundo exemplo, o valor de referência fosse “haver 20 vezes mais vítimas”, poderia ser questionado: “por que não 19,9 vezes mais vítimas? Por que não 20,1 vezes mais vítimas? O que há de especial em 20 vezes mais?”, e assim por diante.

Em relação a esses problemas, proponentes da abordagem do trunfo até certo poderiam responder apontando que, apesar de ser verdade que qualquer ponto em que tracemos a linha parecerá arbitrário, traçar a linha em algum lugar é melhor do que não a traçar em lugar algum. Além disso, poderia ser respondido que, embora seja difícil encontrar um limite preciso não arbitrário, podemos detectar limites em ambos os extremos que são mais arbitrários do que outros. Por exemplo, exigir que a dor dure 10 minutos para que a duração passe a ser o trunfo parece razoável, mas não parece razoável exigir que dure 10 anos, nem que dure 1 segundo.

Outra maneira de contornar ambos os problemas é abandonar uma abordagem centrada em trunfos até certo ponto, e adotar uma abordagem onde os diversos aspectos possuem pesos diferentes, mas não há cortes abruptos de inversão de hierarquia: em vez disso, a hierarquia vai se invertendo gradualmente e de modo contínuo. Veremos duas abordagens desse tipo, respectivamente, nos itens 7.8. e 7.9.

7.8. Pluralismo com aspectos de peso fixo (lineares)

De que consiste

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são vistos como bons/ruins em si, e possuem pesos diferenciados no cálculo do quão boa/ruim é a situação tudo considerado – mas sem usar a ideia de trunfos. O raciocínio aqui é similar ao que vimos no item 7.5 (pluralismo de pesos iguais), exceto que aqui o peso de cada fator é diferente. Por exemplo, suponhamos que o fator A tenha o dobro de peso que o fator B. Nesse caso, o valor/desvalor total da situação será determinado por (2x.A) + (1x.B), caso use-se um método aditivo, ou por (2x.A) x (1x.B), caso use-se um método multiplicativo108. A diferença em relação ao uso de trunfos é que aqui a influência dos fatores é contínua e linear (com o uso de trunfos, é descontínua e não- linear).

Exemplo 1

Imaginemos que a intensidade da dor possua o dobro de peso do que a duração da dor. Nesse caso, se a abordagem for aditiva, o cálculo do desvalor total ficará assim: desvalor total = (2x intensidade da dor) + (1x duração da dor). Agora, se a abordagem for multiplicativa, o cálculo ficará assim: desvalor total = (2x intensidade da dor) x (1x duração da dor).

Exemplo 2

Imaginemos que a quantidade de vítimas possua o dobro de peso do que a gravidade da situação de cada vítima. Nesse caso, se a abordagem for aditiva, o cálculo do desvalor total ficará assim: desvalor total = (2x número de vítimas) + (1x gravidade da situação de cada vítima). Agora, se a abordagem for multiplicativa, o cálculo ficará assim: desvalor total = (2x número de vítimas) x (1x gravidade da situação de cada vítima).

Quais as vantagens e desvantagens de modelos aditivos e multiplicativos?

A vantagem de modelos aditivos é que permitem considerar uma situação como sendo muito grave porque ela é muito ruim sob certo aspecto, mesmo que não seja muito ruim sob outro (por exemplo, uma única vítima, mas sofrendo ao extremo). Se o modelo fosse multiplicativo, uma situação assim teria de ser considerada pouco grave.

Entretanto, modelos multiplicativos também apresentam algumas vantagens. A primeira é que captam a ideia de que, por exemplo, uma dor de 1 segundo não importa muito, mesmo que seja muito intensa (porque é só um instante) e que um incômodo muito leve também não importa muito, mesmo que dure muito. Ou seja, o modelo multiplicativo capta a ideia de que apenas quando os valores são altos em cada aspecto é que a situação é verdadeiramente ruim. A segunda vantagem é que evita compensações excessivas. Por exemplo, no modelo aditivo, um incômodo muito leve, mas que dure um bilhão de segundos, pode ser considerado pior do que uma dor insuportável, mas que dure 10 minutos. O modelo multiplicativo dificulta esse tipo de compensação, porque o baixo valor na intensidade ou na duração reduz muito o valor total. Em resumo, o modelo multiplicativo reforça que ambos os aspectos são importantes para a gravidade total do cenário.

Nos exemplos a seguir, mostraremos os resultados de acordo com cada um dos modelos.

Problemas/dificuldades

Qualquer abordagem que utilize esse método precisa explicar: (1) por que é certo aspecto que pesa mais do que outro, e não o inverso e (2) por que pesa N vezes mais (e não qualquer outra quantia). Além disso, esse método gera conclusões estranhas, exemplificadas a seguir.

Contraexemplo 1

Suponhamos que a intensidade da dor recebesse um peso 5 vezes maior do que sua duração. Agora imaginemos que precisemos dizer qual das duas situações é pior:

S1: Uma dor extrema (de intensidade 100) por 500 segundos. S2: Uma dor moderada (de intensidade 20) por 3000 segundos. Assim temos:

Abordagem aditiva:

S1: (5x100) + (1x500) = 1000 S2: (5x20) + (1x3000) = 3100

Abordagem multiplicativa:

S1: (5x100) x (1x500) = 250.000 S2: (5x20) x (1x3000) = 300.000

Segundo o modelo linear (seja aditivo ou multiplicativo) S2 é pior tudo considerado (isto é, nesse modelo, 3000 segundos de dor moderada é considerado pior do que 500 segundos de dor extrema). O ponto é: seja lá o quão maior for o peso atribuído à intensidade, segundo a abordagem linear (seja aditiva ou multiplicativa) sempre haverá um tempo suficientemente longo de dor moderada (ou mesmo muito leve) que ultrapassaria os picos de sofrimento extremo. Por exemplo, esse modelo afirmaria que "beliscõezinhos", desde que durassem um tempo suficientemente grande, seriam algo pior do que tormentos extremos por muito menos tempo (mesmo que seja dado um peso maior à intensidade).

Contraexemplo 2

Suponhamos que a gravidade da situação de cada vítima recebesse um peso 5 vezes maior do que a quantidade de vítimas. Agora imaginemos que precisemos dizer qual das duas situações é pior:

S3: 1000 indivíduos com um sofrimento extremo de intensidade 100 cada. S4: 200.000 indivíduos com um incômodo leve de intensidade 1 cada.

Assim, temos:

Abordagem aditiva:

S3: (5x100) + (1x1000) = 1500 S4: (5x1) + (1x200.000) = 200.005

Abordagem multiplicativa:

S3: (5x100) x (1x1000) = 500.000 S4: (5x1) x (1x200.000) = 1.000.000

Segundo o modelo linear (seja aditivo ou multiplicativo), S4 é (muito) pior tudo considerado (isto é, o incômodo leve de 200.000 indivíduos é considerado muito pior do que o sofrimento extremo de 1000 indivíduos).

Em resumo, esses dois contraexemplos mostram que a abordagem linear (seja aditiva ou multiplicativa) permite que um número grande de danos triviais supere danos extremos que estão em menor quantidade, mesmo que atribuamos maior peso aos danos extremos. Mesmo que tentemos compensar isso aumentando ainda mais o peso dos danos extremos, sempre haverá uma quantidade de danos triviais suficientemente grande para superar os danos extremos. Atribuir peso diferenciado aos diversos aspectos, como é feito no modelo linear, atenua esse problema – em comparação a como o problema aparece no pluralismo multiplicativo e no monismo agregativo – entretanto, não elimina o problema.

7.9. Pluralismo com aspectos de peso variável (retornos decrescentes)

De que consiste

Nessa abordagem dois ou mais aspectos são vistos como bons/ruins em si, mas não há peso fixo entre eles: o seu peso é variável, diminuindo proporcionalmente à medida que são “preenchidos” (por isso essa abordagem também é chamada de pluralismo com retornos decrescentes)109. Se fôssemos representar em um gráfico, isso equivaleria a cada aspecto ter uma função côncava de valor/desvalor.

Essa abordagem é diferente do pluralismo com trunfo até certo ponto. Embora haja a semelhança de que, em ambas as abordagens, um fator pode vir a ser mais importante do que o outro após certo nível (ambos são não-lineares), aqui a relação é contínua, com cada fator tendo sua importância gradualmente diminuída a cada nova unidade preenchida (com o trunfo até certo ponto, há uma relação descontínua, pois o trunfo é invertido abruptamente caso seja ultrapassada uma linha de corte).

Essa abordagem também é diferente do método que vimos no item anterior (pesos fixos lineares). Embora ambas as abordagens não usem a ideia de trunfos, há diferenças cruciais. Na abordagem linear, cada aspecto tem sempre peso fixo, independentemente do quanto já foi preenchido. Por exemplo, se o peso da quantidade de vítimas é o dobro do peso da gravidade da situação de cada vítima, continua sendo o dobro quer estejamos a falar de dez, cem ou um milhão de vítimas: não há mudança proporcional. Já na abordagem com retornos decrescentes, certo aspecto tem peso maior enquanto não há ainda muito dele que foi preenchido, mas esse peso vai decaindo à medida que vai sendo preenchido.

Peguemos um exemplo isolando o fator gravidade da situação de cada vítima. Nesse método, passar uma vítima de -100 para -99 tem mais peso do que passar uma vítima de -98 para -97, e assim sucessivamente. Isto é, à medida que a situação da vítima melhora, proporcionalmente cada vez tem menos valor aumentar um ponto adicional em seu bem-estar. É por isso que, segundo esse método, é muito mais importante passar uma vítima de -100 para -99 do que passar outra de -2 para -1 (pois a primeira está com sofrimento excruciante, enquanto a segunda está com sofrimento moderado). Isto é, nessa abordagem o bem-estar de quem está pior importa mais, mas conforme vai melhorando, o ganho de mais um ponto de bem-estar vai importando cada vez menos.

Exemplo 1. Intensidade x duração da dor em um mesmo indivíduo

Imaginemos que meçamos a intensidade e a duração da dor da seguinte maneira

  • A intensidade da dor vai de -100 (dor máxima) até 0 (ausência de dor).
  • A duração da dor é medida em segundos.

Neste modelo de retornos decrescentes, a importância relativa de aliviar cada aspecto não é linear:

  • Cada ponto a menos na intensidade da dor importa mais quanto mais intensa for a dor (por exemplo, passar uma dor de -100 para -99 é mais importante do que passar uma dor de -20 para -19).
  • Cada segundo a menos na duração da dor importa mais quanto maior ainda for o total da dor (por exemplo, se alguém sofreria por 500 segundos e temos a oportunidade de diminuir isso para 499 segundos, isso importa mais do que passar de 300 segundos para 299 segundos).

Agora comparemos duas possibilidades de intervenção:

  • A: reduzir a intensidade da dor de -100 para -99 (mantendo 500 segundos de duração).
  • B: reduzir a duração da dor de -500 para -499 segundos (mantendo -100 de intensidade).

Ao que parece, o ganho de aliviar um ponto de intensidade extrema da dor (passar de -100 para -99) em todos os 500 segundos é mais importante do que eliminar apenas 1 segundo de uma dor que ainda será muito extrema, e ainda durará muito.

Entretanto, suponhamos que já tivéssemos reduzido a intensidade da dor substancialmente, por exemplo, de -100 para -10. Agora, passar a intensidade de -10 para -9 representa um ganho marginal muito pequeno. Enquanto isso, o indivíduo ainda enfrenta centenas de segundos de dor intensa. Nesse cenário, temos as seguintes opções:

  • C: reduzir a intensidade da dor de -10 para -9 (mantendo 500 segundos de duração).
  • D: reduzir a duração da dor de -500 para -451 segundos (mantendo -10 de intensidade).

Dadas as circunstâncias, segundo a abordagem com retornos decrescentes, o cenário D passa a importar mais do que o cenário C, porque o peso marginal do aspecto tempo ainda é alto, enquanto o do aspecto da intensidade (já bem reduzida) se tornou pequeno.

Observe que esses resultados são diferentes daqueles que teríamos se déssemos peso igual a cada fator (pois, se o fizéssemos, pelo menos de acordo com uma abordagem multiplicativa teríamos que preferir o cenário C):

  • C: (9) x (500) = 4.500
  • D: (10) x (451) = 4.510

Assim sendo, no modelo com retornos decrescentes, a hierarquia entre os aspectos pode se inverter dependendo do quão “preenchido” já foi cada aspecto.

Em resumo, reduzir um ponto de uma dor extrema que dura muito é mais significativo do que cortar apenas 1 segundo dessa dor, mas quando a dor já é bem menos intensa, cortar alguns segundos dela pode ser mais importante do que reduzir um ponto em sua intensidade. Exemplo 2. Gravidade por vítima x número de vítimas

Imaginemos que no modelo com retornos decrescentes tenhamos o seguinte:

  • Gravidade por vítima: passar a situação de uma vítima de -100 para -99 importa mais do que passar de -99 para -98 e assim progressivamente. Assim, passar a situação de uma vítima de -100 para -99 importa muito mais do que passar de -2 para -1.
  • Quantidade de vítima: dadas 100 vítimas, deixar 99 sofrendo (salvar apenas uma) é pior do que deixar 98 sofrendo (salvar duas), e assim progressivamente. Assim, dadas 100 vítimas, deixar 99 sofrendo (salvar apenas uma) é muito pior do que deixar 1 sofrendo (salvar 99). Agora comparemos as seguintes opções:
  • E: 100 vítimas em sofrimento extremo (-100 cada vítima)
  • F: 10.000 vítimas com um incômodo leve (-1 cada vítima).

Nesse caso, parece que o cenário E é pior, pois, apesar de ter muito menos vítimas, o sofrimento por vítima é extremo, enquanto que em F, apesar de ter muito mais vítimas, cada uma está com um incômodo muito leve. Ou seja, parece que nesse caso o aspecto do sofrimento por vítima pesa mais.

Entretanto, com retornos decrescentes, o peso de ambos os aspectos vai diminuindo progressivamente dependendo o quão preenchidos já estão, e haverá um ponto onde a hierarquia se inverte. Por exemplo, considere os seguintes cenários:

  • E: 100 vítimas com um sofrimento de -100 cada uma.
  • G: 120 vítimas com um sofrimento de -80 cada uma.

Comparando E com G, o fato de haver 20 vítimas a mais em G com um sofrimento que, apesar de ser um pouco menor do que o sofrimento das vítimas de E, ainda é um sofrimento muito grave, parece tornar a situação G pior tudo considerado (mesmo que o agregado de sofrimento em E seja maior, isto é, -10.000, em comparação a -9.600 de G). Isso pode ser explicado por meio do modelo com retornos decrescentes: em G o aspecto da gravidade teve o seu peso diminuído por já estar mais preenchido (-80, em comparação a -100 em E), e a meta de diminuir o número de vítimas teve o seu peso aumentado por estar menos preenchido (em G há mais vítimas, 120, em comparação a 100 vítimas de E).

Problemas/dificuldades

Qualquer posição que utilize esse método precisa justificar a forma de curva (o quanto e como o peso diminui à medida que o aspecto é preenchido). Precisa explicar também se a forma de curva deve ser a mesma para cada aspecto ou não, e por quê.

Contraexemplo 1

SituaçãoIntensidade da dorDuração da dor
S1101
S2510

Em S1 temos uma dor com o dobro de intensidade, mas muito breve. Em S2 temos uma dor muito mais moderada, mas muito mais longa. O método com retornos decrescentes pode chegar a avaliar ambas as situações como igualmente ruins. Entretanto, muitas pessoas diriam que uma dessas duas situações é pior do que a outra.

Contraexemplo 2

Situação Número de vítimas Sofrimento por vítima S3 1000 10 S4 100 100

S3 tem muito mais vítimas, mas cada uma com um sofrimento relativamente bem menor. Já S4 tem muito menos vítimas, mas cada uma com sofrimento extremo. No método que estamos a analisar, por conta dos pesos variáveis, o aumento do número de vítimas ou da gravidade extrema do sofrimento de cada vítima não contribui linearmente, e isso pode gerar valores finais iguais ou próximos. Entretanto, novamente, muitas pessoas diriam que uma das situações acima é pior do que a outra (e não, que são igualmente ruins).

7.10. Maximin/leximin de prioridades

De que consiste

Neste método a ideia é sempre priorizar o pior caso individual, depois o segundo pior caso, depois o terceiro, e assim por diante. Este é um método que se assemelha à ideia de trunfos, mas, enquanto trunfos são utilizados para ordenar os diferentes aspectos, neste método o objetivo é ordenar a prioridade dos indivíduos dentro de um mesmo aspecto.

Entretanto, esse método também é utilizado para comparar situações com vários indivíduos. Por exemplo, comparemos as seguintes situações, onde as letras representam indivíduos e os números negativos o seu nível de sofrimento (quanto maior, mais sofrimento).

SituaçãoIndivíduos
S1A = -50B = -30
S2C = -49D = -40
S3E = -49F = -39

Segundo esse método, a situação S1 receberia prioridade, pois contém o indivíduo na pior condição de todas (A = -50). Assim, entra em cena o , que prescreve maximizar o nível mínimo (e é, digamos, o critério trunfo). Agora, imaginemos que tivéssemos que comparar S2 e S3 para determinar qual delas é mais urgente. Nesse caso, o maximin não ajuda, pois as vítimas que estão na pior condição em cada uma dessas situações estão em uma condição igualmente ruim (C = -49, E = -49). Nesse caso, entra em cena como critério de desempate o leximin, que prescreve priorizar o segundo pior caso. No caso, a situação S2 seria considerada prioritária, pois o segundo pior caso de todos é D = -40.

Problemas

Os principais problemas dessa abordagem são apontados a seguir, sendo que para cada problema será apresentado um contraexemplo.

Ganho mínimo para o pior caso supera qualquer benefício

Contraexemplo 1:

Situação Bem-estar de cada indivíduo na situação S1 -100 -1 -1 -1 -1 -1 S2 -99 -99 -99 -99 -99 -99

A abordagem em questão diria que S2 é melhor do que S1, pois nela o nível mínimo é mais alto. Entretanto, isso ignora que em S2 há 6 indivíduos sofrendo terrivelmente, enquanto que em S1, apesar de o indivíduo que está sofrendo mais sofrer levemente mais do que qualquer um dos indivíduos em S2, há melhoras muito grandes no bem-estar dos outros 5 indivíduos.

Ganho mínimo para o pior caso supera qualquer quantidade de vítimas

Contraexemplo 2:

S3: 1 vítima com -100 cada S4: 1000 vítimas com -99 cada

A abordagem em questão diria que S4 é melhor do que S3, mas em S4 um número muito maior de vítimas sofre quase tanto quanto (ainda que um pouco menos) do que a vítima em S3 e, além disso, há um número muito maior de vítimas.

Em resumo, a abordagem maximin/leximin de prioridades possui todos os problemas que possui a abordagem com trunfos absolutos, que vimos no item 7.6.

7.11. Suficiência

De que consiste

Neste método um aspecto importa em si até atingir certo limite de preenchimento estabelecido como sendo o suficiente. Depois disso ele deixa de contar. Em uma abordagem desse tipo, se há dois ou mais aspectos vistos como sendo bons/ruins em si, ela pode adotar qualquer um dos métodos anteriores para os comensurar. Entretanto, o que há de particular nesse tipo de abordagem é que chega um ponto no qual o aspecto já está suficientemente preenchido, e então ele deixa de importar em si.

Um exemplo de abordagem que adota este método, como vimos no item 6.11, é o . Como vimos, neste é estabelecido uma linha limite de bem-estar, a partir da qual a vida é considerada suficientemente boa110. Em relação aos que estão acima da linha limite, o suficientismo não estabelece nenhum critério de prioridade111. Já em relação aos que

estão abaixo da linha, o suficientismo estabelece a prioridade de acordo com três critérios: (a) dependendo do quão longe cada indivíduo está desse limite (quanto mais longe, maior a prioridade); (b) de quantos indivíduos forem beneficiados e (c) do tamanho do benefício possível de ser causado112.

Problemas

Os principais problemas e dificuldades para essa abordagem são:

1) Explicar por que, acima de certo nível, não deveria haver critério de prioridade entre os indivíduos. 2) No suficientismo, para indivíduos que já estão acima da linha não há critério de prioridade, mesmo que existam desigualdades gigantescas entre esses indivíduos. 3) Dificuldade em definir a linha de suficiência. 4) Pequenas mudanças na linha de suficiência podem mudar drasticamente quem recebe prioridade.

7.12. Abordagens híbridas

De que consistem

Essas abordagens combinam uma ou mais das abordagens anteriores. Por exemplo, podem usar trunfos (absolutos ou até certo ponto) até uma linha de corte, e a partir daí utilizar uma relação contínua (de peso fixo ou peso variável).

Problemas

Dentre os principais problemas que esse tipo de abordagem enfrenta, estão:

1) Complexidade excessiva. Pode gerar regras excessivamente complexas, difíceis de serem aplicadas. Quanto mais abordagens combinadas, mais complexo fica o raciocínio.

2) Arbitrariedade na escolha da linha de corte. Pequenas mudanças nessa linha podem alterar drasticamente as prioridades. 3) Risco de decisões subótimas. Poderia haver um melhor impacto geral se a relação contínua fosse aplicada em qualquer circunstância do que usar trunfos, por exemplo.

7.13. Indeterminação parcial

Diferentemente da incomensurabilidade total, que vimos no item 7.2, esse método defende que, para alguns casos, há claramente como avaliar quais situações são melhores/piores tudo considerado, mas que, em outros casos, não há uma resposta correta (e, então, nesses casos esse método opera como na abordagem que defende a incomensurabilidade, com o julgamento ficando indeterminado)113.

Problemas

1) Ter que oferecer um critério para dizer em quais casos há uma resposta correta e quais são indeterminados (do contrário, um mesmo caso pode ser tratado como determinável por um agente e indeterminável por outro). 2) Em casos indeterminados, a abordagem não oferece critérios para escolher entre as alternativas, o que pode gerar inação ou decisões arbitrárias.

7.14. Agregação probabilística com base na incerteza

Neste método pondera-se várias abordagens diferentes (ou mesmo todas as que vimos anteriormente) com base na incerteza sobre qual delas é a correta. Nesse método, avalia-se quão boa/ruim seria a situação tudo considerado segundo cada método levado em conta, e multiplica-se cada resultado pelo grau com que se acredita que cada método está correto. Em seguida soma-se tudo, e tem-se a agregação probabilística baseada na incerteza. Em resumo, nesse método é feita uma mistura probabilística de várias abordagens, ponderando o quanto se acredita que cada uma está correta e agregando esses resultados114.

Problemas

1. Abre a porta para atribuições arbitrárias de probabilidade. 2. Ponderar probabilisticamente exige muitos cálculos, o que torna difícil aplicar o método (e, quanto mais abordagens envolvidas, mais difícil fica). 3. O resultado final é uma espécie de “média ponderada” das várias abordagens incluídas, mas isso não garante que o resultado será considerado justificado do ponto de vista de qualquer uma das abordagens adotadas. 4. Pequenas mudanças nas probabilidades atribuídas podem gerar grandes mudanças na decisão final.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XI
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

O que é o pluralismo com retornos decrescentes?

Qual é um problema da agregação probabilística, segundo o capítulo?

Para pensar

Ao tomar uma decisão importante, você já percebeu qual método usou para pesar os critérios?

Notas do autor 13
  1. 102 Sobre essa questão, ver Mason (2023) e Hsieh; Andersson (2021). ↩
  2. 103 Ver, por exemplo, Raz (1986, 1999, cap. 3). ↩
  3. 104 Um exemplo é a abordagem adotada no utilitarismo. No utilitarismo clássico, de Bentham (1996 [1789]) e Mill (1969 [1861]), o que é bom em si são as experiências positivas e o que é ruim em si são as experiências negativas. Já no utilitarismo proposto, por exemplo, por Singer (1993 [1979]) e Hare (1981), o que é bom em si é a satisfação de preferências (desejos) e o que é rum em si é sua frustração. Entretanto, em qualquer uma das versões, quão boa/ruim é uma situação tudo considerado é obtido a partir da agregação total. ↩
  4. 105 Essa visão por vezes é chamada de visão lexicográfica pura. Exemplos são as teorias de direitos invioláveis. Por exemplo, Dworkin (1977, cap. 7) fala em direitos como trunfos. Outros exemplos são: (1) a abordagem na qual o maximin é o trunfo e o leximin entra como critério de desempate (que abordaremos no item 7.10); (2) o princípio do painism, proposto por (2001), que dá prioridade absoluta ao sofredor máximo e; (3) o princípio worse-off, proposto por (1983, p. 307-12), que sempre prioriza não violar os direitos dos membros da minoria se estes forem prejudicados em maior grau do que qualquer um dos membros da maioria. ↩
  5. 106 Essa abordagem é também chamada de trunfos descontínuos; limites lexográficos; prioridades lexográficas até certo ponto, ou ainda, prioridades lexográficas com pontos de corte. ↩
  6. 107 Sobre a distinção entre abordagens contínuas e descontínuas, ver (1993, cap. 5, 8; 2012, parte II). ↩
  7. 108 Sobre modelos aditivos e multiplicativos, ver Keeney; Raiffa (1993). Para um exemplo de modelo aditivo, ver Fishburn (1970). Para um exemplo de modelo multiplicativo, ver Vernon et al. (2018, cap. 20). ↩
  8. 109 Ver, por exemplo, (1991). ↩
  9. 110 (2003, p, 762). ↩
  10. 111 Crisp (2003, p. 758). ↩
  11. 112 Crisp (2003, p. 758). ↩
  12. 113 Ver, por exemplo, Chang (2017). ↩
  13. 114 Ver, exemplo, et al. (2020). ↩
Fontes citadas neste texto 19

A lista completa do volume está em referências do Volume XI.

  • BENTHAM, J. Introduction to the principles of morals and legislation. Oxford: Oxford University Press, 1996 [1789].
  • CHANG, R. Hard Choices. Journal of the American Philosophy Association, v. 3, n. 1, p. 1- 21, 2017.
  • CRISP, R. Equality, Priority, and Compassion. Ethics, v. 113, p. 745-763, 2003.
  • DWORKIN, R. Taking Rights Seriously. Cambridge: Harvard University Press, 1977.
  • FISHBURN, P. C. Utility Theory for Decision Making. New York: Wiley, 1970.
  • HARE, R. M. Moral Thinking: Its Levels, Method, and Point. New York: Oxford University Press, 1981.
  • HSIEH, N.; ANDERSSON, H. Incommensurable Values. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Fall 2021 edition.
  • KEENEY, R. L.; RAIFFA, H. Decisions with Multiple Objectives: Preferences and Value Tradeoffs. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
  • MACASKILL, W.; BYKVIST, K.; ORD, T. Moral Uncertainty. Oxford: Oxford University Press, 2020.
  • MASON, E. Value Pluralism. In: ZALTA, E. N.; NODELMAN, U. The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Summer 2023 Edition.
  • MILL, J. S. Utilitarianism. In: MILL, J. S. Collected Works, vl. X. London: Routledge and Kegan Paul, 1969 [1861], p. 203-59.
  • PARFIT, D. Equality and Priority. The Lindley Lecture. University of Kansas, 1991.
  • RAZ, J. Value Incommensurability: Some Preliminaries. Proceedings of the Aristotelian Society, v. 86, p. 117-134, 1986.
  • RAZ. J. Engaging Reason: On the Theory of Value and Action. Oxford: Oxford University Press, 1999, pp. 110-28.
  • REGAN, T. The Case for Animal Rights. Los Angeles: University of California Press, 1983.
  • RYDER, R. D. Painism: A Modern Morality. Opengate Press, 2001.
  • TEMKIN, L. Inequality. New Yor: Oxford University Press, 1993.
  • TEMKIN, L. Rethinking the Good: Moral Ideals and the Nature of Practical Reasoning. Oxford: Oxford University Press, 2012.
  • VERNON, J. M; HARRINGTON, J. E; VISCUSI, W. K. Economics of Regulation and Antitrust. 5. ed. Cambridge: MIT Press, 2018.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

Quando um problema tem mais vítimas, mas em outro as vítimas estão em pior situação, como proceder? (VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6 e 7).
Uma possibilidade é perguntar: (1) O quão pior precisa ser a situação da minoria para que tenham prioridade? (2) O quão maior precisa ser o número de vítimas que não estão na pior situação para que tenham prioridade? Entretanto, há várias outras possibilidades, que são abordadas em: VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6, 7.
Como saber quando pesa mais o tamanho do benefício e quando pesa mais a gravidade da situação? (VIII, cap. 1.2; XI, cap. 1.6 e 7).
Há várias possibilidades. Por exemplo: (1) estabelecer que um dos aspectos é um trunfo (absoluto ou até certo ponto); (2) relação contínua: não há trunfos, e cada aspecto têm, ou peso fixo (igual ou diferente), ou peso variável, no cálculo total; (3) combinar as abordagens 1 e 2: usar trunfos (absolutos ou até certo ponto) até uma linha de corte e a partir daí utilizar uma relação contínua (de peso fixo ou variável). Um exemplo de abordagem contínua (sem trunfos), com cada aspecto tendo peso variável é a abordagem com retornos decrescentes, onde o peso de cada aspecto diminui proporcionalmente à medida que é preenchido. Uma possibilidade nesse sentido seria buscar maximizar os benefícios, mas estabelecer que uma unidade de benefício tem mais valor quanto mais grave for o problema ao qual seria direcionado esse benefício.

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