Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 11
Conceitos centrais no debate sobre a importância do futuro
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Conceitos centrais sobre o futuro: riscos-s (sofrimento astronômico), a diferença para os riscos-x, seriedade como gravidade vezes probabilidade, especismo e substratismo, e a classificação dos riscos-s em incidentais, agenciais e naturais, conhecidos e desconhecidos.
No futuro, podem surgir novas formas de fazer muitos seres sofrerem, até seres digitais. O capítulo explica as palavras que ajudam a pensar nesses perigos.
Assim como o especismo discrimina pela espécie, o substratismo discriminaria pelo material de que o corpo é feito, como carbono ou silício.
- P1 O futuro pode conter sofrimento astronômico (riscos-s), inclusive de não humanos e de seres não biológicos.
- P2 A seriedade de um risco-s é a gravidade multiplicada pela probabilidade.
- P3 O substratismo, como o especismo, pode produzir sofrimento em quantidades astronômicas.
- C Logo, devemos considerar os animais por serem sencientes, e não por serem animais ou seres vivos.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Só seres de carne e osso podem sofrer de verdade.”
Resposta Se surgirem seres sencientes digitais, desconsiderá-los por serem feitos de outro material seria substratismo, tão arbitrário quanto o especismo.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 42 da edição em PDF
11.1. O que são riscos-s?
Na atualidade, um número enorme de animais sofre intensamente, e em muitos casos, de formas que não existiam no passado. Da mesma maneira, no futuro é possível que surjam novas formas de prejudicar os seres de forma massiva, em uma escala astronomicamente maior do que a do sofrimento existente na atualidade. Um conceito central nesse debate é o de 48:
- Riscos-s: riscos de que no futuro ocorram eventos que resultem em sofrimento de magnitude gigantesca, que excede o sofrimento existente na Terra até agora49.
11.2. Diferenças entre riscos-s e riscos-x
são sobre riscos de aniquilação da humanidade. Riscos-s são sobre cenários com sofrimento astronômico. Há riscos-s que não são riscos-x, pois há formas de sofrimento sobre seres sencientes não humanos que não ameaçam a humanidade50.
11.3. Como medir a seriedade de um risco-s?
A seriedade de um risco-s é medida multiplicando-se o quão ruim seria o cenário pela sua probabilidade de ocorrer (o resultado é o seu , ou DE)51.
A tabela a seguir mostra alguns exemplos de riscos-s.
11.4. Exemplos de riscos-s
| Exemplos de riscos-s | |
|---|---|
| Exemplo | Explicação |
| Aumento da exploração animal (IX, cap. 1.8.1). | Exemplos: (1) Expandi-la em escala (isto é, afetar um maior número de seres sencientes). (2) Torná-la qualitativamente pior (isto é, aumentar os danos sofridos por cada animal). (3) Criar novas formas pelas quais ela possa acontecer. |
| Expansão do sofrimento dos animais selvagens (IX, cap. 1.8.2). | Pode ocorrer devido a um aumento do número de animais na Terra ou devido à propagação intencional ou acidental da vida para fora dela52. |
| Criação de novas formas de senciência (IX, cap. 1.8.3). | Um exemplo seria a criação de formas de senciência não biológicas. Tais seres, apesar de sencientes, poderão não ter rostos, e nem se movimentar ou gritar. Então, poderá ser difícil ter empatia por eles. Também pode acontecer de uma entidade digital ser senciente e nós não percebermos. Quantidades enormes desses seres podem vir a existir no futuro, pois criá-los para certas finalidades poderia envolver menos custos do que criar seres sencientes biológicos. |
11.5. Os conceitos de especismo e de substratismo
Assim como o especismo é a discriminação baseada na espécie a qual alguém pertence, o substratismo é a discriminação baseada no tipo de substrato que compõe o corpo do ser (por exemplo, se é orgânico ou não orgânico). Assim como o é uma forma de (contra quem não pertence à espécie humana), o carbonismo é uma forma de (contra quem não é orgânico). O substratismo, tanto quanto o especismo, pode produzir sofrimento em quantidades astronômicas no futuro53. Por isso é importante enfatizar que os animais devem ser considerados porque são sencientes (e não, porque são animais ou porque são seres vivos), e que isso implica em considerar outros seres sencientes não orgânicos, caso vierem a existir.
11.6. Classificação dos riscos-s
Riscos-s podem ser classificados quanto a vários aspectos54. Eis alguns exemplos:
| Classificação dos riscos-s de acordo com a maneira como surgem55 | ||
|---|---|---|
| Tipo | Ocorrem... | Exemplos |
| Incidentais | Quando formas de alcançar certa meta geram bastante sofrimento, mas sem o sofrimento ser almejado por si. Os agentes podem até preferir uma alternativa sem sofrimento, mas não estar dispostos a pagar os custos. | Sofrimento como efeito da alta produtividade (como na pecuária industrial) ou para obter informações (como na experimentação animal). |
| Agenciais | Quando o agente deseja causar o dano enquanto fim. | Agentes sádicos ou dano como efeito de sentimentos de ódio entre grupos. |
| Naturais | Surgem sem ação de agentes. | Sofrimento decorrente do modo como acontecem os processos naturais. |
| Exemplos de outras classificações de riscos-s56 | ||
|---|---|---|
| Classificação | Explicação | |
| Conhecidos e desconhecidos | Dependem de se conseguimos imaginá-los atualmente ou não (assim como os medievais não imaginariam que surgiria a bomba atômica, por exemplo). | |
| Riscos-s desconhecidos de acordo com a maneira como surgem | ||
| Incidentais | Quando mecanismos não conhecidos conduzirão a riscos-s incidentais. | |
| Agenciais | Pode ser que os agentes venham a ter no futuro razões para causar dano, que ainda não conhecemos. | |
| Naturais | Pode ser que o universo já contenha muito mais sofrimento do que se imagina. |
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
O que é carbonismo?
Riscos-s agenciais ocorrem quando...
Para pensar
Se uma mente digital dissesse que sente dor, o que você faria para saber se é verdade?
Notas do autor 7
- 48 Este é o tema do Volume IX desta coleção. Sobre riscos-s, ver (2017, 2022); Daniel (2017) e (2015, 2019.). ↩
- 49 IX, cap. 1.2. ↩
- 50 IX, cap. 1.3. ↩
- 51 IX, cap. 1.4. ↩
- 52 Para exemplos de projetos de expansão da vida para fora da Terra, ver Meot-Ner e Matloff (1979) e Burton (2004). Para uma crítica a essas práticas, do ponto de vista dos risco-s, ver O’brien (2022). ↩
- 53 Sobre isso, ver Tomasik (2015). ↩
- 54 Essas classificações seguem as classificações de Baumann (2022, p. 13-19). ↩
Fontes citadas neste texto 8
A lista completa do volume está em referências do Volume XII.
- BAUMANN, T. Avoiding the worst final: how to prevent a moral cathastrophe. Center for Reducing Suffering, 2022.
- BAUMANN, T. S-risks: An introduction. Reducing Risks of Future Suffering: Toward a responsible use of new technologies, 2017. Disponível em: http://s-risks.org/intro/. Acesso em: 15 fev. 2019;
- BURTON, K. NASA Presents Star-Studded Mars Debate. NASA, 25 mar. 2004.
- DANIEL, M. S-risks: Why they are the worst existential risks, and how to prevent them. Foundational Research Institute, [s.l.], 2017.
- MEOT-NER, M.; MATLOFF, G. L Directed Panspermia: a Technical and Ethical Evaluation of Seeding the Universe. Journal of the British Interplanetary Society, v. 32, p. 419-23, 1979.
- O’BRIEN, G. D. Directed Panspermia, Wild Animal Suffering, and the Ethics of World- Creation. Journal of Applied Philosophy, v. 39, n. 1, 2022.
- TOMASIK, B. How Many Animals are There? Essays on Reducing Suffering, 07 ago. 2019.
- TOMASIK, B. Why digital sentience is relevant to animal activists. Animal Charity Evaluators, 03 fev. 2015.
Aprofunde cada ponto
Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.
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