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Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 13

Estratégias longoprazistas: amplas e direcionadas

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Estratégias longoprazistas podem ser amplas (bom impacto em quase todos os cenários, como aumentar a consideração pelos sencientes) ou direcionadas (grande impacto em cenários específicos, como regular a exploração espacial ou alinhar a IA); ao escolhê-las, é preciso humildade e metas amplamente aceitáveis.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 47 da edição em PDF

Se nosso objetivo é que nossas decisões tenham o melhor impacto para todos os seres , precisamos levar em conta o seu impacto no longo prazo58. Em relação a isso, existem dois grupos principais de estratégias : amplas e direcionadas.

Estratégia Ampla Direcionada
De que consiste Tentar ter o melhor impacto possível em uma grande diversidade de cenários.Tentar ter o melhor impacto possível em cenários específicos.
Vantagem Terão um impacto positivo em muitíssimos cenários, talvez em quase todos.Podem ter um impacto muito grande se ocorrer o cenário que elas tratam.
Desvantagem Esse impacto é mais reduzido do que o das estratégias direcionadas quando acontece o cenário para o qual elas são planejadas.Podem ter um impacto muito reduzido ou mesmo nulo se acontecem outros cenários.

Os quadros a seguir mostram alguns exemplos de e direcionadas:

Exemplos de estratégias amplas
TipoExemplo
Aumentar a consideração pelos seres sencientes. (IX, cap. 9.3.1).
• Defender a consideração moral de todos os seres sencientes (focando nos mais negligenciados, como os animais aquáticos e invertebrados, e as novas formas de senciência que podem vir a surgir no futuro).
• Abordar todas as causas de dano para os seres sencientes (quer as causadas pela sua exploração, quer às devidas à sua situação no mundo selvagem em decorrência de processos naturais, quer outras que possam vir a existir no futuro).
• Promover mudanças institucionais que reforcem as mudanças de atitude conseguidas e dificultem futuras regressões.
Aumentar nossa capacidade de ação no futuro (IX, cap. 9.3.2).
• Difundir a preocupação com o futuro em longo prazo e com os riscos-s, (isso fará com que mais pessoas venham a trabalhar nesses temas).
• Tentar aumentar os recursos das pessoas interessadas em prevenir o sofrimento futuro.
• Aumentar os nossos conhecimentos sobre longo prazo. Isso nos permitirá: (1) conhecer melhor como planejar as estratégias; (2) identificar estratégias ainda não consideradas e (3) elucidar, dentre as estratégias disponíveis, quais têm um maior potencial.
Exemplos de estratégias direcionadas
TipoExemplo
Foco em evitar a exploração animal (IX, cap. 9.4.1).
• Prevenção de novas formas de exploração animal (por exemplo, mediante a proibição de novas formas de exploração de invertebrados para consumo).
• Desenvolvimento de proteínas e de materiais de origem não animal para que substituam os de origem animal.
• Tentar prevenir que a inteligência artificial seja utilizada para melhorar a eficiência da exploração animal.
Foco em evitar o sofrimento dos animais selvagens (IX, cap. 9.4.2).
• Criar e consolidar o campo da biologia do bem-estar59.
• Estabelecer regulamentação da exploração espacial de maneira que evite a expansão intencional ou acidental de vida para fora do planeta Terra (mesmo da vida não senciente, pois esta poderia depois de muito tempo evoluir gerando seres sencientes).
Foco na consideração por novas formas de senciência (IX, cap. 9.4.3).
• Tentar impedir a engenharia de novas formas de senciência, tanto biológica como não biológica.
• Tentar garantir direitos legais para entidades sencientes não biológicas.
• Buscar um alinhamento não antropocêntrico da inteligência artificial (isto é, fazer com que a inteligência artificial não tenha valores antropocêntricos).

Precauções ao se escolher estratégias longoprazistas

Vimos alguns exemplos de estratégias para prevenir o sofrimento em longo prazo. A seguir, estão algumas precauções que devemos tomar ao escolhê-las60:

Risco Precaução
Subestimar a complexidade da questãoDada a incerteza sobre o futuro, lembrar que provavelmente não há uma resposta única e conclusiva. Devemos nos manter sempre abertos a revisar nossas crenças sobre quais as melhores estratégias, e estarmos preparados para mudar de estratégia caso necessário.
Vieses cognitivos podem nos levar a confiar demais em certas abordagens e a descartar prematuramente outras. Temos a tendência de negligenciar os possíveis efeitos negativos das abordagens com as quais simpatizamos inicialmente e os possíveis efeitos positivos das abordagens com as quais não simpatizamos inicialmente.Lembrar que podemos estar enviesados em nossas avaliações, cultivar a humildade epistêmica e buscar sempre novas informações.
Certas abordagens possuem um alto risco de fazer com que pessoas que possuem outras prioridades rejeitem reduzir os riscos-sÉ melhor defender metas que podem ser aceitas por um leque amplo de perspectivas.

Veremos mais sobre este último ponto na seção a seguir.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Qual destas é uma estratégia direcionada citada no quadro?

Que precaução o quadro recomenda diante dos vieses?

Para pensar

Que atitude sua ajuda em quase qualquer futuro possível?

Notas do autor 3
  1. 58 Isso vem sendo conhecido como longoprazismo. É o tema do cap. 9 do Volume IX desta coleção. Para mais informações, sobre longoprazismo, ver (2018); (1984, p. 351-443); (2013) e e Macaskill (2019). ↩
  2. 59 A biologia do bem-estar é a área que estudaria como os animais em seus ambientes são afetados do ponto de vista do seu bem-estar (e não do ponto de vista da conservação de espécies ou ecossistemas). Sobre biologia do bem-estar, ver e (2020) e et. al. (2021). Ver também VII, cap. 27. ↩
  3. 60 Este tema é tratado no item 9.5 do Volume IX desta coleção. ↩
Fontes citadas neste texto 6

A lista completa do volume está em referências do Volume XII.

  • BECKSTEAD, N. On the overwhelming importance of shaping the far future. Tese (Doutorado em Filosofia). New Brunswick: Rutgers University, 2013.
  • FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge - Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.
  • GREAVES, H. & MACASKILL, W. The case for strong longtermism. Global Priorities Institute, v. 7, set. 2019.
  • PARFIT, D. Reasons and persons. Oxford: Oxford University Press, 1984.
  • SORYL, A. A.; MOORE, A. J.; SEDDON, P. J.; KING, M. R. The Case for Welfare Biology. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 34, n. 7, 2021.
  • ÉTICA ANIMAL. A importância do futuro. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 24 out. 2018.

Aprofunde cada ponto

Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.

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