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Volume IV · O debate sobre a exploração animal · capítulo 19

A exploração sobre insetos e por que devemos nos opor a ela

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Há evidências crescentes de senciência em insetos, e a exploração deles (para ração, alimento, seda, corante) já mata trilhões por ano em condições muito ruins; dado o número de vítimas, é um dos problemas mais importantes.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IV, p. 73 da edição em PDF

19.1. Insetos são sencientes?

Há uma quantidade crescente de evidências sobre em insetos. A seguir estão alguns exemplos dessas evidências. Como trata-se de uma classe com uma enorme diversidade de espécies, uma boa parte delas ainda não foi estudada quanto à sua senciência. Portanto, as evidências a seguir dizem respeito a estudos feitos com algumas espécies. Entretanto, podemos generalizar essas evidências (pelo menos em termos de benefício da dúvida) para espécies relacionadas evolutivamente. Isso porque não é que insetos de outras espécies foram estudados e falharam em cumprir os critérios para a senciência: o que ocorre é que quase não foram estudados.

A generalização das conclusões obtidas em espécies estudadas para espécies relacionadas já é a prática padrão quanto ao reconhecimento de senciência em outros tipos de animais. Por exemplo, em relação a vertebrados, cefalópodes e crustáceos, as leis que mencionam sua senciência são baseadas em generalizações feitas a partir das evidências obtidas nas espécies intensamente estudadas para outras espécies relacionadas157. Então, não há razão para se proceder de modo diferente em relação aos insetos. Isso significa que temos razões para tratar todos os insetos como sencientes até prova do contrário.

Vejamos, então, algumas evidências de senciência em insetos.

  • O comportamento dos insetos é flexível, apresentando tomadas de decisão em contextos de mudança de circunstâncias, comportamento adaptativo, generalização cognitiva e também aprendizagem, integrando diferentes tipos de informação158.
  • Possuem sistemas nervosos centralizados com cérebros distintos. Dentre as regiões de seus cérebros, está o protocerebrum, que inclui os chamados corpos de cogumelo, contendo entre cem mil e um milhão de neurônios159.
  • Em seus cérebros foram registrados potenciais de campo locais (isto é, atividade elétrica) com uma resposta entre 20Hz e 30Hz160.
  • O conectoma de alguns insetos (isto é, o mapa de suas conexões neurais) é comparável às redes de trato de fibra encontradas em primatas, apresentando a chamada organização de pequeno mundo (que consiste de uma alta conectividade entre regiões vizinhas combinadas com conexões de atalho para regiões distantes)161.
  • Os corpos de cogumelo dos insetos recebem e integram informações multissensoriais distintas, permitindo que aprendam com as experiências anteriores, lembrem-se delas e integrem as informações162, sendo portanto um centro especializado para processar informações espaciais e para organizar o movimento163.

Essas evidências parecem mais do que suficientes para, no mínimo, darmos o aos insetos.

19.2. A exploração sobre insetos

O uso de insetos têm crescido vastamente nos últimos anos. Além da exploração de cochonilhas para produção de corante, de bichos-da-seda para produção de seda e de abelhas para produção de mel e outros produtos, os insetos vêm sendo cada vez mais utilizados diretamente para consumo humano, muitas vezes disfarçados como farinhas ou hambúrgueres, e também para a fabricação de ração para outros animais que os humanos também exploram164.

A seguir estão alguns dados sobre mortes anuais de insetos na exploração165.

  • Cochonilhas mortas na produção do corante carmim: entre 4,6 e 21 trilhões166.
  • Insetos mortos para consumo: entre 2 e 3,2 trilhões167.
  • Bichos-da-seda mortos para a produção de seda: entre 420 bilhões e 1 trilhão168.
  • Não há dados sobre a quantidade de abelhas mortas para a produção de mel, mas a população de abelhas criadas para a fabricação de mel está entre 1,4 e 4,8 trilhões de indivíduos em um dado momento169.

19.3. Como os insetos são prejudicados na exploração

O uso de insetos eleva a níveis gigantescos a quantidade de animais mortos. Como o tamanho desses animais é muito menor, é necessária uma quantidade vastamente maior de indivíduos para produzir o equivalente em termos de carne ou outro produto.

Além disso, provavelmente sofrem muito durante todo o processo. O espaço destinado aos insetos nas fazendas é ainda menor do que aquele dado aos outros animais em proporção ao seu tamanho170. Antes de retirá-los do confinamento, a prática comum é deixá-los sem comida por 12 a 24 horas e reduzir a concentração de oxigênio. Em seguida são mantidos vivos e resfriados a temperaturas próximas a 0ºC. Métodos típicos de matá-los são: congelamento, imersão em água com temperatura superior a 80ºC, em micro-ondas, em fornos de túnel infravermelho e por trituração171.

19.4. Razões para nos opormos à exploração de insetos

A primeira razão óbvia para nos opormos à exploração de insetos é o fato de ela causar sofrimento e morte a uma quantidade gigantesca de seres sencientes. Além disso, a exploração sobre insetos é injusta pelas mesmas razões pelas quais a exploração sobre qualquer outro ser senciente é injusta. Recapitularemos a seguir três dessas razões.

Primeiro, como toda prática onde há exploradores e explorados, ela viola o princípio da igual consideração172 por ser tendenciosa na atribuição do peso do bem de cada indivíduo.

Segundo, como toda prática , ela determina quem serão os beneficiados e os prejudicados com base na espécie a qual pertencem. A espécie, assim como a raça e o gênero, é também uma propriedade moralmente irrelevante, pois além de ser um resultado da loteria natural (e, portanto, não resultar de mérito ou demérito) não determina se alguém é passível de ser prejudicado ou beneficiado, nem a magnitude dos prejuízos e benefícios.

Terceiro, ela jamais seria aprovada se não soubéssemos se nasceríamos como humanos ou como insetos. Isso mostra que quem defende tal prática só o faz porque sabe que não será vítima dela. Se é assim, então ela não passa no teste da imparcialidade173.

19.5. Respondendo a algumas objeções

19.5.1. Serão os insetos pouco capazes de sofrer?

A exploração sobre insetos é por vezes defendida com base na alegação de que animais que possuem cérebros menos complexos são pouco capazes de sofrer174.

Há pelo menos duas maneiras de se responder a essa objeção.

A primeira é apontar que, mesmo que fossem pouco capazes de sofrer, ainda seriam gravemente prejudicados com sua exploração, uma vez que ainda sofreriam e perderiam a vida. Portanto, mesmo que fossem pouco capazes de sofrer, isso parece insuficiente para justificar sua exploração.

A segunda é negar que uma menor complexidade cerebral implique em o indivíduo ser pouco capaz de sofrer. A capacidade de experimentar sofrimento e prazer é um traço que prevaleceu na história evolutiva provavelmente porque está diretamente conectado à motivação para o comportamento175. Isto é, os seres sencientes evitam os estímulos que os fazem sofrer e buscam os estímulos que lhes dão prazer. Esse comportamento, por aumentar as chances de que sobrevivam, aumenta também as chances de que se reproduzam e passem esse traço adiante. O ponto é: quanto maiores as capacidades cognitivas, maior a diversidade de

motivações para o comportamento e aprendizado. Então, é possível que seres com maiores capacidades cognitivas consigam sobreviver e passar seus genes adiante mesmo se não tiverem experiências de sofrimento e prazer muito intensas. Por outro lado, quanto menores forem as capacidades cognitivas de um animal, mais a sua motivação para agir dessa ou daquela maneira estará ligada unicamente à intensidade da dor e do prazer176.

Isso significa que, em relação a animais com menores capacidades cognitivas, é bastante possível que sofram de maneira ainda mais intensa pois, se não fosse dessa maneira, muito provavelmente essas espécies não teriam tido sucesso em passar os seus genes adiante e não mais existiriam. (2002, p. 64) enfatiza esse ponto: "suas experiências podem ser mais simples do que as nossas, mas serão menos intensas? Talvez a dor primitiva que uma lagarta sente ao ser esmagada seja maior do que nossos sofrimentos mais sofisticados177".

19.5.2. Serão os insetos pouco prejudicados com a morte?

Por vezes é defendido que, quanto mais cognitivamente sofisticadas as experiências, mais valiosas elas são e que, por isso, alguém é prejudicado em maior grau se não puder experimentá-las178. Alguém poderia querer apelar a essa visão para afirmar que nada de muito ruim é feito aos insetos se eles forem mortos, pois não seriam capazes dos prazeres intelectuais que os humanos são.

Entretanto, o que teria de ser mostrado para manter que seres com menores capacidades cognitivas são pouco prejudicados com a morte não é que prazeres intelectuais são mais valiosos, e sim, que prazeres não intelectuais quase não tem valor. Entretanto, quando pensamos em todos os prazeres não intelectuais de que desfrutamos (estar perto de quem gostamos, passear, comer, fazer sexo, nadar etc.) parece que dificilmente esse seria o caso.

19.5.3. E se insetos contassem menos?

Suponhamos para efeito de argumentação que cada inseto deveria contar menos do que outros seres sencientes em nossas decisões. Quais seriam as implicações?

Poder-se-ia pensar que uma implicação é que estaria justificada a exploração sobre insetos. Entretanto, não há essa implicação. Uma coisa é conseguir fundamentar que certos indivíduos devem contar menos. Outra coisa é conseguir fundamentar que estamos justificados a explorar e matar os indivíduos que deveriam contar menos. Teria de ser endereçado um argumento adicional que fundamentasse essa segunda conclusão, pois ela não se segue necessariamente da primeira.

Também poder-se-ia pensar que, se os insetos contarem menos, então estamos justificados a dar pouca importância à tentar mudar sua situação. Mas, novamente, não há essa implicação. Pelo contrário: a quantidade deles que sofre e é morta é tão gigantesca que ainda deveríamos manter como uma de nossas prioridades protegê-los mesmo se eles contassem menos179. Por exemplo, suponhamos que cada humano contasse 1000 vezes mais do que cada inseto. Isso significaria que, para investirmos em ajudar insetos a mesma quantia de recursos que deveríamos investir em ajudar humanos, teria de haver 1000 vezes mais insetos do que humanos em situações igualmente ruins. Como no mundo real a quantidade de insetos explorados é gigantescamente maior do que isso, a balança ainda penderia para priorizar protegê-los mesmo que cada um deles contasse muito menos.

19.6. O que é importante concluir sobre essa questão?

Se cada ser senciente importa, então a exploração sobre insetos (assim como sobre decápodes) é um problema dos mais importantes, dada a vastíssima quantidade de vítimas. Essa quantidade é tão grande que essa conclusão se manteria mesmo se houvesse justificativa para dar um peso menor ao bem de cada inseto. Além disso, é importante observar que nada do que vimos mostra que há justificativa para darmos um peso menor ao bem dos insetos. Então, se é assim, a importância que devemos dar a esse problema é ainda maior180.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume IV
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Por que a conclusão sobre os insetos se manteria mesmo dando peso menor a cada um?

Qual destas é uma prática comum antes de abater insetos nas fazendas, segundo o capítulo?

Para pensar

O que mudaria na sua opinião sobre insetos se você soubesse que eles sentem dor?

Notas do autor 24
  1. 157 et al. (2021, p. 8, 9). ↩
  2. 158 Sobre isso, ver (2005); Mendl et. al. (2011) e Adamo (2016). ↩
  3. 159 Kaas (2016). ↩
  4. 160 Polilov (2012). ↩
  5. 161 Kaiser (2015). ↩
  6. 162 Gronenberg; López-Riquelme (2004); Collett; Collett (2018). ↩
  7. 163 ; Klein (2016); Klein, Barron (2016). ↩
  8. 164 Sobre a exploração de insetos para consumo, ver (2021). ↩
  9. 165 Essas estatísticas estão em escala curta, onde 1 bilhão corresponde a 10^9, um trilhão corresponde a 10^12 e assim por diante. ↩
  10. 166 Rowe (2020a). ↩
  11. 167 Rowe (2020b). ↩
  12. 168 Rowe (2021). ↩
  13. 169 Schukraft (2019). ↩
  14. 170 Ética Animal (2021) ↩
  15. 171 Sobre esses métodos, ver IPIFF (2019) e Ética Animal (2021). ↩
  16. 172 Para uma explicação sobre esse princípio, ver (2002 [1993], cap. 3) e (2021, p. 61-6). ↩
  17. 173 Sobre imparcialidade, ver (2009 [1998], p. 118-175). ↩
  18. 174 Ver, por exemplo, as Diretrizes da Comissão Européia. Para outros exemplos, ver Pichler e Giacomini (2014, p. 53). ↩
  19. 175 Sobre isso (mas usando como exemplo o caso dos decápodes), ver Gherardi (2009). ↩
  20. 176 Sobre isso, ver Ética Animal (2022a). O exemplo a seguir envolve vertebrados, mas já sugere que a intensidade da experiência não depende da complexidade cerebral. Os peixes-zebras adultos respondem a estímulos danosos de maneira que indica que são sencientes, e as larvas dos peixes-zebras respondem a esses mesmos estímulos de maneira similar (HURTADO-PARRADO, 2010; LOPEZ-LUNA et al., 2017a, 2017b, 2017c, 2017d, SNEDDON, 2018). Isso é assim mesmo que o cérebro de peixes-zebras adultos tenha cerca de 10 milhões de neurônios (HINSCH; ZUPANC, 2007), e o de seus filhotes, apenas cerca de 100 mil (FERRO, 2013). ↩
  21. 177 No original:"Their experiences may be more simple than ours, but are they less intense? Perhaps a caterpillar’s primitive pain when squashed is greater than our more sophisticated sufferings". ↩
  22. 178 Ver por exemplo Mill (1969 [1861], p. 209-217) e Singer (2002 [1993], p. 83-86). ↩
  23. 179 Sobre esse argumento, ver (2019). Para estatísticas sobre a quantidade de invertebrados e vertebrados, ver (2019). ↩
  24. 180 Para uma argumentação detalhada sobre a importância dessa questão, ver Cunha (2023). ↩
Fontes citadas neste texto 24

A lista completa do volume está em referências do Volume IV.

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