Questão
de Ética
EN

Volume IV · O debate sobre a exploração animal · capítulo 18

A alegação de que os defensores dos animais estão impondo o seu estilo de vida

3 min de leituraNível básico

Selecione um trecho para destacar, anotar ou compartilhar
Primeira vez neste assunto? Leia antes a versão simplificada, em linguagem para quem está começando (2 min).

Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original

Dizer que leis de proteção aos animais seriam "impor um estilo de vida" é autorrefutante: defende um direito contra imposições e, ao mesmo tempo, o direito de impor sofrimento e morte aos animais.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume IV, p. 71 da edição em PDF

Uma objeção frequentemente levantada contra garantir direitos legais para os animais é a alegação de que isso seria fazer uma imposição às pessoas, pois as obrigaria a respeitar os animais (por exemplo, explorar os animais seria então proibido).

Segundo essa objeção, os defensores dos animais têm o direito de apresentar argumentos defendendo sua posição, mas cada pessoa teria o direito de escolher aceitá-los ou não por vontade própria, sem uma lei que as obrigue.

Esse argumento tem dois problemas fundamentais, que discutiremos a seguir.

O primeiro problema é que é , pois os seus proponentes aceitam direitos legais para os humanos. Tanto é assim, que o argumento defende que aquelas pessoas que quiserem explorar os animais deveriam ter garantido o seu direito de fazê-lo.

Além disso, esse argumento seria amplamente repudiado se as vítimas fossem humanas. Imagine, por exemplo, se alguém defendesse que as pessoas deveriam ser livres para aceitar ou não a regra contra assassinar humanos, sem uma lei que as obrigue, pois isso seria fazer uma imposição às pessoas. Igualmente, tal argumento seria fortemente repudiado se não soubéssemos se nasceríamos como humanos ou como animais não humanos. Portanto, tal argumento também não passa no .

O segundo problema é que o argumento é auto refutante, pois defende que deveria haver um direito legal protegendo os indivíduos contra imposições, e ao mesmo tempo defende que deveria haver um direito legal de fazer imposições sobre os animais não humanos, inclusive para causar-lhes sofrimento extremo e a morte. Assim, apesar do que dizem, os proponentes dessa objeção não são contra imposições. Muito pelo contrário: o que estão a defender é um suposto direito de fazer imposições extremas sobre os animais não humanos. Mas, obviamente, não faz sentido defender algo assim alegando que fazer imposições é algo errado. Por essa razão, o argumento é auto refutante.

Por vezes esse argumento adquire uma forma mais extrema, que alega que o mero fato de se argumentar contra a já é errado, pois isso seria "impor um estilo de vida para os outros".

Além de apresentar os mesmos problemas do argumento anterior, esse argumento é um exemplo extremo de arbitrariedade. De um lado, o mero fato de se apresentar argumentos a favor dos animais é considerado uma imposição injustificada. De outro, impor literalmente uma vida de sofrimento extremo e também a morte a uma quantidade gigantesca de indivíduos não é sequer considerada uma imposição, porque suas vítimas são animais não humanos.

Desnecessário dizer que, se a mesma acusação aparecesse em relação a práticas cujas vítimas são humanas, seria percebido prontamente o quão desonesta ela é. É somente devido à alta predominância do especismo que acusações desse tipo surgem quando as vítimas são animais não humanos.

O fato de existirem pessoas que se intitulam veganas e aderem a esse ponto de vista, afirmando coisas como "eu sou , mas quem quiser explorar os animais deve ter garantido seu direito de fazê-lo, porque ninguém deve impor nada a ninguém" é um sinal de quanto o especismo está presente mesmo dentro do chamado movimento vegano. Se as vítimas fossem humanas, seria prontamente percebido o quão contraditório é defender, ao mesmo tempo, que não temos o direito de impor algo a alguém, e que também quem quiser impor algo a alguém deveria ter garantido seu o direito de fazê-lo. Sob a máscara de tolerância, o que estão a defender é, na verdade, que é errado contrariar quem quer explorar os animais, e que é certo impor sofrimento e morte aos animais não humanos.

Em resumo, apesar de essas pessoas não consumirem os animais, possuem uma visão sobre os animais que é exatamente igual à visão daquelas pessoas que consomem os animais e acham que é certo fazê-lo: acreditam que há um direito de causar sofrimento e morte aos animais. A única diferença é que escolhem não consumi-los. Mas, é exatamente assim que pensa quem consome os animais e acha que isso está correto (pois não defendem que há obrigação de consumir os animais; defendem apenas que é permissível fazê-lo). Em resumo, isso mostra que, infelizmente, nem todo mundo que é vegano rejeitou o especismo.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume IV
Ver todo o tema

Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Por que o capítulo chama o argumento de autorrefutante?

O capítulo critica também pessoas que não consomem animais, mas...

Para pensar

Que leis você apoia que "impõem" limites a uns para proteger outros?

Textos recomendados

Continue no tema O debate sobre a exploração animal.

Navegue pelos diferentes temas