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Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 4

O dano da morte e as razões contra matar

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As tentativas de justificar matar animais sem dor (não entendem a morte, não têm desejos sobre o futuro, não têm prazeres intelectuais, são substituíveis, têm conexão psicológica fraca, sofreriam de qualquer forma, têm pouco tempo, vida após a morte) não se sustentam.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 16 da edição em PDF

Uma posição comum é a de que não há nada de errado em matar certos tipos de animais, desde que a morte seja indolor15. A seguir estão listadas as principais tentativas de justificar essa posição16 e as críticas17 a essas tentativas:

Tentativa de justificar matar certos animais Críticas à tentativa de justificativa
A morte não os prejudica porque não entendem o que é a morte. (III, cap. 2).Isso é confundir ser prejudicado com ter consciência do prejuízo que terá. A morte priva alguém de continuar a desfrutar daquilo que lhe seria positivo, e isso é independente de o indivíduo entender ou não o que é a morte.
A morte não os prejudica porque não possuem desejos orientados para o futuro. (III, cap. 2).A morte impede alguém de desfrutar aquilo que de positivo experimentaria caso não morresse, e isso independe de esse alguém possuir ou não desejos orientados para o futuro. Por exemplo, suponha que duas crianças se divertirão em um passeio amanhã, mas apenas uma delas é grande o bastante para entender o conceito de amanhã e formar um desejo de ir no passeio amanhã. Entretanto, se ambas morrem hoje, ambas são prejudicadas.
São pouco prejudicados com a morte porque não são capazes de prazeres intelectuais, e estes são mais valiosos. (III, cap. 4).Mesmo que esse fosse o caso, não fundamentaria a conclusão. O que teria de ser mostrado para fundamentar a conclusão é que prazeres não intelectuais não são valiosos (e não que prazeres intelectuais são mais valiosos). Além disso, também é questionável a tese de que todo prazer intelectual é mais valioso. Por exemplo, reencontrar depois de 20 anos um ente querido desaparecido parece ser mais valioso do que muitas atividades intelectuais.
Comê-los beneficia-os, pois os faz nascer, e a morte de um é anulada pelo nascimento de outro. (III, cap. 8 e 9; IV, cap. 7).Se isso justificasse matar alguém, então todos os pais teriam direito de matar os filhos, desde que fizessem nascer outros para substituí-los. O mal de matar alguém que já existe é mais grave do que deixar de produzir novos seres, pois no primeiro caso já há um indivíduo que é prejudicado, enquanto que no segundo caso o que há são apenas inúmeras possibilidades futuras de seres sencientes.
São pouco prejudicados com a morte porque possuem uma conexão psicológica fraca com o seu futuro (pois suas mentes são mais simples). O grau de conexão psicológica depende do grau de memórias, intenções, desejos, etc. em comum entre dois instantes. (III, cap. 9).Duas críticas: (1) O fato de suas mentes serem mais simples pode implicar uma maior conexão psicológica, pois os seus conteúdos mentais variariam menos, e então a proporção de conteúdos mentais em comum nos diversos momentos seria maior (ainda que a quantidade de conteúdos em comum possa ser menor). (2) Possuir um alto grau de conexão psicológica (ou mesmo alguma conexão psicológica) não é necessário para alguém ser bastante prejudicado com a morte. Por exemplo, se alguém viveu pouco, e teria pela frente um futuro com experiências bastante positivas, parece que é prejudicado em alto grau se morrer (devido à morte impedir essas experiências), e isso independe do grau de conexão psicológica que teria com o seu eu futuro.
A morte os beneficia porque suas vidas, seja na exploração, seja na natureza, seriam repletas de sofrimento. (IV, cap. 6).Essa constatação jamais poderia justificar a exploração animal. Pelo contrário, dá razões para aboli-la, pois ela produz novos seres que terão vidas repletas de sofrimento. Ela também não poderia justificar "deixar a natureza seguir o seu curso". Pelo contrário, ela dá razões para tentar prevenir que os animais nasçam na natureza em contextos nos quais suas vidas seriam repletas de sofrimento.
A morte não os prejudica se tiverem pouco tempo pela frente (por serem idosos ou por conta de seu lifespan curto). (III, cap. 10).Alguém ter pouco tempo de vida pela frente não implica que a morte lhe será pouco prejudicial. O tempo que lhes resta pode ser muito valioso. Isso já é amplamente reconhecido no caso humano. Além disso, é possível que animais com cérebros menores (como insetos) tenham uma percepção subjetiva mais rápida do tempo. Assim, o que nos parece pouco tempo de vida talvez não seja.
Se houver vida após a morte, a morte não os prejudica, mesmo que sua vida aqui seja boa. (III, cap. 13).Há incerteza: (1) sobre se há ou não vida após a morte; e (2) sobre se, caso houver, se ela será pior ou melhor do que a atual. Por outro lado, sabemos como será provavelmente a vida do indivíduo se continuar vivo. Assim, a incerteza sobre ambos os pontos não pode justificar matar animais que possuem uma vida boa.
Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Duas crianças vão a um passeio amanhã, mas só uma entende o conceito de "amanhã". Se ambas morrem hoje...

A crença em vida após a morte justifica matar animais com vida boa?

Para pensar

Se um animal tem uma vida boa pela frente, o que ele perde ao ser morto sem dor?

Notas do autor 3
  1. 15 O dano da morte para os animais não humanos foi o tema do Volume III desta coleção. ↩
  2. 16 Ver, por exemplo, (1981). ↩
  3. 17 Ver, por exemplo, (2007, p. 537-777). ↩
Fontes citadas neste texto 2

A lista completa do volume está em referências do Volume XII.

  • CIGMAN, R. Death, Misfortune and Species Inequality. Philosophy & Public Affairs, v. 10, n. 1, p. 47-64, 1981.
  • HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.

Aprofunde cada ponto

Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.

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