Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 4
O dano da morte e as razões contra matar
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
As tentativas de justificar matar animais sem dor (não entendem a morte, não têm desejos sobre o futuro, não têm prazeres intelectuais, são substituíveis, têm conexão psicológica fraca, sofreriam de qualquer forma, têm pouco tempo, vida após a morte) não se sustentam.
Muita gente acha que matar um animal sem dor não é problema. Este capítulo mostra que morrer tira do animal todos os dias bons que ele viveria, e responde às desculpas mais comuns.
Apagar uma vela antes da hora não dói na vela, mas ela deixa de iluminar. A morte prematura tira a luz que ainda viria.
- P1 A morte priva alguém do que de positivo viveria, entenda ele ou não o que é a morte.
- P2 Isso independe de desejos sobre o futuro, de prazeres intelectuais e da conexão psicológica.
- P3 Substituir um animal por outro não compensa o prejuízo de quem morreu.
- C Logo, matar animais, mesmo sem dor, os prejudica.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Comê-los os beneficia, pois os faz nascer, e a morte de um é anulada pelo nascimento de outro.”
Resposta Se isso justificasse matar, pais poderiam matar filhos desde que fizessem nascer outros. Matar quem já existe é mais grave do que deixar de produzir novos seres.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 16 da edição em PDF
Uma posição comum é a de que não há nada de errado em matar certos tipos de animais, desde que a morte seja indolor15. A seguir estão listadas as principais tentativas de justificar essa posição16 e as críticas17 a essas tentativas:
| Tentativa de justificar matar certos animais | Críticas à tentativa de justificativa |
|---|---|
| A morte não os prejudica porque não entendem o que é a morte. (III, cap. 2). | Isso é confundir ser prejudicado com ter consciência do prejuízo que terá. A morte priva alguém de continuar a desfrutar daquilo que lhe seria positivo, e isso é independente de o indivíduo entender ou não o que é a morte. |
| A morte não os prejudica porque não possuem desejos orientados para o futuro. (III, cap. 2). | A morte impede alguém de desfrutar aquilo que de positivo experimentaria caso não morresse, e isso independe de esse alguém possuir ou não desejos orientados para o futuro. Por exemplo, suponha que duas crianças se divertirão em um passeio amanhã, mas apenas uma delas é grande o bastante para entender o conceito de amanhã e formar um desejo de ir no passeio amanhã. Entretanto, se ambas morrem hoje, ambas são prejudicadas. |
| São pouco prejudicados com a morte porque não são capazes de prazeres intelectuais, e estes são mais valiosos. (III, cap. 4). | Mesmo que esse fosse o caso, não fundamentaria a conclusão. O que teria de ser mostrado para fundamentar a conclusão é que prazeres não intelectuais não são valiosos (e não que prazeres intelectuais são mais valiosos). Além disso, também é questionável a tese de que todo prazer intelectual é mais valioso. Por exemplo, reencontrar depois de 20 anos um ente querido desaparecido parece ser mais valioso do que muitas atividades intelectuais. |
| Comê-los beneficia-os, pois os faz nascer, e a morte de um é anulada pelo nascimento de outro. (III, cap. 8 e 9; IV, cap. 7). | Se isso justificasse matar alguém, então todos os pais teriam direito de matar os filhos, desde que fizessem nascer outros para substituí-los. O mal de matar alguém que já existe é mais grave do que deixar de produzir novos seres, pois no primeiro caso já há um indivíduo que é prejudicado, enquanto que no segundo caso o que há são apenas inúmeras possibilidades futuras de seres sencientes. |
| São pouco prejudicados com a morte porque possuem uma conexão psicológica fraca com o seu futuro (pois suas mentes são mais simples). O grau de conexão psicológica depende do grau de memórias, intenções, desejos, etc. em comum entre dois instantes. (III, cap. 9). | Duas críticas: (1) O fato de suas mentes serem mais simples pode implicar uma maior conexão psicológica, pois os seus conteúdos mentais variariam menos, e então a proporção de conteúdos mentais em comum nos diversos momentos seria maior (ainda que a quantidade de conteúdos em comum possa ser menor). (2) Possuir um alto grau de conexão psicológica (ou mesmo alguma conexão psicológica) não é necessário para alguém ser bastante prejudicado com a morte. Por exemplo, se alguém viveu pouco, e teria pela frente um futuro com experiências bastante positivas, parece que é prejudicado em alto grau se morrer (devido à morte impedir essas experiências), e isso independe do grau de conexão psicológica que teria com o seu eu futuro. |
| A morte os beneficia porque suas vidas, seja na exploração, seja na natureza, seriam repletas de sofrimento. (IV, cap. 6). | Essa constatação jamais poderia justificar a exploração animal. Pelo contrário, dá razões para aboli-la, pois ela produz novos seres que terão vidas repletas de sofrimento. Ela também não poderia justificar "deixar a natureza seguir o seu curso". Pelo contrário, ela dá razões para tentar prevenir que os animais nasçam na natureza em contextos nos quais suas vidas seriam repletas de sofrimento. |
| A morte não os prejudica se tiverem pouco tempo pela frente (por serem idosos ou por conta de seu lifespan curto). (III, cap. 10). | Alguém ter pouco tempo de vida pela frente não implica que a morte lhe será pouco prejudicial. O tempo que lhes resta pode ser muito valioso. Isso já é amplamente reconhecido no caso humano. Além disso, é possível que animais com cérebros menores (como insetos) tenham uma percepção subjetiva mais rápida do tempo. Assim, o que nos parece pouco tempo de vida talvez não seja. |
| Se houver vida após a morte, a morte não os prejudica, mesmo que sua vida aqui seja boa. (III, cap. 13). | Há incerteza: (1) sobre se há ou não vida após a morte; e (2) sobre se, caso houver, se ela será pior ou melhor do que a atual. Por outro lado, sabemos como será provavelmente a vida do indivíduo se continuar vivo. Assim, a incerteza sobre ambos os pontos não pode justificar matar animais que possuem uma vida boa. |
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Duas crianças vão a um passeio amanhã, mas só uma entende o conceito de "amanhã". Se ambas morrem hoje...
A crença em vida após a morte justifica matar animais com vida boa?
Para pensar
Se um animal tem uma vida boa pela frente, o que ele perde ao ser morto sem dor?
Notas do autor 3
Fontes citadas neste texto 2
A lista completa do volume está em referências do Volume XII.
- CIGMAN, R. Death, Misfortune and Species Inequality. Philosophy & Public Affairs, v. 10, n. 1, p. 47-64, 1981.
- HORTA, O. Un desafío para la bioética: la cuestión del especismo. Tese (Doutorado em Filosofia). Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, 2007.
Aprofunde cada ponto
Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.
- Vol. III Discutindo a alegação de que os animais não são prejudicados com a morte
- Vol. III Quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte?
- Vol. III Discutindo a alegação de que os animais são substituíveis
- Vol. III Seriam os animais não humanos pouco prejudicados com a morte?
- Vol. IV Criar animais para consumo está justificado, uma vez que os faz existir?
- Vol. IV A alegação de que consumir os animais acaba com o sofrimento deles
- Vol. III A alegação de que ter pouco tempo restante torna a morte um dano pequeno
- Vol. III Reflexões adicionais: morte, aniquilação, decisão racional e probabilidades
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