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Volume XII · O essencial sobre ética animal · capítulo 5

Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais

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Ambientalismo e consideração pelos animais têm metas finais diferentes: um valoriza em si configurações de ecossistemas e espécies; o outro, o bem-estar dos sencientes. Equilíbrio, biodiversidade e "olhar o todo" não equivalem a cuidar dos animais.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume XII, p. 18 da edição em PDF

O termo "" é aplicado a visões muito diferentes entre si. Por vezes, é utilizado em referência às posições que visam preservar o meio ambiente enquanto recurso para os humanos ou para os animais de outras espécies. Em outras é utilizado em referência às posições que defendem que certas entidades não (como ecossistemas e espécies, por exemplo) possuem valor em si, e não, enquanto recurso. No que se segue, utilizaremos o termo "ambientalismo" nesse segundo sentido, pois são essas perspectivas18 que são normalmente confundidas com a defesa dos animais, e a presente seção tem como objetivo explicitar suas diferenças19. Boa parte da confusão ocorre devido à não percepção de quais são as metas finais de cada uma dessas visões (isto é, quais coisas são valorizadas em si) e quais coisas são valorizadas apenas enquanto meio para alcançar essas metas. O quadro a seguir explicita as metas finais de cada uma dessas posições:

Posição O meio ambiente deve ser mantido...
AntropocêntricaNa configuração que for melhor para os humanos
Centrada na senciênciaNa configuração que for melhor para seres sencientes em geral
AmbientalistaEm determinadas configurações*, mesmo que isso seja pior para os seres sencientes em geral

*Cada variante do ambientalismo valoriza configurações distintas20. Exemplos de critérios utilizados são: o grau de complexidade, de raridade, o tempo com que levou para se formar, o quão pouco foi modificado por ações humanas e seu grau de propriedades estéticas.

A maior parte dos programas e das legislações que dizem respeito a possui metas ambientalistas. Isso se deve, em parte, à predominância da ideia de que os animais individualmente não importam (e sim apenas os ecossistemas e as espécies). Nesses programas, os animais serão prejudicados ou beneficiados dependendo do que for mais eficiente para alcançar as metas ambientalistas21. Entretanto, é comum que os programas ambientalistas sejam equivocadamente entendidos como visando beneficiar os seres sencientes. Os quadros a seguir esclarecem as principais confusões sobre essa questão.

Crença comum equivocada O que realmente cada posição almeja
Ambientalismo e defesa animal almejam o bem dos animais, mas discordam dos meios para alcançar essa meta: o ambientalismo concorda com matar uma minoria para salvar a maioria e a defesa animal discorda.Quando programas ambientalistas matam animais, o fazem porque essa é a única maneira de salvar muitos animais daí para frente (essa é a sua meta). (V, cap. 2 e 8).Ambientalismo e defesa animal possuem metas diferentes. A defesa dos animais valoriza em si o bem-estar dos seres sencientes. O ambientalismo valoriza em si entidades não sencientes, como ecossistemas ou espécies. A meta do ambientalismo é manter os ecossistemas em certas configurações que valoriza, mesmo que isso não seja o melhor para os seus habitantes. A meta dos programas ambientalistas não é salvar seres sencientes (seja maioria ou minoria). Já entre os defensores dos animais, há tanto quem defende matar uma minoria se essa for a única maneira de salvar uma maioria, quanto quem rejeita essa posição.
A defesa animal é centrada nos indivíduos, e o ambientalismo é centrado no "todo" (como espécies e ecossistemas). Isso significa que o ambientalismo prioriza salvar a maioria dos seres sencientes, mesmo que para isso seja necessário matar uma minoria (pois prioriza o todo), e a defesa animal se opõe a isso (pois prioriza o indivíduo). (V, cap. 2 e 8).Consideração por indivíduos não implica necessariamente priorizar um indivíduo frente a vários. Quer dizer apenas que o foco da consideração moral são os seres sencientes (isto é, os indivíduos), e não, entidades não sencientes. Isso é compatível tanto com posições que priorizam salvar a maioria quanto com as que priorizam a minoria em certas condições (por exemplo, por estarem em uma situação pior). Da mesma maneira, consideração pelo "todo", tal como presente no ambientalismo, não é a consideração pela maioria (ou por indivíduo algum). É a consideração pela espécie enquanto entidade abstrata (e não por seus membros) e por ecossistemas (e não por seus habitantes).
A defesa animal defende ajudar os animais selvagens sem se preocupar com as consequências, e o ambientalismo prescreve não ajudá-los por receio de que fazê-lo possa causar ainda mais sofrimento. (V, cap. 4).A diferença entre essas posições não tem a ver com uma delas considerar o longo prazo e outra não. Ambas podem considerar o longo prazo. O que as diferencia são suas metas. Afirmar que certa ajuda não deveria ser conduzida porque poderia causar mais sofrimento em longo prazo é uma preocupação com os seres sencientes (portanto, não é uma preocupação ambientalista).
Apesar das diferenças, ambientalismo e defesa animal convergem na prática, pois os animais precisam do meio ambiente, e o ambientalismo visa preservá-lo. (V, cap. 3).Isso ocorrerá em alguns casos, mas não em outros. É possível preservar o meio ambiente nas mais distintas configurações. As configurações almejadas pelo ambientalismo muitas vezes não coincidem com aquela que é melhor (ou mesmo boa) para os animais.
Quanto maior o grau de equilíbrio ecológico e de biodiversidade, melhor para os animais. É por isso que os ambientalistas almejam tais coisas: porque sua meta é o bem dos animais. (V, cap. 5).O ambientalismo valoriza o equilíbrio ecológico e a biodiversidade não por preocupação com o bem dos animais. Valoriza essas coisas em si, ou como meio para manter os ecossistemas em certas configurações (estas sim, valorizadas em si). Além disso, muitas vezes um maior grau de equilíbrio e/ou de biodiversidade não coincidem com o que é melhor (ou mesmo minimamente bom) para os animais. Esses conceitos são baseados, respectivamente, na variação no tamanho das populações ao longo do tempo e na diversidade de espécies. Isso não indica que o bem-estar dos animais nessas situações é necessariamente positivo.
O ambientalismo é cientificamente informado pela ecologia, enquanto a defesa animal é anti-científica. (V, cap. 6, VII, cap. 19).Na verdade, qualquer visão normativa precisa ser bem informada cientificamente pois, do contrário, não alcançará as metas que busca. A ecologia é uma ciência que descreve como se dão as interações nos ecossistemas. Esse conhecimento pode ser utilizado para tentar buscar metas ambientalistas, mas também pode ser utilizado para tentar beneficiar os seres sencientes.
Se for mostrado que ecossistemas e espécies possuem valor em si, está justificado matar os animais para preservar espécies e ecossistemas e também que é errado ajudar os animais quando vítimas de processos naturais. (V, cap. 10).Não, pois para fundamentar tais conclusões seria necessário não apenas mostrar que tais entidades não sencientes possuem valor em si, mas também que sua preservação é mais importante do que prevenir sofrimento e morte de seres sencientes. Além disso, há razões para se priorizar os seres sencientes, pois nenhuma entidade não senciente é capaz de sofrer ou de a morte impedi-la de desfrutar – prejuízos muito graves.
Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume XII
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

Segundo o quadro, como cada posição quer o meio ambiente mantido?

"O ambientalismo é científico; a defesa animal, não." Qual é a resposta?

Para pensar

Que campanha ambiental você conhece que talvez não seja boa para os animais que vivem no lugar?

Notas do autor 4
  1. 18 Para exemplos dessas perspectivas, ver (1980) e (1999). ↩
  2. 19 Esse foi o tema do Volume V desta coleção. Sobre isso, ver também (2019). ↩
  3. 20 Essas muitas variantes são representadas na coletânea organizada por Zimmerman et. al. (1993). ↩
  4. 21 Para uma discussão sobre esses programas, ver (2004) e (2012). ↩
Fontes citadas neste texto 4

A lista completa do volume está em referências do Volume XII.

  • CALLICOTT, J. B. Animal Liberation: A Triangular Affair. Environmental Ethics, v. 2, n. 4, p. 311-338, 1980.
  • FARIA, C. Muerte entre las flores: el conflicto entre el ambientalismo y la defensa de los animales no humanos. Viento Sur, v. 125, p. 67-76, 2012.
  • SHELTON. J. A. Killing Animals That Don´t Fit In: Moral Dimensions of Habitat Restoration. Between the Species, v. 13, n. 4, 2004.
  • ZIMMERMAN, M. E.; CALLICOTT, J. B.; SESSIONS, G.; WARREN, K. J.; CLARK, J. (orgs.). Environmental Philosophy: From Animal Rights to Radical Ecology. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1993.

Aprofunde cada ponto

Os capítulos indicados pelo autor nos quadros acima.

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