Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 8
O que é almejado com os programas ambientalistas de extermínio?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Programas ambientalistas de extermínio de espécies "invasoras" não visam reduzir o sofrimento e as mortes dos animais (às vezes os aumentam muito): visam manter configurações valorizadas. Não passam no teste da imparcialidade.
Em vários lugares, matam-se muitos animais só porque eles "não são de lá". Muita gente acha que isso protege os outros bichos, mas muitas vezes a matança causa ainda mais sofrimento. Ninguém aceitaria isso se fosse com gente.
Imagine uma cidade que decidisse eliminar todos os moradores que vieram de fora para "manter a população original". Ninguém chamaria isso de cuidado com as pessoas.
- P1 Esses programas costumam ser apoiados por se acreditar que evitam algo pior para os animais.
- P2 Em vários casos, eles aumentaram muito o sofrimento e as mortes.
- P3 A meta real é preservar configurações ecológicas valorizadas, não o bem dos animais.
- P4 As pessoas que os aprovam só o fazem porque sabem que não serão vítimas.
- C Logo, os programas de extermínio não passam no teste da imparcialidade e não são justos.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Espécie invasora tem que ser eliminada para proteger as nativas.”
Resposta Proteger o quê, exatamente? Se a meta fosse reduzir sofrimento, muitos programas teriam sido cancelados. Valorizar "nativo" mais do que a vida de quem sente é um critério que nunca aceitaríamos para humanos.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 31 da edição em PDF
Não é incomum que programas ao redor de todo o mundo conduzam extermínios em massa de animais de espécies classificadas como invasoras57. Frequentemente esses programas são apoiados pelo público devido à crença de que sua meta é garantir que, dali para frente, não aconteça algo ainda pior para os animais. Vimos em capítulos anteriores que não é isso que tais programas almejam, pois diminuir sofrimento e mortes não é uma das metas do ambientalismo. Neste capítulo investigaremos o que realmente é almejado por tais programas.
A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) define espécie invasora como "uma espécie exótica que se estabelece em um ecossistema ou habitat natural ou seminatural, é um agente causador de mudanças e ameaça a diversidade biológica nativa"58. Observe que essa definição é sobre a origem da espécie, e não sobre a origem de seus membros. Isso significa que um animal de uma espécie invasora pode ter nascido no local em que se encontra (como veremos mais adiante, geralmente esse é o caso). A seguir veremos o exemplo de um caso que ilustra o que pode ser considerado como ameaça à diversidade biológica nativa de acordo com essa definição (pois esse é um dos fatores-chave para classificar uma espécie como invasora).
O caso do programa de extermínio dos patos-de-rabo-alçado-americanos no sul da Europa59 oferece um bom exemplo para ilustrar o que é almejado pelo ambientalismo com programas desse tipo. O pato-de-rabo-alçado (Oxyura leucocephala) é uma espécie nativa da Europa, e é considerada ameaçada de extinção. Já a espécie pato-de-rabo-alçado-americano (Oxyura jamaicensis) foi introduzida pelos humanos na Europa na década de 1950, e não está em risco de extinção. A única característica que distingue os membros dessas espécies é a cor das penas da cabeça. Nesse caso, o que motivou as políticas de matança foi o fato de que os Oxyura jamaicensis se entrecruzaram ao longo dos anos com os Oxyura leucocephala e nos descendentes híbridos prevaleceu a cor das penas da cabeça da espécie de origem americana, e não a cor da espécie nativa.
Isso foi considerado uma ameaça à porque a hibridização foi vista como contribuindo para a extinção da espécie nativa. Contudo, o que foi classificado como ameaça à biodiversidade e como contribuição para extinção nesse caso foi simplesmente o fato de a cor da espécie nativa não prevalecer nos descendentes (e não, como poderia ser entendido à primeira vista, mortes de membros da espécie nativa). Foi então conduzido um programa para matar todos os patos da espécie Oxyura jamaicensis e também todos os patos híbridos.
Fica muito claro então que o programa não tinha como objetivo alcançar uma redução do sofrimento e das mortes dos animais. Na verdade, o programa aumentou muito o sofrimento e a quantidade de mortes. Qual é então a meta que os ambientalistas visavam alcançar com esse programa de extermínio? Nesse caso, não poderiam apelar a uma preocupação com o , pois a função ecológica, seja dos patos europeus, americanos ou híbridos, é exatamente a mesma. Essa prática também não parece fazer sentido do ponto de vista da biodiversidade, pois havendo apenas os patos europeus há uma menor quantidade de espécies do que se houver os patos americanos e os híbridos.
Esse ponto mostra que a meta foi conseguir que houvesse no local somente os membros das espécies valorizadas pelo ambientalismo (por exemplo, as espécies nativas60, ou as que exibem características admiradas pelos ambientalistas61). O objetivo da matança, nesse caso, foi evitar a hibridização e manter a espécie nativa "pura". Na visão ambientalista, essa é uma meta tão importante que justifica matar uma enorme quantidade de seres .
Metas como essa seriam amplamente consideradas hediondas se fossem aplicadas no caso humano. Por exemplo, os programas nazistas de extermínio baseados no ideal de pureza racial são amplamente citados como um exemplo paradigmático de prática hedionda. Na verdade, a vasta maioria dos próprios ambientalistas rejeita fortemente a aplicação de suas medidas a seres humanos, mantendo-as somente quando as vítimas seriam animais não humanos62. Isso mostra que, na vasta maioria das vezes, os ambientalistas combinam o princípio ambientalista
com um princípio , dando maior peso a este último, para não ter que aceitar para os humanos as implicações dos princípios ambientalistas que defendem.
Isso sugere fortemente que as práticas ambientalistas que envolvem o extermínio de animais não passam no teste da imparcialidade, pois as pessoas que as aprovam só o fazem porque sabem que não serão suas vítimas. Uma vez que a é um dos requisitos centrais da justiça, isso mostra que não há como tais práticas serem justas.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Os programas de extermínio, segundo o capítulo, visam...
Por que essas práticas não passariam no teste da imparcialidade?
Para pensar
Que critério tornaria aceitável matar um animal só por ele estar "fora do lugar"? Você aceitaria esse critério para si?
Notas do autor 6
- 57 Para exemplos, ver nota 19. ↩
- 58 Ver: https://www.cbd.int/invasive/terms.shtml. Acessado em 05 mar. 2022. ↩
- 59 Para o programa de extermínio, ver Council of Europe (2020). Para uma crítica a esse tipo de prática, ver (2004) e (2011, 2012). ↩
- 60 Considere outro exemplo. O governo da Nova Zelândia investiu 790 mil dólares neozelandeses no desenvolvimento de um novo drone com a finalidade de envenenar animais considerados exóticos invasores. A justificativa oferecida foi "restaurar a natureza para que as espécies nativas possam crescer e prosperar" (grifo meu). Sobre isso, ver Roy (2020). Para uma crítica, ver Genovez (2023). ↩
- 61 Por exemplo, (1999, p. 260-1) defende matar animais que consomem ou pastam sobre flores raras. ↩
- 62 Ver, por exemplo, (1990, p. 103; 1992, p. 146-7; 1998; 1999, p. 76; 2000, p. 211); (1994, p. 13-4); (2000 [1949], p. 135); (1989, p. 167, 170; 1999, p. 148); Rolston (1999, p. 260-1); (1991, p. 177); Warren (2000a, p. 228) e (1998, p. 308). ↩
Fontes citadas neste texto 18
A lista completa do volume está em referências do Volume V.
- CALLICOTT, J. B. Beyond the Land Ethic: More Essays in Environmental Philosophy. Albany: Suny Press, 1999.
- CALLICOTT, J. B. Moral Considerability and Extraterrestrial Life. In: HARGROVE, E. (org.). The Animal Rights/Environmental Ethics Debate: The Environmental Perspective. Albany: State University of New York, 1992, p. 137-150.
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- CALLICOTT, J. B. The Land Ethic. In: JAMIESON, D. (org.). A Companion to Environmental Philosophy. Oxford: Blackwell, 2000, p. 204-17.
- CALLICOTT, J. B. The Land Ethic: Key Philosophical and Scientific Challenges. Ideas Matter Lecture Series: The Legacy of Aldo Leopold. Corvallis: Oregon State University, 1998.
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- WENZ, P. S. Environmental justice. Albany: State University of New York Press, 1998.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Ambientalismo e defesa animal almejam o bem dos animais, mas discordam dos meios para alcançar essa meta: o ambientalismo concorda com matar uma minoria para salvar a maioria e a defesa animal discorda.Quando programas ambientalistas matam animais, o fazem porque essa é a única maneira de salvar muitos animais daí para frente (essa é a sua meta). (V, cap. 2 e 8).
A defesa animal é centrada nos indivíduos, e o ambientalismo é centrado no "todo" (como espécies e ecossistemas). Isso significa que o ambientalismo prioriza salvar a maioria dos seres sencientes, mesmo que para isso seja necessário matar uma minoria (pois prioriza o todo), e a defesa animal se opõe a isso (pois prioriza o indivíduo). (V, cap. 2 e 8).
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