Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 7
Por que o respeito pelos animais é confundido com o ambientalismo?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Vários fatores explicam a confusão entre defesa dos animais e ambientalismo, como a crença de que ambos querem o bem dos animais e a confusão entre ambientalismo e ecologia; ela leva defensores dos animais a apoiar práticas que os prejudicam muito.
As pessoas misturam "gostar de bicho" com "gostar de natureza" porque as duas coisas aparecem juntas na TV e nas campanhas. Por causa dessa confusão, às vezes alguém apoia um projeto que, sem saber, mata muitos animais.
Confundir "vegetariano" com "vegano" faz muita gente comprar um produto com leite achando que está ajudando os animais. Confusões de nome podem levar a escolhas contrárias ao que se queria.
- P1 Defesa dos animais e ambientalismo têm metas divergentes e muitas vezes conflitantes.
- P2 Mesmo assim, são confundidos por vários fatores, inclusive a confusão entre ambientalismo e ecologia.
- P3 Essa confusão leva defensores dos animais a aprovar práticas ambientalistas muito prejudiciais aos animais.
- C Logo, entender a diferença é importante para não agir contra o que se defende.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Mas todo mundo sabe que ambientalista é quem defende os bichos.”
Resposta É justamente essa crença que o capítulo examina. Muitos programas apoiados como "pró-animais" têm metas que não incluem o bem dos animais.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 26 da edição em PDF
Vimos nos capítulos anteriores que a consideração pelos animais e o possuem metas divergentes que na prática muitas vezes conflitam. Vimos também que, apesar disso, essas perspectivas são frequentemente confundidas umas com as outras. Neste capítulo veremos um resumo sobre os vários fatores que contribuem para essa confusão.
(1) A maioria das pessoas desconhece as bases nas quais está fundado o ambientalismo e quais são realmente as metas dessa posição. Isso ocorre simplesmente porque não costumam ler aquilo que é proposto pela posição que simpatizam. Por exemplo, a maioria das pessoas desconhece que representantes proeminentes de correntes diversas de ambientalismo, como 44, ecologia profunda45 e ecologia social46 se posicionam frequentemente contra a dos animais não humanos47. Também desconhecem que a é tipicamente defendida por muitos dos principais autores ambientalistas48 e por diversas das principais organizações ambientalistas49. Ao fazerem isso esses autores e essas organizações ambientalistas não estão sendo incoerentes em relação aos princípios que defendem. Muito pelo contrário: se posicionam contra a consideração pelos animais porque os princípios ambientalistas que defendem não valorizam em si o bem dos animais.
Além disso, há outras posições ambientalistas que não implicam necessariamente a desconsideração pelos animais ou uma postura especista, mas que vários de seus representantes defenderam posturas antropocêntricas, como é o caso do 50 e do ecofeminismo51. Entretanto, muitas pessoas, por não lerem o que os proponentes de uma posição defendem, tendem a pressupor que necessariamente tratam-se de posições que dão consideração moral plena a todos os seres .
(2) Ambientalistas tendem a colocar a questão em termos de "preservar ou destruir o meio ambiente", o que esconde que é possível preservá-lo em várias configurações distintas. Por exemplo, podemos almejar preservar o meio ambiente na configuração que mais beneficiar os seres sencientes (e, como vimos no capítulo 3, isso não necessariamente coincidirá com aquelas configurações almejadas pelo ambientalismo).
Colocar as coisas em termos da falsa dicotomia "preservar ou destruir", além de esconder que é possível preservar o meio ambiente nas mais variadas configurações, pode dar a entender equivocadamente que, se não compartilhamos dos valores ambientalistas, então não nos preocupamos com os afeitos das práticas humanas sobre o meio ambiente. Isso é simplesmente falso. Podemos rejeitar os valores ambientalistas e nos preocuparmos igualmente com essas questões por estarmos preocupados com o impacto sobre os seres sencientes.
(3) A crença equivocada de que e necessariamente coincidem com a melhor situação para os animais. Como vimos no capítulo 5 esses conceitos referem-se, respectivamente, à variedade de espécies e à permanência de um ecossistema dentro de uma faixa de variação que ainda permite o retorno a um ponto anterior, tomado como referência52. Vimos também que nenhum desses conceitos indica os níveis de bem-estar dos animais. Em outras palavras, é possível que uma situação contenha alto grau de biodiversidade e de equilíbrio e tenha um saldo altamente negativo para os animais (e é também possível que seja pior para os animais do que outra que contém menor biodiversidade ou equilíbrio).
Entretanto, como as medidas ambientalistas são conduzidas frequentemente em nome da biodiversidade e do equilíbrio ecológico, e no senso comum muitas pessoas associam esses conceitos a uma melhor situação para os animais, esse é um dos fatores que pode conduzir as pessoas a confundirem o ambientalismo com a consideração pelos animais.
(4) A confusão entre ecologia e ambientalismo. Como vimos no capítulo 6, a ecologia é a ciência que descreve como se dão as interações nos ecossistemas. Já o ambientalismo é a posição normativa que defende que certas entidades não sencientes possuem . Há
uma diferença entre o conhecimento descritivo e as metas normativas que guiam a aplicação do conhecimento já existente e a busca por novos conhecimentos. Para se buscar novos conhecimentos em ecologia (e para se utilizar o conhecimento já existente) não é necessário adotar o ambientalismo enquanto postura normativa. Tais conhecimentos poderiam ser utilizados com a meta de beneficiar os próprios animais.
Como também é possível utilizar o conhecimento proveniente da ecologia para beneficiar os animais, e como o ambientalismo é confundido com a ecologia, isso por vezes também contribui para a confusão entre defesa dos animais e ambientalismo.
(5) As intervenções ambientalistas por vezes beneficiam alguns animais. Isso pode dar a entender que o ambientalismo valoriza em si o bem dos animais. Entretanto, nesses casos os animais são ajudados pelos programas ambientalistas somente porque fazê-lo é um meio para alcançar outras metas, como a preservação de certas espécies ou manter o ecossistema em uma determinada configuração. A prova de que a meta do ambientalismo não é o bem dos animais é que, quando os animais são membros de espécies que não estão em risco de extinção, os ambientalistas não veem normalmente nada de errado em matá-los, e quando são membros de espécies classificadas como invasoras os ambientalistas conduzem programas de extermínio53.
É claro, existem muitas pessoas que, para além de serem ambientalistas, também são favoráveis à consideração moral dos animais não humanos. Essas pessoas mantêm, portanto, uma posição híbrida, que combina princípios ambientalistas com princípios centrados na senciência. O fato de haver pessoas que, para além de serem ambientalistas, também consideram os animais, pode ajudar a conseguir que ambientalistas promovam intervenções que beneficiem os animais e para que não promovam aquelas que prejudicam os animais. Entretanto, isso não significa que o ambientalismo como tal considere os animais, pelas razões já vistas. O que acontece, nesses casos, é que essas pessoas estão combinando outra ideia (a consideração pelos animais) com o ambientalismo.
(6) Frequentemente, quando o ambientalismo conduz programas de extermínio de animais, o público entende equivocadamente que essa é a única saída para garantir que, dali para frente,
não haja ainda mais sofrimento e mortes prematuras de animais. Em resumo, o público entende equivocadamente que tanto a defesa dos animais quanto o ambientalismo possuem como meta o melhor mundo para os animais, mas que discordam dos meios para alcançar esse resultado. Como vimos, em detalhes no capítulo 2, a meta do ambientalismo não é o bem dos animais.
Um ponto que contribui para essa confusão é que, como vimos no item 2.2, frequentemente a afirmação de que "a defesa dos animais foca no indivíduo e o ambientalismo foca no todo" é entendida equivocadamente como significando que defensores dos animais priorizam o bem de um indivíduo frente a uma maioria, e que o ambientalismo prioriza a maioria dos seres sencientes frente a uma minoria. Segundo essa interpretação, os programas ambientalistas matam animais apenas porque isso é necessário para salvar um número ainda maior de animais. Essa interpretação é equivocada, pois o que a frase quer dizer é que a defesa dos animais é centrada na consideração por indivíduos, seres sencientes, e que o ambientalismo valoriza em si totalidades não sencientes, como espécies e ecossistemas (e não, os membros das espécies ou os habitantes dos ecossistemas). Os programas ambientalistas de matança de animais não tem como meta salvar seres sencientes, seja a maioria ou a minoria. No ambientalismo, o centro da consideração moral são entidades não sencientes.
(7) Quando ambientalistas conduzem matanças de animais que são membros de espécies classificadas como invasoras54, por vezes o público entende que são animais que estão a invadir algum local (o que não justifica a matança, mas torna mais fácil que o público a aceite). Entretanto, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) define espécie invasora como "uma espécie exótica que se estabelece em um ecossistema ou habitat natural ou seminatural, é um agente causador de mudanças e ameaça a diversidade biológica nativa"55. Ou seja, o termo faz referência à origem da espécie, e não, à origem de seus membros. Portanto, um animal de uma espécie invasora pode ter nascido no local onde se encontra. Esse é geralmente o caso, pois a inserção da espécie em um local que não é o seu território natural de distribuição normalmente foi feita há muitas gerações. Discutiremos essa questão em mais detalhes no capítulo 8.
(8) Ambientalistas utilizam termos que contribuem para que os animais que serão mortos sejam vistos como vilões (por exemplo, normalmente são chamados de pragas ou de ameaças). Além disso, costumam destacar os prejuízos que os animais que serão mortos causam a outros animais das espécies que os ambientalistas valorizam56. Isso pode dar a entender que a meta ambientalista é diminuir a taxa de sofrimento e mortes totais. Entretanto, na retórica ambientalista não são mencionados os danos causados pelos animais das espécies que os ambientalistas valorizam, nem os danos que sofrem os animais que serão o alvo da matança. Se a preocupação fosse com o bem dos animais, danos de igual magnitude receberiam igual peso, independentemente de se são sofridos ou causados por membros de uma espécie rara ou abundante, nativa ou invasora etc. Definitivamente, isso não é o que acontece nas intervenções ambientalistas.
Esses são alguns dos principais fatores na base da confusão entre consideração pelos animais e ambientalismo. Essa confusão conduz frequentemente os defensores dos animais a aprovarem práticas ambientalistas extremamente prejudiciais aos animais, justamente por pensarem que a meta de tais práticas é beneficiar os animais.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual é uma consequência da confusão, segundo o capítulo?
Qual destes é citado como fator da confusão?
Para pensar
De onde vem a sua imagem do que é ser ambientalista?
Notas do autor 13
- 44 Para exemplos, ver (1980, 1990, p. 103, 1992, p. 146-7, 1998; 2000, p. 211) e (2000 [1949], p. 135). ↩
- 45 Para exemplos, ver Devall e Sessions (1985); Fox (1995) e (1989, p. 167, 170; 1999, p. 148). ↩
- 46 Ver, por exemplo, a visão defendida por Bookchin (1994). ↩
- 47 Para exemplos adicionais, ver (1994, p. 13-4); (2009); (1999, p. 260-1); (1991, p. 177) e (1998, p. 308). ↩
- 48 Para exemplos, ver nota 16. ↩
- 49 Para exemplos, ver notas 11 e 12. ↩
- 50 Para exemplos, ver (1962 [1923] p. 354) e Varner (2002, p. 79). ↩
- 51 Por exemplo, Plumwood (1993) e Warren (2000a, p. 220; 2000b) discutem o especismo antropocêntrico, mas não o rejeitam, e as posições de Shiva (1992) e Holland-Cunz (1996[1994]) são centradas nos interesses humanos em conservar certos ecossistemas. Dentre as ecofeministas que, de fato, questionam o antropocentrismo, podemos citar Adams (1994) e (2006). ↩
- 52 Para a definição desses conceitos, ver Grimm e Wissel (1997) e Lévêque (2003). ↩
- 53 Para exemplos, ver nota 19. ↩
- 54 Ver nota anterior. ↩
- 55 Ver: https://www.cbd.int/invasive/terms.shtml. Acessado em 05 mar. 2022. ↩
- 56 Para uma análise crítica sobre a retórica ambientalista, ver Genovez (2023). Para exemplos dessa retórica por parte de ambientalistas, ver Davis (2018) e também a posição de Brent Beaven, coordenador de um programa de extermínio de animais exóticos, entrevistado por Roy (2020). ↩
Fontes citadas neste texto 29
A lista completa do volume está em referências do Volume V.
- ADAMS, C. Neither Man Nor Beast: Feminism and the Defence of Animals. New York: Continuum, 1994.
- BOOKCHIN, M. Which Way for the Ecology Movement. São Francisco: AK Press, 1994.
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