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Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 6

Defesa dos animais e ambientalismo: a divergência é ética, e não, científica

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A divergência entre defesa animal e ambientalismo é ética, não científica: a ecologia descreve, não prescreve metas, e uma posição centrada no bem dos animais pode ser tão bem informada cientificamente quanto qualquer outra, por exemplo pela biologia do bem-estar.

Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 23 da edição em PDF

Os precisam se basear nos conhecimentos provenientes da ecologia e de outras ciências relacionadas para alcançar suas metas. Por conta disso, existe uma ideia de que, para se utilizar o conhecimento existente nessas áreas e para se obter novos conhecimentos nelas, é necessário adotar uma postura ambientalista. Segundo essa visão, os programas que visam ajudar os animais selvagens, se tiverem como meta garantir o bem dos próprios animais37 (e não, indiretamente, uma meta ambientalista), não poderiam ser cientificamente informados.

Essa ideia é equivocada. A ecologia lida com categorias como espécies e ecossistemas, mas isso não implica que, para se obter conhecimento em ecologia ou para se utilizar o conhecimento já existente, seja necessário incorporar uma perspectiva que valoriza em si entidades como espécies ou ecossistemas, e não os indivíduos . Uma coisa é o conhecimento científico, descritivo; outra coisa são as metas normativas que guiam o uso desse conhecimento e a busca por novos conhecimentos38.

Não são apenas as intervenções que possuem metas ambientalistas que podem ser bem informadas cientificamente. Pensar que sim é confundir a ecologia com o ambientalismo. A ecologia é a ciência que descreve como se dão as interações nos ecossistemas. Já o ambientalismo é a visão normativa que defende que o que possui são entidades não sencientes como espécies e ecossistemas, e não os seres sencientes. O conhecimento científico é descritivo e, como tal, é possível de ser utilizado pelas mais variadas posições normativas para alcançar diferentes metas. O ambientalismo é apenas uma dessas posições.

O conhecimento proveniente da ecologia de áreas relacionadas é predominantemente utilizado para alcançar metas antropocêntricas e ambientalistas. Entretanto, poderia ser utilizado igualmente para tentar alcançar a meta de diminuir o sofrimento e as mortes dos animais. Aliás, muito mais conhecimento nessas áreas seria buscado se os animais recebessem , pois então haveria um interesse em se descobrir como os animais são afetados positiva ou negativamente de acordo com o que acontece nos ecossistemas (algo que não ocorre – ou ocorre em muito menor medida – se os bem dos animais não é valorizado em

si). Essa é uma das razões pelas quais está sendo proposta a criação do campo da biologia do bem-estar39. Veremos mais sobre esse campo a seguir.

A tem como foco investigar como os animais em seus ecossistemas são afetados positiva e negativamente enquanto seres sencientes que possuem um bem-estar. É, portanto, diferente da biologia da conservação40, que estuda os animais enquanto componentes da ecossistemas ou exemplares de espécies. Também é diferente da conservação compassiva41, que estuda os animais do ponto de vista da conservação mas evitando prejudicá-los nessa busca. Por fim, também é diferente do bem-estar da conservação42, que investiga como promover o bem-estar dos animais quando medidas conservacionistas são implementadas. O conhecimento proveniente dessas outras áreas pode ser útil à biologia do bem-estar (e vice-versa), mas o foco de cada um desses campos é diferente. O que difere essencialmente a biologia do bem-estar de todos esses outros campos é que ela estuda o modo como os animais são afetados positiva ou negativamente enquanto seres sencientes que possuem um bem-estar independentemente de isso servir ou não à propósitos conservacionistas.

A biologia do bem-estar envolveria em conjunto conhecimentos provenientes de várias outras disciplinas, como a ecologia, a ciência do bem-estar animal, a zoologia, a etologia e a ciência veterinária. Trata-se de um campo crosdisciplinar de pesquisa, que é algo diferente de campos interdisciplinares e transdisciplinares. Isso será explicado em mais detalhes a seguir.

Quanto à sua disciplinaridade, os tipos de pesquisa são normalmente classificados como43: (1) intradisciplinares (quando a pesquisa é feita dentro de uma única disciplina); (2) multidisciplinares (quando várias disciplinas oferecem diferentes perspectivas sobre um problema); (3) interdisciplinares (quando é feita uma integração e síntese de conhecimentos e métodos de várias disciplinas); (4) transdisciplinares (quando cria-se uma estrutura que vai além das várias disciplinas envolvidas) e (5) crosdisciplinares (quando uma ou mais disciplinas são vistas a partir da perspectiva de outra). A biologia do bem-estar é crosdisciplinar porque cada disciplina envolvida seria conduzida a partir do foco em

investigar como os animais são afetados positiva ou negativameante enquanto seres sencientes que possuem um bem-estar.

Tudo o que vimos acima indica claramente que a perspectiva normativa que valoriza em si o bem dos animais enquanto seres sencientes (e, por conseguinte, a meta de prevenir e minimizar o seu sofrimento e suas mortes prematuras) pode ser tão cientificamente bem informada quanto qualquer outra perspectiva normativa.

Texto de Luciano Carlos CunhaColeção Uma Jornada pela Ética Animal, Volume V
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Pratique

Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.

A biologia do bem-estar se diferencia da biologia da conservação porque...

A ecologia, por si só, prescreve que devemos valorizar espécies?

Para pensar

Que decisão "técnica" que você já ouviu era, no fundo, uma escolha de valores?

Notas do autor 7
  1. 37 Para a fundamentação da proposta de ajudar os animais selvagens por preocupação com o próprio bem desses animais, ver (2018; 2022a) e (2023 [2020]).. ↩
  2. 38 Para uma discussão sobre essa questão, ver (2015). ↩
  3. 39 Sobre biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019b); Faria; (2020) e et al. (2021). ↩
  4. 40 Sobre biologia da conservação, ver (1986). ↩
  5. 41 Sobre conservação compassiva, ver (2013). ↩
  6. 42 Sobre bem-estar da conservação, ver Beausoleil (2020). ↩
  7. 43 Para a classificação das formas de pesquisa quanto à sua disciplinaridade, ver Stember (1991, p. 4). ↩
Fontes citadas neste texto 10

A lista completa do volume está em referências do Volume V.

Este capítulo no Volume XII

Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.

O ambientalismo é cientificamente informado pela ecologia, enquanto a defesa animal é anti-científica. (V, cap. 6, VII, cap. 19).
Na verdade, qualquer visão normativa precisa ser bem informada cientificamente pois, do contrário, não alcançará as metas que busca. A ecologia é uma ciência que descreve como se dão as interações nos ecossistemas. Esse conhecimento pode ser utilizado para tentar buscar metas ambientalistas, mas também pode ser utilizado para tentar beneficiar os seres sencientes.

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