Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 6
Defesa dos animais e ambientalismo: a divergência é ética, e não, científica
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
A divergência entre defesa animal e ambientalismo é ética, não científica: a ecologia descreve, não prescreve metas, e uma posição centrada no bem dos animais pode ser tão bem informada cientificamente quanto qualquer outra, por exemplo pela biologia do bem-estar.
A ciência ajuda a entender como a natureza funciona. Mas ela não diz o que a gente deve querer. Quem quer ajudar os animais pode usar a mesma ciência que o ambientalista, só que para outro objetivo.
A química explica como fazer remédios e venenos. Escolher fazer remédios é uma decisão ética, não química.
- P1 A ecologia descreve como funcionam os ecossistemas.
- P2 Quais metas buscar, como o bem dos animais ou valores ambientalistas, é uma questão ética.
- P3 O conhecimento ecológico pode ser usado para qualquer uma dessas metas, inclusive pela biologia do bem-estar.
- C Logo, a defesa dos animais pode ser tão cientificamente informada quanto o ambientalismo.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Defensores dos animais são sentimentais; ambientalistas seguem a ciência.”
Resposta A ciência não escolhe metas. Dizer que ela "manda" preservar espécies é disfarçar uma posição moral de neutralidade científica.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 23 da edição em PDF
Os precisam se basear nos conhecimentos provenientes da ecologia e de outras ciências relacionadas para alcançar suas metas. Por conta disso, existe uma ideia de que, para se utilizar o conhecimento existente nessas áreas e para se obter novos conhecimentos nelas, é necessário adotar uma postura ambientalista. Segundo essa visão, os programas que visam ajudar os animais selvagens, se tiverem como meta garantir o bem dos próprios animais37 (e não, indiretamente, uma meta ambientalista), não poderiam ser cientificamente informados.
Essa ideia é equivocada. A ecologia lida com categorias como espécies e ecossistemas, mas isso não implica que, para se obter conhecimento em ecologia ou para se utilizar o conhecimento já existente, seja necessário incorporar uma perspectiva que valoriza em si entidades como espécies ou ecossistemas, e não os indivíduos . Uma coisa é o conhecimento científico, descritivo; outra coisa são as metas normativas que guiam o uso desse conhecimento e a busca por novos conhecimentos38.
Não são apenas as intervenções que possuem metas ambientalistas que podem ser bem informadas cientificamente. Pensar que sim é confundir a ecologia com o ambientalismo. A ecologia é a ciência que descreve como se dão as interações nos ecossistemas. Já o ambientalismo é a visão normativa que defende que o que possui são entidades não sencientes como espécies e ecossistemas, e não os seres sencientes. O conhecimento científico é descritivo e, como tal, é possível de ser utilizado pelas mais variadas posições normativas para alcançar diferentes metas. O ambientalismo é apenas uma dessas posições.
O conhecimento proveniente da ecologia de áreas relacionadas é predominantemente utilizado para alcançar metas antropocêntricas e ambientalistas. Entretanto, poderia ser utilizado igualmente para tentar alcançar a meta de diminuir o sofrimento e as mortes dos animais. Aliás, muito mais conhecimento nessas áreas seria buscado se os animais recebessem , pois então haveria um interesse em se descobrir como os animais são afetados positiva ou negativamente de acordo com o que acontece nos ecossistemas (algo que não ocorre – ou ocorre em muito menor medida – se os bem dos animais não é valorizado em
si). Essa é uma das razões pelas quais está sendo proposta a criação do campo da biologia do bem-estar39. Veremos mais sobre esse campo a seguir.
A tem como foco investigar como os animais em seus ecossistemas são afetados positiva e negativamente enquanto seres sencientes que possuem um bem-estar. É, portanto, diferente da biologia da conservação40, que estuda os animais enquanto componentes da ecossistemas ou exemplares de espécies. Também é diferente da conservação compassiva41, que estuda os animais do ponto de vista da conservação mas evitando prejudicá-los nessa busca. Por fim, também é diferente do bem-estar da conservação42, que investiga como promover o bem-estar dos animais quando medidas conservacionistas são implementadas. O conhecimento proveniente dessas outras áreas pode ser útil à biologia do bem-estar (e vice-versa), mas o foco de cada um desses campos é diferente. O que difere essencialmente a biologia do bem-estar de todos esses outros campos é que ela estuda o modo como os animais são afetados positiva ou negativamente enquanto seres sencientes que possuem um bem-estar independentemente de isso servir ou não à propósitos conservacionistas.
A biologia do bem-estar envolveria em conjunto conhecimentos provenientes de várias outras disciplinas, como a ecologia, a ciência do bem-estar animal, a zoologia, a etologia e a ciência veterinária. Trata-se de um campo crosdisciplinar de pesquisa, que é algo diferente de campos interdisciplinares e transdisciplinares. Isso será explicado em mais detalhes a seguir.
Quanto à sua disciplinaridade, os tipos de pesquisa são normalmente classificados como43: (1) intradisciplinares (quando a pesquisa é feita dentro de uma única disciplina); (2) multidisciplinares (quando várias disciplinas oferecem diferentes perspectivas sobre um problema); (3) interdisciplinares (quando é feita uma integração e síntese de conhecimentos e métodos de várias disciplinas); (4) transdisciplinares (quando cria-se uma estrutura que vai além das várias disciplinas envolvidas) e (5) crosdisciplinares (quando uma ou mais disciplinas são vistas a partir da perspectiva de outra). A biologia do bem-estar é crosdisciplinar porque cada disciplina envolvida seria conduzida a partir do foco em
investigar como os animais são afetados positiva ou negativameante enquanto seres sencientes que possuem um bem-estar.
Tudo o que vimos acima indica claramente que a perspectiva normativa que valoriza em si o bem dos animais enquanto seres sencientes (e, por conseguinte, a meta de prevenir e minimizar o seu sofrimento e suas mortes prematuras) pode ser tão cientificamente bem informada quanto qualquer outra perspectiva normativa.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
A biologia do bem-estar se diferencia da biologia da conservação porque...
A ecologia, por si só, prescreve que devemos valorizar espécies?
Para pensar
Que decisão "técnica" que você já ouviu era, no fundo, uma escolha de valores?
Notas do autor 7
- 37 Para a fundamentação da proposta de ajudar os animais selvagens por preocupação com o próprio bem desses animais, ver (2018; 2022a) e (2023 [2020]).. ↩
- 38 Para uma discussão sobre essa questão, ver (2015). ↩
- 39 Sobre biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019b); Faria; (2020) e et al. (2021). ↩
- 40 Sobre biologia da conservação, ver (1986). ↩
- 41 Sobre conservação compassiva, ver (2013). ↩
- 42 Sobre bem-estar da conservação, ver Beausoleil (2020). ↩
- 43 Para a classificação das formas de pesquisa quanto à sua disciplinaridade, ver Stember (1991, p. 4). ↩
Fontes citadas neste texto 10
A lista completa do volume está em referências do Volume V.
- BEAUSOLEIL, N. J. I Am a Compassionate Conservation Welfare Scientist: Considering the Theoretical and Practical Differences Between Compassionate Conservation and Conservation Welfare. Animals, v. 257, n. 10 (2), 2020.
- BEKOFF, M. (org.). Ignoring nature no more: The case for compassionate conservation. Chicago: University of Chicago Press, 2013.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- CUNHA, L. C. Vítimas da natureza: implicações éticas dos danos que os animais não humanos padecem em decorrência dos processos naturais. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, 2018.
- FARIA, C. Ecologismo e antiespecismo: discrepância científica ou moral? Olhar Animal, 24 mar. 2015.
- FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge - Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.
- SORYL, A. A.; MOORE, A. J.; SEDDON, P. J.; KING, M. R. The Case for Welfare Biology. Journal of Agricultural and Environmental Ethics, v. 34, n. 7, 2021.
- SOULÉ, M. E. What is Conservation Biology? BioScience, v. 35, n. 11, p. 727-34, 1986.
- STEMBER, M. Advancing the social sciences through the interdisciplinary enterprise. The Social Science Journal, v. 28, n., p. 1-14, 1991.
- ÉTICA ANIMAL. Introdução ao sofrimento dos animais selvagens. Oakland: Ética Animal, 2023 [2020].
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
O ambientalismo é cientificamente informado pela ecologia, enquanto a defesa animal é anti-científica. (V, cap. 6, VII, cap. 19).
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