Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 5
Equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o melhor para os animais?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Equilíbrio ecológico (estabilidade das populações) e biodiversidade (variedade de espécies) não medem o bem-estar dos animais; só por coincidência resultam em algo melhor para eles, e muitas vezes resultam em situações muito ruins.
"Natureza equilibrada" quer dizer que o número de bichos fica mais ou menos o mesmo. Mas pode ficar o mesmo porque quase todos os filhotes morrem logo. Equilíbrio não quer dizer que os bichos estão felizes.
Uma cidade pode ter a população estável porque nasce muita gente e morre muita gente jovem. A estabilidade do número não diz nada sobre a qualidade de vida.
- P1 Equilíbrio ecológico diz respeito à variação do tamanho das populações; biodiversidade, à variedade de espécies.
- P2 Nenhuma das duas noções se baseia no que é melhor para os seres sencientes.
- P3 Uma população pode ser estável justamente porque a maioria dos filhotes morre cedo.
- C Logo, equilíbrio e biodiversidade não indicam que os animais estão bem.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Natureza equilibrada é natureza saudável para os bichos.”
Resposta Equilíbrio é uma medida de números, não de bem-estar. Na maioria das espécies, o equilíbrio é mantido por uma enorme mortalidade de filhotes, ou seja, por muito sofrimento.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 20 da edição em PDF
Como vimos no capítulo 4, muitos programas são conduzidos em nome da preservação do e da . Vimos também que vários desses programas envolvem o extermínio de animais. Neste capítulo abordaremos outra crença que colabora para a aceitação por parte de defensores dos animais de programas desse tipo: a de que equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o que é melhor para os animais.
Essa crença também é um dos fatores que contribui para que o ambientalismo seja frequentemente confundido com a consideração pelos animais. Em resumo, há pessoas que acreditam que equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o que é melhor para os animais; essas pessoas percebem que uma das metas ambientalistas é preservar o equilíbrio ecológico e a biodiversidade; então essas pessoas concluem que o ambientalismo almeja o melhor para os animais.
A crença de que equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o que é melhor para os animais é equivocada. Como explicado a seguir, é possível que uma situação tenha um alto grau de biodiversidade ou de equilíbrio ecológico, mas também seja muitíssimo ruim para os animais.
A noção de equilíbrio ecológico diz respeito a uma certa estabilidade em relação a um estado tomado como referência33. Geralmente esse conceito é utilizado em relação à variação no
tamanho das populações, mas, poderia sê-lo em relação a qualquer outro fator (por exemplo, o nível de água de um rio). Já a noção de biodiversidade diz respeito à variedade de espécies. Nenhuma dessas noções é baseada naquilo que é melhor para os seres (nem possui relação direta alguma com isso). Em outras palavras, há situações que são equilibradas e nas quais há alto grau de biodiversidade que podem ser terrivelmente ruins para os animais34. Veremos um exemplo disso a seguir.
Os animais da maioria das espécies têm ninhadas gigantescas. Dependendo da espécie, são milhares ou mesmo milhões de filhotes (algo comum em anfíbios, répteis, peixes e invertebrados em geral). Em períodos de aproximada constância populacional (portanto, em situações equilibradas segundo a definição acima) é possível medir a taxa de mortalidade prematura a partir do tamanho da ninhada: se uma população permaneceu aproximadamente constante durante algumas gerações, então em média sobreviveu apenas um descendente por adulto (isto é, dois por ninhada). Todo o restante dos filhotes (milhares, milhões) teve uma curta existência, geralmente repleta de sofrimento35. Essa é uma situação equilibrada, mas nela são maximizados o sofrimento e as mortes prematuras. As situações nas quais há biodiversidade também normalmente apresentam esse mesmo resultado.
Poderia ser objetado que, se houvesse menor equilíbrio ou menos biodiversidade, então o sofrimento e as mortes prematuras seriam ainda maiores. Entretanto, não há necessariamente essa correlação. Tudo dependerá de como o maior ou menor grau de equilíbrio ou de biodiversidade afetam outros fatores que influenciam diretamente no bem-estar dos seres sencientes. Por exemplo, dependerá de se resultam em uma maior quantidade de nascimentos em espécies cuja maioria de seus membros têm vidas repletas de sofrimento ou em espécies cujos membros têm mais chances de terem vidas positivas. Dependerá também de como afetam fatores como disponibilidade de alimentos e de abrigo e a quantidade de doenças e conflitos entre os animais. Não há nenhuma correlação direta entre maiores níveis de equilíbrio ecológico ou de biodiversidade com a prevalência de vidas positivas sobre as negativas, e de vidas longas sobre as curtas.
Em resumo: equilíbrio ecológico e biodiversidade apenas coincidentemente poderiam resultar em algo melhor para os animais, e muitas vezes resultam em situações altamente negativas para eles. Portanto, se o objetivo é conseguir o melhor estado de coisas para os animais não devemos centrar nossa análise no grau de biodiversidade ou de equilíbrio, e sim, investigar diretamente como os animais são afetados positiva ou negativamente. Isso é algo que poderia ser feito pelo campo da biologia do bem-estar36, que veremos em mais detalhes no próximo capítulo.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
A noção de biodiversidade diz respeito a...
Se o objetivo é o melhor para os animais, a análise deve se centrar em...
Para pensar
Quando você ouve "equilíbrio da natureza", que imagem vem à mente? Ela inclui os filhotes que não sobrevivem?
Notas do autor 4
- 33 Ao contrário da crença comum, a noção de equilíbrio ecológico não é tecnicamente utilizada em ecologia. O termo técnico mais aproximado seria estabilidade. Contudo, este também não possui uma definição precisa e, por essa razão, tem sido também abandonado entre os especialistas. Grimm e Wissel (1997), ao revisarem a literatura acadêmica em ecologia, encontraram 163 definições distintas (muitas delas contraditórias entre si) do termo estabilidade. Lévêque (2003, p. 224-6) aponta que tentativas de defini-lo concluíram que ele é muito complexo para ser definido precisamente (pois é um aglomerado de muitos outros conceitos) e precisa ser partido em conceitos menores, como resiliência (a capacidade de um ecossistema de retornar à sua estrutura primitiva depois de uma perturbação); elasticidade (a velocidade desse retorno); amplitude (o escopo máximo de perturbação que ainda permite um retorno ao estado original); resistência ou persistência (a capacidade de um ecossistema de permanecer constante ou manifestar uma resposta a variações ambientais) e irreversibilidade (quando um ecossistema não pode retornar por meio de processos naturais a um estado anterior). Tais conceitos são uma versão moderna da noção de equilíbrio ecológico. Contudo, a conclusão do autor é que também nenhum desses conceitos pode ser definido com precisão de tal maneira que seja realmente operacional. Uma das razões para isso é que qualquer ponto no tempo referente a um estado no qual se encontra um ecossistema pode ser tomado como referência, e também qualquer período de tempo pode ser tomado como frequência para novas medições visando averiguar se o ecossistema está ou não estável. Isso implica que, dependendo do ponto tomado como referência e da frequência de medição, um mesmo resultado poderá ser considerado equilibrado/estável ou não, o que é arbitrário. Grimm e Wissel (1997, p. 323-4) concluíram que o termo estabilidade é o mais nebuloso de toda a ecologia, sendo tão ambíguo a ponto de ser inútil, e que poderia ser substituído por “permanece essencialmente não modificado”, “retorna ao estado tomado como referência depois de uma perturbação” e por “a persistência ao longo do tempo de um sistema ecológico”, dependendo do que se quer expressar com o termo. Além disso, a estabilidade que é imaginada no senso comum nunca foi uma realidade na natureza. Sobre esses pontos, ver Grimm;Wissel (1997) e Lévêque (2003, p. 202-44). ↩
- 34 Para uma análise detalhada dessa questão, ver (2022a, p. 250-4). ↩
- 35 Sobre isso, ver (2015b). Para uma análise detalhada, ver (2010e) e Cunha (2018; 2022b). ↩
- 36 Sobre biologia do bem-estar, ver Ética Animal (2019b). Para uma introdução mais detalhada, ver e Horta (2020). Para exemplos de métodos que avaliam diretamente o quão bem ou mal estão os animais, ver Alonso; Paim (2017) e Gonçalves (2023). ↩
Fontes citadas neste texto 10
A lista completa do volume está em referências do Volume V.
- ALONSO, W. J.; PAIM, C. S. Destinos de vida: categorias representativas para avaliar o sofrimento animal na natureza. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 dez. 2017.
- CUNHA, L. C. A igualdade, suas várias interpretações, e a ética interespécies. In: BARBOSA-FOHRMANN, A. P.; LOURENÇO, D. B.; AUBERT, A. C. P. (orgs.). Estudos e direitos dos animais: teorias e desafios. Porto Alegre: Editora Fi, 2022b, p. 104-128.
- CUNHA, L. C. Razões para ajudar: o sofrimento dos animais selvagens e suas implicações éticas. Curitiba: Appris, 2022a.
- CUNHA, L. C. Vítimas da natureza: implicações éticas dos danos que os animais não humanos padecem em decorrência dos processos naturais. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, 2018.
- FARIA, C.; HORTA, O. Welfare biology. In: FISCHER, B. (org.). The routledge handbook Of animal ethics. New York/London: Routledge - Taylor & Francis group, 2020, p. 455-66.
- GONÇALVES, E. H. De figurantes a protagonistas: maneiras de considerar a vida e o bem- estar dos animais sinantrópicos. 2023. Dissertação (Mestrado em Ciências Veterinárias) - Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, 2023.
- GRIMM, V.; WISSEL, C. Babel, or the ecological stability discussions: an inventory and analysis of terminology and a guide for avoiding confusion. Oecologia, v. 109, n. 3, p. 323- 334, 1997.
- HORTA, O. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild. Télos, v. 17, p. 73-88, 2010e.
- LÉVÊQUE, C. Ecology: From Ecosystem to Biosphere. Enfield: Science Publishers, 2003.
- ÉTICA ANIMAL. Dinâmica de populações e o sofrimento dos animais. Ética Animal: ativismo e investigação em defesa dos animais, 27 out. 2015b.
Este capítulo no Volume XII
Como o autor resume este debate no Essencial sobre ética animal.
Quanto maior o grau de equilíbrio ecológico e de biodiversidade, melhor para os animais. É por isso que os ambientalistas almejam tais coisas: porque sua meta é o bem dos animais. (V, cap. 5).
Textos recomendados
Continue no tema Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais.
Defesa dos animais e ambientalismo: a divergência é ética, e não, científica
A divergência entre defesa animal e ambientalismo é ética, não científica: a ecologia descreve, não…
Por que o respeito pelos animais é confundido com o ambientalismo?
Vários fatores explicam a confusão entre defesa dos animais e ambientalismo, como a crença de que ambos…
O que é almejado com os programas ambientalistas de extermínio?
Programas ambientalistas de extermínio de espécies "invasoras" não visam reduzir o sofrimento e as mortes…