Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 9
O ambientalismo é antropocêntrico?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
A maioria dos ambientalistas é antropocêntrica, pois não aplica aos humanos o que aplica aos animais; raros, como Linkola, aplicariam também a humanos. Há razões para rejeitar ambas as posições.
Quase todo ambientalista que aceita matar bichos para proteger a natureza não aceitaria fazer o mesmo com pessoas. Isso mostra que eles dão mais valor aos humanos. Um ou outro aceitaria até com pessoas, o que é ainda mais assustador.
Se uma regra só vale para quem não está na sala onde ela é votada, ela revela quem os votantes consideram importante.
- P1 A maioria dos ambientalistas subordina as metas ambientais ao bem dos humanos, mas não ao dos animais.
- P2 Isso é antropocentrismo.
- P3 Poucos, como Linkola, aplicariam o extermínio também a humanos, uma posição puramente ambientalista.
- P4 Ambas as posições sacrificam seres sencientes por entidades não sencientes, o que não se justifica.
- C Logo, há boas razões para rejeitar as duas.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Ambientalismo não é antropocêntrico, ele defende a natureza toda.”
Resposta Na prática, a maioria limita as metas ambientais quando elas prejudicariam humanos, mas não quando prejudicam animais. Isso é dar peso especial aos humanos.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 34 da edição em PDF
Nos capítulos anteriores vimos as diferenças entre e consideração pelos animais. Investigamos também alguns fatores que podem influenciar as pessoas a confundirem uma posição com a outra. No presente capítulo investigaremos uma questão relacionada: será o ambientalismo ?
Como veremos a seguir, o ambientalismo por si só não é antropocêntrico. O que ocorre é que a maioria dos proponentes do ambientalismo o combina com o antropocentrismo e dá maior peso a este último. Isso não significa, contudo, que se os princípios ambientalistas não forem combinados com antropocentrismo, então o resultado para os animais será positivo. Muito pelo contrário. Isso tudo será explicado em detalhes a seguir.
As posições ambientalistas tendem a se apresentar como sendo o oposto do antropocentrismo. Entretanto, os proponentes do ambientalismo que aprovam a chacina de animais não humanos para alcançar suas metas tipicamente condenam fazer o mesmo com humanos63. Essa disparidade é no mínimo curiosa, pois a espécie humana é a maior de todas as ameaças às metas ambientalistas: está superpovoada, teria de ser classificada como espécie invasora na maior parte dos locais em que se encontra, é uma enorme ameaça ao , à preservação de ecossistemas, à etc.
Isso indica que quem mantém essa disparidade está a subordinar sua posição ambientalista ao antropocêntrico. Isto é, essas pessoas, ainda que aceitem as metas ambientalistas, acreditam que o bem dos humanos é mais importante do que essas metas, diferentemente do bem dos animais não humanos. Essa é uma atitude escancaradamente especista antropocêntrica, pois coloca o bem dos humanos acima das metas ambientalistas e o bem dos animais não humanos abaixo. Entretanto, é a posição predominante entre os proponentes do ambientalismo64.
Alguns raros ambientalistas defendem que os programas ambientalistas de extermínio deveriam ser aplicados também aos humanos. Por exemplo, Pentti , além de defender
o consumo de animais não humanos, também defendeu criar humanos para consumo65 e elogiou o holocausto promovido pelos nazistas devido a contribuir para a manutenção do equilíbrio ecológico66. Linkola foi um dos poucos ambientalistas que aplicou os princípios do ambientalismo sem subordiná-lo a princípios antropocêntricos.
Entretanto, a visão de Linkola é amplamente considerada repugnante pela vasta maioria das pessoas, incluindo a vasta maioria dos ambientalistas. Contudo, o problema com a posição de Linkola é fácil de ser percebido porque ela prejudica, além dos animais não humanos, também os humanos. Como as vítimas das posições dos outros ambientalistas são apenas os animais não humanos, a predominância do especismo antropocêntrico faz com que a maioria das pessoas não perceba que há exatamente o mesmo problema com o ambientalismo em geral: colocar as entidades não acima do bem dos seres sencientes.
O ponto é: a razão central para se rejeitar uma posição como a de Linkola implica em rejeitar também as práticas ambientalistas de matança de animais não humanos. A razão e esta: os seres sencientes, humanos e não humanos, são prejudicados se sofrem e também com a morte, pois esta impede-os de ter experiências positivas. Nenhuma entidade não senciente é capaz de sofrer e de ser impedida de desfrutar de experiências positivas. Esses prejuízos são particularmente graves (por isso nos empenhamos muito em tentar evitá-los em nós mesmos). Essa razão explica por que o bem dos humanos deveria ser colocado acima das metas ambientalistas, mas implica ao mesmo tempo que há exatamente as mesmas razões para colocar o bem dos animais não humanos acima das metas ambientalistas.
Isso significa que há boas razões para rejeitarmos não apenas posições como a de Linkola (que são puramente ambientalistas e defendem o extermínio de animais não humanos e de humanos para alcançar as metas ambientalistas) mas também as posições da vasta maioria dos outros ambientalistas (que subordinam sua posição ambientalista a princípios antropocêntricos e defendem o extermínio apenas de animais não humanos para alcançar as metas ambientalistas). A razão central, como vimos, é que há razões para se priorizar os seres sencientes frente a entidades não sencientes.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual é a posição de Pentti Linkola, citada no capítulo?
A maioria dos ambientalistas...
Para pensar
Que tipos de "manejo" que se fazem com animais você jamais aceitaria com humanos? Por quê?
Notas do autor 4
Fontes citadas neste texto 3
A lista completa do volume está em referências do Volume V.
- LINKOLA, K. P. Can Life Prevail? A Radical Approach to the Environmental Crisis. Budapest: Aktos Media, 2009.
- LINKOLA, K. P. Toisinajattelijan päiväkirjasta. Porvoo: WSOY, 1979.
- LINKOLA, K.P. Humanflood. In: PARFREY, A. (org.). Apocalypse Culture II. Port Townsend: Feral House, 2000, p. 436-51.
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