Volume V · Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais · capítulo 1
Respeito pelos animais e ambientalismo: complementares ou opostos?
Antes de ler camada de estudo, não faz parte do texto original
Defesa dos animais e ambientalismo partem de fundamentos opostos: uma valoriza os indivíduos que sentem; o outro, entidades não sencientes como espécies e ecossistemas. Por isso há práticas ambientalistas que exterminam animais.
Cuidar dos bichos é diferente de cuidar da "natureza bonita". Às vezes, para manter uma paisagem do jeito que alguém acha certo, matam-se muitos animais. Quem se importa com os bichos não aceita isso.
Restaurar uma casa antiga para que fique igual à original é diferente de cuidar das pessoas que moram nela. Às vezes, para restaurar, é preciso expulsar os moradores.
- P1 A consideração pelos animais valoriza em si o bem dos seres sencientes.
- P2 O ambientalismo, no sentido usado aqui, valoriza em si entidades não sencientes, como espécies e ecossistemas.
- P3 Quando esses valores conflitam, o ambientalismo pode prescrever prejudicar animais.
- C Logo, as duas posições não são a mesma coisa nem são sempre complementares.
Forma lógica do argumento central do capítulo. Se as premissas forem verdadeiras, a conclusão se segue. Para discordar, é preciso mostrar qual premissa é falsa.
Eles dizem “Quem ama os animais também defende a natureza, é tudo a mesma luta.”
Resposta Às vezes coincidem, mas os fundamentos são diferentes. Programas que matam milhares de animais "invasores" mostram que o ambientalismo pode sacrificar animais em nome de outras metas.
Mais objeções e respostas em Desbancando objeções.
Texto original Luciano Carlos Cunha · Volume V, p. 7 da edição em PDF
1.1. Diferenças básicas de fundamentos
A defesa dos animais é frequentemente vista como uma forma de . Também não é incomum que a defesa dos animais e o ambientalismo sejam vistas como perspectivas complementares, apesar de diferentes. A seguir veremos por que ambas as crenças são equivocadas. A consideração pelos animais e o ambientalismo estão fundados em ideais diametralmente opostos, que muito frequentemente geram prescrições conflitantes na prática1.
Para entendermos essa divergência é essencial definirmos o que estamos a chamar de ambientalismo, pois esse termo é utilizado em vários sentidos distintos. Por exemplo, existem posições que defendem que o valor do meio ambiente reside em ser um recurso importante para os humanos2 ou para os seres sencientes em geral3 (isto é, para todos os seres capazes de sofrer e desfrutar). Por vezes essas posições são chamadas de ambientalistas. Em contrapartida existem posições que defendem que pelo menos alguns aspectos do meio ambiente (como ecossistemas ou espécies) possuem valor em si (isto é, que possuem valor independentemente de beneficiarem ou não os seres ). Essas posições também são chamadas de ambientalsitas.
No primeiro tipo de posição o centro da preocupação moral não é o meio ambiente (este é visto como um recurso, um meio – seja para os humanos, seja para os seres sencientes em geral, dependendo da posição). Por essa razão, ao longo de toda esta obra chamaremos de posições ambientalistas apenas as do segundo tipo, pois nestas o centro da preocupação moral é o próprio meio ambiente (ou, pelo menos, certos aspectos deste). São essas posições que são frequentemente confundidas com a consideração pelos animais. Veremos a seguir por que consideração pelos animais e ambientalismo partem de fundamentos diametralmente opostos.
As posições ambientalistas defendem preservar o meio ambiente não porque os animais precisam deste enquanto recurso. Pelo contrário: na maioria das posições ambientalistas os animais é que são vistos como meros recursos para preservar entidades não sencientes como
espécies e ecossistemas. Por essa razão essas posições defenderão manter o meio ambiente em determinada configuração, mesmo que o melhor para os animais que ali se encontram seja mantê-lo em outra.
Já a consideração pelos animais está fundada no respeito por eles enquanto indivíduos sencientes, capazes de ter experiências positivas e negativas. O objetivo é evitar prejudicá-los e buscar beneficiá-los, e o meio ambiente é visto como um recurso para eles. É uma proposta de extensão para os animais não humanos daquilo que já é aceito para humanos: respeitar os indivíduos, evitar que sofram, evitar que morram. Diferentemente, o que é valorizado em si nas posições ambientalistas são determinadas entidades não sencientes.
Assim, os conceitos chave para entendermos as diferenças de fundamentos entre consideração pelos animais e ambientalismo são os conceitos de e . A divergência principal é esta: aquilo que a defesa dos animais valoriza em si (o bem dos animais) o ambientalismo valoriza de modo apenas instrumental (para preservar espécies ou ecossistemas); por outro lado, aquilo que o ambientalismo valoriza em si (certos aspectos do meio ambiente) a consideração pelos animais valoriza apenas de modo instrumental (enquanto recurso para os seres sencientes).
1.2. Variantes do ambientalismo
1.2.1. Quanto a quais entidades possuem valor em si
As posições ambientalistas diferem entre si em relação à vários aspectos4. Um desses aspectos é em relação a quais entidades não sencientes são valorizadas em si. Nesse sentido, as posições ambientalistas normalmente são classificadas como ou como biocentristas5.
No holismo6 são valorizadas em si totalidades como ecossistemas ou espécies. É importante não confundir isso com valorizar os habitantes dos ecossistemas e os membros das espécies. O que é valorizado no holismo são ecossistemas ou espécies enquanto entidades não sencientes. Isso significa que, segundo essas abordagens, desde que o ecossistema ou a espécie não sejam extintos (ou não tenham alteradas suas propriedades que o ambientalismo considera valiosas), não há problema algum em matar uma grande quantidade de animais (pois segundo essas posições os indivíduos não possuem valor em si, e sim, apenas enquanto componentes de ecossistemas e/ou exemplares de espécies). Já o 7 valoriza em si cada organismo vivo individualmente (cada animal, cada fungo, cada planta etc.). Nesse sentido, a diferença principal é entre as abordagens ambientalistas centradas em valorizar totalidades e aquelas centradas em valorizar cada organismo.
1.2.2. Quanto ao que faz elas terem valor
As diversas posições ambientalistas também divergem entre si em relação ao que faz com que uma entidade adquira valor em si. Essas características também são normalmente utilizadas para medir o grau desse valor. Critérios comumente utilizados são8: o grau de raridade; de complexidade; de ; de ; o tempo que levou para se formar; o grau com que exibe certas propriedades estéticas; o grau com que representa certos ideais; não ter se originado de práticas humanas; o grau com que não foi alterado por humanos; o grau com que exibe apenas animais e plantas de espécies nativas do local etc.
Esses critérios são usados tanto por abordagens holistas quanto por abordagens biocentristas. Por exemplo, um critério comumente usado é o grau com que a entidade em questão não foi alterada por humanos (quanto menos alterada, mais valor é atribuído). Esse critério é utilizado tanto por algumas abordagens holistas9 (para dizer quais ecossistemas e/ou espécies possuem valor em si e qual o tamanho desse valor) quanto por algumas abordagens biocentristas10 (para dizer quais animais, plantas ou fungos possuem valor em si e qual o tamanho desse valor).
Apesar de todas essas diferenças, o que torna todas essas posições exemplos de ambientalismo é que valorizam em si algum tipo de entidade não senciente.
1.3. Ética animal e ética ambiental
A diferença entre consideração pelos animais e ambientalismo também reflete na distinção entre ética animal e ética ambiental. Como vimos, a dos animais não humanos está fundada no critério da senciência. São as questões que afetam os seres sencientes aquilo que se discute na área de ética animal. Já as posições ambientalistas são caracterizadas por valorizarem em si certas entidades não sencientes (como espécies, ecossistemas, plantas etc.). São as questões que afetam entidades não sencientes o que é discutido em ética ambiental, área na qual as posições ambientalistas são predominantes.
1.4. Práticas ambientalistas que envolvem extermínio de animais
A divergência teórica entre ambientalismo e consideração pelos animais possui muitas implicações práticas. A seguir estão alguns exemplos de atitudes díspares por parte de ambientalistas e de defensores dos animais. Esse conflito prático surge exatamente por conta de essas perspectivas terem fundamentos teóricos opostos.
Em primeiro lugar, não é incomum que ambientalistas defendam práticas que envolvem causar sofrimento e/ou morte aos animais. Por exemplo, desde que seja feito de maneira sustentável, o consumo de animais é incentivado por muitas organizações ambientalistas proeminentes11, apesar de todo o sofrimento e mortes que causa.
A experimentação animal também é frequentemente promovida por grupos ambientalistas12, o que resulta em uma enorme quantidade de animais sendo forçados a sofrer intensamente e a morrer em experimentos que visam testar o quão poluentes são certos produtos químicos no ambiente13. Há inclusive organizações ambientalistas que defendem a experimentação animal mesmo quando o efeito do produto químico já é conhecido14, e se posicionam contrariamente à aplicação e desenvolvimento de métodos substitutivos ao uso de animais15.
Muitos dos principais proponentes do ambientalismo são defensores da caça16. Defendem que é uma forma de se conectar a um modo de vida em seu estado natural, de controlar as populações e de manter o equilíbrio ecológico. Alguns defendem que a caça é algo sagrado17. Outros chegam a defender que a caça não é apenas permissível, mas uma obrigação18.
Além disso, os programas ambientalistas de controle populacional tipicamente envolvem matar os animais, descartando completamente a opção de esterilizá-los. Por exemplo, ao redor de todo o mundo existem programas ambientalistas de extermínio de animais membros de espécies classificadas como invasoras19.
Frequentemente essas atitudes são recebidas com surpresa. Entretanto, não deveriam ser surpresa alguma pois, como vimos, o ambientalismo e respeito pelos animais partem de fundamentos diametralmente opostos. Não é de se surpreender que, com fundamentos tão divergentes assim, as atitudes prescritas por cada posição conflitem enormemente.
Pratique
Camada de estudo. As respostas se baseiam no texto do capítulo.
Qual destes é um critério ambientalista comum para atribuir valor?
Por que práticas ambientalistas de extermínio não deveriam surpreender?
Para pensar
Você já apoiou alguma campanha ambiental sem saber o que ela fazia com os animais?
Notas do autor 19
- 1 Para uma análise detalhada dessas diferenças e desse conflito, ver (2015). ↩
- 2 Para um exemplo, ver Passmore (1980 [1974]). ↩
- 3 Para um exemplo, ver (2002 [1993], cap. 10). ↩
- 4 Para uma introdução às muitas variantes do ambientalismo, ver (1992) e Zimmerman et. al. (1993). ↩
- 5 É importante observar que nesse debate esses termos fazem referência a abordagens normativas (mais especificamente, referem-se a abordagens que dizem quais são as entidades moralmente consideráveis). Por vezes esses mesmos termos são utilizados em referência a abordagens descritivas em outras áreas, o que pode gerar alguma confusão. Por exemplo, frequentemente são chamadas de holistas as abordagens que explicam a realidade a partir das relações presentes entre os vários elementos das totalidades. Uma abordagem desse tipo é, por exemplo, a de Capra (1982). Além disso, biocentrismo também é o nome de uma teoria proposta por Lanza e Berman (2009) que defende que o conceito de vida é essencial para descrever o universo. Como deve estar claro, apesar de terem o mesmo nome, um tipo de abordagem não necessariamente implica a outra. Isto é, alguém pode adotar uma abordagem holista a nível descritivo mas rejeitar uma abordagem holista a nível normativo, e vice-versa. O mesmo vale para o biocentrismo. Na verdade, apesar de os nomes utilizados serem os mesmos, esses debates dizem respeito a questões completamente diferentes. ↩
- 6 Para exemplos, ver (1989) e (1988). ↩
- 7 Para exemplos, ver (1978) e Taylor (1986). ↩
- 8 Para uma comparação e avaliação dessas posições, ver (2022b, p. 195-217). ↩
- 9 Para exemplos, ver Elliot (1982) e Katz (1992). ↩
- 10 Ver, por exemplo, Taylor (1986). ↩
- 11 Exemplos podem ser encontrados em: Convervation International : https://www.conservation.org/brasil/iniciat ivas-atuais/pesca-sustentavel; EcoCanadá: https://eco.ca/blog/what-is-sustainable-fishing/; Fundo Amazônia: http://www.fundoamazonia.gov.br/pt/projeto/Pesca-Sustentavel/; GreenPeace: https://www.greenpeace.org.uk/ challenges/sustainable-fishing/; Iberdrola: https://www.iberdrola.com/socialcommitment/sustainable-fishing e https:/www.iberdrola.com/compromisso-social/pesca-sustentavel; National Geographic Society: https:/www. nationalgeographic.org/encyclopedia/sustainable-fishing/; Marine Stewardship Council: https://www.msc.org/ what-we-are-doing/our-approach/what-is-sustainable-fishing e https://www.msc.org/pt/o-nosso-trabalho/o-nosso -proposito/o-que-e-a-pesca-sustentavel; SeaFood Watch: https://www.seafoodwatch.org/;Sustainable Fisheries Partnership: https://sustainablefish.org/; WWF:https://www.worldwildlife.org/industries/sustainable-seafood e https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/areas_prioritarias/amazonia1/nossas_solucoes_na_amazonia/pesca_ sustentavel/. Acessados em 16 nov. 2021. ↩
- 12 Exemplos podem ser encontrados em World Wide Fund for Nature - WWF (2000) e Warhurst (2004). ↩
- 13 Para um relato sobre como os animais sofrem e morrem nesses experimentos, ver (2016e). ↩
- 14 Para um exemplo, ver World Wide Fund for Nature - WWF (2000). ↩
- 15 Por exemplo, a posição da National Resources Defense Council (NRDC) é a de que os métodos que não usam animais deveriam ser complementares, mas não substitutivos. Ver Fednich (2018, p. 11). ↩
- 16 Ver, por exemplo, (1949, p. 54-8, 62-6, 120-2, 149-54, 177-87, 204), Callicott (1980), Rolston (1988, p. 91), (1994) e Cahoone (2009). ↩
- 17 Ver, por exemplo, Rolston (1988, p. 91). ↩
- 18 Ver, por exemplo, Callicott (1980, p. 320). ↩
- 19 Para um exemplo no Brasil, ver Conabio (2009). Para um exemplo na Europa, ver Council of Europe (2016; 2020). Para uma crítica a esse tipo de prática no Brasil, ver Ética Animal (2021b). Para uma crítica geral, ver (2004) e (2011, 2012). ↩
Fontes citadas neste texto 26
A lista completa do volume está em referências do Volume V.
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